JÁ VISTO JAMAIS VISTO, de Andrea Tonacci, 2013
A primeira dúzia de minutos de Já
Visto Jamais Visto são assombrosos e o melhor que este novo século já
produziu, ao lado de Juventude em Marcha ou The Brown Bunny, isto
é, o cinema como experiência sacra, carregado de todos os tempos dentro do
tempo presente, de vida, de sono e de morte, da viagem infinita e da origem comum. O miúdo perdido nas florestas de Tom
Sawyer e de A Ilha do Tesouro, perdido e achado, aterrorizado e
encantado, com as chaves para todos os mundos secretos e para o oblívio, até ao
delírio das armas, passagem para o outro lado da infância e para o oposto da inocência,
são a definição exata do sublime.
Depois passamos da luz das
cavernas de Lascaux e de outro tipo de esfinges antiquíssimas para o quarto do
filho onde o pai o acalma e o acompanha na viagem aos monstros e às escalas incompreensíveis
do cosmos terreno. Todas as partes em Itália são tão vistas pelos olhos
aterrorizados das descobertas primeiras e fundadoras como no Moonfleet
de Fritz Lang, em estonteante transposição das entranhas e sentidos de um anjo
do Génesis protegido, mas sempre ao deus-dará, para a luz descarnada e
reveladora do cinematógrafo.
Jamais o cinema foi assim visto pois não resolve nada, não responde nada, apenas nos escancara um pouco da perdição essencial do animal livre antes do enjaulamento e da cultura. Depois vem a política, o negócio, a guerra, as ditaduras, sempre a cultura a tentar esventrar a arte, os monstros terrestres a atormentarem o puramente humano, o humanismo a lutar com as tripas e o coração para que a luz bruxuleante não se extinga, e o realizador Andrea Tonacci a fechar tudo sob o signo de Alberto Moravia, constatando o mesmo que Roberto Rossellini ou Glauber Rocha já tinham tirado a ferros: o Cinema, o grande cinema, é sempre amador e artesanal, mesmo o grande cinema de Hollywood, pois combina coração e moral e vai até à morte com essa convicção.

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