sábado, 15 de agosto de 2015
"It makes no difference what men think of war, said the judge. War endures. As well ask men what they think of stone. War was always here. Before man was, war waited for him. The ultimate trade awaiting its ultimate practitioner. That is the way it was and will be. That way and not some other way."
Cormac McCarthy, "Blood Meridian"
Antes de McCarthy o ter dito já Abraão o tinha provado. E, antes dele, Noé. Antes de Noé, muitos outros. Daqui para a frente, tantos mais. Essa caminhada para uma terra da verdade, ou só para uma qualquer terra, prometida ou sacada, onde a paz consiga momentaneamente embalar a guerra. Um terrífico filme realizado por André De Toth na quentura de 1944 Depois de Cristo, crucificado "None Shall Escape", mostra, de frente e nas voltas que a câmara não deixa escapar, como o mal pode preceder qualquer formação ou contexto, escondido nos escombros do animal para se soltar no momento propício. Nem a paixão pela mulher, a criança desarmada ou a beleza natural tiveram qualquer chance de se imporem ao homem que descobriu no nazismo a sua forma de desenvolvimento e expressão, o modo de ser fiel e de praticar o seu bem. No princípio como no fim, a mesma convicção, pulsão, acossamento, unindo-se as pontas. De Toth, forçando o impossível e a reescrita, ainda ousou meter a lente colada ao chão e às flores, com juventude limpa e apaixonada em volta; ainda recuperou o menino manipulado pela besta e captou grandes-planos de sorrisos indestrutíveis, mas, infelizmente, o lirismo casou com o horror, nada procedeu e a sentença final do condenado ficou mais uma vez a saber que a nossa justiça nada pode contra a ontologia ou os fundos dos fundos da matéria e do resto de que somos feitos. Uma menina morta levada em procissão e o respectivo altar ficou como a imagem mais inesquecível, tristemente.
Michael Cimino, no abraço que recentemente o festival de Locarno lhe deu, falou na doença imemorial da guerra, como todas são iguais, sem tempo nem lugar diferenciador, sem medida de valor, importância ou sofisticação. A guerra sempre esteve connosco, antes de nós, esperta, à espera, nos descampados ou nos escritórios. Cimino, raivoso, magoado, humilhado, mas em pé, vivo e esclarecido como só poucos o conseguiram, deixou escorrer lágrimas pois já não aguenta essa doença aplicada aos jovens pelos velhos. Generoso, de coração nas mãos, clamou pelos ombros das Mães e pelos gestos da paixão, a criança e a inocência. Desassombrado, não encontrou esperanças a não ser mostrar à chacina uma chacina superior, a luta de cada um com ela, sendo mais duro do que ela - foi o conselho que deu à jovem que pulou a cerca e que lhe perguntou como lutar contra tanta agressividade, tanto ego, competição, sangue derramado. Muito duro e muito frágil, sem certezas e cheio de garra, sem querer ser padre, professor ou evangelista, apenas conversar um pouco, mandou-nos ir à guerra da felicidade. Sem choradinho, com o impacto do pior instrumento bélico. Foi o melhor filme que vi este ano, com todos os sonhos guardados.
"Thunder Bay", Anthony Mann, em 1953. Mas a guerra de que regressam James Stewart e Dan Duryea é a mesma do filme de De Toth. Um pouco selvagens e vagabundos, misturando honestidade e propensão para a charlatanice, não têm no seu historial momentos que os façam recomendáveis. Chegam a uma pequena terra com ela já fisgada, em busca do danado ouro negro, e a perene invenção e desenterro que os homens possuem para o conflito vem logo ao de cima. Ainda no outro dia um amigo me disse que no cinema clássico Americano as coisas só começam a correr realmente bem quando já não podem correr pior. Então, os dois forasteiros, arranjam um poderoso aliado que se lembra de quando foi um zé-ninguém que acreditou em qualquer coisa, e em coisas ditas impossíveis. De um lado, os prospectores que querem o avanço das coisas, do outro a população local que prefere contentar-se com a pesca. Toda a tragédia em génese e evolução. Só que Mann, sabe-se, sempre furou e cavou até lugares e razões dúbias, negras, caladas, e então não construiu um libelo progressista nem o seu contrário, mas antes uma complexa arena de questões onde ninguém está abrigado ou confortável. O sonho de Stewart é ultrapassar-se, ultrapassar a lógica, fazer vir ao de cima algo que se formou de coisas mortas, sepultadas, jorrando orgásticamente para safar o presente e auxiliar o futuro - e assim unir os tempos, diz o Stewart que não dorme e se apaixonou por uma mulher marcadíssima. O sonho dos pescadores é manterem-se unidos, não levantarem ondas, terem o seu para o dia-a-dia, afastar o mal que veio de fora. Nada a fazer, e depois de alguns mortos e feridos, estala mais uma guerra. Os pobres, mar fora, para destruírem os capitalistas - a composição das embarcações no palco é igual a Cristóvão Colombo ou aos conquistadores do Novo Mundo, à visão de Pocahontas, aos piratas e ao desembarque na Normandia. Só que o petróleo que tudo desencadeou tudo vai salvar, jorra mesmo e na festa e união aparente não há milagre algum. O milagre dá-se na boleia com que Mann nos dá o The End. A perpetuação perpetua-se. A imensa força víscera desta empreitada - a um tempo orgânica, animal e mineral - espalha-se das veias e da morfologia daqueles seres em tensão até aos enquadramentos, à profundidade, movimento e sucessão de planos. Cada plano é obviamente um filme, o conjunto é a nossa história. E fica-se mais uma vez a saber da indomabilidade e imprevisibilidade do todo. Para lá ou cá das culpas, penitências e julgamentos fáceis.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
We go!
"The World in His Arms", Raoul Walsh em aventuras e desventuras com a vida (a velha viola...) pelos anos cinquenta, prova que a fórmula Hawksiana de meter algumas cenas fortes como pilares e alisar bem (não só encher) o que está entre eles, se bem entendida e executada, valerá sempre ouro. Bailados esvoaçantes e suados, pancadaria de idêntica qualidade, umas perseguições sejam elas como forem (desde que Hawks recomendou a William Friedkin meter uma de carros num dos seus primeiros filmes ele levou o conselho à letra para os seguintes e tornou-se Cineasta) - e a que acontece aqui entre águas inéditas só pode ser comparada a "Hatari", Don Siegel ou "Miami Vice" - azuis e encarnados celestes contra fundos e correntes de ar ao negro e ao prateado largados, um brutamontes Português afamado; e, não era preciso dizer, o amor de um homem por uma mulher e a batalha até aos confins do mundo, reduzindo as noções de "amour fou" como encontradas nas enciclopédias a esboços bem comportados. O verdadeiro e o maravilhoso. Como se sabe, quem tem olhos na cara e quem aceitou mergulhar algumas vezes onde o sangue pulsa mesmo e não se ficou só pelas salas e salões prestigiantes, Walsh acatou o conselho do patrão D.W.Griffith e para aprender a arte do cinema meteu-se nas ruas e nos bordéis, nos mares e na família, com calejados, condenados e príncipes; assim, nenhuma panorâmica, sentimento ou sentido lhe escapou, e cada vez que alguém aparece à frente da câmara não é só para fazer o seu número e receber o cheque mas sim para se perceber melhor e assim registar da massa de que somos feitos. Seja um beijo, seja um murro, a pressão e a distância surgem perfeitamente exactos, a crosta e a pele da cor e temperatura conforme, o interior inscrito no exterior, nos beiços e na curvatura do corpo.
Portanto, é a história de um capitão pirata que acha o seu tudo, o perde e o volta a achar, num curto arco que é o do infinito; pelo meio, as zangas e bebedeiras do costume, a frontalidade que permite a amizade e a violência de dizer e fazer o que deve ser feito ignorando os não-ditos fornecedores da deplorável bílis; o inquestionável e o imperdoável - na porrada, bebe-se, debate-se, ri-se e chora-se. Com o maravilhamento que permite que o infante perceba tudo sem legendas, credos ou políticas. A questão do território ou do genocídio animal (como o humano preservado na dureza) perde o efeito de denúncia do momento para ser simplesmente questão do bem e do mal entendida em cada lugar e tempo por todos. E Walsh borrifa-se para o realismo escolar e prefere o visceral, o fabuloso, o vibrante. É tudo supostamente irrealista e até mal-amanhado de perspectiva ou proporção, acossado de grão ou de pixels, mas está certo pela emoção, pela acção, pela viagem partilhada na infindável aventura do genuíno cinematógrafo sempre propenso a devolver o risco e a generosidade de quem por ele olhou e se disponibilizou - primeira vez; arquitectura sublime da transfiguração; derradeira vez. Meu Deus... como terá sido criticado o bravo Walsh ou como hoje seria atirado à lama e às tainhas de esgoto pelos bons estudantes e bons moralistas que caçam cada erro e passada em, dizem eles, falso... Walsh, como Eastwood, Gray ou Manoel de Oliveira soube que se deve utilizar as sombras ou o CGI, o tudo ou o nada, noites austeras e pôr-do-sol artificial, Aristóteles e os trabalhos da contemplação e Peckinpah com a lentidão e a dor do estripamento, basta que se compreenda a paz do anjos ou o fogo dos infernos. The World in His Arms, no final, Adão e Eva, a noite azul, o excesso e o absolutamente certo.
sábado, 8 de agosto de 2015
Leio, na velha biografia que lhe dedicou a grande professora de Cambridge que foi M.C. Bradbrook, que Malcolm Lowry ofereceu nem meia dúzia de exemplares do seu "Under The Volcano". Mas um deles, autografado, com dedicatória, mandou-o para o seu antigo colega de Cambridge, o actor Michael Redgrave. Pois, isto ainda me enternece a lembrança daquele mundo em que os escritores viviam para além do "seu meio", em que toureiros e boxeurs liam poesias, Hemingway (ou foi Picasso?) apadrinhava os filhos de Lucia Bosé, Camus apaixonava-se pela Casarès, actrizes namoravam psicanalistas franceses, Picasso ia aos touros, e Roger Vailland escrevia sobre a Volta a França. Isto ultimamente tem ficado tão pequenino, é tudo tão familiar-corporativo, que cada arte parece é um "mercado do taxi".
