quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 



SINAIS DE VIDA, de Werner Herzog, 1968


Primeira longa de WH logo reconhecida pelos gigantes Lotte Eisner e Fritz Lang como a continuação deles ou de Murnau, que obviamente viram o que a crítica tosca não conseguiu vislumbrar, presa, como hoje, nas tendências e no ruído.

Herzog, homem sem lugar e sem terra que não o planeta todo, longe de onde nasceu e da sua cultura, alcançou logo o que todos os artistas/homens livres, generosos e de grande fé alcançaram sem esforço e sem o dizerem: uma inocência  e candura no olhar e na aproximação, na distância, no ponto de vista e no fora-de-campo, a todas as coisas que importam e não importam; sejam pedras, gatos, humanos, tudo surge grandioso, olhado pela primeira vez, ajustado à interação presente; cada coisa olhada - orgânica ou inorgânica - torna-se na coisa mais importante do mundo, na única coisa do mundo, gigantesca, amada ou desprezada, é o mesmo. Tudo surge ainda não maquilhado pelo cinema mas antes vívido e agreste como as constituições aparentes e ocultas de cada ser.

E no fora-de-campo, ainda tudo, o que não interessa a selecionar e a potenciar o que interessa. Pode-se falar do expressionismo e da alma alemã, do misticismo germânico ou nas luzes carregadas de trevas que descarnam as superfícies, do romantismo irmão da solidão, de Goethe e de Friedrich, mas o vulcão que atravessa cada AQUI e cada AGORA é perfeitamente límpido e sublimado como as ações e a lógica primordial de uma criança não vergada – é um abalo sísmico incalculável dotado de uma doçura redentora, utópica e futurista.

Tudo é incomensurável, e próximo do coração, mais do que intimista.

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