quinta-feira, 24 de junho de 2010

“Charley Varrick” abre com céus à Rembrandt ou à Delacroix e com cheiro a western pleno ou crepuscular. Raios de sol a queimarem a objectiva. Amarelos e vermelhos mansos. Crianças ou bailarinas a brincarem. Lances de água a esvoaçarem. Uma rapariga a ser assobiada por rapazes, uma calma inaudita – a “Americana” junto ao gado, se quisermos – que parece não deixar adivinhar o que se irá passar logo de seguida. Porque não nos enganemos, é um filme de Don Siegel, e essa espécie de paz e de lirismo já contém dentro de si a violência e a pérfida que o universo olhado por ele quase sempre ostenta. A natureza e o mundo poderiam ser inteiramente belos e os afectos ainda mais belos, como no início, mas os tipos e as tipas que vamos acompanhar não ligam pingo para isso, ali é cada um por si e o que importa é sobreviverem ao caos que eles para si inventaram. E se tudo começa tão “perfeito” e tão imaculado é logo na sequência seguinte, a do assalto ao banco, que Siegel mostra o artesanato e o amadorismo que assim trabalhados por ele abrem todas as brechas possíveis e impossíveis para a máxima vibração e intensidade e delicadeza de cada plano, de cada coisa que lá dentro mexa, toda uma imediatez e liberdade formal que dialoga com a complexidade humana. Siegel não ilustra nem dilata, apenas filma e monta, daí o milagre daquelas paisagens e daqueles ângulos nas profundezas da América, as estradas envoltas pelas montanhas intermináveis, o ritmo próximo do que experimentámos. Muito sangue, muita traição, muitas balas sobre a carne e muita dissimulação. Mas Siegel sempre soube que, e citando Manuel Mozos a propósito de Peckimpah: “Não se é bom, nem se é mau, nem melhor, nem pior. Apenas se é.” Os perversos de “Charley Varrick”, a começar pelo próprio ou pela sua mulher, passam o filme a fazer as coisas mais horrendas e inaceitáveis, mas também, num breve olhar ou numa pequena comoção que pelo rosto lhes perpassam, toda uma sensibilidade advém e é então que sentimos que não estamos a ser enganados e que o mundo não é a preto e branco, tudo bom ou tudo mau.

É Walter Matthau e a troca dos anéis, as suas velhas histórias com lágrimas ao canto do olho; É o solitário Andrew Robinson e o desespero constante do seu olhar de menino, não há nem haverá ninguém que o ame e isso paga-se caro; É o mafioso que não resiste a empurrar uma miúda num baloiço e a dizer-lhe o que os “bondosos” diriam; Existe sempre o verso e reverso, o positivo e o negativo, algo que ficou lá nos fundos e que poderia, se tivesse calhado, estar nos cimos. Daí, claro, também temos o que não gosta de putas e que literalmente varre tudo o que lhe aparece, é a peça gélida, a “excepção da regra”, o mal absoluto que existe forçosamente, o alguém que “é assim”, sem redenção possível. Mas Siegel nunca os desampara e filma cada um do jeito que merece. Emoção, emaranhado de sentimentos, contradições, fogo. Humanidade, campo de batalha, cinema – tal como Fuller explicou para Godard. Não trocaria este arcaísmo narrativo e estético por nada do que a suposta perfeição e tecnologia que a suposta Hollywood de hoje me tenta oferecer. Ponto.

26 comentários:

Anónimo disse...

Pay somebody back in his own coin..................................................................                           

Anónimo disse...

欣賞是一種美德~回應是最大的支持^^.................................................................                           

Anónimo disse...

生活總是起起伏伏,心情要保持快樂才好哦!!.................................................................                           

Unknown disse...

o verdadeiro Nuno Markl revelado num e mail a um fã

Vergonhoso... Qualquer amante do humor e escrita que se faz em portugal deve ver isto

http://overdadeironunomarkl.tumblr.com/

Unknown disse...

Nuno Markl Mentiu.

Por parvo passou o Afonso, mas nada parvo é ele.

Esclarecimentos no novo blog

http://nunomarklmentiu.tumblr.com/

Anónimo disse...

人生是故事的創造與遺忘。............................................................

Anónimo disse...

人有兩眼一舌,是為了觀察倍於說話的緣故。............................................................

Anónimo disse...

工作,是愛的具體化~~~~努力吧!............................................................

Anónimo disse...

好的部落格就要和好朋友分享--感謝分享..................................................................

Anónimo disse...

People throw stones only at trees with fruit on them.............................................................

Anónimo disse...

Practice what you preach...................................................

Anónimo disse...

用心經營的blog~您的部落格文章真棒!!............................................................

DoxDoxDox disse...

quoi de toi, mon cher?
*

Anónimo disse...

More haste, less speed.......................................................................

Anónimo disse...

支持你!!!期待你的更新!!!相信一定會更好!!!!............................................................

Anónimo disse...

好的blog需要我們一起努力!............................................................

Anónimo disse...

一個人的價值,應該看他貢獻了什麼,而不是他取得了什麼....................................................

蕭劉明倫松恬 disse...

缺少智慧,就是缺少一切..................................................

Anónimo disse...

這不過是滑一跤,並不是死掉而爬不起來了。..................................................

Anónimo disse...

如果你批評他人。你就沒有時間付出愛......................................................................

Anónimo disse...

天氣涼了~要注意身體喔@~@..................................................................

Anónimo disse...

生存乃是不斷地在內心與靈魂交戰;寫作是坐著審判自己。............................................................

幸平平平平杰 disse...

生存乃是不斷地在內心與靈魂交戰;寫作是坐著審判自己。..................................................

Anónimo disse...

你的努力我們都看見了--支持你...............................................................

Anónimo disse...

認識自己,是發現妳的真性格、掌握妳的命運、創照你前程的根源。............................. ....................................

Anónimo disse...

It is never too late to learn. ............................................................