terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
“The Bravados” é a história da vingança de um homem que perdeu o que mais amou, tornada questão imperdoável; mas sobretudo o caminho espinhoso que vai da perdição até ao ressurgimento, da morte em vida ao acreditar. Gregory Peck é esse anjo enegrecido caído em desgraça que tem de olhar olhos nos olhos os supostos assassinos da sua mulher, que vai até ao fim do mundo para lhes pagar com a mesma moeda, se equivoca muito humanamente e, nesse entretanto penoso, vê de novo o caminho iluminado e a queda das sombras, opondo a fronha da morte à questão de fé. Tal como em “Jesse James” ou mais tarde “David and Bathsheba”, Henry King trabalha ainda nas temperaturas agrestes e despojadas (e como eram verdadeiros os fantasiosos lustres de um “The Black Swan” até tudo se rasgar…), em correrias afagadas pela determinação e certeza absoluta do que está em causa, carregado de latências que conferem ao todo uma densidade psicológica perto da tortura.
Uma caçada, um percurso, uma busca, com paragem inigualável nesse lugar que será o altar de todas as purificações. Ou de todas as ambiguidades. O essencial passa-se então na noite mais longa do filme. Essa onde se passa tudo, toda a gama que vai do mais visível ao mais opaco. Noite cinematograficamente americana, que então subverte a luz diurna, pintada em transparências que cedem lugar a finos ventos líricos, à dureza das emoções cruas, mas urdida em moldes litúrgicos que tudo transfiguram. Na presença e testemunha de infantes coros orquestradores, Santos de menino ao colo, intrincadas devoções, correrias e abandonos silenciosos, traições, artimanhas, conspirações; e selamentos eternos ainda sem se saber, pedidos de salvamento e predisposição infinita, confiança; Sangue derramado e corpo de Deus; e esse discurso do Padre em reconhecimento de Santo António e em vésperas de enforcamentos que trata de coisas assim: caiu uma sombra, a sombra da forca que se ergue até na noite; a morte inadiável, a lei e César; mas todos são criaturas de Deus, passíveis da mesma misericórdia, das mesmas orações; execuções em Gólgota e perdões supremos; Para todos um novo dia, o mundo gira sempre uma volta, isto já é meu, mas para aqueles quatro da cela cairá a meia-noite das suas vidas, isto a escritura dos juízes.
Discurso que nunca é sermão, muito menos coação, em todo o caso a grandeza e irradiação daquele precioso servo de Deus, bem como a personalidade e estoicismo de Peck nada disso permitiria. Quem não pede, não ouve Deus, diz uma antiquíssima crença do povo. Neste caso, o Deus que interessa é o resgate do lado original e transparente calcinado pela tragédia. E ali aqueles dois monstros sensíveis entendem-se, falam-se, unem-se, não literalmente mas pelos campos/contracampos unos e miraculosos do acreditar e do ofício e da moral do cineasta. Último olhar trocado e volta o coro, algo já mudou, muito já mudou; crimes e transformações na noite mais longa. Sacrilégios e fidelidades. Manchas e limpeza. Veja-se o assombroso e assombrado quadro da mobilização geral de Arriba, esse ciclone visto da janela do homem que dorme para melhor se preparar, que só se pode ligar com o plano mais sintomático e abissal deste todo estilhaçado e compacto, esse quando Peck trava à porta da catedral com a Dama que fez questão em acompanhar, logo depois de lhe confessar o inconfessável, sendo a porta de entrada que os espera um abismo para as mais perenes dúvidas.
