terça-feira, 18 de dezembro de 2018
The Culpepper Cattle Co., Dick Richards, 1972
Jerry Bruckheimer, glorificado e massacrado ao longo das décadas pelos grandes blockbusters de Michael Bay ou da longa saga “Pirates of the Caribbean” que ajudou a gestar, estreou-se na produção em 1972, numa associação ao grande realizador de segunda unidade do cinema clássico, Paul Helmick, homem da confiança absoluta de Howard Hawks e que filmou planos e sequências de “Rio Bravo” ou de “Hatari!”, num pequeno e complexo western que para muitos funcionaria somente como isco para aproveitar a fama do jovem Gary Grimes, fresco do triunfo conseguido no “Summer of '42” do ano anterior.
Só que Dick Richards, realizador de punho firme que três anos depois seria tão duro como Raymond Chandler e Robert Mitchum nessa adaptação carnosa de “Farewell, My Lovely”, logo de início decidiu tratar de mais um bloco da odisseia da expansão americana como deve ser, vendo com dignidade e sem desviar o olhar as gentes que estiveram nesse fluxo, num genérico onde a frontalidade e ternura do grande fotógrafo e testemunha Walker Evans é posta em prática sem devaneios, estabelecendo imediatamente um ponto de vista moral e prático – logo de seguida vão desfilar pelos planos-sequência os modos de trabalho e de artesania dos vaqueiros, desde o desbaste de uma cana verde, passando pelo marcar a fogo a carne viva dos animais, até ao modo como se prepara a comida para a trupe esfomeada, entre a mais variada alvenaria; assim como serão picados grandes-planos de uma subida para o cavalo, o laçar das cordas, a disposição correcta da sela, o controle do corno do cepilho, etc., para mais uma contribuição preciosa no incomensurável atlas da nação Hollywoodiana.
“The Culpepper Cattle Co.” segue Grimes a par e passo como um Huckleberry Finn fascinado pela vida de cowboy e logo pelas armas, fascinado pelo mito primordial; mito diferido, pois já num tempo posterior ao de “Blood Meridian” de Cormac McCarthy, no qual se declarava sobre um menino que não sabia ler nem escrever que nele medrava já o gosto pela violência tresloucada. Neste menino a psique já foi invadida por motores, pré-fabricado, matérias gasosas, químicas e orgânicas incompreendidas, para um sangue e uma combustão adulteradas, injectando no ritmo fílmico um langor anestesiante que faz com que os corpos caiam à maneira de Sam Peckimpah, numa câmara lenta sem estilo e com o sangue e o rasgar da pele perto da objectiva. Nova idade aparentemente escondida do centro dos planos que vai assombrando tudo pela calada da noite. Passado o tempo das grandes crenças e dos grandes embustes, aguenta-se somente e em bolandas a lenda em segundo grau e a anedota inflamante, nesses mitómanos de trazer por casa junto à lareira sob as estrelas do deserto que elaboram sobre bordéis e sobre o ordinário onde outrora se elaborava sobre grandes conquistas e heróis.
Tempo estranho e indefinido, a meio caminho, nem músculos nem reza, tempo de passagem, o suor a debater-se com o cerebral, em paisagens desorientadas nessa quebra dos raccords de realização clássicos que iludem os pontos cardeais, a simples nascença de um novo mundo no oriente e o cair da treva no poente, paisagem na qual a vinheta que narra o tiro e a morte que transformou a criança em adulto, o ajudante de cozinheiro em pistoleiro oficial, não procede. Nesta odisseia oblíqua, ao deus-dará, sem o Oeste no rumo da ida ou da volta certa, os ladrões e assassinos notórios preferem conduzir vacas temporariamente (como os trabalhos temporários e os precários de hoje) a terem grandes aventuras e transgressões permanentes, mas num dos momentos mais insólitos da história do western um triste vaqueiro profissional volta as costas ao grupo e desiste da missão devido a uma injustiça de tratamento no seio deles – forças motoras e espirituais condenadas à pura entropia. No tomo final da trilogia fronteiriça que é “Cities of the Plain”, comungando já da evolução sem freio depois do árido “Blood Meridian”, Mccarthy como que fala sobre este filme: «Sim. O tipo morreu ali de pé. O que eu mais recordo foi a rapidez com que ele caiu. Que nem um peso morto. Os filmes também nunca mostram essa parte como deve ser.» Em “The Culpepper Cattle Co.” a própria força da gravidade é um conceito vacilante, e os corpos, como as almas, dos actores dessa tragédia vão-se esvaziando, mesmo quando são puros como Grimes ou como o desertor.
Ritmo lânguido, olhar exangue, solo ressequido, gestação suspensa, o encontro entre o mais americano dos géneros e a sci-fi terrena. Todas as sequências finais são um tratado e o produto do choque dessas matérias desarranjadas, e são a profecia e o galopar até às fake news contemporâneas, fascismos de várias latitudes, modas castradoras, reaccionárias, reversão do certo e do justo que um dia foi a palavra dos homens e a palavra de deus: o miúdo que julgou encontrar o Paraíso Perdido nos colonos religiosos que se plantaram nas terras dos soberbos e dos ditadores, convencendo os seus parceiros a lutarem por uma verdade aparentemente cristalina, não consegue puxar das armas em tamanha amostra da delirante satisfação pela violência tresloucada, ficando mudo e estupefacto, percebendo que a soma de tudo aquilo foi o nada, o nada. Os seus companheiros morreram numa satisfação que se resumiu a isso, gratuita, sem redenção, e os religiosos da salvação que cantaram a canção que ele guardou da infância não querem saber desses mortos. Nem tempo do apocalipse, nem tempo transcendental. E o miúdo vai-se embora, parte, vira as costas – a solidão moderna. Sem resquício de um acreditar.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
Pina Pellicer
ou a lídima aura dos anjos na terra.
30 anos de vida permitida pelos Deuses e pelos homens.
8 filmes entre o México natal, Marlon Brando, a sério O Fugitivo e The Alfred Hitchcock Hour.
Esteve apenas de visita. Flamejante. Su legado es una leyenda triste y memorable...
Deixou escrito de forma inacabada no seu diário:«Seres como yo deberían tener la libertad de morir en el momento en que la tristeza empezara a invadirlos porque, los seres como yo, somos seres débiles, incapaces de decirle no a la tristeza, no a la vida, nos dejamos llevar, nos dejamos morir por la tristeza.»
«Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.»
Gênesis 3:24
30 anos de vida permitida pelos Deuses e pelos homens.
8 filmes entre o México natal, Marlon Brando, a sério O Fugitivo e The Alfred Hitchcock Hour.
Esteve apenas de visita. Flamejante. Su legado es una leyenda triste y memorable...
Deixou escrito de forma inacabada no seu diário:«Seres como yo deberían tener la libertad de morir en el momento en que la tristeza empezara a invadirlos porque, los seres como yo, somos seres débiles, incapaces de decirle no a la tristeza, no a la vida, nos dejamos llevar, nos dejamos morir por la tristeza.»
«Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.»
Gênesis 3:24
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
Hondo, John Farrow, 1953
Produzido pela Wayne-Fellows
Productions de John Wayne e Robert Fellows, “Hondo” é um filme
de família e, como está implícito no nome da produtora, de amigos.
John Farrow não é um indiferente tarefeiro e a sua fusão a
Salvador Dalí no surrealista “The Big Clock” é mais um daqueles
casos que tiram todo o tapete a quem vem com ideias escorregadias
sobre a velha Hollywood. Na abertura, típica de qualquer western,
vemos o forasteiro sozinho, a caminhar de movimentos e semblante
ameaçadores, com a arma em punho, mas ao invés do cavalo apenas um
solitário e auto-suficiente cão o acompanha. Na casa que lhe calhou
em sorte encontrar vive uma mulher que esperará eternamente pelo
marido que a abandonou, e o seu filho que faz tudo para proteger quem
ama mas não se importa com a vida própria. O paraíso perdido que
parece ter encontrado sem pedir, depois da odisseia Homérica, com as
águas límpidas que o rodeiam, as montanhas destacadas do fundo e
sob os céus que de quando em vez cegam depois da tempestade, a
primeira luz da manhã pronta para abraçar os amantes, tudo isso vai
ter de ser adiado, a um primeiro nível pela questão fundadora da
guerra entre os nativos e os conquistadores, mais fundamente e
antigamente pelo pecado original e pelos espinhos que a mentira
espeta à verdade.
Hondo,
ou seja, John Wayne mestiço, híbrido, sem pátria, dividido e
estilhaçado pela morte da mulher amada que era índia como ele foi,
jurou não se preocupar mais com as decisões do seu semelhante,
depois da tragédia mais indesejada lhe ter batido à porta. Só
que, a mulher branca que encontra e que em tudo é diferente da que
perdeu torna-se a seus olhos e por causa do coração a mesma, o
filho desta vai ter com ele de noite e abraça-o como se dele
dependesse, o índio rival da sua actual condição salva-o da pena
capital depois de um engano tremendo mas passa a admirá-lo quando
ele vai contra ele e contra a sua tribo por causa somente da verdade
básica; e de verdade tremenda em verdade tremenda a mulher descobre
que Hondo matou o seu marido e a partir daí pede a última das
mentiras, a mentira do para sempre
que Hondo repetirá para si próprio rumo ao trilho irracional dos
destinos. Algures no campo de batalha puramente humano, a mais
acabada das mentiras volve-se a mais revolucionária e única das verdades.
Neste
filme de uma beleza pacificada como o Éden sem os seus habitantes da
praxe, e aonde a mentira faz o mais abalado dos ricochetes, ficamos a
saber que o puma grita insultos e é valente, mas o coiote uiva
insultos e é covarde - destrinça e dádiva sublime do nativo ao
mestiço que viu de todos os lados e se queimou até à purificação
nesse ferro e nesse fogo; e aqui entra John Ford, a parte ou a
herança Fodiana – recentemente descobriu-se que ele teve alguma
mão no filme, a fellow: entre a matança e o baile, a ilusão e o facto, o
mito e a impressão, importa a assunção original que levou toda a
narrativa até ao ponto crucial, salvando a contradição. Puma ou
coiote, na guerra como no amor, a verdade é uma construção de
amplexos e estruturas complexas, erigida em planos indestrutíveis e
totais, carregada de pontos de vista desmultiplicadores, cheia de
tempo e de espaço e de fúria, na qual só percebe o fundamental
quem vislumbrar e sentir o pulso ao todo. Louis L'Amour, o homem das
mil deambulações entre os ventos e cadáveres do deserto, baseando-se “Hondo”
numa das suas mil histórias, proferiu um dia: «A mind,
like a home, is furnished by its owner, so if one's life is cold and
bare he can blame none but himself.»
A acha da mentira que Hondo e a mulher ofereceram ao filho e à
fogueira de uma possível família nova foi a acha que nutre o fogo
essencial, que fará medrar as crias e um futuro que reconhece o
passado – é o olhar e o dizer de Wayne para com a raça prestes a
ser abatida mas não esquecida. A família cruzada que se fará uma,
liberta e fiel, no mais lendário dos avatares.
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
Under Pressure, Raoul Walsh, 1935
“Under Pressure” é um filme
chocante, mesmo saído da câmara exposta às balas do camionista e
rancheiro Raoul Walsh ou do corpo e da mente marcadas do grande
argumentista Borden Chase que antes de dar à pena foi motorista de
gangsters e cavador de tuneis. Chocante porque a carne e os músculos
de super-homem que trabalham dentro das entranhas da terra valendo-se
do ar comprimido e do veneno que vai pacientemente corroendo os
órgãos, os membros e toda a restante matéria, quer mesmo assim
bater o adversário do lado oposto, tal como nas grandes guerras ou
nas corridas de cavalos, como se tivessem inspirado o elixir da
longa-vida ou cheirado um amor para lá de todas as considerações.
Existências breves, intensas, cadentes, sempre surpreendidas pelo
choque de existir. Ratos que também são heróis e que iluminam os
lares de milhões de seus próximos, matam a sede e fantasiaram com o
surfar na internet, encarnando nos compadres e rivais da electricidade de "Manpower". Apaixonados pelo vislumbre do centro do mundo ou
pela simples faísca da picareta e do consequente som inaudito no
mineral assombroso. E que não querem medalhas para além da cerveja
no final das etapas, da função cumprida conforme o posto, da
estrela-guia feminina que disputam com as vísceras do subsolo.
Num dos episódios mais hilariantes da
comédia humanista “Suttree”, Cormac MacCarthy descreve assim a
busca da personagem principal ao idiota que fala sempre a verdade
chamado Harrogate, dentro da escuridão fétida dos esgotos e das
cavernas que nos sustêm em delicados liames e esperanças, em busca
de um tesouro ou de um brilho que a raça desprezou algures na
caminhada: «Calcorreou estreitas passagens laterais e perscrutou
os mantos de lama no leito de pedra da gruta em busca de pegadas, mas
há anos que ninguém passava por ali, ao que tudo indicava. Os nomes
e datas na pedra tornaram-se mais antigos. Cimérios mortos sem
descendência. Falta de espírito aventureiro na alma das novas
gentes ou ausência de amor pelas trevas».
De “Under Pressure” ressuma suor e
a morte a escavar em cada poro por cada segundo, mas logo no início
vemos um dos mais inauditos planos cinematográficos alguma vez
construídos e iluminados, ratos-homens rivais ao encontro uns dos
outros no fétido carreiro até à altercação capital na meta, até
à glória final apagada e sem eco nem homenagem da claridade
exterior. E assim percebemos que certos homens, na equação
vacilante e ilógica rasurada na sua morfologia e na sua condição,
desprezando a ciência e a física básica em favor da poesia e do
desconhecido trucidantes, cavam-se completos no instante assombrado.
