segunda-feira, 27 de agosto de 2012



O cinema é para a escumalha, esta é e sempre será uma das ideias que nele mais me apraz. Agora, pode-se entender isto metaforicamente, humanisticamente ou, e é assim que o defendo, de forma literal. Onde a palavra ”arte”, que poderia estar entre o substantivo e o adjectivo, não faz sequer sentido.

Assim como existem os cinéfilos bons e os cinéfilos maus, sendo os bons uma meia dúzia à face da terra, quando no antigamente eram bastantes, e os maus a dar com um pau. Já dizia o outro, os ventos mudam sempre. Os maus são aqueles que, entre muitas outras coisas imperdoáveis, se servem dos filmes para chegarem a qualquer lado e para brio e proveito próprio, para o canudo ou para a academia, não lhes retribuindo coisíssima nenhuma, nem ao filme nem ao seu próximo, antes, comumente, o tornando numa putaria que retira a vontade de o ver a quem ainda não viu. Enquanto os bons veem as fitas em correlação ao homem e ao mundo, eternidades e presentes de nada, essa bela quimera primitiva, as amam ao mesmo tempo como fim e como perceção ou rumor da vida interior e do que lhes aparece à frente dos seus olhos, tentando “passar” algo no sentido do bom Serge Daney, absorvendo ainda qualquer coisa ao coração. Amor ou ódio, esclareça-se.

O tipo de que vos vou falar e um seu filme em particular são coisas que se podem ligar a isto, e mesmo ao primeiro parágrafo de forma veemente, quer dizer, escumalha como uns últimos resistentes da opressão do modernismo e da evolução que todos os sentimentos querem nivelar e se possível aniquilar; como deixar para lá e tentar apanhar uma construção e uma visão de mundo e das existências já raríssima.

Alex Cox é desde há muito um exegeta de várias coisas. Do Western Spaghetti ou do Western tout court, de Sergio Leone, Sergio Corbucci ou Damiano Damiani, até Akira Kurosawa ou a ferocidade de Samuel Fuller. Alguém que tem a demolidora paixão de um Quentin Tarantino e a lucidez e generosidade de um Bernard Eisenschitz. O que é sempre precioso neste mundinho de “especialistas” de aritmética e “maluquinhos de cinema” prontos para darem cursos e imporem o seu dissimulado fascismo.

Cosmopolita, insurrecto, atraído pelas margens e pelas fugas ao suposto, da terra dos Beatles de nascença e nada a ver com os realismos e empedernimentos destes, planador do alto e do baixo, fascinado pelo bas fond, pelo crime e pela mais sensível das poiêsis, interessado na harmonia ou no caos da destruição, na combinação ou zanga das sublimes e ambíguas forças cósmicas, é então dono e senhor de uma complexidade a um mesmo tempo humilde porque atenta à realidade, e furiosa pois olhando o que não se deve.

“El patrullero” é dos anos noventa e sem hesitação uma peça já perfeitamente anacrónica, no sopro contrário a estas malfadadas brisas tecnologias. Fora dos trilhos das “audiovisualices” e assim esquecido. Só a sua moral final amarga já é assustadora para o acomodamento e anestesia geral deste século: algo que mostra que o dinheiro pode servir para deixar tudo numa subsistência precisamente em águas mornas, no quentinho da lareira. Que tanto serve para uma esposa respeitar o marido, como para se poder resguardar em segredo a mulher que se ama verdadeiramente. O dinheiro manchado de sangue ou simplesmente o dinheiro, esse mesmo, tanto mata como concilia. Mas comecemos pelo princípio.

Local: México. Centro de treino para cadetes que em breve patrulharão as diversas estradas fora. Pedro Rojas, jovem tenro, idílico, naïve, homem de fé antes de ter que a ludibriar, vai passar os testes com distinção máxima, receber os méritos e as potentes armas de fogo e ser lançado à bicharia mais perigosa lá para os lados fronteiriços, onde a droga, a volúpia a quilo e a bandidagem dominam o terreno. Daí para a frente é vermos alguém como tantos outros a ter de sair forçosamente da casca, ir de verde a maduro, tomar decisões que só ele pode tomar. No início das actividades, um justiceiro de corpo inteiro estilo Robert Blake no “Electra Glide in Blue”. O tempo corre, a mesma solidão daquele filme parece cortar o estomago como uma faca bem afiada corta queijo mole e…casa-se com a primeira.

Assim cumpridos os pressupostos, já não está só por si. As obrigações de esposo e o meio social e de trabalho onde está inserido retiram-lhe rapidamente ilusões e heroísmos. Desce de um qualquer céu de poucos à terra de todos. Entre o ter que pôr a comida na mesa, alimentar a boca do filho que ousou e as gorjetas e favores com que lhe acenam nas porcas estradas, escancaram-se os caminhos perigosos. Lá se vai a coragem de um jovem tão bonito que sente mais violência no prometedor seio familiar do que nos fuzilamentos exteriores dos cabrões. Entre a mulher que só o respeita quando sente o cheiro a dinheiro e o deslizamento ético, os copos tornam-se os melhores e indispensáveis amigos e, mais grave do que isso, descobre o romantismo. Mas um romantismo marado, caí de desejos e de afectos por uma puta que é puta numa pocilga qualquer.

Vai correndo a tal da vida com as suas primaveras, inconstante, duvidosa, medos, fragilidades. A sua insistência no cumprimento da lei acima de tudo o resto tanto o faz pensar que o melhor amigo morreu pela sua teimosia na limpeza, como lhe desperta uma benéfica consciência próxima do bom samaritano. E numa dessas suspensões e apertos onde o depois jamais poderá ser igual ao agora, decide que não vai querer acabar com uma bala no peito como o Blake do Electra, então como que se resigna, apaga o furor e as brutalidades místicas que ainda possuí dentro de si.

Última etapa: como Robin Wood, roubar aos ricos para dar aos pobres e desencaminhados. Arriscar a vida numa missão final para alcançar a paz, isto no antro do estupefaciente e da perda momentânea de valores. Então, meter meninos perdidos e prontos para o mal na escola. Fazer regressar a puta ao seu lar e quem sabe um dia poder amá-la. Atirar o crachá policial para o caixote do lixe e trabalhar com a mulher que só beija a pedido. Triste mas se calhar legítima aspiração – compra a vida calma e recatada e esperançosa, pois para ele, antes isso do que a cada dia espreitar a morte.

E incorruptível é Alex Cox. Mão de aço e olhar não viciado. Uma cena, um palco, um plano. Clareza. Obscuridade. Limpeza. Num filme enxuto ao máximo talvez também pelo abrasador calor que o fustiga, se calhar por isso só a guitarra esparsamente tenha direito a entrar. Espaço tratado como espaço e o tempo a fazer-se tempo - dimensões, limites, traçados, tensões, pesos, respirações, imponderabilidades, buscas, percas, regressos, reconhecimentos. Alguém que só ousa mudar de angulo por uma força e uma lógica maiores, vitais. E que em negativo deixa ver o fatídico casamento de Pedro Rojas com inútil ruido e ao calhas filmado, como a televisão ou a maior parte dos professores de cinema muito à frente ensinam aos adolescentes inconscientes.

E assim manter esse compromisso de honra com as geometrias e as durações, uma espécie de directo ultra sensível em solda com brutas e secretas elisões, permitindo alcançar uma verdade humana sobre um percurso e uma definição de um ser. Belíssima moral já perdida, que não se acobarda do real, única coisa que o cinema não pode escapar. E se o espólio Fordiano ou mais amplamente clássico se vê nitidamente nas formas, não é preciso grande paleio para não hesitar em escrever que Cox é um dos raros e últimos herdeiros de Sam Peckinpah. No modo como se sente no organismo e nas superfícies do filme, num todo, o corpo víscero, o sangue, as ganas, veias, nervos, suor e tudo do homem que atravessa em comunhão ou descomungado essas paisagens. Como essa efervescência explode num termo em que um dia tem mesmo que explodir e os tais suportes de cinema com ele. Febre e lucidez, dizia lá para trás nas palavras.




E volto aos dos audiovisuais e aos das fórmulas. Impossível os júris do bom gosto das escolas, workshops e festivais do agora admitirem estas infracções lesa majestades (*). Porque majestades são eles, especialistas em história MUNDIAL (e talvez europeia), orgulhosos enciclopedistas dos bonecos dourados da academia, docentes respeitáveis, arautos das novas modas e estéticas, proclamadores do científico, sociólogos e terapeutas dos novos cérebros da nova humanidade e das suas capacidades. Os intocáveis, os que viram tudo, os maiores. Os que dizem que já não se pode fazer David Llewelyn Wark Griffith porque o Fernando Meireles é que está de acordo com o melindre neurológico dos petizes. Videoclipes, spots publicitários, telenovelas, salas da lusomundo, tudo já o mesmo neste impagável universo virtual.

Esses elementos dos júris que se vissem o extraordinário plano carnívoro do polícia Pedro a arrastar-se de arma em pulso em direcção ao amigo que jaz morto, perna partida e alma desfeita, Robocop e Cristo salvador, que dura e dura e é frontal, diriam com certeza: “isto para resultar para a geração dos morangos com açúcar teria de ter, no minuto que demora, uns dez a quinze planos de pormenor no meio, só assim o espectador aguentaria, o realizador estaria em sintonia com o seu público, e quem o apanhasse na televisão, não fazia zapping.”

Ai fanfarrões que proclamariam que Alex Cox, o teatro filmado, a seca do cinema português e a farsa do Manoel de oliveira são uma e a mesma coisa, pois rejeitam os criativos movimentos de camara e o necessário espéctaculo da linguagem. Que o Cox não trabalhou para ganhar festivais e que é um anarquista e um petulante. Que se calhar até o perdoam, nos seus bons fundos, pois que talvez o Cox não tivesse à sua disposição as mais finas steady-cams, gruas e carris que lhe permitissem alcançar uma gramática mais bombástica e vistosa e aprazível. Não filmou com uma topo de gama Canon HD-DSLR (ou lá o que era por que eles se babavam, mesmo que em 1991), o workflow e os iluminadores hmi que transformam a noite em dia, filtros ultra pro top, etc. Que obviamente não teve prazo nem efeitos especiais nem orçamento para fazer um genérico Sin City carregado de reverberações sonoras 10.5 a quatro dimensões. Nem um bom director de fotografia profissional que escolhesse as tomadas de vista e as cores no lugar do realizador, para assim Cox poder reger conscientemente o investimento e coçar os tomates à vontade. E, coitado, não acompanhou a evolução técnica e as convergências entre a multimédia, a informática, a economia, a medicina e o audiovisual - por alguns também ainda chamado de cinema - ficando assim preso aos “filmes antigos” que tiveram o seu tempo e que, apesar de chatos, são importantes.

Coitado do Cox que não se inscreveu nas cadeiras de argumento e de teorias narrativas e que assim não domina os plot point, os ganchos, os clímax e falsos clímax, que não quis saber do Syd Field ou da estrutura infalível dos três actos que lhe equilibraria o filme. Muito menos cumpriu ou pensou cumprir um qualquer hipotético e idiota caderno de encargos que tanto seduz um qualquer Jorge Júri Mourinha. Não ambicionou a obra-prima. Coitado que preferiu confundir o cinema com a vida e assim não distinguir os campos. Podia ter ficado louco… Filmou complexos, contraditórios e fugidios indivíduos e não personagens arquitetadas segundo modelos estudados de comportamentos ou estúpidos arquétipos dramáticos. Não soube que urgem as festanças e as alegrias e que estas têm de continuar, como escape e entretenimento, pois a vida é dolorosa demais e precisamos de um balão de oxigénio e de uma guloseima quando chegamos a casa vindos do trabalho de todos os dias. Cox opôs a sujidade à asseptização dos radicais do after effects e por isso não pode levar canecos nos concursos. O que pulsa ao invés do eterno simulacro. É um rebelde, isto admite-se? Vamos castrá-lo!

Aqueles júris que fecham os olhos aos genuínos cinéfilos de vida ou de morte, os do amor e da cólera, os júris que, citando Anton Tchekhov, têm a necessidade de destruir o que não são capazes de criar. Com júris assim perto do autómato, espécie de coutadas que decoraram a mesma bíblia para a palrear alegremente, Alberto Seixas Santos, comparsa que gostava de conhecer, não há esperança, o cinema, de facto, acabou. Quando o tipo que fez “El patrullero”, e poderia ter feito só isto e nada mais, é só nota de roda pé nos almanaques por esses júris criados ou considerado uma anomalia a evitar, de facto, isto que era belo, acabou.


(*) A partir daqui, enumeração/relato baseados numa infeliz experiência real.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012


“Fingers”, sinfonia urbana interior de um perdido pela grande maçã é um filme de uma violência inusitada. Realizado por James Toback cinco anos depois de Martin Scorsese ter feito o seu “Mean Streets”, a mise-en-scène escancara logo um abismo de oposições ao meio e ao indivíduo entre as duas obras. Aqui trata-se de apanhar a violência dentro do quadro e apagar a voraz escritura da câmara do italo-americano. A violência que há para ver e para experimentar está na cidade e dentro dos corpos que a percorrem e a cheiram, e só ao olharmos o terreno do ecrã em directa e ampla perscrutação poderemos sentir as suas correntes, em movimentos que nos chegam do dentro para o nosso fora e que podem por ventura ser devolvidos em punch – o contrário da pré steady-cam cambaleante de Mean que devorava os espaços e feria a carne, escrevia ela mesma esses furores esquivando-se à bruteza do que estava à sua frente pronto a ser colhido, mesmo que por lutas tremendas. São as infecções da casca da maçã a fazerem corpo com o organismo que pulsa desde a superfície até ao ponto mais distante da profundidade de campo. Os dejectos, estilhaços american dream e tudo o resto como baila, cimento, estética.

Cidade que é aqui piso inevitável para a desgraça, ratoeira, peçonha sem antidoto. No escape. Quem por lá andar e seguir o irresistível apelo do seu caos, perigosa sedução, melodia feiticeira, já não tem salvação possível. O que quer dizer que é preciso saber da circulação que originou a pérfida para assim não se saber nada: do homem ao meio, do meio a homem. Todo o inverso e todas as mútuas correspondências. Nunca se saberá que ontologia provocou a outra. O porquê da impossível coabitação, pacificação. Como no pecado original.

E estranhíssimo pedaço de um ser e de uma gota no tempo que o filme convoca: que abre em plano sequência sobre um pianista sôfrego entre estampas de Beethoven, ondas sonoras de Bach arrancadas a ferro e a fogo e a contemplação para posterior perseguição e deleite a uma jovem loira e chamativa que se encontra lá fora. Se deixa escorregar pelas citadas vísceras citadinas de modo imparável em afligidos contra sensos. Onde o ímpeto dos socos e dos miolos estourados vai ser muito mais engolível do que a alma e o nervo postos no tocar das teclas ou no sexo como acto epifánico. Muito mais se sua, se perde sal e sangue a bater com os dedos e a entrar e a sair dos corpos do que a puxar gatilhos e fazer buracos.

Seduzir assim do pé para a mão uma desconhecida, vamos ver, não é nada de especial para esse Jimmy Fingers/ Harvey Keitel constantemente ligado a uma fritante corrente, que numa ânsia maldita de compensar falhanços, culpas, remorsos ou má formações ou pecados ou lá o que for de nascença, nunca vai ter pruídos em atravessar extremos, descentrar a moral ou o modo de viver. Foder com a primeira ou a última. Escutar na sua arma portátil inseparável o rock mais bombástico depois de sair sem fade da mais erudita subtileza, summertime no inverno e teoria musical na choça, dar-se com a intelligentzia ou com a vadiagem em questão de segundos, dizer ao pai que lhe dói a pila ou a um engate que lhe quer a cona porque diferente de todas as outras. Envergonhar-se e ser lacónico. Pedir com a lata toda que se faça um filho. Forçar orgias. Cuidar-se para a audição de uma vida ou cobrar uma dívida monetária no beco dos infernos, limpar a honra ao pai e manter estatutos. Crime arte e arte crime. Um rol sacrificial e de alteração do “eu” face à circunstância, um descontrole muito antigo e reforçado no presente que nem com todos os santinhos do lado da danada alma esta terá qualquer chance.

Fingers já há muito descobriu e porventura aceitou, mesmo que não calmamente, o que muitos só tarde na vida, na maturidade ou mesmo sobre o fim, e outros só do outro lado, descobriram ou simplesmente entreveram morrendo logo a seguir pelo medo, ou seja, que por vezes, já fora dos sonhos, em espirais castradoras ou simplesmente em terras viciosas, é impossível ao homem ter autocontrolo, domínio sobre o que não domina, essas forças que lhe rasgam pele adentro, demónios, desconhecidos. No escape.

Carne. Horizonte redentor. Herança. Compromisso. Falhanço. Falhanço tão triste e tão esperado sobre a tocata de Jean Sebastien, e o castelo de cartas rói. O caroço apodrece. Esperanças mortas. Tudo ao esgoto, pai, mãe, música, amor dos outros e próprio, vida. Os enquadramentos precisos e frontais e assim rudes começam a desenquadrar-se. E Toback neste tratar de tão enorme arco pecaminoso e roedor das gentes eternas de modo formalmente tão minúsculo, interior, bricolado e funcional soube ver e entender os estouros que um Fuller ou um Aldrich cosmicamente agarravam às energias acumuladas e incomportáveis dos percursos e dos destinos, essas altercações momentos de explosão que só as percebendo no âmago, terão qualquer hipótese de queimar celuloide fora como um rastilho inflamado, de nos atingir, nós que tal presenciámos.

Outro tomador das batidas ao pulso e ao coração, das temperaturas e aquecimentos dos rostos e climas, de tudo o que mexe e afecta. “Fingers”, simultaneamente realista e puramente abstracto, onde as almas e as mentes se incendeiam e se consomem com a mesma voracidade do físico e das matérias do cinema que tudo abarcam ou isso mesmo julgam. Simultaneamente Courbet, ou melhor, Hopper, como Bresson, ou no caso americano, um certo Borzage que comunica com Dreyer.

E este cair em cheio torna-se tanto mais amargo quanto se desprende uma nostalgia de uma época em que ainda não se viam robôs de fones nos ouvidos surdos e os rádios grandes aos berros enraiveciam os senhores fato e gravata. Quando ainda se fumava onde existisse oxigénio e uma certa vila não era parque de diversões de papelão, antes intoxicava e drogava como a de Abel Ferrara haveria de intoxicar e drogar. Vila por onde deslizou sem saber o que fazer, ai meus vinte minutos finais, um Keitel chamado Fingers, na dúvida entre atirar-se de cabeça à arte ou partir a cabeça. Por aí tantos Fingers e tantos olhares interpelativos como o olhar final antes do negro que tudo tão inutilmente deixa em aberto. Esse olhar ajudem-me ou esse olhar fodam-se que tanto sempre baralhou. Sem saída.