Jorge Silva Melo, claro, no contentor do costume.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
"Pylon"
é uma das grandes obras de William Faulkner, tecida numa aparente linearidade
que é a cada instante estilhaçada precisamente pelo presente atropelado, pelo
"agora" que consome cada um daqueles seres sem passado nem horizonte.
Tal como uma tecedeira que sutura tecido injuntável e sabe a causa
impronunciável de tal, quem o trajou e o que nele fez, como rasgou e o que
secou. Passados e horizontes em corpo presente e exposto, sendo a memória uma
memória do presente, transformando-se os longínquos mosaicos e o compósito
Faulknariano em parede ou ecrã reflector concentracionário, cegante. A epifania
do jornalista que se espanta ao descobrir mentes e carnes sobre as quais não é
possível resumir como manda a regra da profissão só pode ser aguentada no
álcool, esse purgatório dos muito honestos. Mentes e carnes frias, mecânicas,
conservadas e a trabalhar nos óleos e pelos combustíveis que nos permitiram
ganhar asas, entrever o derradeiro abismo e a imortalidade. Veias de aço, ossos
como inquebráveis tubos, sentimentos objectivos, electricidade e instinto.
Órbitas avessas que olham para dentro do próprio crânio. A fome e o sexo e a
dor em circuito programado. Sem união para lá da união desconhecida permitida à
tecnologia. Vida e morte fundidas e carentes de importância como no sono
profundo e sem despertador. É disto que o jornalista cadavérico que se parece
com um espantalho dá de cabeça quando pensava que de tudo já tinha visto e
rasurado. A corrida dele com os limites e a justiça, a poesia e o ininteligível,
vai arder e enlaçar no fogo dos pilotos, dos para-quedistas, das esposas petrificadas e desses mecânicos
que só parecem realmente existir nos breves segundos onde no céu procuram a
meta como quem por Deus grita. Não é curiosidade mórbida ou antropologia
oportunista o que faz mover o homem das letras em direcção aos super-homens suicidas,
antes algo da ordem, visceralmente, do puramente humano, isto é, tocar uma
sensibilidade que de tão aflorada e antiga corre o risco de ser percebida e cristalizada em altares patológicos. Todos eles, e o jornalista alcançando-os,
são especiais pois não se prenderam ao suposto e no seu tudo ou nada clamam o
absoluto, nada menos, bilhete para os nossos sanatórios terrenos. A prosa de
Faulkner alinha-se para rebentar numa violência de realismo inacreditável que
assim é pela nossa imemorial tendência de amarrar o fácil e o óbvio, e pinta-se
num gótico que é tão lancinante e complexo e inaugural como escravaturas e
bíblias. A peça final para o jornal ou para nada que nos é dada a cheirar, a
descarnada e a polida, vinda do céu e do lixo e do whiskey, manda o cosmos
putrefacto da perpetuação do dia-a-dia manipulado para o inferno engomado. “A
integridade de uma pessoa encontrar-se-á sempre naquilo que não consegue fazer?
Penso que, em geral, sim, porque o livre-arbítrio não significa um só arbítrio,
mas vários, que se confrontam no mesmo indivíduo. A liberdade não pode ser
concebida simples. É um mistério, um mistério que a um romance, mesmo um
romance cómico, apenas pode ser pedido que aprofunde” , isto é o que Flannery
O'Connor pergunta e responde no prefácio da segunda edição do seu “Wise Blood”,
e que se torna verdade simples e geométrica da tragédia de “Pylon”.
"The Tarnished Angels", visão e sangue fervente de Douglas Sirk, tem dentro uma das mais belas personagens de todo o cinema e de toda a vida, Burke Devlin, o jornalista, aqui nada cadavérico e tão lúcido como o de Faulkner, comoventíssimo e estóico Rock Hudson familiar de todos os dissidentes com causa, cheio do som e da fúria e da raiva e coração dos que já não admitem a lenta e porca burocracia do adormecimento imposto, alguém que não hipoteca a casa para agarrar sucessos mas que simplesmente a oferece a quem precisa, desligado da posse e da carreira. Perdido que se acha nessa perdição fatal, inscrita na sua têmpera, patrão ou alma de todos os seres abandonados e sem lugar, numa reza cósmica e rumorejante, sem lei nem aprovação política. Talvez a pele e os órgãos desgalgados e estripados de Faulkner se tinjam aqui de romantismo secreto, velado em amor puro para lá dos altos, vindo num vento que urge amarrar antes que se esfume para todo o sempre. Como é que um herói de guerra intempestivo, uma mulher estonteante como os anjos da terra, um miúdo atormentado e um mecânico fiel demais à desregra se contentam com circos, feiras e humilhações? Parece ser tudo isto e o segredo deles o que começa por interessar Burke. Assim, suspende a bebedeira crónica para tentar, sempre tentar e talvez nunca alcançar, ver o brilho inaudito que só na mácula reflecte e se esconde revelado. O grande carnaval que no livro se aproxima do deboche, em Sirk, e apesar da horrenda troca sugerida para o piloto conseguir a nova máquina, gira e rói em terrenos e sussurros da solidão, unindo bem e mal e tudo na liberdade e no desejo sem margem para dúvidas do estômago queimante. Burke tem com a pára-quedista aparecida Dorothy Malone igualmente a mais bela das paixões, concretizando-se nos olhares e nos dentros da alma, até ao fundo - irmandade e Mulher, ídolo e carnação. O rodopio e a entrega de Burke, o genial discurso sobre a fascinação do homem pela superação e pelos sonhos superiores, máquina de precisões e comoções, as mãos vazias, a música da infância - pela câmara de Sirk, o espaço agiganta-se para o mínimo e o íntimo sobressaírem, infindável scope para invisíveis fluidos e calores, onde no mundo pós-apocalipse são necessárias novas e letais emoções, mundo assim que concorre para todos os tempos em que a veracidade é lei, utopia suprema a agarrar como o tal vento. R. W. Fassbinder amou o filme e falou a propósito do medo que todos têm, esse desamparo, fragilidade, mesmo sacrifício. Medo que não nasce das dúvidas do modo de vida mas de certeza da possibilidade (sempre a maquinar) de se inserirem na intolerável máquina outra e de travões bem menos afiados e rasteiros, a máquina da realidadezinha fabricada, cobarde e mascarada que marca e engaveta por cartão de identidade e demais papelada como se marca o pobre gado. “Tomorrow? I'll probably be drunk” é o que o tão belo de olhos raiados das lágrimas da verdade esfaqueia a quem lhe manda fazer amanhã o que ele pode fazer hoje. Se só existisse o ontem não havia aflições, disse Faulkner certo dia. E é aqui a medida de todas as coisas. Como a ferida a respirar.
"The Tarnished Angels", visão e sangue fervente de Douglas Sirk, tem dentro uma das mais belas personagens de todo o cinema e de toda a vida, Burke Devlin, o jornalista, aqui nada cadavérico e tão lúcido como o de Faulkner, comoventíssimo e estóico Rock Hudson familiar de todos os dissidentes com causa, cheio do som e da fúria e da raiva e coração dos que já não admitem a lenta e porca burocracia do adormecimento imposto, alguém que não hipoteca a casa para agarrar sucessos mas que simplesmente a oferece a quem precisa, desligado da posse e da carreira. Perdido que se acha nessa perdição fatal, inscrita na sua têmpera, patrão ou alma de todos os seres abandonados e sem lugar, numa reza cósmica e rumorejante, sem lei nem aprovação política. Talvez a pele e os órgãos desgalgados e estripados de Faulkner se tinjam aqui de romantismo secreto, velado em amor puro para lá dos altos, vindo num vento que urge amarrar antes que se esfume para todo o sempre. Como é que um herói de guerra intempestivo, uma mulher estonteante como os anjos da terra, um miúdo atormentado e um mecânico fiel demais à desregra se contentam com circos, feiras e humilhações? Parece ser tudo isto e o segredo deles o que começa por interessar Burke. Assim, suspende a bebedeira crónica para tentar, sempre tentar e talvez nunca alcançar, ver o brilho inaudito que só na mácula reflecte e se esconde revelado. O grande carnaval que no livro se aproxima do deboche, em Sirk, e apesar da horrenda troca sugerida para o piloto conseguir a nova máquina, gira e rói em terrenos e sussurros da solidão, unindo bem e mal e tudo na liberdade e no desejo sem margem para dúvidas do estômago queimante. Burke tem com a pára-quedista aparecida Dorothy Malone igualmente a mais bela das paixões, concretizando-se nos olhares e nos dentros da alma, até ao fundo - irmandade e Mulher, ídolo e carnação. O rodopio e a entrega de Burke, o genial discurso sobre a fascinação do homem pela superação e pelos sonhos superiores, máquina de precisões e comoções, as mãos vazias, a música da infância - pela câmara de Sirk, o espaço agiganta-se para o mínimo e o íntimo sobressaírem, infindável scope para invisíveis fluidos e calores, onde no mundo pós-apocalipse são necessárias novas e letais emoções, mundo assim que concorre para todos os tempos em que a veracidade é lei, utopia suprema a agarrar como o tal vento. R. W. Fassbinder amou o filme e falou a propósito do medo que todos têm, esse desamparo, fragilidade, mesmo sacrifício. Medo que não nasce das dúvidas do modo de vida mas de certeza da possibilidade (sempre a maquinar) de se inserirem na intolerável máquina outra e de travões bem menos afiados e rasteiros, a máquina da realidadezinha fabricada, cobarde e mascarada que marca e engaveta por cartão de identidade e demais papelada como se marca o pobre gado. “Tomorrow? I'll probably be drunk” é o que o tão belo de olhos raiados das lágrimas da verdade esfaqueia a quem lhe manda fazer amanhã o que ele pode fazer hoje. Se só existisse o ontem não havia aflições, disse Faulkner certo dia. E é aqui a medida de todas as coisas. Como a ferida a respirar.