O frémito: fogos invisíveis em combustões suicidárias de fórmulas
desconhecidas que nem toda a água de todos os rios e mares conseguem
apagar – à imagem daqueles esguichos sobre o Hudson que abalam as
mulheres em pressentimento e matemática macabra a par da erótica
pasmosa. O mais duro dos cineastas é também o mais frágil e
delicado dos filósofos. O amor à treva é o amor à vida e ao
cosmos. Modernos. Futuristas. Utópicos. Uma das grandes obras-primas
estilhaçadas dos anos 1930.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
sam the man!
Recordação de uma tarde bem passada com o genial e porreiro Samuel Mira, para sempre the Kid, por entre o labiríntico betão e os jardins de Chelas tratados por tu, em deambulações que eu desejava intermináveis até se encontrar um local sossegado para ele falar de Quentin Tarantino e de escolher Jackie Brown para passar no Lucky Star - Cineclube de Braga. Do metro aonde ele me foi buscar até ao palco do vídeo, perfeitamente sintonizados com as polpas Tarantinescas ou com a pulp original de Elmore Leonard, um raide ao café do bairro, fintamos o ringue da bola e do free style, safamo-nos em last minute rescue dos cortadores de relva que renasciam e se multiplicavam infinitamente como zombies tal como no Thriller de Michael Jackson ou como no Moonwalker da Sega Mega Drive, ele a dizer-me que Scorsese também era importante para a malta do bairro, que se reconheciam naquelas ruas, a mostrar o respect para com o Adolfo L. Canibal de Bracara, mandando para o ar fresco e rarefeito de Janeiro um impressionante beat box só para ver se o som era bom para a câmara, e etc. Senhoras casadas ou o esfarrapado da esquina, todos o cumprimentavam, olá Samuel, um Deus terreno.
O vídeo que aqui ´tá é uma montagem feita por mim de um depoimento sem cortes no qual tudo fluiu limpidamente, samplado e carregado de scratch como só nos génios do rap primitivo. E que dádiva ele ter escolhido o meu filme favorito de QT. Mechelas!
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
Help Me Make It Through the Night
para todos os amigos ali presentes e os outros, para a Marta Ramos, o Zé Lopes, John Huston, Stacy Keach, Jeff Bridges, Susan Tyrrell, Kris Kristofferson, Monte Hellman...
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Paulo Faria / Cormac McCarthy / Cinema
Fazendo minhas as palavras que certo dia José Tolentino Mendonça dedicou a Paulo Faria, também eu tenho uma dívida enorme para com esse gigantesco tradutor e escritor. Foi ele que me possibilitou ler em português Blood Meridian / Meridiano de sangue e tantos Cormac McCarthy, um dos heróis cá de casa. Mito, lenda, pó, mas também a certeza de que p'rá frente é que se caminha, olhando nos olhos a treva.
É dele ainda o livro contemporâneo mais belo, ferido e violento que percorri nos últimos largos anos - Estranha Guerra de Uso Comum. Violência e ternura. Nele, um homem que há muito 'teve na guerra e nunca a largou, confessa: «Um homem, sozinho neste mundo, anda às cegas, anda em círculos até se perder».
Paulo Faria passou por Braga em Julho passado e foi um momento alto para o Lucky Star.
Mais uma vez, muito obrigado.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
...All the Marbles, Robert Aldrich, 1981
“...All the Marbles” calhou ser o
último filme de Robert Aldrich, nele nada existe de testamentário
ou de balanço, antes uma sede de avançar e conjugar os supostos
opostos mais diversos. Produzido pelo seu filho William Aldrich,
tendo como realizadora de segunda unidade a filha Adell Aldrich e
contando ainda no papel de Transportation Department com
mais uma sua cria, Kelly Aldrich, o homem que se queimou nos gélidos
noirs atómicos
e se estilhaçou com o chamado
western moderno,
revertendo toda a moralidade e os farrapos das convenções em “The
Dirty Dozen”, não se contentou em abandonar o seu oficio de forma
consensual ou exemplar, antes quis continuar a jogar nos seus
próprios termos. Termos que são o risco permanente, o ângulo inesperado, a
orquestração selvática, o que não dá para contar e que pertence ao campo dos espelhos do cinema.
A
história e os personagens são comoventes e complexos: o manager de
luta livre feminina interpretado por Peter Falk é lindíssimo e
brutamontes, pois percebeu que só assim é capaz de levar as suas duas
beldades da terra do bronze
a concretizarem o seu sonho e a safarem-se na lixeira da corrupção
e das aparências do amaldiçoado ouro. E é neste ménage
a trois insólito que eles se
amam, odeiam, são pais, filhas, irmãos, putas, filho, chulos,
puros, humanos; ménage a trois em
alta rotação américa afora que é o fito fundamental da humanidade
sempre em marcha de Aldrich: das fábricas, dos fumos e do
cinzentismo do Ohio até ao lago radioso de Chicago, da Califórnia
inicial que não brilha até às luzes circenses dos casinos do
Nevada, a câmara de filmar vai-se derretendo e zarpando pelo ferro
fundido ou admirando-se em frente às águas cintilantes que
acariciam e redimem o betão; vai ainda olhar estupefacta para os trabalhadores da
the other half para
logo depois não perceber os engravatados que nos escritórios
cimeiros e lustrosos orquestram os nossos serões; câmara que se
consome para tornar fulgurante o que a maior parte dos filmes
despacham como rotina, um carro e pessoas nas suas conversas normais
e passionais, e é aí que Aldrich confia no rosto e na tensão de
Falk para fazer escutar às meninas daquele filme e às meninas e
meninos do mundo todo um tenor Italiano ou outras constelações
anacrónicas a embalar o que seriam os planos de passagem da
narrativa principal, o resíduo a falar com a alta arte nos meios das
confissões graves.
Por
sobre lutas na lama e demais monstruosidades da américa funda e das
tradições de feiras e de profetas do apocalipse à espreita, ainda
se eleva Clifford Odets e Will Rogers à categoria e ao patamar de
sábios e dançarinos, voando “...All the Marbles” para o tempo
do Deuteronómio bíblico que afirma que «ninguém tem o direito de
se desinteressar» e aterrando nas ruas que Nasty Nas já habitava
para logo vociferar a profecia «I never sleep, 'cause sleep is the
cousin of death» contra todas as pragas da inércia e da indústria
do medo. A américa de John Steinbeck e das suas viagens com Charley,
as folhas de Whitman, os poetas puros do infortúnio de fim de
século, escravos e príncipes. Aldrich a patinar na formação da
crenças mais antigas do que o antigo e na sujidade nova das rimas e
do basket num
equilíbrio que se vai produzindo no mais vale quebrar do que torcer
até ao plano final, uma cruz ou um simples abraço – a beleza de quem se sujou todo no caminho
espinhoso mas permaneceu limpo no essencial. “...All the Marbles”,
na sua fúria desengonçada pelos pontos mortos da dramaturgia, é
esse encontro de almas das virtudes para sempre intactas em qualquer
tipo de terreno, para lá do instante e da altercação. As regras
dos bravos.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
amanhã no LUCKY STAR - Cineclube de Braga
Amanhã, quinta-feira, chega ao fim o
ciclo de cinema que o Lucky Star levou a cabo em parceria com os
Encontros da Imagem de Braga, sob o belíssimo tema, passe a redundância, “O
belo e a consolação”.