Abalámos dali, daquela concentração paroxística, para extensas e altíssimas montanhas, ranchos com livres cavalos, Pais que pedem desculpas aos filhos e recuperam o essencial; outro tipo de sangue derramado, danações a frio, arrependimentos, equívocos sepulcrais, remissões. Em certo lugar, a certa hora e visto o que nunca se deve ver, fica-se cego. Peck não é só ele mesmo na sua singularidade, e é um dos papéis da vida de um actor subtilíssimo quando bem acompanhado (nos seus olhos feridos e molhados toda a medonha elipse em permanente debate), mas milhões a quem a hora da meia-noite também caiu não só metaforicamente. Neste conto ou parábola de horas terríveis, do lobo ou do eclipse ou apocalipse, ele é, sem vergonha da extrema religiosidade sem freios deste monumento catártico (religioso não só pelo catolicismo, pelos símbolos ou palavras, mas muito esteticamente, com o esplendor dos diluídos púrpuras, dos azuis prateados que cinzelam halos, até aos encarnados e dourados que protegem a afecção redentora), a ovelha que estava perdida e regressou. No sentido lato, universal, radical, que regressou a si e ao traçado que instaura o reencontro do homem consigo mesmo (João César Monteiro dixit). Nada maior se pode almejar, no cinema e na vida.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Maquinismos gélidos como só eles, ferro, cabos,
torres; cheiro a seco, cilindros, rodas, motores, cronómetros; uma pequena criatura
no meio, minúscula. E estouram as nuvens, com os raios, a precipitação e o
ataque. É o que acontece na primeira meia dúzia de segundos em “Manpower”, o
caminho da poderosa invenção Terrena até ao domínio dos Deuses. O combate continua,
vomitam-se faíscas descarregadas do céu que nos ofuscam, interrompe-se
profanações de corpos humanos, torrentes de águas marítimas aliam-se às águas
da chuva, falésias resvalam como castelos de cartas de um magnata caído em
desgraça; o nosso auge tecnológico humilhado e clama-se socorro às autoridades,
como no antigamente se clamava para todos os Santos e para Santa Bárbara em particular. Deste lado do tempo e do
lugar já não planamos pela limpidez mas sim escorregámos na sujidade, no ruído,
na completa descarga eléctrica que o filme de Walsh produz. Um minuto e muito
pouco, a planos de dois e três segundos ou menos, que se rasgam, chocam,
interlaçam. Planos imensamente mais fulminantes e breves do que os de qualquer
jovem MTV esfomeada, mas que largam um rasto inapagável. Planos de dois ou três
segundos com a mesma totalidade do inicial de “Saskatchewan”, só que se esfumam,
indelevelmente manchados. Flashes subliminais, clarões ameaçadores, atmosfera
fosca que rara luminosidade deixa passar, e por aqui toda a mestria do cineasta
– na brevidade de cada plano, o máximo de intensidade, fulgor, carga;
paralelas, obliquas, explosões aleatórias, uma batalha impossível entre a
selvagem força da natureza e a ordenação formal das orgulhosas sociedades
modernas. Em intuição aguçada e em ascetismo puramente materialista iremos
pairar, com os problemas e misérias dos pés assentes no chão e o salto no
escuro dos medos, toda a tensão em ebulição.
Edward G. Robinson e George Raft estão
umbilicalmente ligados numa amizade sem preço, e vagueiam pela vida à procura
de rumo como vagueiam nos mais recônditos cimos até que caiam electrocutados ou
sem rede, super-heróis das companhias que fornecem luz às casas e outras coisas
reconfortantes. Homens de poder, energia, borracha, sempre a afrontarem o
movimento imemorial da criação com o seu movimento genial, inventivo, novo,
para o resultado ser eternamente o mesmo, o nosso rebaixamento, tortura,
colocação no devido lugar. Mas este par jamais se trairá ou jogará nos
mesquinhos jogos e passatempos das horas vagas; em causa estão homens que
obrigatoriamente e normalmente se passam dos carretos aparentemente sem causa e
em hiatos insignificantes, formas de compensação de quem toca demasiadas vezes
a morte como se não fosse nada. E do nada, sem nunca o terem esperado, aparece Marlene
Dietrich e o invólucro loiro e luminoso como peçonha, dilúvio ou outro tipo de
magnetismo tão letal como, e lentamente os vai começar a afogar ou a queimar. A
cena da sua aparição é sintomática como uma sentença; está ela a sair da
cadeia, a ignorar o Pai e, no momento em que pede um cigarro, o plano-médio já
está em Raft, que tem a chama com ele; que Robinson se perca inocentemente de
amores por ela, que se case e ignore as instruções do seu ofício, são apenas os
elãs de uma tragédia ali prometida como destino ou crueldade do acaso. O amor e
o poder da carne ou as ensurdecedoras tempestades?