“ - Porque devem eles matar? Porque é necessário
matar? Cyrus estava profundamente comovido e falou como nunca tinha falado. -
Não sei. Estudei as coisas e talvez saiba o que elas são, mas estou muito longe
de saber porque são. E não deves esperar encontrar pessoas que te compreendam o
que fazem. Tantos actos são instintivos: a abelha fabrica o mel e a raposa
caminha no riacho para enganar os cães. A raposa não sabe porque age desse
modo, e qual a abelha que se lembra do inverno e prevê que ele há de voltar?”
“A Leste do Paraíso”, John
Steinbeck
Uma
das mais complexas, soturnas, sinfónicas e progressivamente luminosas criações
que vi e ouvi nos últimos anos chama-se "True Detective" - que
importa se é a chamada série para televisão, uma curta-metragem de dois minutos
ou um vídeo arrancado em telemóvel por alguém que não pôde deixar de o fazer
sob consequência de paralisar, alguém que descobriu uma refracção inédita, uma
poética, duração, narrativa, desconhecido... quem diz o contrário é o mais
rasca, inútil e medricas dos moralistas, e, como diz a personagem de Rust Cohle
nessa criação - Matthew McConaughey, o mais bestial (de besta mesmo, e portanto
com as ténues dádivas conservadas) dos actores - quem dá conselhos fala para si
próprio - onde o passado e as acorcovadas questões da criação e da existência e
da evolução se unem para assombrar cada passo, cada relação, certeza, credo ou
filosofia. Nada ganha resposta - o espaço, o tempo, os eternos retornos,
ciclos, Deus, o nada. Cúmulo de uma construção em que o meio orgânico e
indomável que nos acolhe - do demónio à florestação - embate com o racional e o
humano para um envolvimento de impossível separação; a técnica e ontologia
cinematográfica (como diria televisiva ou amadora) nasce e corre por dentro, de
onde tudo está certo, por isso belo e terrível, sem uma nota em falso que não a
privilegiada a tudo o que existe. Se o citado Faulkner ou Nathaniel Hawthorne
presenciassem tal, de certeza quereriam filmar, juntar a imagem e o eco, o que
se vê e o que se escuta com o que se pensa ver e se pensa escutar, mais o que
transcende a ideia feita e a imaginação; esquecer e convergir na elipse, condensar
universos na presença e na respiração antes ou depois das palavras – espelhar e
materializar a abstracção e a monstruosidade fantasmática nelas latente. Rust
Cohle, Burke Devine, tão opostos, tão semelhantes, ali onde os extremos não só
se tocam mas antes de tudo se encontram. Rust, que não quer acreditar nem amar,
apenas ser testemunha do embuste e da destruição, sacrifica-se pela terra toda,
em alcance também ele imulatório. Ou seja, mais um anjo, maculado e imaculado
pelo mais belo acto de continuar, erguendo e destruindo, para a frente. “Por
isso não desfalecemos; e ainda que o nosso homem exterior se vá consumindo, o
interior, contudo, renova-se dia-a-dia.” lê-se nos Coríntios. Tal é levado não
a radicalismos cósmicos mas a necessidades dessas, o combustível da resistência
e do avanço, via-crúcis dos honestos e amantes calados. Um dos mais belos, e
tão sofrente ou não, personagens que nos falaram. Quando a noite avança, o seu
colega possuído por Woody Harrelson, tão em pé como na alvorada, passadas as
intempestivas provações, une-se a Rust, já sem evasivas. E a dimensão de
ventura que perpassou todo o curso é desmitificada, a metafísica extingue-se, a
substância revela-se - no final só há de haver um tempo e um espaço, aglutinados
pelo amor. Ficam e ficamos para lá das estrelas, na mais eterna das batalhas, a
luz furando na escuridão, a escuridão a precisar da luz, sem barreiras.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
James Jones! Gosto destes escritores rápidos que inundaram com a sua experiência da guerra não só as livrarias do mundo (eram mesmo bestsellers...) como os cinemas. São dele os romances que deram origem ao "Até à Eternidade" e "The Thin Red Line", belos filmes (eu gosto de Ziinemann, adoro os "Sundowners"). E sobretudo quem escreveu "Some came running", livro atacado por todos os lados (menos por um - e esse istmo chamou-se Vincente Minelli, claro) por ser mal escrito, precipitado, incompleto, desfeito. Não acredito, vou ter de ler, o filme é do mais lindo que há e a literatura não é só o sublime "Nus e os Mortos" de Norman Mailer - é que eu adoro "escritores menores".
Jorge Silva Melo, no único facebook que importa.
Jorge Silva Melo, no único facebook que importa.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
"Ana", António Reis e Margarida Cordeiro, 1982
Onde está a menina da blusa de chita
Saia de riscado e avental aos folhos?
Não sei se era feia ou bonita
Só sei que a esperança brilhava em seus olhos.
Parece-me vê-la! Quando ao entardecer
Ela regressava de mondar os trigais.
Alta, muito delgada, e por assim ser
Riam, troçavam-na todos os demais.
Serena, ela sorria, sorria,
Flor singela, tal qual as do prado.
Mondando e ceifando, mil sonhos tecia
E era princesa dum castelo encantado.
Onde está menina do prado?
Pelos caminhos distantes do tempo
Não ouves que te chama, que te chora o vento?
"Menina do Prado", Virgínia Maria Dias
Dos mais de cem créditos que Edward Ludwig apresenta como cineasta em vários formatos, conhecendo-se bem as pequenas grandes obras-primas que vão de "Wake of the Red Witch" a "The Black Scorpion", este bem vivido pioneiro que começou nos anos vinte da nascença do cinema terá certamente infindáveis quilómetros de metragem fascinante e indescritível por achar. E fascínio é uma palavra que assenta perfeitamente em experiências assim inéditas e reveladoras. Então, é com grande comoção que se acolhe e se mergulha em cada novo mundo, em cada paraíso já quase esquecido ou mesmo trucidado. "Jivaro", também dos anos cinquenta, descoberto agora, espanta pelo modo como os sentimentos vibram e se digladiam com o meio que os acolhe e enforma; espanta como as formas desta arte - que parece agora seca e esgotada pelo excesso de imagens e de conceitos aleatórios - explodem e se contêm, relacionam e dependem, em suma, existem pois há um fundo sensível que as fecunda, as concebe, as nutre num desenvolvimento constante.
Fernando Lamas, o actor perfeito para tais arenas, é Rio Galdez, metido numa selva longe da civilização, para ganhar a vida perigosamente em viagens e trocas dúbias e, fatalmente, para tentar esquecer o amor que torna dos ecos da infância. Já a questão de vida e de morte se tornou pasmaceira e calina quotidiana quando a mulher que também em busca lá chega vai provocar e precipitar o turbilhão enterrado. Sem grandes novidades, aparecem as noites longas e claras, as perguntas cósmicas e evidentes, o calor e o gelo conforme a consciência e as quedas do credo que se considerava bem fincado. Quando nos tentamos convencer ou conciliar com o que não acreditamos e não sentimos, é o princípio do fim. Dali, do fim, só lançando-nos a uma prova gigantesca e nela tirando conclusões gigantescas poderemos vislumbrar uma aurora. Que é o que vai acontecer à seguríssima, depois reticente e finalmente estropiada Alice Parker, a que se meteu com Rio Galdez até já não haver volta a dar.