E nada melhor para o fechar do que um
filme que abre para todos os tempos e para todos os espaços do belo
e da consolação, uma beleza abundante e cava, uma consolação
pedregosa e límpida, transpondo com a sua poesia silenciosa e
selvagem as fronteiras do conhecido e do esperado de tais conceitos
bem como as margens do próprio cinema.
Helénico e apátrida, iluminado pela
jorrante seiva da fonte primordial ou pela catadura da noite das
noites, galopando as agruras do meio do caminho em precisos rituais
perdidos e brilhando no Cântico dos Cânticos, trata-se do melhor
filme que vi este ano, desses que se vão decifrando lentamente a
cada nova visão até se ficar cego, desenterrando incontáveis
chaves e tocando nos fogachos do discreto sublime.
Prodígio da manufactura e passo
lapidar da assunção do cineasta-sapateiro-remendeiro, reinvenção
do filme na primeira pessoa sonhado por românticos visionários como
François Truffaut e Jean Eustache, independente das leis artísticas
em voga e dependente dos afectos e da amizade, o realizador Mário
Fernandes estará em Braga para conversar connosco sobre tudo isto e
mais além, o que é por si só um acontecimento.
Aproveito ainda para agradecer ao
director dos Encontros da Imagem, o empenhado e sensível Carlos
Fontes, que espero continue por muitos anos nestas lides.
O Cinema e Braga vivem.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
you got game!
“He
Got Game” é o grande filme de Spike Lee nos anos noventa, e o
filme americano que melhor representa esse tempo. Em Portugal foi
largado como uma foleirada para nerds
directamente para as prateleiras dos videoclubes no saudoso porque
vivo, orgânico, palpável, de autoimolação, formato VHS. Ainda
hoje permanece um segredo a desvendar na sua plenitude universal que
condensa feliz Michael Jordan e William Shakespeare, os Public Enemy,
a Bíblia Sagrada e um movimento operático de rua que possibilita a
aceitação de todas as formas cinematográficas revestidas
pelo movimento da emoção – infinitas velocidades e ritmos e
somente a velocidade e o ritmo únicos da emoção. Congrega,
devorante, o esventramento de Jackson Pollock e um ressuscitar agora
da arte contemplativa, contrastada e clínica de Andrew Wyeth; a
alucinante realidade em primeiro grau de Auguste e Louis Lumière e o
speed MTV redimido.
A
narrativa começa básica e antiga como a sede de poder. Um pai que é
libertado provisoriamente da prisão para tentar convencer o seu
filho a assinar um contracto de atleta com a universidade que
pertence ao governador que lhe pode reduzir a pena caso siga os seus
intentos. Para deste modo a história se tornar trágica e complexa
na aproximação do pai, do filho, e das várias santíssimas
trindades que chegam do passado e escancaram o futuro. A nostalgia,
os cacos do presente, a edificação e a luz – tudo em alta
rotação. Num dos grandes momentos do filme o Pai revela ao Filho
que o seu nome é Jesus não por causa de Jesus da Galileia mas antes
porque muito depois desse existiu um Jesus das quadras de basquetebol
que era a verdade, um
Jesus da Filadélfia do Norte, um Jesus dos parques de diversão, dos
recantos mais inóspitos do planeta. Um Jesus preto, mas um Jesus sem
sombras para dúvidas. Um Jesus que também tiveram de abafar, mas
isso já são outros quinhentos... o que Spike nos diz, bruto e
carinhoso como o ser que educa, e já nos tinha feito ver isso no
genérico fresco e bonito como uma primavera inaugural, é que o
brilho precioso, o tesouro de qualquer progenitor, de qualquer pai de
qualquer raça ou credo ou classe, a redenção de uma humanidade,
pode acontecer nos berços de ouro de Nova Iorque ou de Lisboa ou num
meio fétido plantado no cú do mundo que mesmo assim possa permitir
a uma criança desenvolver o talento e a paixão. Trabalhando todas
as horas como Jordan... sofrendo as chagas seculares... as
humilhações... justificado.
“He
Got Game” está ao lado de “The Pride of the Yankees”, de “Bull
Durham” ou de “Forget Paris” numa lista dos melhores filmes
alguma vez feitos sobre desporto, mas acima de tudo dos que
transcendem essa categoria para serem primeiramente sobre o respeito
próprio (o self respect acatado
e transmitido por Stallone na saga “Rocky”, outro dos melhores
filmes de sempre). O Jesus Shuttlesworth de HGG, o recordista das
divisões secundárias que não o conta a ninguém encarnado por
Kevin Costner em BD ou o árbitro a morrer de amores de Billy Cristal
vão com certeza cair nas mais diversas tentações para se manterem
firmes na noção também mitológica de que se seguires o
teu coração não trabalharás um único dia na vida.
Obviamente a única via para o sagrado que não permitirá que se
queira tomar banho mais cedo
para ir dar uma queca ou snifar uma linha, largar o escritório antes
das cinco da tarde, conseguir um atestado de baixa médica pelo amigo
da amiga, contar os dias para as férias, querer ter férias... Em
“He Got Game”, o filme que escolho para homenagear Francisco
Rocha e o seu projecto de mãos vazias agora chamado My Two Thousand
Movies, ninguém que aparece ali por inteiro tem um trabalho
mas antes uma vida plena à Jack
Kerouac ou à Huckleberry Finn, e quem levou a premissa original para
lá dos limites acabou por matar a sua paixão e passar a penar nos
infernos dos que demais amaram nesta terra das regras.
Parabéns,
Francisco do Sobral de Monte Agraço, you got game!
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
First Reformed, Paul Schrader, 2017
Dois grandes filmes recentes, não
necessariamente inseridos na vinheta do contemporâneo,
projectam pelos meios essenciais do cinema várias matérias da ordem
do invisível: o encontro de almas, o som do silencio, as vozes do
silêncio.
“Frantz” e “First Reformed”
comportam atrás de si duas guerras diferentes: na do primeiro ainda
se fazia ponto de honra em não matar pelas costas o oponente que
calhou em sorte ser inimigo; na do segundo a cobardia, a carnificina
e o passo seguinte do horror total impõe-se. Num e noutro o Pai
insistiu com o filho para se alistar, os rostos dos sobreviventes
adquirem a carne viva e defunta que sobrou dos estilhaços bélicos,
adquire ainda o espírito do que tombou pelas suas mãos ou pela sua
ordem, sendo a coragem a única via de uma possível salvação
arrancada às trevas mudas de razão.
