sexta-feira, 20 de março de 2026

 


Lenny Cooke, de Josh Safdie e Benny Safdie, 2013


O melhor filme dos manos Safdie. Digo, realizado em conjunto, pois The Smashing Machine, de Benny, é uma obra emocionalmente e cinematicamente inovadora e ultra-complexa. 

Em Lenny Cooke aquilo que eles sempre almejaram com um som e uma fúria visual por vezes grotescos, é-lhes entregue, direi, quase de graça, ou de graça mesmo, e com Graça divina, através da honestidade que os manos têm para com o tema, ou seja, para com Lenny Cooke, alguém que poderia ter sido o melhor de sempre na sua área mas lá não chegou; e de atleta banal tornar-se-á anjo, por causa dessa honestidade de olhar e de toque.

Não chegou por causa dos demónios burocráticos ou simplesmente humanos da sociedade, mas também por causa dos seus, e assim este aparente documentário de 2013 já fala com The Smashing Machine e será mais Benny do que Josh. 

Mas essa fúria é captada por repórteres televisivos, vídeos caseiros ou similares, e por Adam Shopkor, que apenas queria fazer um doc. e não mudar a forma do Cinema para sempre; sem pretensão de autorismo, e assim percebe-se que a intensidade ou está na personagem / pessoa e no mundo que a envolve e com que ele interfere em relações de força complexas (uma aura que varre em seu redor, clama e chama), ou não está; quem olhou e filmou não precisou da excitação e urgência falsificada e da fancaria de um Uncut Gems, e os manos souberam colocar o seu coração no processo de montagem.

Sabe-se que os manos filmaram muita das coisas de 2011 para a frente, mas tendo visto as filmagens anteriores de Shopkor e arquivos televisivos e privados, o seu coração e cabeça estavam feitos, tal como as crianças adquirem a sua personalidade em novos. 

Diz-se que foi Benny a pegar a montagem pelos cornos, e isso percebe-se como certo; o corte brutal que acontece entre o Lenny novo ainda com esperanças de ser o novo Michael Jordan, e o Lenny gordo e já sem chances, numa velha casa e a comer como um bruto mas sensível como sempre, com a sua filha pequena ao redor a encestar o seu biberão num mini-cesto, é superlativa, dialética, ternurenta, carregada de silêncio vivificante, e um requiem por todos os losers sem culpa.

Aí está, uma caminhada pela incompreensão da lógica humana, frenética como um Fuller e no entanto impassível e observadora como um Wiseman; e temos ainda um arquivo sobre a música, mundo e matéria cinematográfica e de sonhos de todo o início de milénio. 

Belíssimo, gigantesco e pequenino, i.e, íntimo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Os Melhores Momentos de 2025


 


- TRAIN DREAMS, de Clint Bentley

Onde estamos quando o que está em frente a nós se tornou o mais complicado de sentir? Em boa verdade, muito mais A Hard Rain's A-Gonna Fall do Dylan + o Cormac McCarthy bíblico do que Terrence Malick.


- THE SMASHING MACHINE: CORAÇÃO LUTADOR, de Benny Safdie

A radical empatia é "apenas" a Borzageana missão de encontrar a pura luz em cada ser, sem julgamentos, credos, categorias, bem, mal... [Texto aqui]


- BATALHA ATRÁS DE BATALHA, de Paul Thomas Anderson

No epicentro dos turbilhões e das contradições, da equiparação entre o caos atual e o caos histórico, entre ser monumentalmente bem filmado, montado, sonorizado, e logo a sua abstração amadora que é a veia inescapável de PTA (Robert Downey, Sr. e o humor para tudo e todos sem querer saber!), o que fica é a permanente irresolução existencial do ser-humano e dos seus sistemas, um pai que não esquece a filha mesmo destruído pelos ideais talvez bacocos, e o mais importante - o Sensei de Benicio del Toro, que suporta um mundo inteiro clandestino, soterrado, que é o futuro e o já aqui e agora das grandes preciosidades.


– O RISO E A FACA, de Pedro Pinho

O que mais me impressionou foi como tudo é incomensurável e forte como o aço e como nunca se teme o desequilíbrio, o fora de controle. A câmara tão ao deus-dará e disponível como os impressionantes atores sem técnica, amadores, num naturalismo ele mesmo para lá ou cá de qualquer convenção. Um filme-mundo, sim, um exame sobre dinâmicas neocoloniais, sim, mas é a solidão universal e aparentemente íntima o que mais fere e comove.


- O BRUTALISTA, de Brady Corbet

Para lá da monumentalidade, interessa-me as microscópicas variações provocadas e aleatórias, e a impossibilidade da destrinça - dos humores e dos desejos, dos egos e das ambições, dos espaços e dos tempos, por isso talvez o scope escolhido por Corbert seja o adequado e mesmo assim pequeno para tais ambições, mas o tudo por tudo sente-se.


- LAGUNA, de Sharunas Bartas

 A catedral natural e o vale de lágrimas nosso. Mundo perfeito.


- A COMPLETE UNKNOWN, de James Mangold

James Mangold tem a mão terna e sensível dos grandes cantadores, Whitman ou Frank Capra. [Texto aqui]


- COMPLÔ, de João Miller Guerra

Verdades cristalinas e eternas gritadas pela primeira e pela última vez.


- F 1 - O FILME, de Joseph Kosinski

Regresso ao analógico no máximo do digital. Sobretudo a assunção de que é no perigo máximo que alguns seres conseguem descansar e atingir a perfeição. [Texto aqui]


(RE) DESCOBERTAS:


– PIXOTE, de Hector Babenco, 1980

  [Texto aqui]


- ANDRE THE GIANT, de Jason Hehir, 2018

[Texto aqui]


- BUFALLO 66, de Vincent Gallo, 1998

Cada efeito, cada quadro dentro do quadro, mundo dentro do mundo, cada trejeito de cada protagonista, cada tristeza ou alegria simulados, apenas escondem o leite provado aos três meses ou aos três anos.


- KEOMA, de Enzo G. Castellari, 1976

Os paraísos terrestreais e a irresponsabilidade da infância e os infernos das submissões e pactos adultos nunca deixarão de falar entre si, espelhos oblíquos, vozes assíncronas, olhares desviantes.


 LIVROS:


– HÖLDERLIN, de Manuel Silva-Terra, 2021

Da emoção de sentir o coração de um passarinho até aos indesculpáveis crimes humanitários. Uma longa prece pela natureza e pela reparação que vem do fundo dos tempos e das almas. Um milagre a cada instante.


- ADEN ARÁBIA, de Paul Nizan, 1931

Um dos epítomes políticos da literatura contém em si a transcendência, e o que interessa agora continua a ser a busca infinita até ao fim da vida de um protagonista desta terra, assim dirigida a cada um de nós. 


- O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD, de Ron Hansen, 193

O facto, a poesia, a natureza, o artifício. Uma convivência pura porque olhada puramente.


DISCOS:


- LIGHT-YEARS, de NAS e DJ PREMIER


Promessa.