segunda-feira, 29 de junho de 2026

 



WALKER, de Alex Cox, 1987


Tenham ou não os liberais trocado satisfatoriamente com os conservadores século sim, século não, é óbvio que Donald Trump sacou o seu guião da invasão à Venezuela do filme WALKER, escrito pelo espiritualista Rudy Wurlitzer e realizado pelo filósofo Alex Cox. E copiou tim-tim por tim-tim: a democracia levada pelos americanos a países que supostamente não a têm, embora tenham outros recursos fascinantes, tudo em nome de uma lei superior; a nobre constituição e os nobres valores fundadores dos pais da América a permitirem ao Presidente fazer tudo o que lhe apetecer. Note-se como no começo William Walker ainda se distingue claramente dos ditadores clássicos pela sua elegância, educação e dúvida, e de rajada acata a linguagem do nojo, é como passar da clareza de Charles Dickens ao ruído de Thomas Pynchon. E por aí fora, política e humanamente, tudo cola e tudo é ilogicamente lógico.

De supetão, Alex Cox, o realizador, e Wurlitzer, o escritor, antes da bandalheira total, das contradições obscenas e dos anacronismos orgulhosos, começam por nos colocar no centro da inocência e de possibilidades outras, que, neste caso, são um regresso ao Cinema Mudo, ao seu período cândido e silencioso. A relação entre o revolucionário em potência Walker, que ainda resiste aos seus germes de super-homem nietzschiano, e a sua amada muda, Ellen, é um canto de cisne e um requiem pela expressão básica a transfigurar-se em potência máxima, milagre que só esse período do cinema conseguiu. Justifica-se citar o crítico Bill Krohn a propósito de um filme de Monte Hellman (Cockfighter), onde alguém que não é mudo decide sê-lo para não se ferir: «uma linguagem hieroglífica que, num filme que utiliza os recursos do cinema com tanta astúcia, é impossível não ler como “cinema” (= “escrita com imagens”).» Também Walker, ao perder a candura violenta da sua amada, perdeu a possibilidade de redenção e a moral tornou-se peckinpahniana, isto é, devedora da moral enviesada de Pat Garrett and Billy the Kid, a obra terminal escrita por Wurlitzer.

Tractatus Logico-Philosophicus foi escrito, reescrito e longamente duvidado por Ludwig Wittgenstein e foi a obra que o tornou célebre. Wittgenstein quis resolver os problemas da Lógica e da Filosofia, ou da linguagem e da realidade, aplacando problemas eternos. «Do que não se pode falar, há que calar-se», afirma Wittgenstein no termo do Tractatus. Também Walker, o filme, é, segundo o cartão inicial, baseado em «eventos reais». Uma aventura pela Nicarágua do século XIX onde os soldados bebem coca-cola, fumam Marlboro e são resgatados por sofisticados helicópteros do exército americano. A lógica do ilógico ou o ilógico lógico – também a dupla Cox/Wurlitzer resolve à maneira punk e anacrónica os problemas históricos, coerentes e filosóficos de um episódio que sintetiza a entrada na idade abjecta, onde a ausência de moral irrompe em primeira instância do desprezo pela comunicação e pela empatia, que é uma forma de matar o humanismo. Antes da carnificina, o Éden do cinema mudo, o esplendor silencioso das emoções; esquecida a «mão que embala o berço» de Griffith, todos os nojos são possíveis – é esta a estrutura narrativa e a posta-em-cena da obra prima que Cox forjou em 1987, que começa como um teatro intemporal de Manoel de Oliveira e acaba com a televisão e com a época de Ronald Reagan.


[texto escrito para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026]


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