(Tu Fingers, que uns anos depois destas coisas que conto, desse teu desespero, dessa maldade que tudo e todos te incrustaram, e, escuta-me bem isto que te digo, não vamos ser cínicos nem hipócritas, da tal semente do mal que a admitires-lha tens de reconhecer que já a trazes desde o ventre da tua mãe, essa mãe que também me parece que te pressionou e influenciou. Tu, meu grande sacana, nessa fragilidade ao arrepio que eu noto muitas vezes oculta na tua agressividade latente e em explanação, terás casado, tido filhos, uma mulher mais a tempo inteiro e de acomodamento, terás por fim trocado as mesas de piano pelos uniformes e pistolas legais, e a melomania pelo basebol american type, e assim acabado naquele estupor daquele Bad Lieutenant queimado interiormente e exteriormente pela fé, pelo seu contrário e por uma vontade de ultrapassar tudo, extravasar tudo, até de morrer, etc., para ver o que acontece, terá sido isso, extraordinário e terrestre Keitel? Terás assim perdido os afectos e a vontade de contemplares o único mundo que sabemos? Existe nisto que eu digo alguma verdade e por consequência uma extensão lógica? Em todo o caso, não sou eu que te condeno.)


sábado, 18 de agosto de 2012


Uma narrativa fílmica onde na última cena me deparo com uma urgente cavalgada de uma ambulância na tentativa de salvação de uma velha mulher apoiada por um muito jovem em lágrimas não parece ser nada de relevante. Se a essa acção começo a ver desenrolar-se em ainda mais fulgurante paralelo o mesmo puto da ambulância a caminhar vales abaixo montes acima até a um precipício de autodestruição, bem, aí a coisa já parecendo mais estranha e trágica, é façanha que se compreende sem grandes voltas à razão.

 Mas já agora começo a desvendar ao para trás, sem pretensão alguma. Já antes, pouco antes do fim de que ainda não vos disse tudo, aconteceu entre as citadas existências um encontro numa daquelas reconhecíveis feiras populares onde os roda-roda que planam e que voam parecem ter no escuro rasgado a luzes trémulas em lampejo relação com o grande universo calado que jaz por cima de nós todos a horas dessas, feira onde se mandam uns tiros bem mandados e se come algodão doce. Aconteceu por aí, no despertar de um fogo-de-artifício inspirador e transformante, uma oferenda do mais do que novo à senhora praticamente no outro extremo do círculo da sagrada caminhada. Terno e luminescente toque dos príncipes e das princesas, anjos e fadas. E ela aceitou e escaparam-se os amo-te mais do que tudo os quem sabe para sempre e as coisas que quem já viveu conhece. Aqui sim, a coisa já é rara e mais rara e pasmante se torna quando no dia que já amanheceu os topámos na cama com todos os inícios do golpe da carne.  E a excentricidade não fica por aqui, ele acordado faz bolas de sabão com brinquedo de criança, ela, notou-se na noite anterior ao mandar a dádiva ao rio para dela saber sempre paradeiro, é rija e de molde único.

E se me lembro daquela cena em que os dois acabam a olhar pássaros gloriosos num lusco-fusco de mágicas paletas, corados como dois meninos de infantário depois da primeiríssima declaração…cercados de água mas também automóveis e lixeira, nem vos digo nem vos conto. Ele disse-lhe que ela era muito bonita e é inenarrável. Porque antes de aí chegarem no carro terminal dele, já tinham dançado sobre relva verde picada por bailarinas-árvores-testemunha e céu aberto como dançam os amantes de Carax ou de Cimino. Ela já lhe confessara que comunica com a vida e não com Deus e que cada um tem o direito de fazer de si próprio um idiota. Nunca se deixar julgar pelo mundo, e isso bate forte como uma bíblica homilia. Podia ser a moral da fábula que decorre. Ele dá cambalhotas de alegria, ela ri-se para além dos normais decibéis dos normais humanos.

Ainda teremos o prazer de uma interpretação dela ao piano e voz da música em que Cat Stevens aconselha a quem quiser cantar ou ser livre que o faça sem reservas, a ousadia dele com o banjo e mil e uma fugas à autoridade e mil e um furtos de coisas insignificantes como automóveis, tramoias combinadas, rupturas, insubordinações, enfim, pregos ensanguentados na fina seda da compostura social.

Chega de brumas que o lanche aguarda, o novo é o Harold e a antiga é a Maude. O Harold é um menino certamente extravagante, descentrado, terrível, não tendo receios em confessar ao seu psicólogo que o que mais o diverte são funerais, cemitérios, o negro negro, as mutilações e tentativas de suicídio ainda que em farsa, e por aí vai. Ele captado contra o escuro ou sobre funestas composições é uma mistura de um qualquer Nosferatu com uma porcelana aterrorizadora de petizes, caveira de olhos enterrados metamorfoseada com um estripado ventríloquo raquítico que afugenta jovens pretendentes femininas excitadas, que afugenta também a sua Mãe. Gosta de permanecer morto porque um dia assim aconteceu estar e a sensação pareceu-lhe inolvidável. Talvez porque assim sentisse algo além de peso, talvez porque assim alguém se preocupasse com ele, talvez nada disto. Cala-te boca.

Ela, a Maud, vai acalmá-lo e fazer-lhe ver que a vida é bela à maneira de tantas glorificadoras estórias? Nada disso, é ainda muito pior e muito mais radical do que ele e incita-o a fazer ainda pior, o pior dos males possíveis. E assim acalma-o, assim dá-lhe vida, própria, coisa que queime pela pasmaceira geral, consumações até ao pó, vitalidades venham de onde vierem, febre incurável impagável, fugas e escapadas além-mundo. Por entre geometrias quadrangulares e rectangulares que se perdem de vista, pedras tumulares imperturbáveis, buracos fundos abertos, pazadas de terra, zangas com o padre da freguesia, o diabo a quatro e tudo ao diabo, ele redescobre-se leve e com todas as cartas na manga. O carro dos mortos era dele e ele desbunda ao máximo, aterroriza as moças que a mãe lhe arranja, tudo a fazer lembrar uma obra-prima de Richard Quine, “Bell Book and Candle”, e dá baile ao tio esse sim maluco que o quer na guerra. Sem restrições, aquele Jean - Arthur R.