Em Ozon o ser que matou o próximo
aproxima-se de quem chora a sua vítima e da impossibilidade lógica
desse encontro brota uma luz improvável e preciosa composta da
honestidade dessas emoções partilhadas que a todos cede um caminho.
Schrader faz o avanço possível do
caos abstracto que se alastrou de “Taxi Driver” para uma espécie
de novo mundo em êxodo, furado por novas pragas, pejado de
existências cercadas nos poços da evolução terráquea,
vislumbrando-se um Apocalipse capaz de deixar todos e cada um em
estupefacção. O tema continua a ser o do Génesis, o embate com o
Paraíso e os jardins do Éden sujos, imperdoavelmente vilipendiados,
a expulsão eminente; para lá da rasura formal de Robert Bresson, a
violenta austeridade original de John Ford faz os ajustes dos gonzos
mestres da criação.
Mas para além da altercação oficial
que legaliza e saca o sentido à morte, o Padre, o ambientalista e
a sua mulher prenha são metralhados por duas guerras que ocupam todo
o seu centro e interior: o silêncio divino, a noite na alma
conhecida por todos os homens em todos os tempos, o desespero; e o
mal que a raça concedeu ao mundo e à criação, desprezando a
natureza, o sagrado. O imemorial e o novo feitos um só bloco de
culpa. Irreconciliável.
Pode Deus perdoar-nos? É a pergunta
capital para todas essas guerras. Sendo Deus a natureza, a viúva, os
pais, ou o desespero. “Frantz” começa por ser negro dos
interiores obscuros das casas até às águas brilhantes que não
redimem, para o arco-íris complexo mantido na origem dos seres
ressuscitar e devolver a ventura. “First Reformed” talvez termine
com uma morte de uma atrocidade insuportável que antecipa a esperada
desde a primeira tosse que lhe ouvimos, talvez termine com um sonho e
uma ilusão, certamente abre para um nascimento.
O rosto dos quarenta anos de Ethan
Hawke é um rosto velho e sofrido de falhas inadmissíveis que lá
dentro sustenta um olhar de criança preso por finos liames
indestrutíveis. Olhar puro que encontra a certeza da mulher prenha
que quer seguir em frente rumo a uma união que só pode despegar
desta terra e do nosso colete de forças cósmico. Da mais horrível
imagem do cinema contemporâneo – o tecido preto da batina
sacerdotal violado pela abjecção do colete de explosivos – vamos
ficar a planar na dimensão do sonho, parente da coragem e da pureza
que assim enfrenta o terror do aleatório que mata pelas costas.
“Frantz” e
“First Reformed” abrem triturados, aninhados e sem atalho para a
luz e acham qualquer resquício fundamental dela no acreditar mais
básico, num acreditar de criança, uma irresponsabilidade que
responde a um mundo virado do avesso e sem moral da história. Olhar
puro, o verdadeiro Tema das duas obras.
«Bem-aventurados aqueles cujos
caminhos são íntegros e que vivem de acordo com a Lei do Eterno!»
- palavras que saem da boca do Padre, dos Salmos, do Fiódor
Dostoiévski de Schrader ou veladas na libertinagem dos poetas dos
amados de "Frantz".
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Frantz, François Ozon, 2016
A beleza imprevisível e intacta de "Frantz" para nada serve sem a transcendência da partilha; a incomensurável paisagem, a regeneração possível cedida pelo vento nas árvores, um brilho lancinante da água num lago, experimentados sozinhos, não têm a capacidade de florescer o espírito atormentado pela Guerra permitida pelos homens. Não apelam à revelação. Os dois seres mirrados, em deambulações ao deus-dará, que desde o início são puxados um para o outro em terreno hostil e por uma presença física que não existe, só alcançam o sentido da existência numa impossível comunhão com o passado ou nessa potente luz que vai emanando da verdade da assunção dos sentimentos; uma verdade que não está nem nas palavras nem nas intenções mas sim na presença e no presente inteiros, trabalhando no coração do próximo rumo a futuras primaveras; os olhares sem freio, o rosto descarnado, a entrega despida são as sementes e o sol garantido para todas as próximas temporadas.
A beleza imprevisível e intacta de "Frantz" para nada serve sem a transcendência da partilha; a incomensurável paisagem, a regeneração possível cedida pelo vento nas árvores, um brilho lancinante da água num lago, experimentados sozinhos, não têm a capacidade de florescer o espírito atormentado pela Guerra permitida pelos homens. Não apelam à revelação. Os dois seres mirrados, em deambulações ao deus-dará, que desde o início são puxados um para o outro em terreno hostil e por uma presença física que não existe, só alcançam o sentido da existência numa impossível comunhão com o passado ou nessa potente luz que vai emanando da verdade da assunção dos sentimentos; uma verdade que não está nem nas palavras nem nas intenções mas sim na presença e no presente inteiros, trabalhando no coração do próximo rumo a futuras primaveras; os olhares sem freio, o rosto descarnado, a entrega despida são as sementes e o sol garantido para todas as próximas temporadas.
Assim, as cores podem brotar nos
resgates do que já não pode advir, mas também oferecer o milagre
de quem ousou a coragem e o passo para o abismo ao invés da segura
razão. Compaixão, compreensão, perdão. E finalmente o amor.
Talvez aquele amor para lá de tudo que alguns chamaram Omnia. E que
permite que de um quadro suicidário de Manet surja o espectro
fulgurante das chamas de todos os futuros amanhãs. Para lá das
teorias ou das dialéticas, com a bênção do Ernst Lubitsch de
“Broken Lullaby” e o trucidante paraíso virgem de cada entrega
no absoluto.
François Ozon e os resgates de uma
graça indescritível e silenciosa que já parece fazer parte de um mundo
irremediavelmente perdido e só entrevisto nos velhos sonhos.
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Rui Chafes sobre Cavalo Dinheiro
Para lá das nuvens, auscultando o etéreo, e com todo o peso e fatalidade terrestre. Uma gravidade insólita.
domingo, 22 de julho de 2018
Cavalo Dinheiro em Bracara Augusta
A arte brutal de Rui Chafes ressuma do
choque entre matérias brutas. A mão e as sinapses do artesão em
luta contra a substância resistente. Prumo e esquadria defronte do
fogo-fátuo e do gelo. A paciência. O tempo como único aliado. O
olhar indesviável. Moléculas. Bicharocos. Deformações cósmicas.
Ferragem orgânica. O diálogo com a morte. Chafes busca a redução
como a única via para a transcendência. Clangor final do universo
pacificado. Pedro Costa, o realizador, trabalha com a bruteza da
memória e da sensibilidade de gente real comungando da mesma
brutalidade. Gente real que para a raça dominante é somente pó.
Ambos carregam um mundo consigo – a
catedral do metal e a parte lendária do povo. Sobre isto António
Reis, o poeta, escreveu:
Aquele homem que ali vai e que tu
vês,
— é um atlante.
