SINAIS DE VIDA, de Werner Herzog, 1968
Primeira longa de WH logo reconhecida pelos gigantes Lotte
Eisner e Fritz Lang como a continuação deles ou de Murnau, que obviamente viram
o que a crítica tosca não conseguiu vislumbrar, presa, como hoje, nas
tendências e no ruído.
Herzog, homem sem lugar e sem terra que não o planeta todo,
longe de onde nasceu e da sua cultura, alcançou logo o que todos os
artistas/homens livres, generosos e de grande fé alcançaram sem esforço e sem o
dizerem: uma inocência e candura no
olhar e na aproximação, na distância, no ponto de vista e no fora-de-campo, a
todas as coisas que importam e não importam; sejam pedras, gatos, humanos, tudo
surge grandioso, olhado pela primeira vez, ajustado à interação presente; cada
coisa olhada - orgânica ou inorgânica - torna-se na coisa mais importante do
mundo, na única coisa do mundo, gigantesca, amada ou desprezada, é o mesmo. Tudo
surge ainda não maquilhado pelo cinema mas antes vívido e agreste como as constituições
aparentes e ocultas de cada ser.
E no fora-de-campo, ainda tudo, o que não interessa a
selecionar e a potenciar o que interessa. Pode-se falar do expressionismo e da
alma alemã, do misticismo germânico ou nas luzes carregadas de trevas que
descarnam as superfícies, do romantismo irmão da solidão, de Goethe e de
Friedrich, mas o vulcão que atravessa cada AQUI e cada AGORA é perfeitamente límpido
e sublimado como as ações e a lógica primordial de uma criança não vergada – é um
abalo sísmico incalculável dotado de uma doçura redentora, utópica e futurista.

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