sexta-feira, 7 de agosto de 2026




WILD SIDE, de Donald Cammel, 1995 (Director's Cut)


Faíscas de um tempo/espaço casual no universo. Energias, fluxos, descompressões, abrasivos. Muito compararam o tiro final de libertação de Donald Cammell a Abel Ferrara, mas a filiação só procede pela via da espiritualidade, e jamais pela mentira do estilo, que ambos não praticam. Uma abstração narrativa - nada importam os plots e a "historiazinha", antes o sentido de reconhecimento da perdição, podridão e possível salvamento puramente humanos (economia, sociologia, política cósmica, no entanto está lá tudo), e uma emancipação e sobretudo alteridade formal que permite toda a aproximação única e derradeira a cada ser na tela que é o nosso mundo. Uma imersão puramente espiritual, liquidificada, rarefeita, o que vem depois de desfeitos os corpos, como se todos os pecados estivessem a ser purgados de cada corpo e da terra toda, rumo a um novo ser que virá. Os desejos das duas mulheres, o reconhecimento, o instinto, e as palavras finais de Christopher Walken, são uma e a mesma coisa: «Life is extreme: it's black and white. Have you ever seen grey squares on a chessboard? It's extreme.» E são também a sensibilidade e a visão do mundo de Cammel; depois das partes e dos fractais, o todo finamente místico, planante, tão incorpóreo que se torna tão carnal, sabendo que o que vem depois da matéria será o infinito que atravessará tempos e espaços sempre revolucionários. WILD SIDE é revolucionário porque mergulha e aceita tudo, pacificado.