Andre the Giant, de Jason Hehir, 2018
André René Roussimoff misturou-se sempre com Andre the Giant
até ao ponto em que se tornaram incomportáveis. Um queria que as pessoas de
todos os continentes vissem um gigante e o mundo da mais descabelada fantasia
tornar-se real; o outro só queria passar despercebido e regressar lá atrás, à
infância, com todas as possibilidades em aberto.
Qual era qual? Destrinça impossível. Um mundo não feito para
gigantes, onde eles não podem ter paz e conforto, dignidade e (máxima ironia)
presença, onde não poderão durar. Passadas as festas e o mito André, Andre
descobre-se carne e osso e pó e fica a perceber que não pode durar muito neste
mundo.
E num documentário feito de talking heads, de imagens
de arquivo e de toda a aparelhagem comum ao género, chega-se à máxima comoção
pela crueza exposta do embate entre os sonhos e a realidade, infância e
crescimento, mesmo que neste caso o crescimento dure para sempre e nunca apanhe
a infância – é essa a máxima dramaturgia e tragédia de uma vida incomum.
O suposto documentário torna-se ringue de memórias, de
redenções e de assunções graves e planantes, e entrega salvação para toda a
gente - Hulk Hogan reaparece cristalino, puro, de uma humildade e
reconhecimento sacro ao irmão e nunca rival; o poeta Billy Crystal, só num
bocadinho, fala em poesia e traz toda a poesia e tristeza do protagonista; Rob
Reiner, do mesmo modo; Vince McMahon refaz a sua moral e a sua máscara em direto;
um dos seus cuidadores finais redefine também ao vivo a palava “comoção” e a lealdade;
os fãs tornam-se filhos e a sua filha abandonada perdoa; enquanto que para os
seus irmãos ele continua apenas uma criança, um deles, nada mais; e a cadeira
gigante que a mãe fez para o seu filho pequeno…
Jason Hehir, que pegaria logo depois no super-herói Michael
Jordan, aprendeu tudo com o genial Ken Burns – sobretudo a extração do divino
no arquivado comum – mas também com pessoal como Robert Mulligan, Tim Burton,
David Wark Griffith, Werner Herzog ou Carson McCullers - o mais complexo é a
câmara olhar o já consumado, o que está na frente, o banal, e penetrar-lhe a
alma.
Obra tão gigantesca como o assunto em causa.
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