Magnífica e frágil Claire Denis. Florestas negras. Ardências e flutuações ao compasso dos fósforos, dos cigarros. O dia seguinte.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Há muito que não existe um Walsh, como não existe um Ford ou um Hawks. Essa casta que, complexa e labiríntica, humanamente e cinematograficamente, recusava os jogos de metáforas e as tintas das china estéticas e narrativas para só ficar o essencial, o que de facto é e está lá. Um filme como "They drive by night" a ser feito hoje em dia ficaria com uma duração de umas três ou mais horas, foi o preço de "tanto e tanto talento" que hoje em dia os suplementos artísticos dos jornais nos entregam.
Aquilo que já sabemos, o mundo parece andar a um ritmo trepidante – os satélites, os aviões, as máquinas digitais, os avids, os portáteis dos jornalistas dos festivais – mas uma peça de arte deve ser lenta, dilatada, fazer-se poética e se possível sensorial. E o que aqui falta...
Walsh contava e mostrava coisas sem fim, coisas do arco-da-velha, coisas singelas, idas e vindas, momentos de amor, paz e guerra, mil e uma coisas e os filmes continham toda a fulgurância que 90 minutos poderiam conter. A cada cena, a cada acção, a cada palavra, a cada gesto, a cada suspiro – o máximo laconismo, a máxima intensidade. Arte da concisão + arte da dramaturgia. Cada coisa dura o que tem a durar, tal como cada homem faz o que tem que fazer. A poesia inscrita na acção. O Resto é quase sempre pose ou vontade de imposição, essa afectação.
Glória do classicismo, obviamente, mas repare-se na construção de "They drive by night" e meça-se os ditirambos normalmente aplicados ao cinema moderno:
- O uso da elipse, nunca escancarado como em tanto desse rotulado "cinema do tempo", antes impregnado nessa linha recta onde as curvas se vão mostrando e diluindo e destruindo. O tempo passa e passa na caleidoscópio serena de Walsh.
- Sem excepção, cada plano possui gente dentro, um motivo, uma razão de ser, jamais se limita a qualquer embelezamento ou estranhamento. O que não impede, antes pelo contrário, as fabulosas ambiências e a espessura atmosférica de cada espaço.
- A psicologia da personagem de Ida Lupino que é tratada como a fome de paixão de Bogart ou a fidelidade de Raft, e assim nos surge assustadora.
Filme de fidelidade. Arte de fidelidade.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Para o vento e o mar
os homem e os seus problemas,
não são nada.
...
A lua estava baixa.
As árvores, silenciosas. . .
o ar, nebuloso.
O mar era profundo.
As rochas, negras.
A natureza estava indiferente
ao destino do homem.
É preciso ter-se caminhado muito, visto muito. É preciso ter-se falhado e acertado muito. Ter-se ido aos limites e esvaziar-se. Para recomeçar, com o fulgor dos grandes recomeços... Ter-se tido todas as certezas e abandonar-se aos mistérios dos tempos todos. Certo, "Anathan", última obra de Josef Von Sternberg, é um fim e é um princípio, de onde os meios nada podem e por isso mesmo tiveram papel essencial. Mestre da luz, do sumptuoso, do funesto e das demências carnívoras, do erotismo cortante, do seco fetichismo, da mise en scène voraz ou do fondu...aparece aqui, nesta estranha história de resistência e de abandono ao primitivismo e ao ser, despido de qualquer adorno ou utilidade que não a apreensão imediata, clara, concreta do que está em causa, do que está à frente. O que é tanto mais impressionante quando sabemos que tudo aqui é também a glória ao estúdio e às maquetes, em suma, ao falso. Que a natureza e os seus segredos insondáveis de sempre, que essa luz divina abarque e redimensione tudo a outra luz ainda, e que os corpos e os comportamentos nos surjam com o mais feroz dos vigores e de peso de verdade, de conhecimento ou de misticismo inerente, é o golpe de asa e o retirar do tapete. A poética cravada na ontologia, de todas coisas e do oficio de cineasta. Já nos tinham dito que "quanto mais artificial, mais real", e Sternberg ao usar de todo o decoro mas implacavelmente e vertiginosamente da máxima transparência (quase um livro de instruções ou um guia para principiantes) que alcança a máxima opacidade, diz-nos o que Godard nos disse de "Bitter Victory" - "“O que é o amor, o medo, o desprezo, o perigo, a aventura, o desespero, a amargura, a vitória? Qual é a importância disso quando olhamos as estrelas?”.
