sábado, 30 de agosto de 2025

 



Andre the Giant, de Jason Hehir, 2018


André René Roussimoff misturou-se sempre com Andre the Giant até ao ponto em que se tornaram incomportáveis. Um queria que as pessoas de todos os continentes vissem um gigante e o mundo da mais descabelada fantasia tornar-se real; o outro só queria passar despercebido e regressar lá atrás, à infância, com todas as possibilidades em aberto.

Qual era qual? Destrinça impossível. Um mundo não feito para gigantes, onde eles não podem ter paz e conforto, dignidade e (máxima ironia) presença, onde não poderão durar. Passadas as festas e o mito André, Andre descobre-se carne e osso e pó e fica a perceber que não pode durar muito neste mundo.

E num documentário feito de talking heads, de imagens de arquivo e de toda a aparelhagem comum ao género, chega-se à máxima comoção pela crueza exposta do embate entre os sonhos e a realidade, infância e crescimento, mesmo que neste caso o crescimento dure para sempre e nunca apanhe a infância – é essa a máxima dramaturgia e tragédia de uma vida incomum.

O suposto documentário torna-se ringue de memórias, de redenções e de assunções graves e planantes, e entrega salvação para toda a gente - Hulk Hogan reaparece cristalino, puro, de uma humildade e reconhecimento sacro ao irmão e nunca rival; o poeta Billy Crystal, só num bocadinho, fala em poesia e traz toda a poesia e tristeza do protagonista; Rob Reiner, do mesmo modo; Vince McMahon refaz a sua moral e a sua máscara em direto; um dos seus cuidadores finais redefine também ao vivo a palava “comoção” e a lealdade; os fãs tornam-se filhos e a sua filha abandonada perdoa; enquanto que para os seus irmãos ele continua apenas uma criança, um deles, nada mais; e a cadeira gigante que a mãe fez para o seu filho pequeno…

Jason Hehir, que pegaria logo depois no super-herói Michael Jordan, aprendeu tudo com o genial Ken Burns – sobretudo a extração do divino no arquivado comum – mas também com pessoal como Robert Mulligan, Tim Burton, David Wark Griffith, Werner Herzog ou Carson McCullers - o mais complexo é a câmara olhar o já consumado, o que está na frente, o banal, e penetrar-lhe a alma.

Obra tão gigantesca como o assunto em causa.

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