A encenação vai ganhando ainda outra explanação
e ritmo, Walsh como noutras vezes enquadra tudo de frente e monta tudo em
lógicas dramatúrgicas implacáveis, podem ser papéis, cartas, jornais, datas, o
que for preciso irromper no ecrã, com a devida escala; Ritmos e explanações que
numa gravidade surda, mesmo nos trovões e nas bocas dos infernos, preparam o
leito final onde os três se vão encontrar em composição sacra do nacimento do
Salvador, nascendo outro tipo de amor asseverado pela morte; foram precisas
muitas coordenadas estranhas e partidas dos sentimentos se combinarem para
esses dois amados terem deixado que as loucuras momentâneas normais a que
estavam sujeitos tivessem funcionado entre os dois no mais alto grau. Toma
conta dela, diz Robinson para Raft imediatamente antes do seu apagão final,
depois a caravana parte e outro par fica efectivamente. Cinema, máquina entre
as luzes e as sombras, ilusória cartografia das paixões, sempre a vaguear entre
espectros. Das várias alianças e discórdias existentes em “Manpower”, a mais
capital é com o que está para lá do nosso cerrar de olhos. O escuro, que ali
teve de ser a única luz em que acreditar.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
“…filmar a vida dos homens sem Deus, sem moral e sem sentença.” – Jorge Silva Melo a propósito de Raoul Walsh.
Saskatchewan é uma das províncias do Canadá, entre Alberta, Manitoba, os Territórios do Noroeste centrados por Yellowknife e, imponente e a verde incatalogável, as insustentáveis montanhas de Montana e do Dakota já com a América em fundo. Mitologias e oblações realizadas pela matéria ardente ao toque primordial. O ver para crer de Tomé ali sussurrante. Belos e transcendentes pontos cardeais que teceram e envolveram um dos mais límpidos e faiscantes filmes de Raoul Walsh. Pelo Rio Saskatchewan, o que corre velozmente, a tribo nativo americana Cree, os Sioux vindos da fronteira, possantes da derrota aplicada a Custer e os célebres soldados Canadenses trajados a vivo vermelho vão toda a ordem e sentido pôr em causa, para tudo iniciar, passar e terminar em apoteose humanista acima da lei de tribunal. Se jamais esteve em causa aquele mundo, aquele cosmos, aquele Deus e o Destino - mais do que a formação de um estado livre e independente fala-se da presença do Homem no Palco que o antecede e da sua força e sangue e suplicio para lhe dedicar todos os hinos. Missão hercúlea, missão cumprida, com a mão e olhar simples que só desse modo tais coisas se deixam apreender e revelar. Olha e simplifica, escuta e sente, comunhões producentes.
No primeiro plano que resiste ao termo sequência, à apelidada panorâmica ou a chavões de técnica e de escola, ainda com os créditos por cima e com a banda sonora de orquestração, vamos de uma rocha e de uma árvore tratadas por tu no mais incomensurável, até à largueza e respiração do céu em paz, as escarpas da terra, a alvura da neve, o corpo manso, cintilante e tão sedutor dos grandes lagos, os picos de mais troncos que parecem perfurar a paz dos vales tão adormecidos como profetas do Génesis ou testemunhas do Big Bang, a fusão de tudo isso e do que está para além da superfície, para descermos ao nível nosso e encontrarmos dois seres tão pequenos que vão ser tão grandes. A orquestra teve de se mutar obrigatoriamente na presença inteira dos intervenientes da grande sinfonia, e aparece sem aviso a força ciclópica do vento e dos tremores em volta. Tanta flora, exígua fauna mesmo quando incontável. A não separação. Neste movimento que redescobre uma ordem cosmológica plena, uma felicidade suprema sem nome, um presente total e satisfeito, uma evidência tão óbvia e em execução que faz pedir perdão por tontos pecados; essa explanação calma e vibrante do universo, o criador, a criação e a autonomia, nesse movimento extraordinário e singelo está condensado todo o espaço e todo o tempo acontecido, esse que permite o cinema. Toda a moral e toda a prática. Circularmente como todos os princípios e fins e eternos-retornos. A água nítida como um espelho, a neblina a levantar-se como num conto de fadas, o reflexo das montanhas, palavras não retiradas de qualquer verso panteísta mas antes do instinto que tais coisas afia a um soldado que as contempla lá mais para a frente. Ou, como diz um quase póstumo que se levantará pelos milagres das nossas transcendências, a melhor das medicinas.