Também na sua assustadora lógica interna e reveladora, todas as cenas exteriores ao paraíso (tão cândido como infernal), ou seja, o nojo da guerra e do poder, são tratadas como elas merecem, varridas às três pancadas e assim cumprindo a sua função.
No centro da ilusão os corpos não enganam e a palavra obsessiva fere de morte, explodindo como centro a mais eterna das perguntas: o que somos ou podemos nós diante de toda a imensidão que nos engole.
O que valem as aparências diante da fatal e última nudez?
Que pode o cinema ou a criatividade ou o génio perante o mundo?
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
"Les Savates du bon Dieu" inaugura-se pela vertigem de amor fou de um jovem meio delinquente, meio ignorante, punk ou estúpido ou tudo isso, que só vê uma mulher para amar e que se começa a perder pela contradição. Esse jovem leva tudo à frente – paredes, portas, patrão, justiça, ele mesmo – atira juras e promessas de eternidade e de fatalidade, e o filme começa fulminante entre o idílico, o instantâneo do para sempre, já o paraíso condenado. Vai chegar ao seu robin dos bosques, trilhar os caminhos do irracional e da febre, do esoterismo e do labirinto, vai-se perder muito. E o filme perde-se com ele.
Inaugura-se perigosamente.
Do melodrama cósmico, difuso e abrasador banhado a luz de graça e de plenitude suprema – toda a concentração de energias conhecidas a concorrerem e escorrerem para aqueles espaços e para aquele tempo – de Ray a Hitchcock, de Sirk a Cimino. Carax. Da liturgia musical que envolve e orquestra o relato – maravilhoso Philippe Sarde – para a inevitável pulsão suicida.
Amarelos que torram e abrem caminhos. Azuis de sexo e de crime e vermelhos de desejo. Castanhos e verdes e o resto de tudo, presença do universo em bruto.
A história também pode ser simples por isso mesmo complexa e cheia de zonas sombrias ou pintadas à emoção e ao calor e ao movimento de cada momento, o génio de Brisseau: o rapaz pensava amar o seu amor de infância e pelos caminhos da loucura descobre o seu verdadeiro amor, descobre-se e descobre a sujeira dos homens. Porventura...
De onde estão liminarmente ausentes romantismos de cordel, pieguices sentimentais ou estéticas, ideias feitas.
"Les Savates du bon Dieu" – cúmulo do romantismo.
A música vai-se tornando mais introspectiva, o ritmo e os sucedidos vão para os lados da aventura juvenil – que corrige todos os tão propalados anos 80 - onde não faltam o enviado ou o imaginado mais real do que a realidade, os enigmas a desbravar, o místico e o absurdo e o patético ainda do melodrama, a natureza incontrolável, leia-se: os céus o magnífico sol, as ervas e as flores, os ventos e as tempestades interiores, as árvores que abanam e quase partem, essa explosão pelo ecrã na sua energia até aí contida e logo por quem lá vive, choque das hecatombes das descobertas transformadoras. O mesmo, nunca mais.
Momentos supremos:
1. O jovem e a jovem talvez seu verdadeiro amor – ...sabe-se lá, nas cenas do tribunal lá volta a assombração – no topo de uma montanha a abraçarem-se, tão belo... esse profundo infinito, claridade, paz. Altos, baixos e as nuvens. Movimento de câmara para a direita onde seguimos somente a jovem, os raios da estrela que nos ilumina a violentar e a cegar a lente, a queimá-la, literalmente. Ela não aguenta tanta revelação e grita ao jovem. Ele está triste, ela fica triste. Mas começamos a entender, e eles também, que algo já mudou. Algo grande. Sem volta a dar.
2. O raio de sol que penetra a câmara vai-se repetir ainda mais cruamente ou cruelmente ou eroticamente quando esses dois fazem amor pela primeira vez no meio dos campos. Parece mais suave, mas a perspectiva, a duração, o perto e o longe e a forma como aparece e desaparece...o bailado enleado aos corpos, é a comunhão e testemunha do que ali aconteceu aquela vez. O halo que prenuncia, sem medo, o milagre. Um milagre.
Filme milagre de milagre resplandecente e dúbio também como os percursos Rossellinianos. Pelo meio... acontecimentos que não são, justamente, de filme, por isso a dificuldade da crença que só a ela se chega na abertura e na transcendência. Nada ali fora do mundo, tanta coisa fora da lógica. Resumindo, vida.