“Harold and Maude” é carpinteirado por um cineasta que sempre me interessou, dividiu, irritou, sensibilizou. Nesta obra não gosto da promoção do álbum de Cat Stevens e da sua possível significância e acrescento a cada sequência, como não gostava dos êxitos de época que perpassavam e faziam supostamente engrandecer até ao transcendente e às lágrimas os diversos picos dramáticos do “Coming Home”, esse filme onde o Voight e sobretudo a Fonda, tão frágil, jamais se esquecem. Mas Hal Ashby costuma ter, pelo menos para mim, algo que ultrapassa os lúcidos critérios e atinge sem aviso o coração. No caso, no caso deste par inadmissível, o título, um dos títulos mais belos que o Português já inventou para filmes estrangeiros, “Ajuda-me a viver”, que é pedido que pelo filme e pelo desespero disfarçado e grave do rosto de Harold leva a questão para terrenos onde a sensação de mal-estar, de aflição, desencanto, se vive ou não vive no cume da faca, na ténue linha do malabarista, do náufrago da existência.

Daí à estética de Ashby ser considerada datada e cheia de patine, de cheiro a mofo, vai uma confusão tão grande como a de não se perceber que a sujidade e fragilidade e quase desvanecimento da imagem, bem como toda a arquitetura ogival e cruzada pintada a verdes e pretos mortuários está em plena consonância com a mente e a velação em atrofio do pequeno Harold, até ao banjo final e cântico de salvação.

“Não é meia-noite quem quer”, escreveu René Char o que alguns visitantes da terra da verdade ainda em vida já sabiam sem saber como o expressar. E quem assim o experimentou ou tiver melindre para o tentar perceber vai ver que todo o filme encafua nesta direcção, para estas linhas e para este ermo de ausentes brilhos e tons. Meia-noite no rosto de Harold que faz meia-noite à articulação, aspecto, centro e emoção do filme. Noite que não exclui o humor. Noite que não exclui o riso. A noite e o riso, como Nuno Bragança. A experiência foi proveitosa. Todas as fragilidades cinematográficas sucumbem quando assim se trata a fragilidade do homem, quando assim se vai ao amor, e peço desculpa por insistir em tal devaneio. Desses apaixonados pela vida da morte a vida.




Já “The Last Detail” é ainda de outro tipo de loiça. Démarche irrepetível, para a vida. Um road movie a penantes, comboios pegajosos e carreiras feias. Que tristeza toda esta higienização dos transportes do aqui… Uns segundos de acção e já se sabe do que a casa vai gastar, a missão a cumprir, do que o filme vai tratar ou destratar. Estamos numa base da marinha em Norfolk, Virginia, Estados Unidos da América. Um menino de recados procura dois marujos, Buddusky e Mulhall, que querendo fazer-se durões ainda pensam ignorar o mestre de armas e a sua imperial ordem. Nada disso: ainda o filme vai na primeira bobine e eles já sabem que terão de levar o marujo Meadows até Portsmouth, no New Hampshire, como prisioneiro. Menos de uma bobine e os três já estão largados aos cães.

Tudo abriu logo após o genérico com um seco rufar de tambores e as únicas melodias que o irão trilhar e ritmar serão marchas e entoações militares. Vamos ter então um percurso e obra seca, pequena, drenada, essencial. Assim como as sequinhas panorâmicas iniciais pelo átrio, corredores, quartos e gabinete. Para ir já de comparações em riste, secura e filigrana Bressoniana. Ou já que tudo permanece muito americano, tangentes traçadas com navalhas de De Toth ou Siegel. Que se é um filme de estrada o vai ser de modo assaz confinado mesmo que pela aridez da basta paisagem enunciada e prometida. Presos de Boston a Nova Iorque e terras de entremeio, mesmo que com semblantes de mauzões.

(Aparte: Que a navalha herdada pelo tipo de Utah que manobra as rédeas continue a cortar tão afiadamente embora com requintes ou atenções mais dilatadas e mesmo penosas posteriormente à saída da base, tanto representa a diferença entre o cinema americano clássico e aquele em que Ashby trabalhou, como a diferença de mundos, de ar do tempo, pessoas nele e a sociedade que o ata, com certeza bem diferente daquela em que James Stewart andou e respirou. Uma malaise e uma brandura patológica que faz com que as durações estejam necessariamente possuídas de uma dor arrastada. Dores de um certo tempo que não o campo-contra-campo e a os gizares sucintos de outra eras, uma caminhada ao estertor que insufla. Impossibilidade clássica. Nojo televisivo. Continuemos.)

Fazer isso numa semana e com tudo pago, certos tipos chamariam a tal um doce e o marujo espertalhão Buddusky não vai pensar noutra coisa. Ele que tal como o comparsa Mule não percebe por que raios condenaram um tipo à expulsão e prisão por ter tentado roubar a caixa das esmolas de uma boa samaritana. Anda mal de saúde a justiça por aquelas bandas e as conexões perigosas são coisa universal e fatais para quem nelas se embrulha. Quem assim vai à forca é então Meadows, que é alguém que ou também precisa mesmo de um psiquiatra, como um dos “carrascos” sugere, ou é um burlesco herança de Buster Keaton, ou pura e simplesmente um inocente que se tramou por aquilo que os inocentes sempre se tramam, verdade e solidão. O contrário do bad ass Buddusky, que gosta de fazer mal por fazer, mijar em cima de pessoas, beber à fartazana e enganar a lei que o domina. Mais próximo do indeciso Mule, que tanto gosta da anarquia e diversão que alastra, para no instante seguinte se aprumar, fazer continência e lembrar que ao invés de o trio estar em despedidas de solteiro, antes acompanha um prisioneiro e há que dar valor à seriedade.