Assim posto, e como sabemos com gente deste calibre não podia ser de outra maneira, a guerra é declarada e executada em vista da reposição e do direito. O exército militarista junta-se aos índios amigos, índios bons desfazem índios maus, exército bom ignora exército mau, desarmam-se uns e armam-se outros, desobedecem-se a ordens superiores e obedece-se aos mal tratados; machados vencem pólvora, a anarquia humilha a disciplina. Chega-se a caminhar para a vitória que significará possível enforcamento ou para a derrota que os altos decidirão de sorte. Que é a mesma coisa dos socos de Alan Ladd por amor e ciúme animalesco, dos brancos irmãos de peles amarelas, da mulher loira, suculenta e guerreira que tanto caos e esperança semeia. Facções sem nexo, paixões virulentas ilógicas, redenções planantes. Falar-se-ia em esquerdismo, comunismo, guerrilhas engajadas, mas a questão é bem mais antiga e não tão fácil, cheia de terríveis cruezas e de genuínas revoluções. Em tempo de guerra não se limpam armas. Em oitenta e sete minutos, com a concisão que tudo abarca e com o segredo da elipse e do não dito que cede os poderes aos segredos, nessas verduras, azuis e cinzas celestiais da natura e pelos negros e encarnados carregados dos interiores carnívoros e das propaladas almas, Raoul Walsh, não só um dos grandes pintores Americanos com câmara mas também do que nos inflige de tumultos pela paisagem das vísceras, cria ou apanha toda a gama da existência que como num arco-íris que por lá aparece perpetuamente emana, e o constante fado do desajustamento e do encontro dos contrários. Como oração, como desgosto, verdade.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Kools.
I like Kools.
Minty flavor.
Free winds
and no tyranny for you?
Freddie...
...sailor of the seas.
You pay no rent.
Free to go where you please.
Then go.
Go to that landless latitude,
and good luck.
For if you figure a way to live
without serving a master...
...any master...
...then let the rest us know,
will you?
For you'd be the first person
in the history of the world.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Toni
Por António Simões*
Ele
não é só o Toni. Conhecem-no pelo Toni do Benfica. O próprio apresenta-se, até
ao telefone, como o Toni do Benfica, mesmo que esteja a treinar outro clube no estrangeiro.
O Toni do Benfica é mesmo do Benfica. Faz falta ao seu património. Moral e
desportivo.
Jovem
ainda, oriundo da Académica, para onde havia ido, mercê do olho clínico de
Mário Wilson, chegou à Luz na temporada de 67/68. Eu era o capitão da equipa,
recebi-o, percebi-lhe a fascinação no contacto com ídolos da sua infância e adolescência.
Lembro-me de o levar para Sesimbra, onde tinha alugado uma casa de férias,
tinha por objetivo contribuir para a sua melhor ambientação e ajustamento no
começo dos trabalhos com os seus novos companheiros e nas responsabilidades que
teria de assumir nesse seu novo e tão importante desafio.
Volta
e meia, fazemos referência a esse momento. Toni empresta afeção,
reconhecimento. Na mítica e imponente Luz, começava a ser jogador de maior
corpo, de maior opulência, de maior visibilidade, de maior mediatismo. Também e
ainda de maior responsabilidade, algo que não o atemorizou. Entrou na companhia
da humildade, foi um dos seus trunfos. Deu a mão ao combate, foi uma das suas
virtudes.
Entendeu
rápido como é que se jogava com craques, com monstros, assim os concebia.
Depois, foi-se impondo, emancipação consumada, já era um igual aos outros. Atuou
em várias posições, preferencialmente na intermediária, sempre de utilidade
extrema. A equipa aceitou-o bem, ele assimilou a mística. Fez-se campeão num
ápice.
Toni
começou por ser um jogador/atleta para mais tarde se tornar um atleta/jogador.
A mudança operou-se na graça de uma equipa de topo, constituída por futebolistas
muito evoluídos. Seguiu exemplos, veio a ser exemplo a seguir. Anos a fio,
dedicação inexcedível, deixou uma marca proeminente no Benfica, também na
seleção Nacional.
A par
de Humberto Coelho, no termo da carreira, passou a figurar entre os mais
capazes de transmitirem os valores do clube, o seu virtuosismo, o seu feitiço.
Tinha vivido uma multiplicidade de situações, conhecia o Benfica como a sua
própria casa. Na hora da transmissão dos princípios, era escutado, é ainda,
será sempre, com admiração e deferência. E tem obra, muita obra, foi operário
de vitórias, jogador ou treinador, operário especializado, operário abnegado.
Como
jogador, era uma força da natureza. Como treinador, era uma força da vontade.
Como homem, era e é uma força da bondade, do altruísmo, da filantropia. Líder
natural, genuíno, culto. Conversador nato, entusiasmante, erudito. Amigo
diferente, amigo mesmo, amigo sério, fiel, fidedigno.
