quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 


JÁ VISTO JAMAIS VISTO, de Andrea Tonacci, 2013


A primeira dúzia de minutos de Já Visto Jamais Visto são assombrosos e o melhor que este novo século já produziu, ao lado de Juventude em Marcha ou The Brown Bunny, isto é, o cinema como experiência sacra, carregado de todos os tempos dentro do tempo presente, de vida, de sono e de morte, da viagem infinita e da origem comum. O miúdo perdido nas florestas de Tom Sawyer e de A Ilha do Tesouro, perdido e achado, aterrorizado e encantado, com as chaves para todos os mundos secretos e para o oblívio, até ao delírio das armas, passagem para o outro lado da infância e para o oposto da inocência, são a definição exata do sublime.

Depois passamos da luz das cavernas de Lascaux e de outro tipo de esfinges antiquíssimas para o quarto do filho onde o pai o acalma e o acompanha na viagem aos monstros e às escalas incompreensíveis do cosmos terreno. Todas as partes em Itália são tão vistas pelos olhos aterrorizados das descobertas primeiras e fundadoras como no Moonfleet de Fritz Lang, em estonteante transposição das entranhas e sentidos de um anjo do Génesis protegido, mas sempre ao deus-dará, para a luz descarnada e reveladora do cinematógrafo.

Jamais o cinema foi assim visto pois não resolve nada, não responde nada, apenas nos escancara um pouco da perdição essencial do animal livre antes do enjaulamento e da cultura. Depois vem a política, o negócio, a guerra, as ditaduras, sempre a cultura a tentar esventrar a arte, os monstros terrestres a atormentarem o puramente humano, o humanismo a lutar com as tripas e o coração para que a luz bruxuleante não se extinga, e o realizador Andrea Tonacci a fechar tudo sob o signo de Alberto Moravia, constatando o mesmo que Roberto Rossellini ou Glauber Rocha já tinham tirado a ferros: o Cinema, o grande cinema, é sempre amador e artesanal, mesmo o grande cinema de Hollywood, pois combina coração e moral e vai até à morte com essa convicção.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026




WILD SIDE, de Donald Cammel, 1995 (Director's Cut)


Faíscas de um tempo/espaço casual no universo. Energias, fluxos, descompressões, abrasivos. Muito compararam o tiro final de libertação de Donald Cammell a Abel Ferrara, mas a filiação só procede pela via da espiritualidade, e jamais pela mentira do estilo, que ambos não praticam. Uma abstração narrativa - nada importam os plots e a "historiazinha", antes o sentido de reconhecimento da perdição, podridão e possível salvamento puramente humanos (economia, sociologia, política cósmica, no entanto está lá tudo), e uma emancipação e sobretudo alteridade formal que permite toda a aproximação única e derradeira a cada ser na tela que é o nosso mundo. Uma imersão puramente espiritual, liquidificada, rarefeita, o que vem depois de desfeitos os corpos, como se todos os pecados estivessem a ser purgados de cada corpo e da terra toda, rumo a um novo ser que virá. Os desejos das duas mulheres, o reconhecimento, o instinto, e as palavras finais de Christopher Walken, são uma e a mesma coisa: «Life is extreme: it's black and white. Have you ever seen grey squares on a chessboard? It's extreme.» E são também a sensibilidade e a visão do mundo de Cammel; depois das partes e dos fractais, o todo finamente místico, planante, tão incorpóreo que se torna tão carnal, sabendo que o que vem depois da matéria será o infinito que atravessará tempos e espaços sempre revolucionários. WILD SIDE é revolucionário porque mergulha e aceita tudo, pacificado.