O meio onde cavalga a acção é um caldeirão tão puro como exótico e venenoso, no qual um sem fim de almas aflitas clamam encharcadas em álcool, em alienação e desconhecido pelo golpe que tudo faça sangrar. Na excepção permitida a cada um, a descoberta e progressão fulminante da paixão vai ser acompanhada - ou comentada, conforme a moral - pela indomável manifestação da natureza, caindo nesse terminal ombrear os mal-entendidos e as mentiras que são o alçapão eterno da perdição e do abandono. Da noite de cerveja quente e da ração de combate até ao piano medidor das temperaturas, eclodindo irreversivelmente no plutónico vento final depois dos animais e das águas insuportavelmente realistas e imemoriais - em tensões e catarses elementares que me transportam para o raio de "Untamed" de Henry King ou para as areias do "Suez" de Alan Dwan - todas as virtudes e pecados, santos e demónios, beijos com balas se vão mesclar na carne, no ouro, na libertação e poder, consumindo-se um cosmos rumo a um dia novo. De onde ninguém sai verdadeiramente maculado, tanto pelo ferimento alheio como pelo próprio. Numa dialéctica que une com o brilho final, condição olhada de frente. Edward Ludwig, essencial, só fala do contemporâneo.
sábado, 18 de julho de 2015
"God's Little Acre" filmado por Anthony Mann começa e acaba no mesmo quadro; as gentes lá por dentro tantas voltas e cambalhotas dão que tudo fica igual pelos delirantes ziguezagues e desejos. Sede de ouro, sede de sexo, mas também de fúria justiceira, de onde o carregado determinismo pulsional é complexificado num humanismo tão instintivo como o seu contrário. Raramente se escancarou assim a carne e a revolta, mesmo que apócrifamente, unindo-se o animalesco de Erskine Caldwell ao pragmatismo sabido de Mann; transfiguração que salvaguarda o fundo de cada um de nós em cada, cada, situação.
Mas falando em humanismo, ou seja, em sentimentos, e em certezas (verbo saber) com "The Glenn Miller Story" atinge-se montanhas e céus da dimensão e dos tons do John Ford de "The Long Gray Line". Tudo o que se poderia esperar do gesto biográfico corrente e logo enaltecedor, a música em crescendo no momento da morte do artista ou o esganiçamento interior deste na dúvida artística, fica para o nosso coração compor; mesmo o enlevo hagiográfico que cairia que nem gingas não procede, esta é a história do extraordinário homem comum nas suas aventuras pelo sincero e pelo perigoso. Mann vai pelas vias da reacção, do passo seguinte, do universal. "Não eleves a fé à altura do voo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes", recita Tom Joad algures nas Vinhas da Ira, não sabendo se tal pertence às escrituras ou ao "The Winning of Barbara Worth". O Glenn Miller aceite por James Stewart (que com Mann vai laconicamente e pacificamente de um lado ao outro dos reinos cimeiros cá de baixo) tem toda a calma e paciência do mundo.
Verga as costelas numa gasolineira para poder tirar o seu instrumento musical do prego ou para poder comer, e, mais adiante, quando tem cada vez mais dúvidas se vai ou não vai conseguir dar o passo superior na sua criação, não se apoquenta; primeiro, pois compreende que se lá chegar é pela persistência, suor, merecimento e por ter calcado muito e experimentado horizontes vários. E compreende igualmente que se lá não chegar é somente lógico, que as coisas tomam o seu curso e não se devem forçar pois de inutilidades está o palco cheio. Saber por fim que a revolução pode ser simplesmente a fidelidade, como os agricultores que viram todos os milagres citados nas suas colheitas; saber que não existe apenas o "eu" em urgência, que o "nós" está na partida; depois, ou melhor, antes, pois no reinicio da sua vida juntou-se à única mulher que sempre admitiu, numa relação perfeita e delicada onde o sofrimento e a ausência estão na mesma face da presença e do amor; amor guardado e indomável apurado no ápice da criação. Então, de forma tão natural que parece fácil, arrisca-se algumas vezes o pescoço, trabalha-se noites a fio, ignoram-se as queixas, sono e dor, recebe-se e dá-se as mãos após as quedas; a disponibilidade perante o rumor interior e a violência latente do imprevisto, olhando e escutando detidamente, afagando o medo como aninhando o sucesso, e a força da verdade e da emoção surge sem margem para dúvidas no seu esplendor de justeza e de mistério em marcha. Que no auge Glenn Miller e a sua banda se meta na guerra e nas bombas, jamais é para conquistar a capa do super-herói, medalhas ou discos vendidos como pão, mas sim para no longe dar a sentir a casa de cada um bem perto, o tal regresso mesmo que impossível, como desígnio último e total. Como o amor entre Glenn e Hellen, escrito para além do firmamento.
Se fosse preciso falar da técnica do habilidoso (habilidoso tal como os trabalhadores da construção civil auguram), esse saber fazer da posta em cena do cinema, bastaria o momento Louis Armstrong, nas sua duração e peso saturno e revelador, essas demenciais pinceladas, esse jogo corporal e ânsias de puro prazer surgidos das entranhas e não do botão do software da máxima tecnologia de ponta. Mas técnica e ser estão unidos sem questões e dispensam análises do género.
Quando hoje em dia a pressa anda aliada ao mais inútil tipo de sede, a sede do vedetismo e do poder e do espezinhamento - no cinema acabam-se filmes às três pancadas para brilharem instantaneamente no festival mais in / nos antros ou pocilgas "políticas" estende-se o cadafalso ao invés da mão ou da face e ludibriam-se as notas podres além Grécia - o olhar de alguns Glenn Millers por aí ignorados e humilhados não podem ser exterminados, sobre risco da autodestruição cada vez mais prometida pela estirpe. Assim, há que lutar por grandezas de valores que no secreto suspiro atingem o épico, há que ver bem para no meio de tanto lixo resgatar a essência. Essencial que de tão deformado deixou de ser o natural, certo e sagrado. Fiando-nos, ainda e sempre, no brilho das estrelas para acharmos a exacta perspectiva.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Por alturas de "Kaze no naka no kodomo" Hiroshi Shimizu trouxe igualmente à luz "Koi mo wasurete" e ambos se afastam e complementam na tragédia surda, fina e lógica (absurda) da criança a braços com as misérias da vida adulta, conscienciosa, controlada. É ela, criança, a estóica, seca de rosto na hecatombe, sempre a caminhar, resolvendo o que há para resolver e ignorando o que é para ignorar. Quando entramos, acolhe-nos um encantamento cantado, na saída, o mesmo encantamento e canto surgem, envoltos nessas transparências ocultas e rescendentes, esses fulgores diáfanos celestes ou simplesmente casuais do quotidiano. E é nessa corrente que uma mulher-da-vida, o seu filho e um homem vindo das névoas (do nada) vão estar ao mesmo nível de perpétua busca e perdição. É precioso e desarmante que Shimizu mais uma vez não estabeleça os degraus de consciência e os estatutos como os adultos ensinaram que se faça, para mais do que a inteligência ser uma questão de humanismo (sentimento) a prevalecer. A mãe reza as promessas obrigatórias, e tem as suas razões, o filho age todo solto e acossado; entre eles, o tal homem, fantasma ou aceitando a condição ontológica, complexo anjo caído que no primeiro encontro com a Mãe - no mais belo momento do conto e na mais bela história de amor por nada do mundo - nada pergunta, justifica ou sugere, e ela com ele num enlace de instante perfeito que não voltará. Naturalmente, a bifurcação que sempre construímos a vociferar, as crianças a esvoaçarem descobertas, o Pai a dizer ao filho para não ser "responsável", os alicerces sociais a tremerem (pobre massa de que são feitos) e a sensibilidade (último reduto) a queimar para redenções. Sempre na morte mais funda e no amor mais fundo, sempre entrelaçados, natureza suprema.
Dois filmes de correspondências sublimes e terríficas, onde a figura de estilo não é o plano sequência, a escala não é a média, o ritmo não é cadenciado, a acção quebrada e seguida na elipse não é compêndio de modernidade. Tudo neste paraíso está aquém ou além dos chavões e da linguagem defensiva - como em "Ordet" - modelando-se no desconhecido. Desconhecido, duração, paixão, tudo vias de salvação que é por onde este cinema nos leva. Sem obrigações.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Quando no final de "Kaze no naka no kodomo" que Hiroshi Shimizu trouxe à vida em 1937 a criança que seguimos mais de perto corre atrás do circo que chegou ao seu reino, nesse momento tão feliz e delicado, ela já tem no seu interior avisado e no seu corpo marcado o espectáculo das regras, das confianças, esse sistema de valores e de compensações sempre tão evoluído e feito pelos melhores de nós. Evidentemente que toda a sinopse e "análise séria" terá de marcar esta demanda com as melhores cauções de um Flaubert, educação sentimental mastigada, passagens e agruras de infância, o ponto de vista do petiz no mundo gigantesco e a criatividade do artista para com tema tão batido. Mas a cantiga pia e afina para lá do óbvio, do "pensante" e do racional: se a gravidade que desagua na tragédia ao modo abafado, concentrado e rarefeito de Mizoguchi ou de Naruse parece posta de lado, assim como as fatalidades e aceitações entre os espaços vazios da morte e da vida em Ozu, o que não se vê - como no plano estelar em que os miúdos olham as estrelas que a câmara não capta e são iluminados por elas como nunca as vimos iluminar e brilhar em cinema - a prisão do Pai inocente que adorava o filho travesso por este não conhecer o significado das aparências e das máscaras, os mecanismos de humilhação, depreendimentos e silogismos, ferem com a finura e o intolerável de um bisturi que abre um fígado ou um estômago. Fígado ou estômago, ou coração e tripas, que são as corridas silenciosas dos anjos ou bichos ainda alvos, ainda antes da modulação oficiosa dos melhores de nós; as suas aparições fantasmais e fantásticas antes da decência (decadência); armadilhas e travessuras fabulosas e por si só absolutamente opostas à respeitabilidade de escritório ou tribunal ou de escola. Por isso tanto se sobe a árvores, vai-se rio abaixo na banheira arrancada à casa de banho, prefere-se os monstros das águas aos fatos compostos dos adultos mais acabados e brilhantes que calcam o macadame. A criança que das outras se nos foi destacada para a vermos melhor através da lupa única, precisa e preciosa do cinematógrafo será certamente especial pois tão verde possui as armaduras dos sábios e jovens de milhões de anos e de vidas e de rotações. Se o contrário acontecer, e a cada dia se prova que a raça terráquea não sabe dos limites a limitar e em termos de sentimentos e dádivas quanto menos mais, a tragédia não será maior (se tal desse para medir) pois haverá sempre um psicólogo ou especialista desse campo a explicar a infernal via láctea não permitida aos não formados.
