quarta-feira, 14 de outubro de 2026

 



A TIME TO LIVE AND A TIME TO DIE, de Hsiao-Hsien Hou, 1985


É errado aproximar e desaproximar convenientemente os estilos da nova vaga do cinema de Taiwan surgida nos anos 80. A não ser que seja pelos sempre magníficos e úteis princípios de alteridade. Pensando nos dois gigantes, Edward Yang e Hsiao-Hsien Hou, Yang sempre foi tido como o mais ocidental, encontro formal e existencialista de Michelangelo Antonioni com as novas vagas europeias mais “dinâmicas”, de “encher o olho” seja a francesa, seja a polaca. Hou, é o quê?

Nos alvores da sua obra-prima, “A Time to Live and a Time to Die” (童年往事, com certeza intraduzível), somo logo reenviados (memória afetiva) para o território do japonês Yasujiro Ozu – o tempo como matéria e como espírito, unos e silenciosamente dialéticos, a configurarem um só corpo tão pesadamente terreno que descola constantemente para os altos, num princípio e num fim de transcendência; o espaço tão definido e tão abstrato que se torna imediatamente toda a terra, todos os espaços, de todos os indivíduos e de todas as famílias em todos os tempos. Espaço e tempo em concordância plena, fundidos, numa estabilidade eterna, até as altercações resolutamente humanas entrarem temporariamente em campo.

“A Time to Live and a Time to Die”, na sua correnteza infinita, com a calma e a impassibilidade de um rio original, começa algures a transbordar de tempo, e a eternidade começa a entrar em conflito com esses tormentos do tempo.  A entrar em guerra com o tempo ordinário que é o nosso. O tempo agiganta-se, o espaço, sempre inalterável, parece encolher, as figuras nele ora se diminuem ora se agigantam, os percursos definidos e as repetições tornam-se desordenados e aleatórios, e o cinema de Hou só tem um link, um parentesco, uma alma gémea – os inventores, os primitivos, os cientistas que ainda nada copiavam, os desbravadores de caminho, os que erravam e transformavam tudo, os que levavam as coisas para a frente, aqueles para quem uma possível linguagem cinematográfica nascia da ontologia técnica e científica indestrinçáveis e aplicáveis  a uma causa que será sempre a de perguntar o que nós, humanos, fazemos aqui e o que acontece.

Como D. W. Griffith, a imensidão do cinematógrafo como máquina de registo e de memória fria só serve e se torna útil se for diretamente envolvida com o âmago da matéria frontal, descascando tudo até ao coração vacilante e ao liricismo de tudo o que treme e de tudo o que se aflige. Quando Griffith perguntou: «eu fiz-vos ver tudo, não foi?», ele quis dizer: «esta máquina indiferente, tal como o tempo indiferente, fez-nos ver a alma, não fez?» E é o que Hou conseguiu alcançar em “A Time to Live and a Time to Die” e que só se viu nos tempos de aventura, de pesquisa e de encantamento com todas as coisas boas e não boas – há mais de cem anos e no inico dos tempos, dentro das cavernas.

Auguste e Louis Lumière, Griffith, Chaplin, Hou, cada um a olhar pela primeira vez a vida humana através da modernidade. As suas obras, e eles, e o seu espírito, permanecerão jovens, com todo o tempo, e sem tempo. Sublimes compaixões, que só podem fazer sentido conjugadas com a violentíssima frontalidade e descarnamento da cena final de “A Time to Live and a Time to Die”. Uma casa uniformemente, totalmente e belamente iluminada, torna-se inabitável, disse o pioneiro Werner Herzog, parafraseando a obra de Griffith ou de Vsevolod Pudovkin. Hou afastou-se dessas casas asséticas e por isso chegou novamente ao mais belo filme do mundo e ao Paraíso terrestrial.