No final a calma, no final a certeza, no final a balada - "Merci, chama-se a música". Acreditamos? Acreditamos nos beijos e abraços de Ingrid Bergman e George Sanders?
Perigosamente.
Inaugura-se perigosamente.
Do melodrama cósmico, difuso e abrasador banhado a luz de graça e de plenitude suprema – toda a concentração de energias conhecidas a concorrerem e escorrerem para aqueles espaços e para aquele tempo – de Ray a Hitchcock, de Sirk a Cimino. Carax. Da liturgia musical que envolve e orquestra o relato – maravilhoso Philippe Sarde – para a inevitável pulsão suicida.
Amarelos que torram e abrem caminhos. Azuis de sexo e de crime e vermelhos de desejo. Castanhos e verdes e o resto de tudo, presença do universo em bruto.
A história também pode ser simples por isso mesmo complexa e cheia de zonas sombrias ou pintadas à emoção e ao calor e ao movimento de cada momento, o génio de Brisseau: o rapaz pensava amar o seu amor de infância e pelos caminhos da loucura descobre o seu verdadeiro amor, descobre-se e descobre a sujeira dos homens. Porventura...
De onde estão liminarmente ausentes romantismos de cordel, pieguices sentimentais ou estéticas, ideias feitas.
"Les Savates du bon Dieu" – cúmulo do romantismo.
A música vai-se tornando mais introspectiva, o ritmo e os sucedidos vão para os lados da aventura juvenil – que corrige todos os tão propalados anos 80 - onde não faltam o enviado ou o imaginado mais real do que a realidade, os enigmas a desbravar, o místico e o absurdo e o patético ainda do melodrama, a natureza incontrolável, leia-se: os céus o magnífico sol, as ervas e as flores, os ventos e as tempestades interiores, as árvores que abanam e quase partem, essa explosão pelo ecrã na sua energia até aí contida e logo por quem lá vive, choque das hecatombes das descobertas transformadoras. O mesmo, nunca mais.
Momentos supremos:
1. O jovem e a jovem talvez seu verdadeiro amor – ...sabe-se lá, nas cenas do tribunal lá volta a assombração – no topo de uma montanha a abraçarem-se, tão belo... esse profundo infinito, claridade, paz. Altos, baixos e as nuvens. Movimento de câmara para a direita onde seguimos somente a jovem, os raios da estrela que nos ilumina a violentar e a cegar a lente, a queimá-la, literalmente. Ela não aguenta tanta revelação e grita ao jovem. Ele está triste, ela fica triste. Mas começamos a entender, e eles também, que algo já mudou. Algo grande. Sem volta a dar.
2. O raio de sol que penetra a câmara vai-se repetir ainda mais cruamente ou cruelmente ou eroticamente quando esses dois fazem amor pela primeira vez no meio dos campos. Parece mais suave, mas a perspectiva, a duração, o perto e o longe e a forma como aparece e desaparece...o bailado enleado aos corpos, é a comunhão e testemunha do que ali aconteceu aquela vez. O halo que prenuncia, sem medo, o milagre. Um milagre.
Filme milagre de milagre resplandecente e dúbio também como os percursos Rossellinianos. Pelo meio... acontecimentos que não são, justamente, de filme, por isso a dificuldade da crença que só a ela se chega na abertura e na transcendência. Nada ali fora do mundo, tanta coisa fora da lógica. Resumindo, vida.
No final a calma, no final a certeza, no final a balada - "Merci, chama-se a música". Acreditamos? Acreditamos nos beijos e abraços de Ingrid Bergman e George Sanders?
Perigosamente.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Wim Wenders, 1974
1º plano. Um avião nos céus cinzas e por essas gradações fora que deles se reconhecem, uma lenta panorâmica para a esquerda, um reenquadramento tosco, talvez.
Do varal de uma praia para debaixo dele, na areia, outro travelling anódino, profissionalmente insultuoso. 2º Plano.
Wenders, que faria o tão grande e comovente “Paris, Texas”, ainda sabia filmar mal, criança que cresceu com as telas e com a América, com a Itália ou com o Japão (as famílias) essa voragem e a voragem de quem muda muito de lugar e se fascina, se consome e se desprende.
Filmar mal, coisa preciosa e bonita tantas vezes.