"Kaze no naka no kodomo" é tão triste pela sua evidência como belo no modo como é tecido, passo a passo, respirar a respirar, batida a batida, cada partícula ínfima o cosmos eterno e liberto. Um dos hemisférios pode dobrar para cima do outro, as tais estrelas desistirem, a água mudar de rumo e soltar as deformações, a cientifica gravidade gastar-se, que Shimizu, que os desta têmpera, jamais irão soltar o aparato e o fausto de uma arte que a isso se proporciona em augúrios demagógicos e arrivistas; Shimizu e os seus vão querer ver melhor e assim não escancarar o invisível, abrir a profundidade toda do espaço e cerrar o íntimo, utilizar o campo e o contracampo para nos devolver, descobrir e redescobrir as expressões, os olhares e a atmosfera de cada pedaço de alma que completa a gigantesca e genuína alma que nunca se apagará - a do rosto (luz e movimento, tempo e espaço) fiel e inexplicável. Assim Jacques Rivette estava cheio de razão ao confessar que não era preciso saber idioma algum para se perceber o Japão presente e ancestral que iluminava virginalmente a sua tela. Em ténue oblação e de forma desgarradamente animal, é um filme irmão de "Rebel Without a Cause" do Nick Ray aflito de Hollywood, irmão dos "Mes petites amoureuses" do suicidário Jean Eustache que na Paris ao rubro não esqueceu o rubro da sua pequena aldeia. Todos eles, em movimento único e comum, clamando o inesperado, a única condição certa.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
(...) O cinema é a arte do verdadeiro. O que me entedia no cinema é uma vida caricaturada, deformada, estagnante, homens que não têm alma, um mundo que não reconheço. O único belo é o verdadeiro, só se pode amar o verdadeiro. Adianto que entendo isso de encontro ao sentido em que o entendia Boileau, em que o entendeu o Grande Século; não falo de realismo, seja ele neo-realismo ou só realismo; não falo de De Sica, nem de sordidez ou de miserabilismo. Eu falo do Homem, é justamente isso que faz o artista. Desprezo contos de fada, pantominas, tagarelices mais ou menos engraçadas de um metteur en scène indiscreto, essas intrigas, mais ou menos retorcidas, que não exploram senão as curvas do cérebro do seu inventor. Interesso-me pelos homens e pelas mulheres, por conseguinte interesso-me por mim mesmo. Não me sinto tocado senão quando vejo a alma de um homem, ou quando, sem ornamentos nem estardalhaços, alguém se dirige à minha." (...) "O que ele mostrava, a sua franqueza, a sua honestidade, desconcertava como um soco, era um ser maior do que os heróis, mais belo do que os deuses; era um homem. (...)
Jacques serguine, Educação do Espectador, Cahiers du Cinéma nº 111, Setembro 1960.
domingo, 28 de junho de 2015
No princípio, o jovem mais belo e prometedor da terra, o mais jovial que até tinha uma banda de música, a atenção da mais bela moça da mesma terra e arredores, o Pai duro e consagrado e a Mãe gigante, o mundo a seus pés. A guerra estourou e foi o melhor que lhe aconteceu e a tais como ele. E o princípio do fim. Disse imediatamente presente e tornou-se herói sem ter mexido uma palha. O espectáculo, o circo, a marcha universal que antes ou já na chamada globalização precisa destes eventos como o humilde de pão para a boca mimou-o sem amanhã. Só que, afinal é prática velha e espertamente caduca, os mesmos que erguem os mitos encarregam-se de os destruir para a propalada e essencial renovação e frescura que é o óleo da grande máquina não secar.
“When Willie Comes Marching Home” é de 1950 mas fala do mesmo embuste que a televisão ou os jornais impigem a cada semana ou dia para nos reconfortar e fazer sonhar – o novo salvador, o mágico, o revolucionário, a perfeição. Neste pináculo altíssimo de John Ford, e se calhar por coisas destas tão esquecido como já está “Flags of Our Fathers”, o pobre Willie, depois dos louros, do ouro, dos beijos e da ganância - para não dar a receita completa - recolhe-se (ou recolhem-no, o que abriria a moral para as mais cavas intenções e mecanismos ambíguos) na sombra para mesmo assim fazer o que tem de ser feito. E por estar na sombra, mesmo que talhando Homens inteiros ou “assassinos” (pois é, puristas…) como a ele lhe chamaram no auge, sofre da vergonha da não exibição, do apagamento, de não ter estado à altura das espectativas, de não ter feito render as potencialidades e mais-valias que lhe adivinhavam os especialistas doutos (a pro-actividade dos anúncios de emprego e desemprego; credo das messiânicas agências de trabalho (escravidão) temporário). Pobre dele, é gozado e tornado cobarde, os cães puxam-no para a cama de lama dos vermes; já era. Como na metáfora desportiva, tinha um grande futuro mas perdeu-se, foi pena… agora, vamos fazer que não aconteça o mesmo aos miúdos que aí vêm…
Novo herói precisa-se! É o que anunciam as parangonas, os exploradores e fazedores de êxitos, empresários do sucesso e brilho, profetas dos números e da salvação, prospectores da moda, tal como os agentes de compra e venda (sales agents no nosso estrangeirismo superior) e representantes das estrelas e do comércio (cultural, artístico, divino…) do instante. Precisam-se novíssimos! Novas capas! A última velhice que chegou! E eles lá acabam por aparecer a martelo e os pobres Willies ficam mortos por dentro antes da hora a todos destinada. Mas então o filme dá uma grande volta para a miséria dos maiorais continuar a mesma. Mas vamos por partes: Wille consegue finalmente que o mandem para um campo de batalha, sorri e faz sorrir os seus, mas destino ou obra dos Deuses ou Demónios, cai num vórtice que o próprio Ulisses não desmentiria. Sangue a rodos e balas na cabeça, nem vê-las, mas (sortudo e miserável) presencia e tacteia os inícios dos belicismos modernos e genuinamente cobardes, entre mísseis e friezas distanciadas. No fundo, não faz grande coisa – a não ser que falemos da formosa que cobiça ou dos copos que deita para dentro - a acção ou a épica visceral ou cinematográfica não quer nada com ele. Mas, dizem-lhe e aplicam-lhe o rótulo, é o maior dos Heróis. Azar dele, não o pode gritar a ninguém.
Mas… depois da fuga para a própria casa e dos Pais - ou do Pai pois as Mães sabem sempre a verdade e o fundo - e da noiva o olharem de lado, o confirmarem fraco e deslocado, depois de lhe quererem aplicar camisas de ferros… e vai-se lá saber porquê (dava outro tratado ambíguo e conspurcado quem soubesse realmente dizer porquê) vai dar jeito à máquina que tudo ordena, ao Deus rasteiro, elevar novamente ao mais alto patamar quem tinham afundado, quem tinham perdido por ínvios caminhos, evocando se for preciso parábolas do filho pródigo. Se o caçador foi aparentemente sempre presa, se a historieta do Pastorzinho e do Lobo se ergueu à tragédia, se começou a era moderna da verticalidade do embuste, Willie, peão no tabuleiro mais ordinário e indiferenciado, fica um ícone do humano realmente condenado e castrado na nascença. Se o seu sorriso deixa entrever e perceber a maravilhosa constituição, as suas vontades denunciam toda a manipulação. A doçura que restou do berço e o fel do crescimento. Pobre deles e deste fado que Ford pinta liturgicamente e cospe subterraneamente: formação, condução, esperança, adormecimento, morte. De onde felicidade e amor, depois de um tal ocaso, pertence aos dissidentes. Aleluia para eles e para as suas auroras, dizem-nos as grandes obras como os grandes seres.
domingo, 21 de junho de 2015
“Contra a minha própria vontade,
vejo-me obrigado a fazer aqui uma pausa. É difícil saber até que ponto a
natureza deverá impor a discrição a quem testemunhou certas coisas. Pelo menos,
pode-se colocar em causa a legitimidade de as divulgar. Se alguns livros são
considerados muito funestos e a sua venda proibida, que dizer então dos factos
mais terríveis que não são divagações dos homens? Aqueles que são perturbados
por livros nada provam contra os factos. São os factos, e não os livros, que
deviam ser proibidos. Mas o homem está constantemente a semear ao vento, e o
vento sopra para onde está virado, sem que se saiba se daí advirá mal ou bem. Muitas
vezes o mal vem do bem, assim como o bem do mal.”