Um atlante, sim! Suporta um mundo
enorme!
(tão grande, como não podes
imaginar...).
Cavalo Dinheiro é pura electricidade,
confronto com o fluxo original das sombras; escorre de cada partícula
da carne ou da palavra alta tensão; electricidade sanguínea, alta
voltagem geral, decibéis, nervos, relâmpagos. Olhos a escorrerem
água e faíscas. Membros programados para embater no império do
medo. Nobuhiro Suwa, trabalhador próximo, comparou-o ao afinar
delicado de uma guitarra. O melindre do toque, do ajuste ínfimo e
essencial entre a matéria do humano e a matéria da luz, tudo o que
sabemos.
Dos espelhos de Juventude em Marcha e
da luta longínqua da figura contra o seu fundo vamos ser queimados
por superfícies aterradoras de compostos visuais puramente físicos
e puramente maquínicos, combinações de carne e de sangue com
pixels vergados, o acabado peso do silêncio e a revolução
expressionista reinventada num passado de mortos inaceitáveis. Os
olhos, a pedra, as curas, os anjos, o sussurrar, a magia, as lápides,
energia e epiderme no comprimento de onda do "Star Spangled
Banner" de Jimi Hendrix ou dos rios cegantes de Conrad. Não
paradoxalmente, Costa busca nessas ondas contíguas a redução como
a única via para a transcendência. Cavalo
Dinheiro é uma hecatombe comprimida.
Ainda absolutamente Fordiano. Mantém o
homem no centro e toda a descarga voltaica é questão de justiça.
Vamos ver melhor, vamos ver o fogo desta gente mítica e real. Do
interior para fora. Os seres, o Ventura, a parte que vai continuar a
ser espezinhada é a parte original. Os olhos choram e fuzilam. Os
membros e a verve prometem guerra. E unidos vencidos vencerão.
Ventura continua tão enorme despido contra um tanque de guerra ou na
máquina do tempo terrorífica do elevador tal como todo este
inaudito big-bang apenas purifica a essência. Que continua a
ser o que podem os homens. Depois de todas as mentiras terem sido
contadas, passadas as chacinas e as revoluções falhadas, ainda um
grito de resistência.
Cavalo Dinheiro passa na próxima
terça-feira em Braga pela segunda vez; urgem os choques eléctricos
das reposições e do amor escondido na noite.
Com apresentação de Chafes, o magistério do tempo e a visita do divino.
quarta-feira, 18 de julho de 2018
Marlowe... Burke Devlin... Joe Gillis... Ben Bradlee...
Nunca “choraremos” demais (uns
happy fews...) as fabulosas personagens de detectives ou de
jornalistas incorruptíveis e fumadores como se não houvesse amanhã que o professor
Carlos Melo Ferreira foi recusando aos seus alunos em filmes de
género que nunca saíram do papel ou que ficarão para sempre
envergonhados nas poeirentas gavetas ao abrigo de qualquer
investigador...
Mas dos filmes de Pedro Costa ele
sempre aceitou falar em conferências ou nos cafés e escrever muito,
mesmo que nas aulas fosse ultra misterioso e fascinante a respeito
deles, como se para conservar todos os segredos, elipses, não-ditos
dos monumentos – não usurpando o significado daquela preciosa
palavra americana milestones que só brilha se não cair na
rotina.
«Vejam, e formem a vossa opinião.
Depois conversamos.» Dizia classicamente, para que ninguém andasse
a falar do que não sabia ou a papaguear opiniões alheias. Mas ele
escutava sempre mais do que falava, pelo menos sobre Juventude em
Marcha.
Porém desta vez permitiu-me filmá-lo
e para mim foi como se tivesse concretizado um pouquinho de todos os
noirs ou policiais conjuntos com que sempre fui sonhando.
Thanks, sir!
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Juventude em Marcha em Bracara Augusta
O meu encontro com Juventude em Marcha aconteceu no Outono de 2006 na semana da estreia em Portugal. Em plena cinefilia destrutiva e farto de escutar dos professores que o cinema é uma coisa cara e para os “escolhidos” alguém me mostrava que com uma câmara digital perfeitamente banal aliada a uma pesquisa sobre essa nova tecnologia (codecs, color correction, masks, CCD vs CMOS, etc., a confusão aproximava-se mais de uma patologia recentemente descoberta e sem cura à vista) num vórtice sempre a confundir-se com o amor mais acabado se conseguia alcançar a desmesura e a dignidade de John Ford.
Entrar no filme foi um soco seco no
estômago oco. Primeiro apareceu o som no negro, um rumorejar humano
algures e um vazio atordoante, logo coisas a caírem, depois veio a
imagem, umas ruínas e um céu tão negro que devorava tudo,
imediatamente objectos monstruosos a serem largados por uma
janelinha, o seu cair a ensurdecer o mais surdo, a pequena luz
bruxuleante que pelo filme todo tentaria alumiar a escuridão de um
bairro condenado, uma luzinha a tentar salvar o que podia, a tentar
deixar ver, fazer justiça – este era o primeiro plano e o cinema
na minha cabeça a redefinir-se, pareceu-me o primeiro plano que
alguma vez vi.
Pasmo que não se quebrou até ao
último plano, em que Ventura, o heróico Ventura filmado por Costa
com a mesma dimensão e aura com que o maior dos cineastas filmou
Woody Strode, o Sargento Negro, em Sergeant Rutledge, se encontra no
centro de uma cama que parece uma Via Láctea numa postura ao mesmo
tempo livre e tão hierática como uma estátua de Michelangelo, e
uma criança absolutamente estupefacta por tal visão, no cantinho
inferior direito do derradeiro dos enquadramentos sem margem para
dúvidas, tentando aceder ou escalar uma montanha; depois outra vez o
negro e um vento que só pode ser o inaudito das revoluções e das
fidelidades.
Pelos meios dos 155 minutos fui
percebendo que um rosto comum ou a maçaneta de uma porta de
contraplacado sem qualidade, um quadro Bíblico de Rubens ou a Vanda
Duarte mais inchada a falar de fraldas têm de ser respeitados e
trabalhados da mesma forma, com o mesmo empenho e fé – qualquer
dos quadros me apresentava o peso de séculos, a espessura do eterno,
o tempo sem tempo, o fatal presente. E uma inocência que despertava
no espantoso e imprevisto movimento de câmara nesse anfiteatro novo
e mesozoico da Gulbenkian que ia das árvores para os bancos a
misturar todos os elementos e prosseguia até ao sumptuoso rasgar de
uma barca entre nevoeiros e aparições, a aurora de Murnau oferecida
aos deserdados.
