






Entre Rohmer e Rivette. Embora certas insinuações e certos prazeres sádicos logo me remetam para Hitchcock ou Buñuel. Sim aquele momento que envolve o triângulo e o carro especial. Assim ou não assim o monumento é impressionante de erotismo e de comunhão entre todos os elementos orgânicos e não orgânicos. É coisa cósmica, uma experiência suada, sufocante. A câmara de Pascale Ferran é um objecto (um microscópio?, um estetoscópio?) que capta as temperaturas dos desejos e mede as intensidades das pulsões, um objecto que sente o pulsar dos corpos e do mundo, uma máquina que pacientemente perscruta os sintomas, se instala na libertação das pressões e daí prossegue na sua razão ontológica. Da utilização assim de tal objecto científico, deparamo-nos com uma falta de pudor clínica, à beira da frieza, um implacável olhar que todo o filme comporta, mas que não se confunda com demiurgia barata, não, aqui a fogosidade dos actos, dos rituais e dos corpos, bem como um lirismo apaixonante e estarrecedor, por vezes quase infantil, cortam a todo o momento qualquer possibilidade de congelamento ou de pornografia.




Não sei que diga, mas estas palavras vieram-me constantemente à cabeça durante a projecção deste filme de Werner Schroeter. Acontecem-me destes raccords inesperados, que na altura fazem sentido absoluto, mas, pondo em perspectiva, nada mais verdadeiro para mim…é a doença do tempo/espaço suspensa, a ausência de uma narrativa castradora ou significante, é a entrada no mundo onírico das imagens e dos sons que só o cinema assim pode aglutinar. Uma perdição e uma descida libertadora ao desconhecido que nada mais é do que uma desmesurada inversão dos pressupostos habituais, aqui toda a pressão das leis e dos cânones ficam em elipse para sentirmos a febrilidade e a duração do momento, a sensualidade também. Pulsões, duração, suspensão…



A.W