Herman Melville, “As Ilhas Encantadas”
"Spring in a Small Town" (“Xiao
cheng zhi chun”) erigido em 1948 pelo grande cineasta Chinês Mu Fei talvez fale
mesmo de um renascimento depois das tormentas, tempestades, plantios, e, a
mesma coisa, aprendizagem. Ou então, o quadro final que parece tudo redimir e
rasgar em relação aos sentimentos e enquadramento anterior, crave ainda mais os
segredos e o lado incompreensível de estar nesta vida. É um mistério num filme
tenso, afligido e ao mesmo tempo sereno como o que não tem volta a dar. E
merece cada imersão, transformação e via-crúcis nele. Por todos os motivos
inesgotáveis da carne e do espírito. Narrado pela esposa à deriva, logo nos é
apresentado o marido agónico, depois a jovial irmã dele, o criado fiel, e o bondoso
amigo do marido que vai abalar os adormecimentos, impor a insónia, sem controlo.
As contendas vitais vão estremecer e pulsar novamente, mas, talvez o mais insondável
e sublime (e logo duro) desta jornada, não vão haver anátemas diabólicas ou
duelos fatais, todos se vão querer e amar para lá ou cá da normalização, de
onde as transgressões passionais ou sanguíneas deixam de fazer sentido. Envolto
em ruínas que são as da guerra mas são também as da rotina mais perigosa (o
caminho faz-se passo a passo seguro como os muros que crescem lentamente), será
para lá delas que quem quiser ver acederá a uma salvação pessoal e depois
universal. Narrado pela mulher, é a mais críptica das vozes, pois se é off e se
domina acima de todos, se paira nos ares, o que a câmara vê, cá bem nos baixos,
o que vemos nós, no presente, faz a diferença, e esse choque vacilante entre a
palavra e olhos e rostos e acções une o a posteriori e o agora num indefinível
que é o centro do filme e da encenação. Encenação que vai sempre desvelando e
velando pacientemente o que encontra em frente e em torno, aproximando-se
conforme a temperatura, ora começando nos pés e indo ao todo para a energia se
concentrar e permanecer, ora raramente olhando os céus ou uma lua que, sabe-se,
tem o poder de tornar rarefeito qualquer vulcanismo. Nessa encenação - a
manifestação do natural - o som é fundamental e irremediavelmente
revolucionário. Nunca pela técnica acabada ou não, em si mesma, mas porque a
primeira vez que o vento sopra selvaticamente nas árvores e no resto tem o
mesmo fôlego catártico dos silêncios e do mudo que antes presidiu e destacou os
gestos, não ditos, o dentro. Depois desse vento sucedem-se os movimentos para
fora e tudo parece revolver-se a outro nível, pelo espírito e compreensão que inflige
no físico. De braço dado com a elipse, verdadeiramente ou cripticamente em
acção, não por cortes largos no espaço e tempo, antes intervindo em quartos, em
leitos mesmo, por infinitesimais porções, carregando em paroxismo até o coração
de cada um ser audível, sensorialmente e materialmente. Um cosmos pode ter
acontecido no entretanto onde o cinema corta, ou apenas uma brisa ter passado.
O plano final... não há como não voltar lá, assim com nunca se esquecerá a
esposa e o amigo contra o fundo etéreo que acolhe, comenta, se mantém
impassível e resume a beleza lírica do instante – ali passaram milhares de
anos, o afogueamento da decisão, todas as posições, contradições e gama de
sentidos e sensações; como a passeata pelas águas e brilhos plenos de si pelas
flutuações de quem o atravessa; como a dança, canto e brincadeira infantil
entre a irmã e o amigo que abole qualquer idade. O plano final liga ao Jean
Renoir das razões para cada qual e ao Ozu dos destinos. Sem esquecer Paulo
Rocha, basta ver qualquer das suas obras ou escritos ou ele mesmo a falar ou
caminhar, essa vertigem dos abismos primordiais da criação e da vivência em correspondência
com a arte e a crueza do real na fixidez do plano prestes a explodir. Para
valer por si como cada qual vale por si acolhendo a paixão. Puro, alvo e
assombrado por um fora que para dentro trouxe e trás toda a negrura; por um
dentro que não escapa às imemoriais ambivalências. E a transfiguração a conquistar.
Indecifrável, como todas as grandes histórias de amor.
sábado, 20 de junho de 2015
Uns por aqui altivos e incomunicáveis e secos como polícias de beira de estrada ou no gabinete ferrado. Uns anónimos e sem rastro, lembrança ou encalço tal e qual lugares de estacionamento do parque mais concorrido. Os que tudo entregam, tudo trabalham e dão a outra face não na humilhação mas na obstinação suprema. Os que velam por cada alma nos silêncios do mais acabado escuro. Corpos largados ao vento e à sorte que gastam o tempo permitido a tentar encontrar o chão firme. Os fiéis como estátuas ou genuínos apóstolos e os trementes e pecadores tão legítimos como.
Aprender e apreender o caminho da vida e aprender e apreender o caminho da morte. Saber da treva e saber do brilho da luz. Da justiça terrestre e da plena. O que está escrito nos altos e o que podemos escrever. Do impossível e da vontade. Muitas vezes se vai a Deus, aos seus escritos, testemunhos, mítica, incomensurável fonte. Isto está em “Battle Hymn” e em todos os obcecados e perdidos na procura; filme onde homens torturados que foram à guerra procuram razões superiores para os seus actos e para seguirem em frente; onde imperturbáveis sábios também fazem calmamente a mesma busca trucidante em terra queimada; num entrelaçamento e acordo nos quais se sonda e clama instante a instante a mais greve e eterna das questões, o porquê das coisas acontecerem como acontecem e não como deveriam acontecer. Obviamente que a recente tragédia que ilumina as sombras da vida presente em “American Sniper” de Clint Eastwood é mais um remake exacto e geométrico do filme de Douglas Sirk – de vez em quando há que cimentar as fundações; “Battle Hymn” já era remake de muitos mais e sobretudo de quem pisou e respirou verdadeiramente.
“Isso não tem lógica, regressar à guerra não tem lógica.”, é o que diz a mulher terna e esbranquiçada de medo do guerreiro queimado. “Não procures a lógica, não irás encontrá-la. Nem sempre temos que ter um motivo claro para o que fazemos. É apenas o que sinto.”, responde o dito guerreiro pelas entranhas inegociáveis. Guerreiro a que apelidaram assassino, que virou padre, que não se reconciliou com a paz entregue, que teve de voltar para o caos para algo começar a fazer sentido. Olhando para os outros e para o fundo dos outros, olhou para os desígnios mais profundos, para si e para o terrível e generoso do caminho e da origem aceite. No centro do centro do nefasto, jamais lição de moral ou patriotismo, mas uma concepção da fé que ultrapassa o seu circuito corrente para a colocar ou recolocar nos fundos ou voos da paixão. Esse guerreiro que trouxe à vida todas as crianças de todos os lados, que amou o melhor amigo nas misérias oficiais, que amou a sua mulher incondicionalmente, que amou a outra mulher que sabia não mais poder regressar a sua casa. A agonia da fé porque trilho da serenidade. De uma forma implacável, como bom antigo e revolucionário a sério, o mestre da estilização volve-se como sempre se volveu o mais realista dos cineastas e dos seres – todos os meninos são aqueles meninos e o genial Rock Hudson sua mesmo – o movimento que se pressente e sente verdadeiro tal e qual como se pega em dezenas de quilos de uma só vez ou se beija a face desarmada da Mãe. Sirk e Eastwood sabem que as aparências são só as cascas e a reverberação do impronunciável. Sem dissimulações. Estilhaços e inteireza num mesmo corpo contraditório e pleno. Para sempre.