Se “The Last Detail” tem o horizonte de uma linha ela vai ser torta, chão para descobertas, redescobertas, oferendas e transformações por mínimas que sejam. Degraus à redenção. Tudo aglutinado por lentos fondus que ainda o escanzela mais, o disseca, como numa operação cadavérica. Mas a empresa é íntima e faz-se íntima, em tantos momentos Ashby pousa a câmara, sai do plateau, manda sair a equipa técnica para uma pausa, e ficam ali só os três marujinhos a ver como podem melhorar a vida de um injustiçado. No fundo, cada um a tentar melhorar a sua vida. Buddusky quer que ele se divirta, apesar do companheiro de incumbência dizer que essa não é a natureza de tal criatura, que não tenha medo de exigir o queijo derretido no hamburger, que beba até ao estado de vigília e de levitação. Enfim, que assobie às miúdas, que faça amor pela primeira vez, que faça tudo o que os da sua idade têm direito. E que se mantenha fiel a Deus e se zangue com quem o bajular. Buddusky é bruto mas também pode ser justo e verdadeiramente compincha. Também aprende com Meadows e fica a perceber a razão do puto respeitar sempre quem está a fazer o que tem que fazer. Os dois mas principalmente Buddusky querem que ele lute, se faça rijo, homem, cínico talvez, mas não vai ser por isso que a tímida e eterna criança-matulona se vai zangar com eles, antes pelo contrário, e momento de elevada comoção em surdina, os considera como os dois melhores amigos. Assim do pé para a mão, a tal da solidão a trabalhar no invisível carreiro, tal como a formiguinha. E os tambores continuam a rufar.

E Meadows vai queimando etapas à medida que o percurso e o tempo ardem, conhecendo novos continentes e constelações, vai confirmar dentro de si que ali não há carrascos e que se o querem preso, ele vai preso, mesmo contra normais explosões animalescas que de si brotam esporadicamente. Vai despejando litros de cevada alcoolizada, fumando como se não houvesse amanhã, finalmente assobiando meninas. Vai patinar no gelo com graça etérea. Esfumaçar droga. Engatar para ele e para os outros. Entrar na casa de putas. Copular e encantar-se com uma ninfa deslocada. Outro exercício profitable em que no termo do espaço e do tempo passível para algo acontecer, alguma coisa que seja coisa, tal sucedeu e o puto ensanguentado que vai cumprir os oito anos de prisa ou os seis se os ganhar por bom comportamento, já sabe o que o sexo oposto ao seu pode proporcionar, já se sabe fazer respeitar, andar ao cacete com os fuzileiros como acontecia nos filmes de John Ford ou do John Milius e hoje não acontece mais. Caminhada proveito e exemplo sem respostas, coração aberto. Oh! Triste encanto desencanto final quiçá como nas redomas, suores e tremores de Thomas Wolfe, Nicholas Ray.

América coberta a luz sufocada, vacilante, algures glauca, apagada. E mais uma vez o cineasta no seu oficinato ama o grão pelicula como ama o som que extravasa a origem, o que jamais é puro exercício fetichista, Ashby é taberneiro e delicado demais para essas coisas, antes percebe que a imagem como o som não podem ser somente urdidas pelo lixo do meio envolvente que apanham, muito menos pelo profissionalismo nivelador, estando assim atento ao choque e consequências de naturezas antagônicas que no cinema acontece entre a máquina de filmar metálica e fria com a ardente natura. O resultado faiscante disso. A violência do embate. As ondas atordoantes. A harmonia, união ou impossibilidade por denso acordo. Mas tudo pacificado e em certo sentido calmo, tudo em implosão, o que mexe é o organismo interior e nunca o recorte. Zero virtuosismo. Maquinaria, forças da natureza imperiais, o trémulo humano. Há coisas e princípios sobre os quais não podemos fazer batota, questões vida ou morte, para que algo faça sentido. Algo que seja.

E a tal máquina vai deixar de estar à primitiva altura de Hawks. Só por uma vez. Tudo se vai apagar em brancos prados sem viva alma, representação de um vazio de vida, procura do que vem, desilusão inescapável para quem foi com muita sede ao cântaro. O tempo que envelhece depressa, o derradeiro Tabucchi, epigrafe Pessoana ou centro deste filme em que o tempo é tudo porque aflige e urge? Apesar de ter passado, passou-se por ele bem. Passou-se. Siga a marinha.

terça-feira, 14 de agosto de 2012



Ruge a fita. Lá vai esbatido e retorcido e ondulado pelas águas de uma citadina poça, um homem agora simples, as suas vestes de talvez ídolo de outros tempos, típicas botas pontiagudas para o engate ou para a pancadaria, a sua inseparável guitarra. E a sua música sobreposta ao plano, não esqueço a sua música. O rosto ainda se encontra lá na distância do chamado plano geral ou inteiro. Resguardado, impassível. Mas o seu rosto vai ser tudo, lá estagnarei. Pode ser um Dylan, um Guthrie, um Jerónimo (& Cro-Magnon; o tal Bob Dylan da cova da beira). Eterno puto traquina. Um qualquer vadiola livre, apanhado pela vida e por vícios vários, sem remorsos. Próximos planos, porque já se notou, falo de um filme e da sua única fonte de criatividade - a realidade pura, dura, incandescente, bruxuleante. Pontes subidas, pontes descidas e a insistência em reflexos, estradas torcidas e retorcidas, ingremes, esfumadas, de cheiro intenso possivelmente, óleos e fumos e toda uma gama de variada conspurcação. É belo e é sujo e a pele responde ao estímulo, pelo menos quem a têm. Entretanto aproxima-se a escala da câmara ao homem e começa-se a desvelar uma face. Os movimentos corporais surgem mais nítidos, singulares, intransmissíveis. A roupagem esvoaça ao vento e as texturas brilham vincadas. E noto ali o cigarro imagem de marca no canto do dedo à espera da bendita baforada. Mais sobes e desces e paisagens pintadas deslocadas à força de neve. Naquela terra o sol brilha, tinha-me esquecido. Os barulhos da banda do mundo mundo começam a impor-se ao registo magnético que canta coisas acerca de amar um alguém ser mais fácil do que alguma coisa que jamais se fará; lamentos por ontens; sonhos acreditados de eternidades talvez perfeitas. Tanto declive e tanto obstáculo devem querer dizer qualquer coisa que não parece lá muito alegre.