Nunca
se demitiu do trabalho. Subiu a pulso, realista, assumidamente realista. Soube
esperar oportunidades, sem usar expedientes ardilosos, tudo sustentado por uma
plena afirmação de seriedade, de retidão. A paciência foi arma, decerto
suportada por muitas lágrimas, em privado ou mesmo em público, mas sem nunca
descarrilar do ponto de vista ético. Os melhores, os mais justos, são ou não os
que mais sofrem? Toni sofreu algumas vezes, vezes em demasia, não merecia,
nunca mereceu. E quantas vezes abafou ou silenciou angústias? Em defesa de quem?
Do Benfica, do seu Benfica, do nosso Benfica.
Tem a
suprema honra de ter sido, nas últimas décadas, numa história tão longa, o
único campeão, pelo Benfica, na dupla condição de jogador e treinador. No
último caso, principiou na condição de adjunto, coadjuvando vários técnicos,
uns mais reputados do que outros, mas com a lealdade que o carateriza. Já
titular do posto, campeão, nem por isso foi preterido, aceitando voltar a ser
assistente do sueco Eriksson. Mais tarde, de novo laureado, depois daqueles
célebres 6-3, em Alvalade, já nesse dia era treinador à condição, assumida
estava a entrada de Artur Jorge, seu companheiro e amigo de tantas jornadas.
A
cultura popular tem sinais de crueldade. Prata da casa não faz milagres? Pior
do que isso, é menos respeitada, um sem número de vezes. Disso foi também Toni
padecente. Que injustiça! Tanta dedicação, tantos jogos de maravilha, até uma
imprevista presença numa final da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Era fatura
que se pagasse? Toni resistiu, o seu amor ao clube esteve sempre acima de tudo
e de todos. No meu tempo, já em pleno magistério presidencial de Vilarinho,
substitui Mourinho, depois do conhecido episódio de chantagem e da quase fuga
para o Sporting do agora afamado técnico. Toni não queria assumir, ao contrário
do que muitos possam pensar. Talvez percebesse que, naquela conjuntura, era
difícil ter sucesso. Confirmou-se. Batalhou, de forma incansável, mas não foi
feliz, os tempos ainda não davam para garantir um Benfica pujante e apetente
pelos triunfos e títulos.
Toni,
o Toni do Benfica, deu sempre mais do que recebeu. Mora nas cercanias da Luz,
ainda hoje diz que o carro se engana e vai a caminho do anfiteatro rubro. Coisas
de Deus? Ou coisas do diabo? Coisas, seguramente, de um coração vermelho, cujas
hemorragias, de felicidade ou de dor, pronunciam sempre Benfica. Pronunciarão
sempre Benfica.
[FRANKFURT/ALEMANHA]
* No brilhantíssimo “António Simões – Personalidades e reflexões do mais jovem campeão europeu da história.” Editora QuidNovi, 2013
Teremos sempre Casablanca
por José Marmeleira, Ípsilon, 20/12/2013
Conversa secreta entre Casablanca e Hiroxima Meu Amor, que surgem nas salas
por José Marmeleira, Ípsilon, 20/12/2013
Conversa secreta entre Casablanca e Hiroxima Meu Amor, que surgem nas salas
O que fazer hoje com Casablanca? Vê-lo como um filme de matinée, que cristaliza a utopia de um mundo ideal em que os bons, os justos e a virtude saem vencedores. Ah, doce ilusão, como tantas as que Hollywood criou, impossível ilusão tais os artifícios, os truques, os clichés que ele encena e exprime. Porque não podemos esquecê-los, fingir que não os vemos. O que aconteceu? A inocência secou, o espectador de tanto ver deixou de olhar. Não podia ser de outra maneira. Auschwitz e Hiroshima, o Vietname e tantos outros infernos. A torre de babel erguida pela multiplicação e afirmação das diferenças. A ânsia incontrolável de tudo reduzir a um texto, a uma construção. Demasiadas forças para um filme feito de cartão e olhos brilhantes, em que a propaganda e a história de amor se enovelam. Até o seu lugar na história do cinema, apesar do elogio de alguns críticos, permanece modesto. Esse é o destino reservado aos filmes que não passam de mero escapismo, cultura média para um público médio. Eis a sentença. Como é diferente Hiroxima Meu Amor, de Alain Resnais, com as suas imagens verdadeiras, com o documental a abrir o caminho para ficção, guiando-a. O espectador sabe onde está. Existem, é verdade, coincidências. Ou melhor, há, referências, ou (porque não?) clichés comuns aos dois filmes: o nome Casablanca, cigarros e álcool, um avião que parte, a Marselhesa e um amor impossível. Podem ser explicadas: as artes narrativas pilham com frequência o mesmo repertório e há uma evidente contiguidade em termos históricos: são ambos filmes tocados pela guerra. Mas Hiroxima Meu Amor é um filme de traumas depois da barbárie. Traumas no espaço, nas relações, nos corpos dos amantes (Elle/Emmanuelle Riva e Lui/Eijo Okada) que deambulam atormentados pela persistência do passado no presente e a erosão do amor num mundo cada vez mais abstracto, sem verdade, sem mentira (não é isso que a “Marselhesa” que passa, muda, nos diz em surdina?). Só as leves carícias que trocam, o desejo, lhes transfiguram a angústia (“Dás-me muita vontade de amar”, suplica Lui, o amante japonês). Há uma ternura neste filme que resiste à memória e ao esquecimento que as personagens tanto combatem, tanto temem. E no fim, se não se reconciliam com a História, aceitam-na. Ele é Hiroxima, ela é Nevers. No passado, no presente e no futuro.
