"35 anos depois, O movimento das coisas"
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"O
Movimento das Coisas"
So
many images saved to fade away.
Try
it to show how it feels to be alive.
As a
witness, I am part of it.
I
take the risk
And I
look back without regrets,
Robert
Frank, Agosto de 1990
“O Movimento das Coisas”, de Manuela Serra,
concretizado entre 1978 e 1985, nunca chegou a estrear comercialmente em
Portugal. Manuela Serra, a realizadora, faz parte de um grupo muito estrito do
mundo do cinema, ao lado de nomes como Charles Laughton, Barbara Loden, Peter Lorre
ou Marlon Brando, entre outros muito raros, por demais corajosos. Ou seja,
assinou só um filme, mas tocou em tudo o que importa no Cinema como na Vida,
matéria e espírito. A história é conhecida por alguns: depois do 25 de Abril e
na febre de liberdade e de cooperativas que pudessem alcançar e manejar tal
sede, Manuela Serra, sempre valente, meteu-se num automóvel e depois de tentar
o Sul, os Centros e os outros lados, foi parar ao Norte, encontrando o seu
Paraíso numa pequena terra encravada entre Braga, Ponte de Lima e Viana do
Castelo. Lanheses, assim se chama esse Paraíso Perdido, detém ainda hoje uma
beleza original que parece conservada desde os inícios da criação, e Manuela
obteve-a imediatamente por uma limpidez de aproximação e de olhar que tudo lhe
retribuiu. Lanheses aparece como lugar de beleza desmesurada, carregada de
tempo sem tempo, espaço para todos os maravilhamentos e harmonias, abstracção
sem idade. Toda a inocência, as brumas e as águas densas e claras, os
sentimentos e sentidos belos que inundam o filme, não são criação e forçamento
da máquina e da técnica do Cinema, mas estão lá, de raiz, e então emerge a
única e fulgurante comunhão entre o que se filma e como se filma, quem
representa e quem apreende, natureza e intenção. De onde não faz qualquer
sentido as imemoriais e gastas fórmulas que separam documentos e ficção, quem
manda e quem obedece, o ponto de vista e a ontologia. Existem e até abundam os
chamados zooms, mas há que perceber e, sobretudo sentir, que jamais é
facilitismo ou figura de estilo televisiva, mas antes lenta aproximação e
confluência ao coração das coisas e dos seres. Maravilhamento mútuo. Temos a
sedutora flauta de José Mário Branco, mas esta nunca embala simplesmente
movimentações ou cores à maneira de muitos videoclipes posteriores, sim faz
corpo com o que nasce na tela. Nasce, assim mesmo, pois parece tratar-se sempre
de um movimento criador, recém-nascido, bruto, quase monstruoso ou por vezes
monstruoso mesmo. Consanguinidade e reconhecimento – a câmara estará sempre
onde deve estar, a lente a ínfimos centímetros da coisa amada ou a quinhentos
metros, o passarinho cantará no momento devido, a Mulher embalará o bebé ao som
ancestral da desfolhada. Movimento e tempo, é isto que vai desde a presença no
ventre até à infinita eternidade - “O Movimento das Coisas” é composto por três
dias, e acompanha outras tantas famílias, mas todas as auroras e crepúsculos,
pequenos-almoços e deitares, uniões e contendas, atracções e contrários, só
estão assentes e apelam ao presente. Presente finalmente absoluto e puro.
Contemplação também, mas não a habitual que cede ao vácuo ou ao aleatório,
antes contemplação que se admira e extasia no constante irromper e surpresa das
coisas aparentes e ocultas. E assim, desta vez nem de acordo pleno estou com
João Bénard da Costa – o maior entre os maiores e um dos poucos que separou
imediatamente o trigo do joio – e acredito que se ele pudesse ter visto mais
vezes as explosões e acalmias cósmicas que se centram, descentram, ordenam e
reordenam, Manuela Serra teria sido imediatamente posta ao lado de António
Reis, de António Campos, esses que por si só criaram uma bela ilha iluminada
pelo mesmo sol de todos os superiores criadores. A força telúrica e queimante
dos elementos em relação com uma montagem que também cria significações e
avisos ao Homem e à evolução – basta referir, entre muitos outros momentos, a
questão Cristã em alternância com as águas do rio; tanto como os motores
furiosos contra as vacas e as feiras ou a maçã podre dessa infernal Fábrica que
tanto ameaça – alcança uma transfiguração superior, de onde a Poesia sem
amarras enlaça com as amarras da nossa ambição. Poesia, palavra derradeira e a
única que pode assentar na extrema simplicidade e complexidade desta obra
total, indefinição para lá de todas as considerações ou análises terráqueas.
