quarta-feira, 18 de setembro de 2013



“Adeus Lisboa”

um filme de João Rodrigues

Produção, Realização, Argumento e Montagem: João Rodrigues/ Imagem: Diogo Sequeira, João Rodrigues e Tiago Costa/ Som: Tomé Costa/ Interpretação: José Lopes e João Rodrigues

Produção: Escola Superior de Teatro e Cinema (2012)/ Cópia: Mini-Dv, cor /Duração: 20 minutos


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Os filmes dos alunos de uma Escola de Cinema, mais os últimos do que os primeiros, não se costumam afastar de algumas ratoeiras em que muito facilmente se cai no rol dispersivo, mas tantas vezes castrador e formatador, que os planeamentos e os prazos do curso abarcam. Isto para deixar de fora todas as guerras de personalidade ou falta dela de muitos formadores, assim como a relevância dos egos e as relações dúbias. Concluindo: o produto final costuma variar entre a imposição do génio, o realizador já feito que tem obrigatoriamente de mostrar demais e enfeitar demais, dando mostras de que está pronto para o mercado de trabalho competitivo e para os prémios – o lado da publicidade; os que caem numa radicalidade supérflua, normalmente contra a academia ou contra o próprio cinema, sendo estes muitas vezes mais académicos e inúteis do que o que criticam – o nada informe; ou, talvez o pior, adentrar pelos caminhos do grande tema e da grande importância, amiudamente acompanhados por filosofias e teses emprestadas e gritadas à boca cheia do compêndio em voga, numa pretensão de superioridade que mata qualquer tipo de integridade – o lado pedantemente artístico. 

“Adeus Lisboa”, o filme que agora vamos ver, vem da Escola Superior de Teatro e Cinema e da mão de João Rodrigues. Abre a negro com uma voz cansada e sabida a cantar os “Olhos Negros” e fecha com um Adeus total e sepulcral vindo do fundo de Friedrich Hölderlin. Para nos contar muito classicamente e calmamente a história de um Pai e de um Filho entre a intromissão inesperada da doença. Para só nos contar, se quisermos, a história dos dois. Mas muitas coisas mais, crónicas de amores, geografias sentimentais, episódios inesquecíveis e fascinados, a doçura e a tormenta que agem pela memória e pelo sangue, passados e presentes silenciosamente expostos. Ou o regresso final a uma natureza, a uma origem, essas ilhas encantadas de uma infância ou velhice, e a uma longitude mais uma vez a negro traçado, num temperamento e num cinzelamento que não posso deixar de ligar a Pedro Costa. Finalmente, regresso ainda ao bom sentimento perdido.

Mas vamos estar defronte a uma obra livre, de uma sensibilidade à complexidade humana e com uma apropriação e altura das formas surpreendente para uma segunda obra. Veja-se o primeiro plano, radiografias e relatórios patológicos espetados contra uma parede e um fundo inexpressivo, ampliado por uma envolvência sonora que tudo dilata e extravasa até a um abstracto de uma precisão, economia e consciência das distâncias aprendidas na série-b ou na filigrana de um Jacques Tourneur. E para encurtar o que pode passar por exagero, atente-se e sinta-se o trabalho que a elipse opera sobre os corpos, os ditos e os calados, ou as proporções do enquadramento. Poucas coisas de artesão, duas ou três, mas levadas até ao fim - esses rostos destituídos de psicologia barata e as envolvências frontalizadas mas carregadas de zonas misteriosas que nos últimos planos perdem a simetria, ali na queda de um corpo que não impede que a música e o coração continuem a bater - que num tempo indeterminado parecem almejar o tempo de uma vida e logo traços do percurso de um cosmos inteiro. 

Cosmos que se concentra na intensidade e na tensão do todo mas que está sobretudo no Pai, representado pelo imenso actor esquecido que é José Lopes. A dimensão, a profundidade do seu olhar e o seu peso enchem de tal forma o espaço rigorosamente esquadrado que tantas vezes o parece extravasar, de um modo muito similar ao que John Ford fazia com, por exemplo, o Woody Strode no “Sergeant Rutledge”. “Sempre fui um desalinhado”, disse uma vez José Lopes por aí ao vento, frase de que normalmente e com tantos desconfiaria, porque nos medíocres cheios de autoconsciência, mas no caso absolutamente validada pela vida, biografia, incluindo a visão da arte a ela ligada, bem como o seu método de representação singular e anacrónico. Lembraste-te de John Garfield? Só tu, no momento capital em que à mesa se comem batatas e peixe com muito sal, poderias tudo aliviar e unir a lancinante humor com um “espero que não me obriguem a comer comida de doentes”.

Por isso é perfeitamente natural e justo que “Adeus Lisboa” tenha a sua primeira projecção na Cinemateca Portuguesa. Pois um filme que praticamente rompe com um quadro que nos seus nove minutos tem quase metade da duração do total - respirando e afunilando ao seu ritmo autónomo com um insert lá no meio que não corta e que algo deve significar: dádiva? transmissão? apenas e só o que mostra? – e que devolve tal actor ao merecido patamar dos grandes demais para as novelas e punhaladas nas costas, tais preciosidades e resgates, não se compadecem com o circo festivaleiro e os mercenários do dinheiro. Tenho que parar nesse momento, para ficar com esse quadro que tanto me lembra Camille Corot, onde as estátuas plantadas nunca são estátuas mas tudo vibra com os elementos presentes, tudo treme, abana, rescende – as folhas das árvores, as árvores, o vento com o sol que vai escurecendo e iluminando a cena em radiações e texturas imprevisíveis, mas também almas, cabeças, carnes, peitos. Quadro que rima obviamente com aquele em que o Pai observa e cobre o filho que dorme ou não dorme, numa ilusória quietude fantasmática impregnada de múltiplas cambiantes.