Mas voltemos a Casablanca, esse filme modesto e fantasioso. Tentemos olhar mais do que ver, aceitar a história que nos propõe. Quantos não viram nele, durante a adolescência, um consolo para descoberta das atrocidades nazis? Um refúgio temporário da confusão do mundo? Sim, os olhos de Ilsa Lund (Ingrid Bergman) brilham demasiado, mas nas suas palavras, no seu rosto, ressoam uma beleza e uma dignidade que fazem falta (apaixona-se pelos valores, apaixona-se pelos homens). E Rick Blaine (Humphrey Bogart)? De rosto feio, afundado em olheiras, quando interrogado sobre a sua nacionalidade responde entredentes: “bêbado”. Não arriscará o pescoço por ninguém, até o que passado reaparece ao som de um corpo e de uma canção. Depois, Casablanca far-se-á de luz (com presença luminosa de Ingrid Bergman) e de sombras (quase sempre nas costas de Bogart) e a propaganda desaparece sempre que o piano toca As time goes by. A amargura de Ricky vai, então, transformando-se na ironia teimosa, na maturidade existencial dos velhos (atributos do homem bogartiano, segundo André Bazin). Continuará a fumar e a beber, sem se rir (nunca se ri), sem se entusiasmar, mas já se libertou do passado. E esse momento acontece cedo: quando autoriza que a orquestra toque a Marselhesa sob a direcção de Lazlo. Por isso quando Ilsa lhe confessa não saber o que está errado e o que está certo, ele já decidiu por ela, por ele, por todos, com as sombras e a luz transformadas em nevoeiro. É um dos momentos mais belos e justos do cinema e, por isso, dos mais memoráveis. Setenta anos depois da sua estreia, Casablanca resiste não apenas enquanto filme (e é um grande filme) mas, como obra que, com as suas ilusões, nos ensina uma conduta, uma ética. A de um homem de cara feia, fumador, que, a favor dos bons, aceita a condição humana com a maturidade existencial dos estoicos. Onde estão eles hoje e os seus filmes?
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Tantas certidões de óbito que desde sempre se
enganaram que não dá para acreditar. Violentos tiros, acidentes brutais, desfigurações
cruéis, cinzas primeiras. Silenciosos rasgares, bizarrias e estraçalhares
trágicos, avisos terríveis, acusações directas, vinganças. A causa da solidão
foi a que mais virou a cara ao papel e à tinta derradeira de tantos homens ou
de tanto ser, solidão nunca escrita, sempre calada. O arrepio de não saber onde
ir ou o que fazer e para quê, a questão primeira e última da finalidade, o amor
jorrante tristemente não dito, nada matou tanto como essa vadia. A morte é uma
flor que só abre uma vez, começou por escrever o poeta Paul Celan num dos seus
mais dolentes e lúcidos versos, para acabar soprando que Abre sempre que quer,
e fora da estação. Houve quem já trouxesse este tipo de vento da barriga da
Mãe, houve quem o possuísse nas rajadas da vida.