Entrámos em entrecorte numa loja de instrumentos musicais e vamos sentir o peso de um homem, passado, presente, medos, dúvidas, assunção crística no limite. Ao primeiro dos muito grandes-planos que serão dedicados a Cisko Pike/Kris Kristofferson, tanto de uma existência tramada e do tempo que parece já se foi vai surgir literal como em frente a um abismo: o dono daquela loja não sabe se Cisko vem por causa do tráfico de coca ou do que quer que seja traficável, se por causa da música. Já que por amizade simples não parece só ser. “Já não trafico mais” atira aquele que breve saberemos já foi rock star e que agora está preso a fama duvidosa. Numa só cena descarnada temos então as forças que vão torturar esta pessoa pelo tempo e para lá do filme – o seu dom e a sua perdição, ou o seu dom que é a sua perdição; Passados de encarceramento. Ambições e linhagens já largadas. Ilusões desvanecidas. Auto enganos. Milhões de recordações e um anjo da guarda que não o deixa desfazer-se do único objecto que se interpõe entre a paixão ontológica e a já enunciada maldita desgraça. Alguém assim suplicante e humilhado já bateu de certeza com muita força nas paredes escarpadas da vida e encontra-se bloqueado no fundo dos fundos. E do nada ou talvez não esse anjo negro vai citar um tal filósofo de uma constelação algures sumida: “não olhes para trás, alguma coisa te pode apanhar”. Isto depois do olhar de Cisko ter notado cheio de saudade um retrato seu de dias de glória e discos de ouro. O olhar, o rosto também de uma cortante saudade de um grande actor raro e subestimado, KK. Para mim está ali, naquele território em que os tais olhos flutuantes e desacertados, claramente claros e claramente magoados, essa forma rectangular abrigada por pele igualmente clara por vezes sulcada a sangue ou a rugas vincadas mais por sofreguidões que pela idade, de cabelo em desalinho a cair para os lados e para a frente, para a testa, está aí, dizia então, o que do filme importa, matéria primeira. E é nele, acredito, que a relação tão graciosa, terna e violenta com a sua companheira, com as amantes, com o polícia que o há-de perseguir como a um cão, com o amigo de longa data que vai morrer nos seus braços, é por esse rosto que tudo gravitará e agitará, todos os tempos e abalos nesse espaço. Quem faz estas ligações são os espelhos da alma e outro tipo praticante da sismografia e das fatalidades temporais chamado Bill L. Norton, alguém também de singela importância e caso curioso, daqui a bocado falo mais dele.

Cumprimentos fraternos e zás. Estamos na rua com a mesma música com que tínhamos ficado à entrada. O andarilho na sua vaga demanda em busca de coisa nenhuma. Passa rente à areia, de perto ao mar, a acalmia espreita. Lá vai ele embalado em soluções e sustos, ficares e porvires. Se os cães vão ter com ele como quem busca o osso, também isso terá os seus porquês. Bom tipo esse Cisco, adivinha-se. Como gostava de o ajudar e de lhe cravar um cigarro que me falha. Entra em casa e os passos fazem-se escutar após a porta. Parou definitivamente a melodia baladeira para brotar a quotidiana. Uma estranha luz estilizada a sombras perpassa-o pela viela de pátio, desenha-lhe formas e leva-o à intimidade do casal. Lá dentro em poses místicas a sempre fugidia e carnal Karen Blake faz bom pendant com K.K e em planos simples e frontais que duram o que devem durar e não cumprem as regras da praxe, um jogo de graça e sedução que esconde males-estares recentes, mesmo resguardando o estridente sorriso dela. Falam de velhos universos mas o que está em causa é o novo que o sucedeu. O ângulo altera-se para amar, proteger e perscrutar o rosto, sempre. Astros. Levitações. Sexo irracional. Dizeres inesperados continuam a sair daquelas bocas. Combates de olhos para lá de categorias sexuais. Combates de belezas esquisitas e comoventes. Fornicanço adivinhado. Um palhaço em raccord. O circense espectáculo da lei, da autoridade, da força armada. O regresso a casa e a assombração desses ilícitos actos que atrofiam carne, união, vocação, emancipação. E o mote está dado, fuga para a frente, arrastamento, consumação, desgaste, incertezas trituradoras, também a verdade. Tudo ao inferno.

Bill L. Norton? Dirigiu este “Cisko Pike” e a partir daí sempre a descer, ou sempre a subir, sabe-se lá o que têm dentro os inúmeros telefilmes e séries que seguidamente serviram de seu ganha-pão. Por este filme e por esta época não dá obviamente para o aproximar de um Coppola ou de um Scorsese. Nem mesmo de um Lumet. E para nos entendermos de verdade, estará mesmo longe de James William Guercio, Sarafian ou Schatzberg. A ousadia dos muito simples. O que temos aqui é toda uma correnteza narrativa e formal assente em dilemas morais intricados e aguçados que fervem a cabeça e o interior de quem habita e se emaranha nesses novelos. Correnteza arcaica, ordinária, de baixo nível estético ou então em acordo com o que capta, vagabundo porque sobre as torrentes de sujidade e ar que plana, sem fugir nem mascarar, viscoso e sem extremada iluminação artificial que esconda o ruido que tudo envolve. Incompetência. Irresponsabilidade. Nada de extraordinário como o cinema com C maior que os especialistas convencionaram. Tudo dirigido para aquele rosto, esse rosto como crença de finalmente qualquer coisa, de precioso, de primeiro, de regresso ou só de um rosto. A pura carne e o puro brilho. Nada mais do que um rosto, ámen. Retrato do que acontece a um homem apertado que é especial pois sabe que ama alguma coisa mais do que a tudo. Que terá sempre razão de viver mesmo que tudo alua a seu lado e os amores carnais fujam. Norton nunca será nada demais para o cinema C grande pois limitou-se a quase tudo nivelar para projectar cosmicamente, sem puto medo do palavrão, um dos mais comoventes rostos de que há memória. Esse Billy the Kid do Peckimpah ou esse David que esfrega esquimonicamente o nariz a Ellen Burstyn num tal “Alice Doesn't Live Here Anymore “. O disco que Travis Bickle oferece a uma habitante dos véus do céu baptizada Cybill Shepherd, também nos setenta.