 “Adeus Lisboa”, num conto que a esconde do bilhete-postal para a devolver e purificar pela palavra e pela emoção, é uma verdade prática e poética que emana momento a momento e na lembrança duradoura.

Que mais actos assim despidos e fortes nos cheguem, de uma Escola ou de qualquer parte que saiba o que é o tudo e o que é o nada, o lado que se escolheu e de onde e como se vêem as coisas. Que o terceiro filme de João Rodrigues e os próximos de José Lopes não tardem. E que salas destas os exibam no mesmo ecrã e no mesmo dia de um Mizoguchi.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ADEUS LISBOA de João Rodrigues




17 de setembro, às 21h30 na sala Dr. Félix Ribeiro

Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema 

terça-feira, 3 de setembro de 2013




“Eles subiram à planície da terra e cercaram o acampamento dos santos e a cidade predilecta. Mas um fogo que caiu do céu devorou-os” Apocalipse 20:9
 
 -What's the matter, Sam?
- I don't know.
- Scared, I guess.
Diálogo do filme.
 
“Between Heaven And Hell” é a história ou o fragoso percurso de um homem que desde a sua pacífica terra natal até aos demoníacos campos de batalha lá longe vai perdendo quem ama ou começa a amar. Entre o Céu e o Inferno, certamente o limbo mais ingrato e terrível, o cada vez mais aflito e contorcido soldado Gifford (um sempre triste Robert Wagner entre travesso infante e empertigado adulto falhado), vai entender, pela dureza e pelo focinho da morte que o acaricia delicadamente, aquilo que não entendeu no seu algodão caseiro. É a trama da consciência que é o mesmo que dizer a fulminância do medo. Com certeza exíguos na terra o suportam, e a este pobre que a casualidade ou a loucura ceifou redenções e recomeços em forma de novo amor, vai descobrir - entre a posição vertical que o mantém de pé, com a pasta dos ossos, carnes, sangues e diversos compostos químicos e animalescos em tensão, e a horizontal que o deita e o poupa, o arrefece - que as falhas ou pecados ou heranças se pagam no corpo, vão para ele sem pedirem licença e dele saem em combustão. Chagas não fornecedoras do perdão ou da água benta prometida. E assim, mais uma vez, todo o alcance do esqueleto originário, dos traçados e da composição no grande embate existencial. O filme que Richard Fleischer tinha obviamente de fazer é um dos pilares mestres da complexa pirâmide multidimensional que foi erguendo sem meias-medidas, porque  ainda mais do que atordoante belicismo é algo da ordem do sagrado e da eternidade, isto antes de “Barabba”, numa portentosa ascese crística de obstinações e vias-sacras, onde o arranque final para casa tudo obscurece - o indivíduo, a sua circunstância, os seus cadáveres.
Envenenados ou sujos charcos da memória, vales da volúpia e morte, pólvora anunciada. Primeiro a Mulher que o tenta converter, depois o Pai dela que lhe descobre a tragédia, por último esse colossal Waco (Broderick Crawford muito descontrolado, assolado pelo abstracto que rói, muito tocante), poço de contradições que cristaliza as de Gifford e lhas entrega demarcadas. Por de volta todos os actores do circo que gira perfeitamente sem o seu volume e o seu espírito, esses todos que o tornarão imagem da perdição e, consequentemente, de uma inadaptação à terra. Nele, todos. Em todos, aquele corpo vergado. Incontáveis milhões de anos, oráculos, resoluções e não sabemos o que fazer por aqui. Tristes guerras.
E a respiração ecoante que não se pode deixar de ouvir, pois se cavalga diversamente das tripas e do visco que lhe vem como suor e o paralisa, falha-lhe, cala-o, consome-o fátuamente na intempérie e na sua rememoração. Salgação e bafo do apagamento. Entre o presente frontal e a sua lembrança oblíqua, surge-nos o ser, e a dificuldade ou a impossibilidade de o domar a bel prazer. “Between Heaven And Hell”, que é, à medida de “The Naked and the Dead”, “Apocalipse Now” ou “Heaven's Gate”, todo enlaçado em plano sequência, todo, malgrado ou até mais pela sutura classicista e temperamento camaleónico (magnético), a quente ou a frio conforme. Uma totalidade. Regras e cátedras a falecerem no fluxo cósmico que tudo varre, abarca, possuí, interpreta e pergunta. No centro de todo o estardalhaço, em todas as direcções, o cúmulo da síntese e do foco essencial, fluindo sem escape. Como um vento novo muito livre e muito sabido, avisado, que quer ver as coisas sem se intoxicar. Límpido porque consciente de tanta angústia, sofrimento, hermetismo, consumição, corrupção. E ao diminuto ou titânico, denso ou pueril, filósofo ou vagabundo, afecto, desprezo – a mesma intensidade da verdade…ou, se ainda puder ser, da crença.
A nossa inadaptação à terra, é isto, para se viver tem de se saber amar e morrer e matar. Tantas vezes tudo no mesmo palco. E a estupfacção disso.