Total e a todo o momento possuidora da fragilidade e da sensibilidade mais
imediata ou subterrânea a cada um de nós. Renascimentos, ciclos, mutações,
rotações, translações, o efémero junto com o inabalável, é o movimento das
coisas, sem trocadilho ou ironia. Se somos lavados e purificados por uma brisa
inaudita, também sentimos perigos e ameaças de que convém desconfiar, sem
legendas ou gritos mas ao canto do olho.
“O Movimento das Coisas”, nunca estreado em
Portugal e com poucas projecções lá fora, nunca teve grandes hipóteses por tal
convocação e presença de Cosmos, tamanha ousadia de uma jovem cineasta que
tanto metia em ordem como apagava todas as demagogias que muito do cinema dessa
época e particularmente das cooperativas demonstravam, isto para não falar das
boas intenções de samaritanos encapuçados. E há que dizer que nenhum dos
cineastas dessa época, da seguinte ou da de agora, ultrapassou o que aqui se
alcançou de graça na feitura – milagre da dádiva e da recompensa das mãos
vazias – para ser pago inumanamente depois – tanta beleza e genuinidade cegou e
trouxe ao de cima o pior da raça, o nojo da vaidade e da dor de cotovelo, a
cobardia de quem teve de travar de modo fascista essas constelações que bailam
e cintilam além cinema. Percebendo que o génio essencial está na natureza, esse
orgânico contra o qual nada podemos, e do qual metafísicas e religioso fazem
parte indestrinçável. Génio da natura, não pretensão de artista. “35 anos
depois, O movimento das coisas” é um pequeno presente, um agradecimento a um
ser humano maravilhoso que eu, a Marta Ramos e o Mário Fernandes decidimos em
boa hora oferecer à Manuela. Se possível, para tentar aniquilar algumas
injustiças, mas, acima de tudo, para que quem nunca viu o filme original, o
possa descobrir pleno, dos Lanhesenses até ao cinéfilo de Lisboa sempre ávido
da catarse. Tudo é para ela e para quem assim quiser mergulhar, de maneira
absoluta, fazendo do medo caminho para a revelação, suspendendo os brilhos
falsos do reconhecimento de carreira e das perspectivas argentárias. Como diz a
sinopse, tratou-se de acompanhar o regresso da cineasta Manuela Serra a
Lanheses 35 anos depois de lá ter realizado “O Movimento das Coisas”, mas,
antes de tudo, concretizar um antigo sonho, justiça poética, viagem escrita nas
estrelas que o destino e os bons sentimentos encarreiraram a ferros, dor e
inevitabilidade. Uma família, confraternização e viagem, íntimo e comum,
resistência e disponibilidade, que permitiu encontrar - sempre os Encontros -
uma pessoa como o Sérgio Moreira, que no nosso humilde filme tem o peso e a
transparência do Paraíso que há 35 anos Manuela foi descobrir pelo Rio Lima, o
tal do esquecimento – foi ele, exegeta incomparável e amador da terra, que
identificou Lanheses como a personagem principal do filme, conhecendo e
reconhecendo cada folha ou cada muro, cada criança já crescida ou Ser
desaparecido, cada tonalidade, constantemente atento aos ritmos e respirações
particulares, como era e como é; foi ele que moveu as montanhas do esquecimento
para precipitar o adormecido sonho. E obviamente encontrar toda essa afável
população, do Mestre Caninhas da inesperada jornada de barca, até ao Dom
Lourenço d'Almada que humildemente abriu as portas do Paço de Lanheses à
Manuela. Em torno, num só corpo abraçado pelas nobres circunstâncias, a
determinação da Marta Ramos, a atenção do Mário Fernandes, a dedicação do Rui
Pelejão, o companheirismo da Filipa Gambino e do Bruno Ramos, do João Palhares,
do Hiroatsu Suzuki e demais. Galgando pela Capital ou de certeza na Cinemateca
