


humm..às vezes é preciso um pouco de luz no meio de tanta escuridão, suspender um bocado as descrenças, tentar acreditar em alguma coisa, pelo menos tentar…
e então, comédia? drama? melodrama? que filme é esse “Mr. Smith Goes To Washington”?
isso tudo e mais alguma coisa. um filme meio doce, meio amargo. certo que o personagem do Stewart é moldado a inocência, mas também os têm no sítio. é honesto, altivo, têm muita classe, mas na hora h dá-lhe sempre com força…de resto, incrível como 1939 está tão igual ou pior do que hoje, o esterco da política e de certos homens é o mesmo, mas é melhor calar-me senão entro em lugares comuns e meias tintas. não estou para isso.
grande classicista o Capra não achas?
bom, já por ai expliquei a dificuldade da questão, para mim. ok, é obvio que a organização temporal da narrativa é bem clássica. a música idem. os actores, etc. mas, já reparas-te bem na duração de certos planos chave e não chave. a maneira como Capra usa o tempo e depura sobre rostos e corpos. diálogos e declamações num único plano. personagens pacientemente esculpidos à luz, mas…verdadeiramente. mesmo o cinzelamento sobre o preto e o branco, tens que reparar bem. isto foi um vaipe que me deu ao sentir certos planos que são certas cenas. prenúncios do que depois o pessoal sério chamou de moderno.
pensas em quê, diz lá…
Ford, Straub, por aí…mas, bom, o que quero dizer é que o filme tem muito que se lhe diga e não é mero passatempo ou clássico para manuais. sabes,se eu fosse professor acho que mostrava a cena em que o Stewart e a Jean Arthur conversam junto à estátua de Lincoln, e a seguir mostrava, por exemplo, “Sicilia!”. mas isso, acho que ninguém cairá…
Katsuhito Ishii ou Spike Jonze?
os dois. mas por hoje o Ishii, talvez....
Scarlett Johansson ou Penélope Cruz?
as duas. uma de cada vez. mas melhor melhor é a Mia Hansen-Løve. cineasta francesa que entrava nos filmes do Assayas. acho-a linda e com o seu quê de singular.
já viste o trailer do novo Jarmusch?
sim, maravilhoso. a frontalidade e os enquadramentos daquelas imagens fez-me pensar que o gajo andou a ver filmes do Costa. mais o Doyle na fotografia, mais Almeria, mal posso esperar.
Paulo Bento ou Carlos Carvalhal?
Jorge Jesus. melhor que os dois em conjunto.
ainda não, mas estou curioso, sei que têm espaço para fumadores.
ok, até à próxima.
xau, vai aparecendo.













Estava a ver “White Dog” na 

“porque é que se diz sempre te amo, e se responde sempre, te amo” diz ela para ele no “Les Baisers de secours” de Philippe Garrel. e depois cai-lhe nos braços e ficam como vejo na imagem. e o resto das imagens vão ser sobre isto, homem/mulher/luz. porque não te esqueças, tudo é só luz. Garrel, por hoje e pelos próximos, o maior. que mais dizer deste conjunto de imagens e de sons? mais poesia? claro, mas assim não vais longe…indizível pois claro, e só faz sentido no momento e depois, na ressaca. o resto é palavreado…






O que eu mais gostei no filme de Demme – para além de Anne Hathaway, sempre – é o modo como o projecto formal/estético nem por um momento dá a sensação de valer por si só, de ser o fim em si, antes existir assim para reforçar o imenso sentimento de perda e a solidão da personagem de Hathaway. Depois são as sábias escolhas do cineasta para transmitir toda essa desolação de uma personagem que não se consegue encontrar nem se consegue compreender, e a forma como o filme faz dessa questão o seu centro, com uma inteligentíssima utilização do fora de campo e das escolhas dos ângulos de câmara, sempre a manter a distância certa para não tentar adivinhar o inadivinhavel, antes para fazer jus à complexidade do humano, foi o que mais me interessou. A crueza do digital e a leveza dos materiais apagam-se (sendo no entanto essenciais e só assim podendo ser) no interesse por uma personagem e pelo mundo que a rodeia – com tudo o que isto significa em comparação.


"You put my heart in a vise and proceeded to twist that vise until the last frame." Foi o que Quentin Tarantino disse a propósito de "Frozen River" de Courtney Hunt. Tipo de frase boa para a publicidade – visto que Q.T me habitou a tiradas destas a propósito de coisas intragáveis como “Man on Fire, por exemplo – se o filme não fosse magnifico, e é. É ver e sentir a câmara da cineasta a captar cada temperatura variável daquelas personagens e das gélidas paisagens da reserva Mohawk entre o estado de New York e o Quebec, a urdir uma trama fortemente emocional - com Melissa Leo (absolutamente inacreditável, qualquer coisa como uma das grandes actrizes americanas) numa mãe obrigada a fazer pela vida para sustentar os seus filhos (vão ser os seus trabalhos no inferno) - que tanto dispensa toda e qualquer tipo de gordura associada ao género, como faz tábua rasa de qualquer conceito de “filme indie”, para entregar algo verdadeiramente genuíno e sentido.






Mister Lonely de Harmony Korine

Porque é que num filme de muito homens, em certo sentido um filme de grupo à maneira clássica, os momentos em que as mulheres aparecem tão brutais e vibrantes quanto as cenas de pancada?