E as cartas a uma mulher escritas e
reescritas mais uma e outra vez até às estrelas que nunca vamos ver
mas que brilham até ao fim... o sofá vermelho à porta de casa com
o fato negro e a postura certa traçadas pela força expressionista
do Fritz Lang de aço... o compasso lento e supersónico de uma
tensão vital entre as trevas brancas e os esconderijos luminosos...
o choque entre o asseptismo abjecto das habitações modernas e a
escuridão das velhas barracas a cederem a possibilidade da comunhão
e da partilha... a desmultiplicação dos filhos, do pão e das
dádivas.
E assim a maior das dádivas foi
conhecer toda uma outra parte do mundo e de uma humanidade e ficar a
saber que com o nada se pode fazer tudo. Depois fui descobrindo em
sucessivas revisões que Juventude em Marcha contém a épica de
Hollywood e a intimidade dos grandes amadores. Quem me indicou o
filme foi o professor e “Hawksiano” Carlos Melo Ferreira, que
secretamente quase implorou a trinta jovens com sede de acção e
muitos deles “Godardianos” a irem ao cinema ver uma obra com tal
título e figura enigmáticos.
Por muito disto e pelo muito que não
percebo nada, é um dos filmes da minha vida.
Juventude em Marcha passa amanhã
(terça-feira) no LUCKY STAR - Cineclube de Braga com apresentação
em vídeo de CMF.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
No Quarto da Vanda em Bracara Augusta
Parafraseando Truffaut acerca de Abel
Gance, hoje em dia Pedro Costa liga a câmara na sua terra e em
frente aos seus e já só sai poesia; poesia sem género arrancada
aos dias e noites de rodagens consecutivos em meses e anos
inaceitáveis para o “cinema normal”, arrancada à noite, ao
sono, cavada na noite, no suor, no sangue, na luz, na pedra,
estripada à tecnologia e aos filtros profissionais em transplante
milagroso, aos reflectores de supermercado; tempestades de uma
intensidade precisa e inegociável.
Mas houve um tempo em que tudo era
desconhecido, terra queimada, susto, um homem e uma mulher na solidão
do derradeiro jardim, a guerra, e nisso a possibilidade de recomeçar
de novo, tudo, o cinema, uma moral, uma humanidade.
Na terra queimada escutou-se um passo
para o abismo, com os ditos drogados, indigentes, a escumalha para
queimar que não interessa a ninguém, agarrou-se na tocha pioneira
de Griffith, na talocha de um pedreiro do Gênesis e na fúria
silenciosa de Faulkner (cada vez mais e visto à distância é o fogo
primordial desta obra gigantesca) para obter formas, cores, as
escalas de um Rembrandt.
Nos lámbios desta nova e banalizada
raça digital, há alguém que dedica todo o tempo do mundo ao outro
e não grita isso; antes ou depois das festas promocionais, fora de
moda.
No Quarto da Vanda, a obra do século
XXI, passa hoje em Braga.
terça-feira, 3 de julho de 2018
terça-feira, 12 de junho de 2018
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Breathless, Jim McBride, 1983
No vídeo de apresentação
ao Breathless
americano
o seu realizador conta-nos demoradamente a sua quota-parte numa das
narrativas mais fascinantes e trágicas da história de Hollywood –
a luta entre os realizadores e os estúdios, os autores e a
indústria, a visão pessoal contra a necessidade de vender bilhetes
e pipocas. Jim McBride esteve na Cinemateca Portuguesa a 2 de Maio do
presente ano para introduzir a sua primeira obra e conversar com o
público. Não no âmbito de qualquer retrospectiva sobre a sua
multifacetada carreira, não como homenageado num festival qualquer –
apesar do director da Cinemateca, José Manuel Costa, ter referido
que a McBride cairia como uma luva o rótulo de herói independente
no Indielisboa que acontecia por aqueles dias – muito menos por
estar a tentar realizar um filme no nosso país, mas sim porque veio
visitar Portugal e tinham-lhe falado muito bem dessa instituição.
Foi ele mesmo a mandar um email, a pedir encarecidamente que lhe
dessem a honra de mostrar um dos seus filmes em tão mágico lugar.
David
Holzman's Diary foi
então a escolha, que José Manuel Costa considerou uma das primeiras
obras que mais marcaram o cinema desde aí, filme independente não
por moda mas por vontade irrefreável. A introdução do realizador
foi breve, simples, right
to the point:
como em 1967 ele não imaginava o mundo da blogosfera, do youtube,
dos facebooks ou do instagram, e inspirado pela revolução da
nouvelle
vague
francesa – a sua obsessão definitiva, como estamos a perceber –
e aproveitando a nova leveza dos meios técnicos, decidiu
ficcionalizar um diário, com uma certa distância mas metendo lá
dentro muito da sua vida e experiência. Convidou amigos, captou o
seu quarto e o seu tempo, fixou as rotinas e os rituais de uma
geração e de uma época, saiu para a rua e foi ao encontro do
outro, deu a entender e lançou para futura análise o ar daquele
presente, do existencialismo ao Vietname.
Isto disse ele e disseram alguns dos poucos espectadores de uma
sessão que não foi badalada, sessão a que ele assistiu sem
“problemas de consciência”, tendo sido consensual que o Big
Brother
não trouxe revolução nenhuma e que um gesto destes já continha em
filigrana e terrível o embrião desse monstro anestesiante da
preciosidade de cada ser, antecipando-o sem a sua abjecção. Visto
hoje, o filme pode até já não ter o impacto da época, a frescura
da descoberta sem aviso, essa intimidade e despudor
chapados
no ecrã que em 67 não estavam profanados, mas além de uma
delicadeza e de uma verdade intrínsecas no instante sagrado, quando
a câmara sai largada porta fora e se torna puramente observacional,
ontológica mesmo, entregando-se às gentes e aos seus espaços num
registo puramente etnográfico de quem quer conservar a memória
envolvente, o esquema e a estrutura despegam para a emoção do
descerramento de um artefacto humanista e por isso mesmo inigualável.
Na dura Needle
Park
à beira dos anos 70 e nos seus passeios próximos redescobrimos
espantados toda uma parcela do mundo que tanta ficção tentou
emular, tal como quatro anos depois em The
Panic in the Needle Park,
um tocante filme de Jerry Schatzberg que como este prova que a
ternura não tem palco, nem raça, nem condição estabelecidas.
Voltando
a Breathless,
que foi aparecendo durante toda a conversa como o ponto de maior
estupefacção na sua caminhada, e regressando às descabeladas e
maquiavélicas aventuras oferecidas pela meca do cinema a quem tem
uma ideia contrária ao sucesso vigente, McBride apareceu diante dos
poucos mas bons que decidiram perder a última novidade ou o primeiro
premiado em grande forma, absolutamente jovial e leve, risonho,
simpático e a falar com qualquer um, inclusive num português bem
aceitável para quem teve um ano de aulas nos anos oitenta.
Ficando-se a saber da trucidante aventura que foi concretizar o
remake
da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, esperar-se-ia uma
figura taciturna, talvez mesmo uma personagem na defensiva, o artista
maldito ainda e sempre vergado por uma cruz que carregou e levou a um
porto tramado, mas nada esteve tão longe de qualquer desses clichés.