“Alice in the Cities”. Ainda se sente a viagem e o tempo que destila. Ainda se reconhece o ar da vida e não somente a fetichização do postal, coisa de papelão, cinema-museu. Ainda pulsa solidão e bons sentimentos e não só consciência de cinema e pessoas (personagens) que sabem que são cinema e que no cinema estão. Ainda existe a carne, o encarnado que sua e palpita, um todo integro. Os materiais ainda explodem e denunciam a matéria de que são feitos, a fábrica, ainda longe as superfícies polidas e etéreas e perfumadas. A teorização e essa tal de metalinguagem herdada de Antonioni um dos seus heróis, a cinefilia ou os ritmos flow irrompiam ali de inocência ou de amor, o contrário da solenidade e da muita afectação posterior.
Último plano. O homem e a menina à janela do comboio, cabelos levados pela ventania, liberdade. O preto e branco caseiro. A câmara a subir e a ir-se embora. Para tão longe, tão tão humilde...
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Queen Christina, Rouben Mamoulian, 1933
Começa em tragédia e em tragédia acaba.
No entretanto...
Um hiato, um sonho. Como um sonho. Como naquele momento perfeito à Nicholas Ray, paz segundos, uma eternidade, assim: ela a rainha que na mentira descobriu o fogo do amor, de homem para se tornar mulher, finalmente mulher de corpo e alma inteiras. Na perfeição beijou, roçou-se, apalpou e olhou de olhos bem abertos tudo o que a rodeava para não mais esquecer As poses, os movimentos, a volúpia.. A neve lá fora e a luz mais do que perfeita ténue a banhar a iluminar tudo, hallo da ordem do sagrado. Testemunha e cúmplice Nesse dia chegou ao céu, nesse dia chegou-se aos infernos.
O que era pose hierática, firme, gélida vai-se tornar o seu contrário.
Mamoulian não dá tréguas e dá dádivas. Os poderosos, os dissimulados, o povo, o resto. Enquadramentos régua e esquadro cortantes, composições que sangram. Movimentos ímpetos de pura fisicalidade à conta de tamanha tenacidade. Cavalgadas walsh, cavalgadas tão orgásticas. Corredores fantasmagóricos dessa luz que revela os espectros. Trono e cabeça caída contra a espada e a parede, tão triste e desesperada. Luz da fatalidade.
Os grandes, aos grandes a graça do grande plano proibido pelo hiato. Aos grandes a candura das coisas raras, essa aura impronunciável.
Mamoulian frio analista dos mecanismos do poder: plano sequência, quadrado inflexível, escalas. Mamoulian intimista, pequeno e secreto: o mais-do-que-grande-plano para lhe perder a terminologia e se deixar perder e encontrar pelos encantos do rosto. Talvez o cinema tenha sido inventado para registar o que de maior existe, o rosto que detém o olhar logo o estado interior. E aí, nesse gesto essa pulsão, descola-se da regra e volta-se ao cinema coisa ontológica dos inícios e dos fins. Rosto adentro, penetração finalmente. Como quando, já falei nisso, a menina ou amazona que se quis tornar menino ou cavaleiro para ter um pouco de paz e de liberdade e..."Provavelmente, quanto mais longe de casa, mais próximo da verdade." Uma e a mesma coisa.
Cineasta esteta, ascético, amador.
Tanta beleza, obra de tanta beleza...como lá para o final, os barcos de papelão com as bandeiras ao vento, as águas que brilham de faz de conta e de lengalenga, todo o imaginário dos cromos de criança a voltar de modo sereno e incandescente. Tanta beleza porque correlativa aos sentimentos, ao amor, aos ódios, às raivas e às angústias - a modelação ideal, a distância reveladora.
Nesse hiato, contínuo, em que a rainha tornada adulta e velha à força toda redescobre os traços, os desenhos, os esconderijos e as florestas e quartos da infância e com isso o cinema também a esse estado regressa inocentemente, a implacabilidade do desejo e do coração que move montanhas e ultrapassa secos desertos para ir até ao seus limites, esse abismo...redescobre como não enganar os bons sentimentos. A Rainha é bela na felicidade cristalina daquela plenitude, fica desolada e imensamente frágil na impassibilidade da dúvida e mesmo assim é sempre bela porque protegida e formada pelo seu eu. A mais jovem, eternamente jovem daquele universo.
Castelos abandonados, ouro rejeitado.
Entrega-se à vida e ao seu príncipe que não o é para os outros, o que a foi resgatar aos cimos impenetráveis.