Nos velórios é que nos costumámos lembrar do que
andámos a provar…Astros, cometas, gazes, poeiras. Espaços tempos infinitos
convergindo aos terraqueamente cronometrados milésimos. A terra batida ou o
macadame diário, o bom dia dos simples e a vénia forçada. O pão que se dispensa
à saída da venda, o copo que não se bebeu sem justificação, a pança a abarrotar
de pura gula. Equações simples, instinto afiado. Senhor, animal. Criança,
charlatão. Essa morfologia das coisas, a ascese transfiguradora, secreta
correspondência entre tudo de tudo.
Film noir é realidade. Noir, negro, escuro,
desamparado, despido, términus. Tanto quanto o melhor verismo, naturalismo,
realismo. Toda a contenda das luzes e das sombras, dos volumes e da
fantasmagoria, todo o inferno de ângulos de câmara, descentramentos vários, filtrações
dúbias, reflectores e deflectores torcidos, só serviu para expor essa
evidência. Reconhecimento do corpo e coração e bafo, anatomia do lugar e da hora.
Estamos neste mundo e ele foge-nos. Caleidoscópio evolutivo e irreparável que
séculos e séculos de evolução não conseguem amainar.
Era apenas um homem. Richard Widmark, Harry
Fabian, no “Night and the City” de Jules Dassin. Foi há uns tempos que num
tasco tão igual a tantos sujos outros apanhei um bêbado genial que por acaso acumulava
as funções de servente e disc jockey e dono, e que depois das típicas e
genuínas considerações e divagações só permitidas a alguns felizes nesse estado
atirou: só há uma coisa que me deixa fora de mim, a coisa do coitadinho;
coitadinho, coitadinho o caralho, cada um faz por si…e se possível por todos. Genial
remate e moral para o ser humano maravilhoso que lhe estava marcado nos olhos,
na voz, na vertical inteireza, na raridade que não dá por si. Passado pouco
tempo lá voltei e o seu estado sóbrio já o atrapalhava nas bebidas oferecidas
como na não lamechice da sua colecção de discos já todos riscados de sempre a
mesma cantiga.
Apenas quero ser alguém, é o que brada
furiosamente para o calhas o artista sem arte Harry Fabian, a eterna terna
convulsa criança como também lhe chama a amada de Gene Tierney; terna e
violentamente atormentada por marcas imemoriais da raça. Dos seus delírios de
grandeza e dos sonhos irresponsáveis até à madrasta sorte e à sua preguiça do
deixa andar; desenrascanço inocente e apelo dos brinquedos e da noite cortado
por uma chico-espertice que lhe assola as veias, HF faz parte da casta dos
perdidos que jamais atiram a toalha ao chão, que vão à luta mesmo que sem
chances nem anjos, que quanto mais levam mais procuram, flirtando com a morte
como quem joga seduções com a mais formosa e fatal das mulheres.
O que me leva, à maneira do impagável Baptista-Bastos,
a outra estória completamente verídica – quem o conta está aqui, quem o quer
saber vai lá – a despropósito, e que se der uma luz suplementar a tudo isto
será daquela qualidade atraente que a do Bar Cid adquire às sete da matina
juntinho ao Tejo. Ainda no milénio passado o Pai dos meus dois melhores amigos
de Bracara Augusta era construtor civil, outro mestre da aritmética da
não-ilusão e das soluções artesanais que a crescente tecnocratização
obrigatoriamente abateu, desses que em todos os Natais, Páscoas e férias
grandes e muitas vezes pequenas oferece uma jantarada à sua classe operária,
neste caso a trolhice de corpo inteiro e pura como só ela. Na churrasqueira
habitual e despejados os garrafões de tinto habituais, talvez já depois do
concurso de anedotas em que o Pintor insistia em Bocage com ou sem graça e era
humilhado e de toda a confraternização seríssima e porca, surge um descontrolo
aparentemente sem causa de alguém que eu não me recordo o nome mas que penso seria
da dura áreas das betoneiras. Sou o maior Filho da Puta, dizia ele em loop, o
maior Filho da Puta, o maior à face da terra. Não és nada, és um amigo como não
se encontra, gritavam-lhe e confortavam-no, para ele insistir raivosamente e
emocionado que sim, que o era, que mais do que isso, era o Filho da Puta número
um. Eu sei-o, sou o Filho da Puta número um. Podiam-lhe falar em Primeiros-ministros
ou dirigentes futebolísticos que ele não cedia, àquela hora tardia e na
circunstância era o Filho da Puta número um. E Deus e os homens que o conheciam
sabiam que no dia seguinte de pica-boi ele não iria ter competidor à altura,
seria o maior dos profissionais e tipo porreiríssimo para o que desse e viesse
na obra ou na intimidade. A coisa do Filho da Puta – proibido confundir com a
filha da putice ordinária - ficava ensombrecida em recantos ou elipses que
ainda menos homens saberiam. Antros benditos onde o cinema não tem qualquer
hipótese de convocatória e que por isso mesmo só com ele pode rimar. Estou a
falar desse inesquecível trolha ou estou a falar de Harry Fabian numa das mais
portentosas criações de um actor sem herdeiros? Continuemos na obra de 1950.