Dúvida uma outra das canções trauteadas se Cisko entre outras coisas será um poeta, um profeta, um provocador, um peregrino…para aceitar de barato que é uma contradição daquelas meio verdadeiras meio ficcionais ou místicas. No fundo, como a “metamorfose ambulante” de Raul Seixas ou o “sonhador ambulante, poeta cantante, vadio das ruas” do já citado Jerónimo. Porque sem questão tudo isto se funde nele e assim certezas nenhumas – um artista, um cobarde, um cabrão, um coração basto, um filho da puta, falso, verdadeiro, um homem. Alguém que para incitar e recuperar o amigo no meio do turbilhão de reminiscências e possibilidades de regresso lhe diz que não é o corpo que eles querem mas sim a alma. Eles, essa abstração mortificadora.

Um tiro às costelas. Uma visão de infâncias de baloiços e anoiteceres suaves. Instantes enganadores. Uniões desfeitas. Um até qualquer dia não pronunciado. No final ficam os Ozunianos espaços vazios juntos com o olhar da mulher que não percebeu que apesar de tudo há quem leve a palavra e os actos até consequências últimas. Planos e bombas finais, um carro e um corpo rasgam outros corpos e outras almas talvez em direcção à quimérica terra de sonhos apelidada Califórnia. Há que continuar.

Digam-me que a obra de Nortan é vulgar e num certo sentido terão a razão toda, no sentido dos mestres ou no sentido do nec plus ultra, dos esquerdismos, independências. Agora não me digam que nas américas de hoje ou nas salas de arte e ensaio se encontram muitos empreendimentos destes, de uma desarmante humildade ao decidir colar-se a uma pessoa e a não a largar por nada, nas vitórias pequenas e derrotas imensas, morte que mata e pequenos suspiros de vida. Obra que nos deixa estar com K.K num copo, ao lado dele por um horizonte, compreendendo-o ou reprovando-o, mas nunca lhe virando a cara. Nada de fresco, espectador, nada mesmo? Então e o homem antes do actor que faz do filme um retrato como coisa antiga? A emoção antes da representação. O que existe nas coisas ao invés do pré-fabricado cénico. Uma afiada aventura pelas entranhas e nervos. A morte de Harry Dean Stanton que ou é uma ampliação óptica da produção devido a uma natureza inocente ou é uma invenção maravilhosa de pudor dos eternos laços – seja o que for, e podem ser as duas coisas, raramente tal inocência se sente primitivismo e bela inconsciência. Norton poderia por aqueles anos setenta não saber fazer piruetas ou embelezamentos, poderia nem ter aprendido as lições dos técnicos, ter chumbado a cadeiras básicas, ou então preferiu a lição do calejamento e do sensível, qualquer que seja a resposta, uma preciosidade, o aumento pelo cinema do não espectacular, o aumento do humano e do amador.


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Há quanto tempo, meus Rosenbaums ou meus Steiners, J e G, o cinema não se contenta em simplesmente seguir uma pessoa comum, uma pessoa que seja? Do mesmo modo e com a mesma modéstia do Rossellini de “Stromboli” ou do “Xavier” do Mozos. Diz-me muitas vezes um amigo meu que o Ford ou o Capra, ou o Costa, conseguiam e conseguem transformar ou transfigurar os homens mais simples (zés-ninguéns; pés-rapados; vândalos, os palhaços tal como o fadista Abel Lopes nos narra - os tristes, os bons, os que se humilham para arrancar um sorriso; borrachões; etc.) em autênticos heróis, monumentos dignos e de espantosa dignidade, puras estátuas hieráticas. Porque agora, agora, neste aburguesamento e ausência de valores grandes, nesta comunidade internacional que prefere o estupidificado à descomunal potência e poder revolucionário do indivíduo de todas as épocas, que se enaltece nos seus pedestais com a pseudo-arte de um Nicolau ou de um Gomes ou de um Honoré, esses que inverteram a moral clássica, ou liminarmente a moral nobre e bela pois humanista, e que orgulhosamente transformam e trituram os simples (nós os zés-ninguéns; os pés-rapados; os vândalos, etc.) em palhaços engraçadinhos, palhaços néscios, macacos, ralé, a tal malta cool que comparada aos Waynes ou Mitchums não serviriam para meninos de coro ou para lhes engraxar as botas de cowboy. E os Rosembaums e os Steiners a adular este deslizamento da colossalidade do homem e das suas questões eternas para a fossa, a adular os morangos com açúcar vertidos para cinema com o paleio Monteiriano ou Straubiano ou nouvellevaguiano a caucionar. E, lamento muito, não dá para defender esta casta oca que faz as capas e páginas de uma cinemascope (revista) sem se ter esquecido do que um dia se passou nos ecrãs e do que se passa ou não se passa agora, do que se sentiu no que já não se sente, cinematograficamente e humanamente. E desta vez não falo, desta vez ainda não, do que estes tais artistas terríveis do cinema pós moderno fizeram ao mundo e ao poder de uma câmara de filmar. À magnificência de David W. Griffith e dos seus Mississippis ou Death Valleys sucedeu a fealdade e o ignóbil dos bobos e dos riquinhos em relação com Áfricas vilipendiadas ou Tejos petrificados. E os Rosembaums e os Steins…Por mim deixo os meus perdões, senhor Griffith.

Se cada um pode fazer o que quer com as suas ideias, o dinheiro que lhe dão, a pandilha angariada, as crenças por demais discutíveis, o talento por demais discutível, etc., se é fascinante a diferença, a liberdade, discussões, dialécticas, guerras, narizes partidos, caralhadas, etc, não vejo outro critério mais decisivo e indiscutível de fazer a separação entre trigo e joio, a beleza, o grande, o mau e o abjecto, que não seja o amor, o fazer por amor, por uma necessidade mortal que por vezes pode levar tudo à frente e mesmo causar desgraças, tudo sacrificar em proveito da feitura. Grandes obras assim germinaram, de Jean Eustache a “Trás-os-Montes”. Quando digo os filmes de Gomes, Nicolau, Honoré, estou-me a esquecer de muitos outros em que durante as horas em que a obra dura não consigo notar laivo de amor ou de generosidade, uma dádiva que não seja de amor-próprio, insinuação de auto-génio, promoção, publicidade. E desta não falo daqueles que são só filmes, que também os há quase sempre escondidos das luzes da ribalta e dos fatos à medida. Fará isto algum sentido, nobre espectador, o amor? Havemos de falar vindouramente, já que a crise continua a vender e os essenciais esotéricos astros a proteger-nos.