segunda-feira, 29 de junho de 2026

 



LONGE DAQUI, de João Guerra, 1993

Longe Daqui, primeira e única longa-metragem de João Guerra até ao momento, estreada em 1993, é uma obra pura. Não no sentido técnico, estético ou religioso, mas sim ontológico: João Guerra partiu para a rodagem o mais livre possível de amarras referenciais, privilegiando a busca, a pesquisa, o instinto, a intuição e o alto experimentalismo. Preferiu, inclusive, deixar a sua natureza alastrar. Quem estava à espera de um road movie «à americana», com aquele ritmo trepidante dos primeiros minutos, logo ficou desiludido, pois tal cadência ora ia abaixo, ora ressuscitava, mas nunca respeitando uma fórmula. Quem esperava os toques existencialistas de um cinema europeu «estrada fora», contemplativo, estilo Paris, Texas com pitadas de Theo Angelopoulos, também terá desistido a meio ou antes, devido às pulsões incontroláveis dos protagonistas ou à curiosidade dos executantes, que levou a narrativa para trilhos bizarros. Bizarros no sentido, por exemplo, da morte do personagem de Canto e Castro, uma cena pesada e tortuosa próxima do cinema materialista de um Joseph Losey. Uma pureza no sentido de ausência de cinefilia «pronto-a-vestir», a impressionar ou a reconfortar, mas que insiste em fazer perguntas, como um bebé ou uma criança a descobrir o mundo. Perto, hoje em dia, de uma figura como Jeff Nichols no cinema americano ou da dupla Maya Kosa e Sérgio da Costa entre nós: puros, livres, cândidos e irresponsáveis como petizes traquinas.

O que conta Longe Daqui, para além do percurso curioso desde os arredores de Lisboa até Trás-os-Montes? Para além dos problemas da juventude e da sua inserção no mundo nos alienantes anos 1990? Conta uma história de amor sem causa e efeito, e a história de Manuel, que na ânsia de vender o seu potente Ford Fairlane vai até ao fim da noite e descobre, já numa nova luz e num novo recomeço, que jamais seria capaz de o vender. Ou seja, conta-nos de uma possível permanência da infância e dos sonhos de outrora na idade adulta. E por esse olhar podemos apreciar melhor e com alta precisão aquilo que muito interessou ao realizador: ver um Portugal em obras, o mundo rural a ser perfurado por auto-estradas, o progresso e a globalização abjectos. Daí que tanto a personagem feminina como o velho sejam fundamentais e escapem igualmente a qualquer expectativa. A mulher-menina não cede um beijo nem um olhar de desejo, o velho apaga-se sem qualquer indício e sem lição exemplar. Nessas duas passagens pelo filme, joga-se o aleatório da estrada, da viagem e, mesmo assim, esses dois seres tornaram um pedaço do mundo, do tempo e de outros seres, melhor, mais puro.

Longe Daqui foi um fracasso aos olhos da crítica da sua época, o que costuma acontecer a obras que ousam colocar-se fora do seu tempo e do que nesse tempo é sensacionalmente relevante. Foi assim com O Movimento das Coisas, de Manuela Serra, ignorado na altura por ser diferente de tudo, hoje finalmente percebido apenas pelos sentidos. Longe Daqui também não tem tema óbvio, não comenta politicamente nem academicamente, não fornece repostas claras porque se trata, precisamente, de uma obra sobre o tempo e a distância. Uma distância fabulosa e temerária como os ecos troantes numa tempestade. Menos o saber quanto leva a chegar do ponto A ao ponto B, antes o tomar do pulso ao supostamente não-admissível até o aceitar pacificamente; ver o perto e o muito longe, como quando em novos não imaginamos a idade adulta ou a meia-idade, e decidir onde se quer permanecer; esquecer o falso espectáculo globalizante e deixar entreabertos todos os mundos realistas e imaginários. O potente Ford Fairlane, a quinta e central personagem principal de Longe Daqui, com o seu motor a rugir, é um dos leões com que o velho de O Velho e o Mar de Hemingway sonha. E a sua permanência até ao fim, até longe daqui, desta terra que alguns tanto limitam.


[texto escrito para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026]

Sem comentários: