Tenham ou não os liberais
trocado satisfatoriamente com os conservadores século sim, século não, é óbvio
que Donald Trump sacou o seu guião da invasão à Venezuela do filme WALKER,
escrito pelo espiritualista Rudy Wurlitzer e realizado pelo filósofo Alex Cox.
E copiou tim-tim por tim-tim: a democracia levada pelos americanos a países que
supostamente não a têm, embora tenham outros recursos fascinantes, tudo em nome
de uma lei superior; a nobre constituição e os nobres valores fundadores dos
pais da América a permitirem ao Presidente fazer tudo o que lhe apetecer. Note-se
como no começo William Walker ainda se distingue claramente dos ditadores
clássicos pela sua elegância, educação e dúvida, e de rajada acata a linguagem
do nojo, é como passar da clareza de Charles Dickens ao ruído de Thomas
Pynchon. E por aí fora, política e humanamente, tudo cola e tudo é ilogicamente
lógico.
De supetão, Alex Cox, o
realizador, e Wurlitzer, o escritor, antes da bandalheira total, das
contradições obscenas e dos anacronismos orgulhosos, começam por nos colocar no
centro da inocência e de possibilidades outras, que, neste caso, são um
regresso ao Cinema Mudo, ao seu período cândido e silencioso. A relação entre o
revolucionário em potência Walker, que ainda resiste aos seus germes de
super-homem nietzschiano, e a sua amada muda, Ellen, é um canto de cisne
e um requiem pela expressão básica a transfigurar-se em potência máxima,
milagre que só esse período do cinema conseguiu. Justifica-se citar o crítico
Bill Krohn a propósito de um filme de Monte Hellman (Cockfighter), onde
alguém que não é mudo decide sê-lo para não se ferir: «uma linguagem
hieroglífica que, num filme que utiliza os recursos do cinema com tanta
astúcia, é impossível não ler como “cinema” (= “escrita com imagens”).» Também
Walker, ao perder a candura violenta da sua amada, perdeu a possibilidade de
redenção e a moral tornou-se peckinpahniana, isto é, devedora da moral
enviesada de Pat Garrett and Billy the Kid, a obra terminal escrita por
Wurlitzer.
Tractatus
Logico-Philosophicus foi escrito, reescrito e longamente duvidado
por Ludwig Wittgenstein e foi a obra que o tornou célebre. Wittgenstein quis
resolver os problemas da Lógica e da Filosofia, ou da linguagem e da realidade,
aplacando problemas eternos. «Do que não se pode falar, há que calar-se»,
afirma Wittgenstein no termo do Tractatus. Também Walker, o
filme, é, segundo o cartão inicial, baseado em «eventos reais». Uma aventura
pela Nicarágua do século XIX onde os soldados bebem coca-cola, fumam Marlboro e
são resgatados por sofisticados helicópteros do exército americano. A lógica do
ilógico ou o ilógico lógico – também a dupla Cox/Wurlitzer resolve à maneira punk
e anacrónica os problemas históricos, coerentes e filosóficos de um episódio
que sintetiza a entrada na idade abjecta, onde a ausência de moral irrompe em
primeira instância do desprezo pela comunicação e pela empatia, que é uma forma
de matar o humanismo. Antes da carnificina, o Éden do cinema mudo, o esplendor
silencioso das emoções; esquecida a «mão que embala o berço» de Griffith, todos
os nojos são possíveis – é esta a estrutura narrativa e a posta-em-cena da obra
prima que Cox forjou em 1987, que começa como um teatro intemporal de Manoel de
Oliveira e acaba com a televisão e com a época de Ronald Reagan.
[texto escrito para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026]
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