A TIME TO LIVE AND A TIME TO DIE, de Hsiao-Hsien Hou, 1985
É errado aproximar e desaproximar convenientemente os estilos da nova vaga do cinema de Taiwan surgida nos anos 80. A não ser que seja pelos sempre magníficos e úteis princípios de alteridade. Pensando nos dois gigantes, Edward Yang e Hsiao-Hsien Hou, Yang sempre foi tido como o mais ocidental, encontro formal e existencialista de Michelangelo Antonioni com as novas vagas europeias mais “dinâmicas”, de “encher o olho” seja a francesa, seja a polaca. Hou, é o quê?
Nos alvores da sua obra-prima, “A Time to Live and a Time to
Die” (童年往事, com certeza intraduzível), somo logo reenviados (memória
afetiva) para o território do japonês Yasujiro Ozu – o tempo como matéria e
como espírito, unos e silenciosamente dialéticos, a configurarem um só corpo
tão pesadamente terreno que descola constantemente para os altos, num princípio
e num fim de transcendência; o espaço tão definido e tão abstrato que se torna imediatamente
toda a terra, todos os espaços, de todos os indivíduos e de todas as famílias
em todos os tempos. Espaço e tempo em concordância plena, fundidos, numa
estabilidade eterna, até as altercações resolutamente humanas entrarem temporariamente
em campo.
“A Time to Live and a Time to Die”, na sua correnteza infinita,
com a calma e a impassibilidade de um rio original, começa algures a
transbordar de tempo, e a eternidade começa a entrar em conflito com esses
tormentos do tempo. A entrar em guerra
com o tempo ordinário que é o nosso. O tempo agiganta-se, o espaço, sempre inalterável,
parece encolher, as figuras nele ora se diminuem ora se agigantam, os percursos
definidos e as repetições tornam-se desordenados e aleatórios, e o cinema de
Hou só tem um link, um parentesco, uma alma gémea – os inventores, os primitivos,
os cientistas que ainda nada copiavam, os desbravadores de caminho, os que
erravam e transformavam tudo, os que levavam as coisas para a frente, aqueles
para quem uma possível linguagem cinematográfica nascia da ontologia técnica e científica
indestrinçáveis e aplicáveis a uma causa
que será sempre a de perguntar o que nós, humanos, fazemos aqui e o que
acontece.
Como D. W. Griffith, a imensidão do cinematógrafo como
máquina de registo e de memória fria só serve e se torna útil se for
diretamente envolvida com o âmago da matéria frontal, descascando tudo até ao
coração vacilante e ao liricismo de tudo o que treme e de tudo o que se aflige.
Quando Griffith perguntou: «eu fiz-vos ver tudo, não foi?», ele quis dizer: «esta
máquina indiferente, tal como o tempo indiferente, fez-nos ver a alma, não
fez?» E é o que Hou conseguiu alcançar em “A Time to Live and a Time to Die” e
que só se viu nos tempos de aventura, de pesquisa e de encantamento com todas
as coisas boas e não boas – há mais de cem anos e no inico dos tempos, dentro
das cavernas.