Forever
young,
acompanhado da esposa, de um filho e de uma filha ainda jovens,
estivemos na presença de um puro saído de um filme de Frank Capra,
um Mr. Smith ou um John Doe no que ao coração diz respeito,
lembrando o James Gray que há uns anos apareceu no festival Lisboa /
Estoril com uma ninhada de filhos a agarrar-lhe a gabardina enquanto
este contava a rir-se as suas lutas com os executivos televisivos que
rapidamente o despediram. O tipo de sensibilidade, de desprendimento
e de humor de quem foi percebendo as regras do jogo, o significado
das pequenas mas únicas vitórias que importam, as mãos limpas e a
grandeza de quem não sugou o sangue oferecido em bandejas douradas
mas antes resgatou o brilho e a redenção essenciais de arenas tão
retorcidas. Homens que saíram da elevação do cinema clássico
americano para as terríveis aventuras do cinema moderno, não
vendendo a alma ao diabo. McBride filmou com dinheiro, sem dinheiro,
com a película de 16mm e a câmara na mão emprestada e a ferver de
ideias mas também com stars
e
muitos camiões de produção, deu o seu toque a um episódio de Six
Feet Under quinze
anos depois de ter caído na The
Twilight Zone.
O esfomeado
que se perdeu de amores pelos falsos raccords,
pela energia renovadora e pela juventude de Godard ou de Truffaut é
ainda um dos últimos representantes da dura cepa dos valores de John
Ford ou Howard Hawks. Sem resquício de bazófia ou de ressabiamento,
apreciando nos dias de hoje em que não vai filmando tanto Wong
Kar-Wai como Nuri Bilge Ceylan. Nascido em 1941, é um iniciante.
«About
the future, which I don't know, you don't know! Nobody knows it! So
fuck it, roll the dice!»
Quando
se sugeriu a McBride a realização de um double
bill em
Braga com os dois Breathless
a
sua humildade voltou a dar cartas, disparando imediatamente que
talvez fosse uma seca para os espectadores, ver a mesma história
duas vezes... E apesar do fascínio, da admiração de fã número um
ou da aproximação sempre imprevisível ao monstro sagrado – Mc
contou ainda que uma vez falou ao vivo com Godard mas ele, já
taciturno, quase só deu os bons dias – não existe nada de
reverência contraproducente ou de citação fácil – mesmo que se
prove que a iconografia e a carga explosiva está do lado de Pierrot
le Fou,
não vai ser Rimbaud a esbracejar mas algo bem mais instintivo e
primário.
Godard, nos seus filmes e nos seus escritos, ensinou muitas vezes
como amar os «bons
americanos»
- de John Wayne a Manny Farber – e o filme de 1983 tem orgulho
disso. Richard Gere emula Jerry Lee Lewis e baila com Sam Cooke,
imita Jesse James ou os vertiginosos de Gun
Crazy do
filme de Joseph H. Lewis para encontrar a polaroid,
o super-herói ou a verdade crua e espampanante de si mesmo. O
movimento geral e a electricidade não vão sobre os trilhos e
estrilhos do jazz modernista ou da pirotecnia estilística mas antes
desliza na Americana
clássica da velha Hollywood de fundos falsos, céus encarnados a
fogo como os sentimentos em causa ou espalhando magia pela escala de
planos infalível dos tarefeiros
– e
neste ponto a participação, as viagens e a poética fascinante do
texano L.M. Kit Carson no argumento serão decisivos; Americana
que não significa nostalgia vácua, muito menos mediação
simbólica, antes fusão e luta com os quadradinhos da
banda-desenhada cósmica que se debate entre o amor mais puro e a
liberdade do absoluto, embate com o precioso cinema ele mesmo nessa
cena orgástica em que o fugitivo possui a miúda na parte de trás
da tela, numa assunção dessas imagens e sobretudo dos diálogos
míticos mas também numa violação desses códigos e da subtileza
de uma arte que sugeria mais do que mostrava, respiração frenética
do beatnik
de
Kerouak torcendo e digerindo as ondas jazzísticas. De Las vegas,
passando pelo deserto até Los Angeles e suspirando pelo México com
o mesmo fôlego ou falta dele com que Jesse deseja a miúda francesa
– a devolução principal de Mc a Godard – o Breathless
de 83 é uma
obra puramente americana e que mete em causa toda essa mitologia. Um
filme com tomates,
como tudo o que é singular.
Sob
o signo de um nova Americana
que
aglutina
e mete em guerra o classicismo e a Nova Hollywood dos anos setenta,
mas capitalmente
sob
o domínio ou a tragédia da figura primitiva do hustler.
Que pode ser o citado Jesse James, Theodore Roosevelt, o Paul Newman
do filme de Robert Rossen, Michael Jordan, Sean Combs ou qualquer um
dos biliões de anónimos nessas pradarias ou bilhares que perderam
e dobraram a parada. Para
mesmo aqui a questão e a moral ser fugidia, ambigua, sem centro, em
dialécticas essenciais, precisamente actuando à maneira dos
hustlers
originais
– cowboys
ou
matadores,
colonizadores
ou índios – ao exemplo da inacreditavelmente bela e perigosa cena
da piscina, em que ele assume a ela o
“tudo ou nada” do
seu credo, para lá do “tudo”
ou do “alguma
coisa”;
ou, talvez ainda mais sintomático, quando William Faulkner é
contradicto para se preferir o “nada”
à
“dor”,
chegando-se mesmo a utilizar o maior escritor americano como quem
ousa cortar a rede do abismo sexual. Pelos fundos barrocos ou
pós-modernistas de neons
tipicamente anos oitenta, composições fotográficas ludibriantes ou
ruínas plásticas,
estamos mais uma vez no Romeo
and Juliet
de Shakespeare e soterrados na profusão de símbolos, estampas,
iconografias e lixo dos novíssimos tempos. Talvez por aí o mais
bonito, a dádiva deste remake
parido viciado e virgem a um mesmo tempo, seja o movimento da bela,
da Monica Poiccard feita por uma Valérie Kaprisky bazada
da idealização da BD para a carne bruta desta paisagem suja, aura
total utilizada assim por uma única vez: inicia-se cheia de medo, a
tremer e a pedir ao delinquente
que se vá embora, “não fode nem sai de cima”, preservando as
cunhas
e
as saídas profissionais a todo o custo, para... lentamente,
percebendo e vendo o incêndio no corpo e no espírito do Jesse
ressuscitado do mito e da lenda e do pó americano, se entregar toda
e nada como no mundo do cinema, esticando a ilusão até ao tiro
final que como nas fitas
irá ficar suspenso. Suspensão e fôlego, são estas as velocidades
e o tempo que importam. Obrigado pela coragem, Mr. McBride. E volte
sempre que quiser.
(texto escrito para o LUCKY STAR - Cineclube de Braga)
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