sua casa, a velar por cada um de nós, José Lopes, o imenso actor atirado para a
lama e esquecido pelo meio podre, que na carta lida numa estação de serviço
como que redime todos os crimes. E mais do que isto, já no campo divino e
perigoso da fidelidade sem freios, estes não foram ao Paraíso armados até aos
dentes da curiosidadezinha antropológica da praxe, citadinos e bem formados que
olham de cima sociologicamente falando, com o compendio teórico da moda numa
mão e a super-registadora na outra, cravados de pecados e amarelamente
sorridentes, mas obviamente perceberam como a Manuela Serra tinha chegado na
primeira idade àquelas águas e àquelas quentes casas e almas, como chegou toda
disponível, despida de intenções, pronta a aprender e a partilhar. Outono
Peckinpahniano unido ao mundo inaugural de “How Green Was My Valley”, tudo se
une e reúne, fim e começo, e então trata-se de passar e deixar testemunho do
que foi e do que já não é ou pode deixar de ser brevemente. Da parte que me
toca, e sei que aos outros tocou na mesma, encontrei na constelação do rosto e
na firmeza das gentes de Lanheses algo que tem de ser imutável, exemplo da
grandeza do Homem que não pode ser traída ou vendida, que tem de ser defendida
a sangue e a morte. Grandeza igual à das grandes Mães e Avós, nossas ou de John
Ford ou Reis, que nos deram as genuínas e generosas lições que nenhum livro
épico ou bíblico, objecto artístico ou cadeira académica sequer se aproximou.
Que é o que consta também na conversa que vagamente estrutura o nosso filme,
gente que teve e deteve esse amparo, dureza e carinho. Dureza e carinho, toda a
ternura como toda a severidade, onde uma não existe sem a outra,
correspondências exactas onde um beijo ou um berro querem dizer rigorosamente a
mesma coisa. O nosso trabalho consistiu então em tornar mais fortes as palavras
a par da recordação e erupção do filme primordial, do agora e das deambulações
perpétuas. As coisas, movimentos ou temperaturas, como as pessoas, ou são ou
não são, e se seria impossível e ingrato fazer jus pleno ao que tentei meter em
pobres palavras neste texto, igualmente seria meter em imagens e sons.
Pessoalmente, outra vez, nunca me senti tão nervoso a fazer um chamado filme,
berrei e desesperei, fui injusto e perdi-me, não me reconheci e fui aos fundos
nocturnos, e a única coisa que posso dizer em função disto é que vislumbrei, e
toquei mesmo, em coisas, sentimentos e emoções, que nunca tinha encontrado, e
não soube como lidar com isso, como não estragar, atraiçoar. Levei umas lições
que já há muito merecia, e que vieram da pior e da maneira mais importante,
inesperada. Esta foi a nossa tentativa, a prenda e o agradecimento, onde todos
os que se vêem no ecrã, no genérico ou em espirito foram decisivos. Aqui e ali
a imagem pode estar selvagem, o som indomado, a ligação de planos abrupta, mas saiu
sempre de dentro, com empenho e muito amor. Amor, sempre o último reduto e
possibilidade. Dedico também este momento à Isabel, a mais delicada e bonita
jovem deste filme para sempre jovem e prevenido, que morreu na conclusão do
projecto (uma das causas para que o filme demorasse 35 anos a lá voltar
pronto), que de lá de cima, do Reino dos Céus, morada de Deuses, esboçou com
certeza o mais cristalino dos sorrisos. Que se continue a descobrir e a
redescobrir, sempre a rever e a experimentar iniciaticamente, confortado e
virgem, esta obra, verdadeiramente infinita. E que regresse o tempo em que se
façam sopas com tempo e se as comam com toda a disponibilidade. O Humano,
sempre.
José Oliveira
Fevereiro 2015
(foto: Filipa Gambino)