Quando o negro que aprisiona todo o filme permite
vestígios de luz e utópica transparência para o conto e a dita magia penetrar e
obscurecer a tela, já esse pequeno gigantesco delinquente de fama feita corre, suspira,
geme, pede desculpa e vai mais além no golpe, engasga-se e apraz-se como que
eroticamente. Ser pululante ou super-herói invasor de telhados, chaminés, ícones,
à beira do céu e de estrelas que o olham com pasmo por estar onde costuma estar
a animalada ou perto de Deuses. O seu movimento é o movimento do filme que por
sua vez é o da vida dele. Contendo todas as energias do chamado bem e do
chamado mal, do bom homem e do seu oposto. Movimento total que nunca se decide,
em fluxos enviesados, estabilizações enganosas, escorregadelas constantes, sem
nunca entrever um centro de equilíbrio, coisa sadia. HF não anda, desliza, voa,
baila, ri e ri-se, chora, aflige-se, solta-se. Viu e ouviu o mais grave mas
também aposto que sabe da beleza suprema que não muitos mais sabem. Gene
Tierney, sim, mas também os brains and guts que se orgulha de ter e que ainda
aposto que rasga o que muitos de nós não rasgámos para nos borrarmos todos. Esse
início é extraordinário e representativo como água queimada e fogo gelado
porque nos apresenta na cara a complexidade de alguém, a impossibilidade de
etiquetas e mitos estúpidos. É um movimento de um simples e uma correria sacra,
cósmica, eterna, além.
E a penúltima cena, essa sublime e
comoventemente desossada antes de ir parar à fossa ou a um paradeiro de
escassos. Quando vai ter com uma velhota que de certeza andou com o monstro ao
colo, lhe terá dado leite e não se lembra de dele não se lembrar. Ele aterra
ali naquele País tão bonito de humildade e não lhe pede um doce mas pede que o
ajude a parar de correr. Arrepende-se possivelmente porque já sente a morte
como antes nunca a tinha sentido e começa a desfiar passado, as coisas que eu
fiz, ela amava-me, tive perto do topo e da fama, aquele rosto, etc, etc. E ela
reaparece ou aparece daquela maneira como só ao cinema foi concedido, sempre
coisa de aparições, coisa de varinha mágica e realidade escancarada e viril e
perigosa, de inexplicável e de contracampo fulgurante, para abraços últimos,
olhares últimos, beijos últimos. E faz-lhe saber mais do que amor, de
admiração, trabalhaste mais do que todos…sempre nas coisas erradas. Que faz
raccord inconcebível com algo que lhe infligiram lá para trás, aquilo de quem
nasce hustler vai morrer hustler. Hustler que quer dizer mais do que o
aparente. Monstro que se meteu com monstros de outra ordem se calhar eunucos. E
não falo dos monstros da luta livre ou greco-romana que o iludiu mais uma vez
ao negócio da sua vida. Ou todas as ordens cambiadas – pois há monstros maus,
monstros bons, monstros generosos, monstros vingativos, eróticos, sublimes,
feios, bonitos… E novamente o corrupio catatónico, a afogação, entropia. E
todas as desconfianças, demências, acusações. Reverso do amor que jamais os
cimos, os controladores dos fios e das agulhetas, lhe permitiram soltar sem a
cópula que o corrompe.
O esgoto, o cigarro na vez das flores, o
apagamento. E a solidão vazia, o vazio da solidão. Certidão de óbito cancerosa.
Era só um homem. A outra gaveta, a do género…Dassin e o contraluz, nevoeiros
crepúsculos ou fumo de cigarro de vida e de morte, predestinação…Dassin agarrou
em tudo para penetrar no mais fundo da ferida como no mais fundo do sexo se
entra já arrasado de cuidados…e tudo se simplificou naquela verdade dolorosa em
que se sabe tudo e já não sabemos mais nada. Só um homem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