Em qualquer paralela ou em qualquer meridiano, avesso ou
direito, o fundamental que abole todo o palavreado: nada é certo e urge escavar
sempre.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
"Taza, Son of Cochise" (no 2d estonteante, vertiginoso, inclassificável a que tal cineasta nos habituou) é de uma beleza mortal, precisamente porque não a exibe nem faz dela primeiro plano, antes existe pela dependência dos vários elementos compositórios. Ar, montanhas, céus e homens em vínculo extremo e inegociável. Um cegante brilho dissemina-se entre dias e noites, denso e difuso, nessa cara carregada de choro e riso travado ou abrupto; são os grandes corpos revoltos na sua singular manifestação. Muito mais do que o exotismo de Douglas Sirk metido no Western, é ele mais uma vez defronte dos irremediáveis estatutos e tensões que compõe a raça e a sua divisão. John Ford é a totalidade, o humano e o entorno fixo e focado até ao ínfimo e infinito, pelas danças e pelos massacres, para se ver inteiro como no dia do parto. Sirk quebra essa unidade, instala-se na brecha e na falha consequente para observar por dentro os mecanismos, até à detonação e renascimento. (Isto nada tem de transcendente ou de intelectualmente elevado: Ford agarrava dos cavalos até às montanhas e ao infinito; Sirk interessava-lhe era estar entre as castas humanas, mesmo no centro deles, metido.) Daí está intacto o lirismo dos seus grandes painéis posteriores já em aparente civilização acabada. O apocalipse final não contem demagogia ou heroísmo cinemático, antes tragédia antiga. Do mais americano dos géneros à americana melodramática de "All That Heaven Allows", o obstinado e inato orgulho, virar de cara às visões espelhantes. Sem contemplações ou partidos, como as verticais físicas que se impõe e abarcam na magnifica horizontalidade que de tão pura parece ascender ao metafísico. Físico e metafísico, a carne e a alma, o misterioso que a isso preside, intemporal.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
A misturada presente em "Across the Wide Missouri" tem muito que ver com as terras virgens, o desejo e o sonho, a comunidade; e daí a transcendência, o heroísmo comum, a vida e a morte completa, o chegar à beira de Deus. Um homem não era só um homem mas infinitos deles, entre baixos, altos e o incomensurável, pela neve e sobre o sol que a tudo preside, podiam viver e morrer desconhecidos e mesmo assim a imortalidade esperava-os; cada um em toda a terra e ela toda por causa de um. Sangue e terra finalmente uma massa complexa e vital. Nativos, forasteiros, franceses, gaitas de foles ou parecido, os índios e os sem nome, isolados e uns com os outros; tal como os territórios ainda não estavam apelidados e o horizonte aberto era o amanhã de cada um como o pão. Bebiam, divertiam-se, brigavam, matavam-se. Não parece muito diferente do que se passa hoje, com todas as gavetas, demarcações, topografias, globalização; e no entanto William A. Wellman nada força e em cada acção ou ritual corre um vigor e uma crença indelevelmente ligadas à pertença e à partilha que as redes e o social de hoje tornou pobre simulacro. Cada acção, ritual, ou gesto, no período em causa, mas poderia ser nos inícios do mundo ou no agora mais perfeito, existe genuíno e indelével, acabado; de onde a reconstituição não procede.
Passa-se todo o arco de acontecimentos, detalhes carregados, odisseia concentrada, centro exemplares e o que normalmente fica de fora sem exemplo. Do matar a sede ao próximo até ao casamento mestiço; bailados idílicos e sujos com pancadaria a fechar e o solitário com o seu pobre instrumento; aprendizagem casual e a chegada das cobardes armações e da cobarde pólvora; caçadas, passagens suicidárias, contemplações, agonias. E os casamentos que não se previam com os crimes rasteiros; os nascimentos com genocídios ligados; beijos soprados ao vento, cavalgadas inauditas, enterros imperdoáveis. Relações universais e intimismo lancinante (as festas da mãe índia ao bebé no quarto com o pai a chegar em silêncio encerram o universo).
Envolto numa forma que organicamente admite tudo, das panorâmicas vacilantes, sulfúreas, sem rasto de perfeição mas antes de consonância com o momento, ebulescentes contra-picados escavados no solo; até aos estancamentos de registo, memória e experiência. Tudo enlaçado por uma voz off que nos chega para cá do ventre e do acordar primeiro e nos encontra entre batalhas e paixões. Isto era importante, uma atenção e uma sublimação da grande natureza e dos grandes sentimentos; e uma atenção outra, aos fundos e à constituição, um cavar nas aparências, desfibramento essencial que aplicava vigilância e ainda mais dedicação. A fúria do cavalo com o bebé no colo só avisa do que podemos violar. A violência e ternura do primitivo no aparentemente irreconciliável que faziam as coisas entrar nos eixos. É no reconciliável deste novo super século, nesta paz letárgica, democracia barulhenta, que nada, nada acontece. "Across the Wide Missouri", 78 minutos, transbordantes e serenos, o estado do mundo e dos seres em eventos e nadas quotidianos. Quantas horas e quanta suposta modernidade nos shows fílmicos dos nossos festivais e quanto realmente mexe?
E que se fixe a força, o acreditar e depois a negra desilusão de Clark Gable. Assim tão sereno e tisnado da vida só o tinha visto em "The Tall Men" de Walsh, sentidos e sentimentos em contacto. Acaba o Pai e o filho a caminharem em frente e a câmara a procurar Céu. Grandezas em sintonia numa relação plena e sintética.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
“This Land is Mine” é
um finca-pé onde um crescido aprende ou não aprende a fumar à pressão para que a
realidade não seja tão real; “The Southerner” é Steinbeck em pincel e de mão
dada; de “The Woman on the Beach” os olhares feridos de Ryan e Bennett e
sobretudo uma virgindade aquosa de que é difícil não lembrar como sonho. A obra
americana de Jean Renoir é tão espantosa e pura quanto se pode equiparar à dos
grandes cineastas desse país, nativos ou não, para se perceber que não havia
entre eles cópia mas um olhar e um trabalhar e um sentir esclarecido e agudo. Muito
pouco valor se tem dado a “Swamp Water” (onde também laborou Irving Pichel) mas
a sua complexidade e candura é evidente. Baseado numa história corriqueira como
extraordinária do The Saturday Evening e não num Great American Romance, logo se
escuta o mais americano e Fordiano dos temas musicais que sempre irá amparar ou
aquecer os momentos mais fulgentes. Poderia ser só uma fruição de um tronco
humano e de um cão por entre líquido, bichos, ramagem, monstros orgânicos e
inorgânicos, céu tão alto, o inferno em beleza travestido, a caveira no topo da
cruz, um nenhures, e a experiência já seria inolvidável, o cinema justificado e
agradecido. E no entanto uma amplitude que apela ao grande oceano do Senhor
onde as estrelas são enormes jangadas prateadas; pois vamos encontrar um
recluso que já não acredita na bondade terrestre e então prefere viver nesses
pântanos selvagens que reconhece como outra estrela longe daquela onde vivem os
outros comuns e ditos felizes. Nessas águas negras demais ou brilhantes demais prenhas
de veneno e de morte, é onde essa criatura desenvolve instintos novos e revoluciona
ou reinicia o nosso poder. Quando a certeza é deste modo inquebrantável e
serena, o físico como o outro lado que invisível se diz desdobra-se e vive do
avesso, sem meias medias. Daí os dois milagres maiores de um filme carregado
deles e do seu oposto: quando Walter Brennan, o eremítico, é mordido
mortalmente por uma cobra, morre de facto; elipse, e Dana Andrews, o
bem-aventurado, já abriu a cova para o enterrar e já ascendeu as preces; mas
vai buscar o cadáver e já encontra um estóico são e salvo e pronto para muitas
outras; a justificação nada tem de heróico - há que se resolver a curar, pensar
com bastante força e rezar um pouco. O segundo mais visível e severo milagre é
o da dignidade e o da força bruta e intemporal da verdade – o regresso ao seio,
plenitude sem antes ou depois, amor. Muito se erra e muito se perde e foge e o
encontro tem de estar sempre ao canto do coração. É o que mais nos diz esta
fábula carregada de sorrisos envergonhados e cheios e centrais, bailarinas
etéreas resgatadas à lama costumeira, areias movediças mais consequentes que
mil martelos oficiais da pobre justiça, bailados estonteantes entre carne e
suor e fingimento, inocentes a leste do paraíso, baladeiros apaixonados e
assustados sem culpa, erradas culpas imemoriais, buscas de tudo ou nada pelo
companheiro para lá de animal de estimação, ressurreições e limpezas, reencontros
e absoluto. E tanto mais, tanto que não pode ser dito. Água, ar, cimo, razões, entendimento.
Não são as bases ou fins de algum evangelista bem-intencionado mas sim do
humanista convicto que não cega nem cede à aparência. Fundo, muito fundo. Como
esses rios e mares e fúrias que, como o vento, o fogo, sopro, correm por onde e
como querem. Sempre e cada vez mais.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
O máximo de leitura com
o tempo adequado, a distância e a composição exacta e assim evidente, a
conservação do imperscrutável, o humano como princípio e fim na sua relação com
o meio – antes partir do que coçar, em 1928, já John Ford utilizava todo o
manancial a que se apelidou de clássico nos anos 40 ou 50 do século passado, de
onde a sua selvajaria, o indomável, nunca este na violentação formal ou no alarde
mas antes do lado da crença (antes ainda da ideologia). “Hangman's House” abre
em cenário de oficiosa guerra e cheiro a pólvora mas logo parte para as
paisagens idílicas da Irlanda, entrando lamentavelmente noutra guerra mais suja
e covarde, a da pequena mesquinhez, mal e poder exclusivo.
O primeiro longo plano para Victor McLaglen é
mais um abraço de admiração do cineasta, onde se pode apreciar o colosso da
bondade, mas tudo começa no interior a vibrar e essa presença impassível grita
que tem de matar um homem. Quando assim se grita, foras e dentros estalam. A
limpidez começa a esfumar-se, irrompe água e isolamento, logo depois o fogo que
a apaga, e uma consumição de visão dos infernos com os mortos de cada um a
pularem de alegre vingança dentre libertação de cadafalsos e humilhações. É
aqui que realmente se deu um encontro com F.W. Murnau, porque essa mansão, as
suas linhas, arcos e ar de terror tem a mesma constituição dos castelos vivos e
monstruosos e sedentos (mesmo que imperturbáveis) dos do alemão; e McLaglen é
um Nosferatu que em positivo ou mantendo o negativo - pouco interessa pois
estamos no terreno plástico, instintivo e abstracto do mal – vem vingar e
espalhar certas coisas que se pretendiam esquecidas. Mas Ford é Ford e a
restituição e devolução é feita de outra maneira, não como fim na danação mas
como justiça demencial porque obstinada, intemporal e a ferros tirada. A ferros
pois toda a lógica, causa e efeito, toda a coerência narrativa supostamente
alicerçada na realidade que o cinema costuma seguir, todo o reconhecimento e
cópia-conforme, tudo isso é vergado e, agora sim, assombrado para que se
perceba que há limites que não se devem transgredir e que compete ao verdadeiro
gesto cinematográfico como ao verdadeiro ser que respira livre cometer os
massacres certos para que o bem possa ainda brilhar ou espreitar dos escombros.