...somos pó e em pó nos havemos de tornar. A morte não pode tudo, nunca. Jamais. E a Rainha vai-se lembrar das promessas e se entregar à vida – "devemos viver pelos mortos?" tinha ela perguntado certa vez – para como na profundeza e convicção do olhar final sobre os mares e sobre o que não se define ir em frente, respeitar e aceitar o calor do sangue que escancarou horizontes. Sem olhar para trás. Sem pedir desculpas. Contra-campo, fim.
Carne e osso.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
domingo, 10 de julho de 2011
Há um mal-entendido sobre o cinema. Digo: no coração mesmo da elite que faz profissão de elaborar ou de compreender a arte. Uma extrema confusão preside seus julgamentos e seus trabalhos. Uma falta de abertura inclina uns a considerar o cinema como um divertimento menor que abandonamos rapidamente para retornar às coisas sérias, tais como a literatura. Uma falha de exigência incita outros a povoar seu panteão em cinqüenta anos de uma centena de gênios, e a descobrir uma obra importante por semana. Estes são os mais perigosos, pois a espécie dos primeiros se apagaria por si mesma sob o peso do tempo e da evidência, caso ela não se achasse fortificada pela parca seriedade dos segundos. E dentre esses últimos a discórdia não é menos viva. Não tendo idéia do que buscam, como eles persuadiriam alguém a amar o cinema?
Prova de que se hoje em dia por acaso existisse algo próximo do que se chamou crítica de cinema - "profissão de elaborar ou de compreender a arte" - esses tais não serviriam nem para limpar as fossas dos realmente grandes - Renoir, Langlois, Daney, Skorecki, Biette, Monteiro, Bénard, etc. - basta ver o ípsilon desta semana, páginas e páginas de publicidade a Vila do Conde, páginas de publicidade de cinema, génios e mais génios, contabilistas e gestores ( "80 por cento gestão, dez por cento direito e dez por cento realização" - quem diz isto tem é que se lixar), herdeiros de scorsese e cassavetes, Bresson e Buñuel citados ao vento...promoção e pose, venda de bilhetes. Por isso dá para pensar que essa mediocridade das imagens nem é que tem a culpa maior do cinema estar todo fodido – cada um faz como sabe e diz o que quiser, por mais estúpido, e é muito, que seja - o pior são os tais jornalistas que abrindo as aspas das citações fazem as ligações ainda com mais excitação, leviandade e ignorância de uma arte tão incomensurável - o que uma câmara pode captar continua a ser incomensurável - e que tudo prometia, para ser reduzida a um anedotário de rótulos, conivências, palmadinhas nas costas, belas familias...essa aceitação do cinema como espéctaculo de massas e de comunicação. Linguagens e estruturas. Sinopses e profissionalismo.
Prova de que se hoje em dia por acaso existisse algo próximo do que se chamou crítica de cinema - "profissão de elaborar ou de compreender a arte" - esses tais não serviriam nem para limpar as fossas dos realmente grandes - Renoir, Langlois, Daney, Skorecki, Biette, Monteiro, Bénard, etc. - basta ver o ípsilon desta semana, páginas e páginas de publicidade a Vila do Conde, páginas de publicidade de cinema, génios e mais génios, contabilistas e gestores ( "80 por cento gestão, dez por cento direito e dez por cento realização" - quem diz isto tem é que se lixar), herdeiros de scorsese e cassavetes, Bresson e Buñuel citados ao vento...promoção e pose, venda de bilhetes. Por isso dá para pensar que essa mediocridade das imagens nem é que tem a culpa maior do cinema estar todo fodido – cada um faz como sabe e diz o que quiser, por mais estúpido, e é muito, que seja - o pior são os tais jornalistas que abrindo as aspas das citações fazem as ligações ainda com mais excitação, leviandade e ignorância de uma arte tão incomensurável - o que uma câmara pode captar continua a ser incomensurável - e que tudo prometia, para ser reduzida a um anedotário de rótulos, conivências, palmadinhas nas costas, belas familias...essa aceitação do cinema como espéctaculo de massas e de comunicação. Linguagens e estruturas. Sinopses e profissionalismo.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Jimmy Ringo, o pistoleiro mais temido do velho oeste do tempo das lendas. Mais ainda do que Wyatt Earp, Billy the Kid ou Wild Bill Hickok, diz a legenda que apresenta "Gunfighter" de Henry King, e diz cada alma que passa pelo filme. Jimmy Ringo, belo Gregory Peck que o bigode e a poeira do tempo e dos duelos procurados e não procurados já apaziguou, já envelheceu. Gosto do título português, "O Aventureiro Romântico ", pois apesar da negrura do filme e do tom de fim de tempo e desilusão, promessas quebradas, o que o faz ainda mover é a coisa mais bonita do mundo, aquele bandido mais bárbaro que o pior dos bárbaros (dizem eles) nunca deixou de amar uma mulher. Lirismo abafado entrevisto olhos adentro.
Apenas umas bebidas e já nem isso.
Henry King vai apanhar Ringo no ponto mais alto da sua lenda em vida e portanto da sua bifurcação. Um filme em urgência e fechamento totais, tanto quanto a terminal música inicial sugere. Um rastilho. Da boca em boca às histórias em segunda ou terceira ou muitas mãos ou às bandas desenhadas ausentes o mito está consolidado. O mote é tão áspero e seco como o de "Rio Bravo", as tais duas linhas. Ringo já só quer descanso e ir ter com a tal mulher, mas um dos incontáveis palhaços estúpidos daquele mundo vai querer ter os seus minutos de fama e vai puxar da arrogância e da arma. Quase o filme não começou e tudo já está em jogo, o tempo urge e vale ouro.
King já a falar-nos da sociedade do espectáculo em que é preciso criar heróis para logo os destruir. King a falar-nos de vedetas, vedetismos e invejas. A imagem fria, inteira e perfeita do ícone oposta ao turbilhão interior do verdadeiro homem. O nojo da idolatria em que não se vive antes sobrevive. Inocência perdida, crianças histéricas.
Os ecrãs e as massas de Fritz Lang. O circo e a televisão de "The Last Hurrah". ...hoje em dia?
A modernidade deste imenso cineasta está em nos levar aquele mundo tão aparentemente codificado e fazer espelho com os dias de hoje, no mais improvável o mais provável. Amargo espelho como tão amargos são os respirares de Ringo, os seus olhares tristes e crispados de quem já não espera nada dos homens e da sua bondade. Amargo preto e branco esculpido, pesaroso preto e branco. E amargas forma que impreterivelmente clássicas, impreterivelmente justas ao que olha, são simultaneamente o reflexo, o palco e o gatilho de toda a decadência a que a civilização dos valores, da arte, do mundo em si se afirmaria. O desgosto de tudo isto, plano a plano. A cada plano, mais dor.
Tão insípido como o encontro com o filho que também ama, como as promessas perdidas, o acto final revelador do estado das coisas.
Velhos sábios fizeram-nos ver e se a palavra realmente existir, únicos modernos.
domingo, 19 de junho de 2011
Le Salaire du zappeur
Cinemateca de Babel ou cinemateca de Alexandria? Cinemateca necessária ou cinemateca das necessidades? Cinemateca do povo ou cinemateca das embaixadas? Cinemateca dos vândalos ou cinemateca da carteira da tia? Cinemateca "front line" ou cinemateca "online"? Cinemateca do liceu ou cinemateca do museu?
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Pergunto-me mesmo se os anos oitenta, cinematograficamente tão ocos, não tiveram como verdadeiro cinema e como heróis sedutores os Borg, Connors, McEnroe e Lendl, os únicos que souberam destilar o tempo e que deram lições de ver a uma geração inteira. Fiquei sempre surpreendido quando amigos meus ficavam surpreendidos com a minha capacidade de escrever sobre o ténis, como se lhes quisesse mal por não compreenderem que se trata absolutamente da mesma coisa que o cinema, ao menos o velho cinema, o da mise en scène, da topografia. Não era preciso empurrarem-me muito para que encontrasse passing-shots em Fritz Lang e inserts em Miroslav Mecir.
Serge Daney, Persévérance
Abraço, Felipe
Serge Daney, Persévérance
Abraço, Felipe
terça-feira, 14 de junho de 2011
...esse romantismo rebelde desmesuradamente solitário.
de longe muito longe para longe muito longe.
num eterno instante, um hiato.
perene efêmero, irmãos,
terras castanhas de sonhos e crianças, montros e pesadelos, deformações e beleza plena,
uivos e disparos e desejos incontroláveis, ervas flutuantes,
águas límpidas, anões, mitos, verdades ofuscantes e cavalgadas novamente imperiais,
duelos e ciúmes,
vestes brancas ao vento como os cabelos loiros ao vento,
canções ao relento essa luz cristalina e impronunciável,
panorâmicas gizadas a fogo, serenas contemplações sem termo,
Hellman do cinema da estrada lado nenhum, Hellman das aventuras infantis e depois consciência,
mesma coisa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




