O par jovem prometido e devastado, a morte do
colossal carrasco, o diabo na terra idílica, o encapuçado de sorriso largo e
mão generosa (chamar-se Citizen Hogan é tão afirmativo e representativo como
hoje anacrónico e provocador). Isto seria o que estava no papel, Ford, na sua
tradição, rasgou e baralhou na certeza que o caos da premissa tenderia, ainda
antes das grandes rupturas e violações civilizacionais, antes da degradação
política do contemporâneo galopante e cego, para a origem. Mesmo que nesse
turbilhão fosse parcial pois em sintonia com os das margens, ou por causa disso
em primeiríssimo lugar. Da cena mais bela desta jornada do pó à luz: a
digressão em sonho pelas névoas e águas da salvação nessa barca e nesse éden por
que passaram almas de Mizoguchi ou os meninos assustados de “The Night of the
Hunter” ou os amantes perfeitos de “Sunrise”; até ao incêndio final perpetrado
pelas línguas de fogo do firmamento. O que limpa e o que arde, do bem ao mal e
a convulsão, cantos e gritos. É essa alternância que é via da existência. E o
acreditar. Toda a criação.
terça-feira, 2 de junho de 2015
"Nothing Sacred" é, para lá da sátira e da bílis
jornalística, social e inumana natural, um dos mais realistas embates com o
amor a que o cinema se entregou. Porque absolutamente espancado e coberto pelo
sangue da loucura que corre nas veias e carnes e têmperas dos amantes. A mulher
que sabe que não vai morrer mas diz que vai; o homem que se aproveita disso e
passa a nada saber; e a fama e proveito mútuo que descamba na lama quando se
começam a encontrar sozinhos e a olharem para dentro dos olhos um do outro sem espectáculo e sem assistência. Incalculável tempo, arco, espaço e história e de tal sentimento não há nada a prever ou a educar. O homem, a mulher, acabam ao
murro um ao outro, só para poderem esconder-se do mundo para o resto da vida
deles. Tão patético como inaugural. Nessa irracional demência dos muito
francos. À maneira de parentes fiéis e sem regra chamados "The Wild
Palms" ou "Help Me Make It Through The Night ". A verdadeira
composição que descarna a mentira da normalidade, essa inevitabilidade que é
trilho para o sublime. A toda a hora, a todo o dia, num chão qualquer, quando
fechamos os olhos da respeitabilidade e do auguro adulto que nos embrutece.
Sempre a cores demenciais e em movimento estonteante. William A. Wellman, o
durão, teve a coragem ou simplesmente a lucidez. A Short Time for Insanity.
Aleluia!
(Aqui fica a minha contribuição para o mês de Maio do Cineclube do Porto. Bem hajam!)
"Um Adeus Português", João Botelho, 1986
"Um Adeus Português", João Botelho, 1986
João Botelho tem já uma longa carreira em mais de trinta
anos, com objectos muito diferentes e constantes desafios, tendo estreado
recentemente aquele que poderá ser considerado o auge do seu interesse pelo
artifício, pelo grafismo, pintura, enfim, um investimento no chamado
"falso" para desse modo atingir uma emoção que advenha do cinema como
conjugação das restantes artes, num auguro de gesto total que dispensa a
invisibilidade clássica e os seus mecanismos realistas. Mas o filme que aqui
nos trás hoje é uma página rara e delicada, o seu melhor; está bem longe de
"Os Maias - Cenas da Vida Romântica" e nem o constante choque entre o
passado e o presente, a guerra e a paz, preto e branco e cores, consegue anular
o profundo humanismo, calor e suavidade (e calor e suavidade tão grave em certos
momentos) que se desprende de "Um Adeus Português", que só terá
comparação com outro seu filme secreto e intimista feito já no início dos anos
noventa, "Aqui na Terra".
Na altura alguns lembraram-se daquele que porventura também
será a obra mais lancinante de Yasujiro Ozu, "Tôkyô monogatari", e,
de facto, não nos podemos deixar de lembrar dessa visita de um casal assente
longe dos grandes centros aos seus filhos citadinos e do desfasamento que tal
encontro revela quando Isabel de Castro e Ruy Furtado deambulam tristemente por
Lisboa. Aqui como no Japão. Do Norte Português parte esse casal em direcção à
capital, para matar saudades e para apaziguar almas, mas o que aí encontra são
os seus não lá muito bem na vida e cheios de afazeres, embrenhados no ritmo
moderno e numa luta pela sobrevivência que adormece os bons sentimentos de cada
qual. Particularmente exemplar é Alexandre, subtilmente encarnado por Fernando
Heitor, fantasma envergonhado pelo seu ganha-pão, da sua inércia abstracta, que
não o deixa como a tantos outros expandir-se. E assim, esse périplo ou essa
peregrinação, destapa tanto as feridas da guerra e do passado português como do
falhanço da sua revolução. E a acalmia, como o abafamento e o silêncio
incómodo, fazem depender os tempos uns dos outros rumo à evidência de um
destino conformado que teima em não virar.
Além da beleza, mesmo que trágica, fluente ou assombrada que
assoma momento a momento, não esquecendo uma montagem que não quebra mas antes
unifica, vale a pena insistir: Isabel de Castro e Ruy Furtado, dois dos nossos
maiores actores, são a imagem, o corpo e o peso da grande gente lutadora e da
grande tradição humanista e panteísta antes do descalabro social, cultural e
artístico do contemporâneo e do virtual feito moda. O filme trata muito disso e
o aparecimento do grande cineasta António Reis em trabalhos do campo só
relembra a questão da verticalidade humana ao invés da corrupção fácil. Na sua
aparente pequenez, uma verdadeira grandiosidade. A permanência a si, essa fidelidade.
"December 7th", John Ford e Gregg Toland, 1943
As razões que levam um homem a ir ver a guerra são verdadeiramente
obscuras, alguém o disse certa vez. John Ford, o grande cineasta americano,
foi-o algumas vezes, e não só pela potência construtora da ficção.
"December 7th" é um caso paradigmático e no seu contexto bem
enigmático. Depois das grandes obras que lhe deram o reconhecimento e o
sucesso, de "The Grapes of Wrath" a "How Green as My
Valley", Ford (acompanhado pelo não menos guerreiro e sensível Gregg
Toland) interessou-se, em plena segunda guerra mundial e nas convulsões
inerentes, a ir ver in loco como funcionam tais mecanismos, pretensões, enfim,
o grande tabuleiro da existência humana. Mas, coragem maior e abertura à
complexidade infinita das coisas e do mundo, da natureza e do homem nela, não se
limitou a mergulhar de cabeça nos abismos da realidade - como também mergulhou
sem qualquer rede - antes efabulou ainda a partir do que viu, ouviu e sentiu
para assim as coisas atingirem não só a ferida do instante agudo mas também os
ecos e reverberações do grande arco da História, mitos incluídos. Do plano
inicial de um avião desfeito até às bandeiras finais ao vento da união,
monte-se em conjunto e perdição as crianças asiáticas a cantarem o hino
americano com o rosto de um bebé ligado a uma campa do cemitério - é a
eternidade, as suas voltas e revoltas e a impossibilidade de juízos
demagógicos. Pois demagogo ou propagandista é tudo o que este "December
7th" não é. É sim, como noutro filme duro e terno realizado dois anos
depois, "They Were Expendeble", uma travessia nos destroços nossos. A
encenação, o lado descritivo, arquivista e até romântico de querer saber do
próximo e de como sopra o vento comum no outro lado da terra, por inteiro -
cada árvore uma árvore e cada choro ou riso um choro e um riso sem truques -
olha a massa do real de frente e não lhe nega qualquer segredo ou
incompreensão. Todo o Cinema de Ford, o muito Humano. Para lá ou para cá da civilização domada.
sábado, 9 de maio de 2015
"O "milagre" de The Grapes of Wrath, como o de Young Mr. Lincoln do ano anterior, tem a explicação numa convicção que não é "colada" por imposições propagandísticas, mas provém duma certeza de nível muito mais profundo. Ford não "cantou" Lincoln ou a família Joad para servir os interesses duma política (embora seja outra questão saber se efectivamente as serviu) mas porque moralmente o seu credo se identificava totalmente com as ideias expressas nessas duas obras. São filmes sem dúvidas nem manhas - actos de fé e de esperança - filmes de um crente que nenhuma dúvida, oportunismo ou servilismo, atravessa. Realizador e "mensagem" identificam-se plenamente e, por isso, o olhar é tão límpido, a beleza tamanha e a força tão pura."
João Bénard da Costa, na folha da Cinemateca Portuguesa sobre "The Grapes of Wrath".
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