quarta-feira, 18 de março de 2009

andas muito certinho não? a ver contos de fadas de Capra…

humm..às vezes é preciso um pouco de luz no meio de tanta escuridão, suspender um bocado as descrenças, tentar acreditar em alguma coisa, pelo menos tentar…

e então, comédia? drama? melodrama? que filme é esse “Mr. Smith Goes To Washington”?

isso tudo e mais alguma coisa. um filme meio doce, meio amargo. certo que o personagem do Stewart é moldado a inocência, mas também os têm no sítio. é honesto, altivo, têm muita classe, mas na hora h dá-lhe sempre com força…de resto, incrível como 1939 está tão igual ou pior do que hoje, o esterco da política e de certos homens é o mesmo, mas é melhor calar-me senão entro em lugares comuns e meias tintas. não estou para isso.

grande classicista o Capra não achas?

bom, já por ai expliquei a dificuldade da questão, para mim. ok, é obvio que a organização temporal da narrativa é bem clássica. a música idem. os actores, etc. mas, já reparas-te bem na duração de certos planos chave e não chave. a maneira como Capra usa o tempo e depura sobre rostos e corpos. diálogos e declamações num único plano. personagens pacientemente esculpidos à luz, mas…verdadeiramente. mesmo o cinzelamento sobre o preto e o branco, tens que reparar bem. isto foi um vaipe que me deu ao sentir certos planos que são certas cenas. prenúncios do que depois o pessoal sério chamou de moderno.

pensas em quê, diz lá…

Ford, Straub, por aí…mas, bom, o que quero dizer é que o filme tem muito que se lhe diga e não é mero passatempo ou clássico para manuais. sabes,se eu fosse professor acho que mostrava a cena em que o Stewart e a Jean Arthur conversam junto à estátua de Lincoln, e a seguir mostrava, por exemplo, “Sicilia!”. mas isso, acho que ninguém cairá…

Katsuhito Ishii ou Spike Jonze?

os dois. mas por hoje o Ishii, talvez....

Scarlett Johansson ou Penélope Cruz?

as duas. uma de cada vez. mas melhor melhor é a Mia Hansen-Løve. cineasta francesa que entrava nos filmes do Assayas. acho-a linda e com o seu quê de singular.

já viste o trailer do novo Jarmusch?

sim, maravilhoso. a frontalidade e os enquadramentos daquelas imagens fez-me pensar que o gajo andou a ver filmes do Costa. mais o Doyle na fotografia, mais Almeria, mal posso esperar.

Paulo Bento ou Carlos Carvalhal?

Jorge Jesus. melhor que os dois em conjunto.
e a nova Brasileira, já lá foste?

ainda não, mas estou curioso, sei que têm espaço para fumadores.

ok, até à próxima.

xau, vai aparecendo.

directamente do outro mundo....


"Benilde ou a Virgem Mãe", Manoel de Oliveira, 1975
.....

os filmes sobrenaturais de Tourneur; a Hollywood clássica, a das maquetas e a do vento nas árvores. mesmo Fulci, mesmo Argento. foi do que me lembrei aquando da visão de “Benilde”. transcendências incluídas, mistérios incluídos. sei que não tinha de me lembrar de nada, mas, foram estes cinemas que me vieram à memória, muito mais do que qualquer das referências supracitadas a propósito de Oliveira. continuo a pensar o mesmo. de resto, qualquer coisa como “O Filme”, seja em que galáxia for.

terça-feira, 17 de março de 2009

11º ou 12º ano, já nem tenho bem certeza. Foi por esse período da minha vida que me puseram à frente “os Mutantes” da Teresa Villaverde. O nome da disciplina já nem o sei ou já nem o quero saber. Sei que entre leituras de trechos dos livros do Daniel Sampaio, visitas a instituições infantis – que eu normalmente ia com a função oficial de reportagem, mas, na verdade, ia era para estar com as raparigas de outras turmas, em especial uma que tanto admirei, cala-te boca que é o melhor que fazes… – e outras coisas do género, de quando em vez lá apanhávamos assim algo de sublime. Mas perfeitamente sublime. Mesmo que eu acredite que a professora não tivesse a mínima noção da importância do objecto mostrado, penso que era a caução da temática a impor a escolha...
O filme nunca mais esqueci e de forma integral só o vi nessa ocasião, mas foi um choque que produziu os seus próprios efeitos, uma espécie de revelação.. Lembro-me que já apanhei trechos na rtp, neste ou naquele documentário, e mais nada. Mas a força daquelas imagens, aqueles corpos e aqueles rostos, aquela solidão e aquele desprotegimento, um qualquer lirismo implacável e um fantasmagoria indizível…disso jamais me esqueci, como já mais me esquecerei, acima de todas as coisas, do rosto e da presença frágil da Ana Moreira. Aquela voz...acho que foi aí que a paixão começou, nunca mais fiquei curado…

A questão é: onde anda o DVD desta pérola única?

domingo, 15 de março de 2009



"Time Without Pity", Joseph Losey, 1957

"...mesmo num cinema de prosa, o momento de adveniência da verdade do ser é sempre um momento de poesia."

em As Poéticas do Cinema, Carlos Melo Ferreira, pág 348

sábado, 14 de março de 2009

1959

Rohmer já me fez destas algumas vezes. Começa assim: um carteiro nas ruas de Paris entrega uma carta a um tipo; o tipo chama-se Philippe e é o artista principal da película. Também é artista, é músico, mas em maré baixa. Pela carta fica a saber que receberá uma herança choruda. Festeja como um louco com os seus amigos e com os que não o são. Aparece por lá Godard, un peu fou. O tipo fala de sorte e do seu signo de leão para justificar tal acontecimento. Já está mesmo a pedi-las. E vai tê-las. Não recebe a herança. Os seus amigos partem cada um pra cada lado e fica sozinho na cidade. O dinheiro acaba-se. É posto no olho da rua.
[Aparte: o Rohmer percebe mesmo disto, na mesma situação acontecia-me o mesmo, não escapava.]
Perde tudo o que possui e em vão procura algum seu conhecido que o ajude. Do céu ao inferno. A coisa cai andando, o tipo vai ficando pelas ruas, observando mendigos e outras formas de vida. A busca continua, infrutífera. Tudo o que ele ia notando e cheirando vai-se apegando a ele. Torna-se mendigo. Torna-se Palhaço. Os amigos voltam das férias e do trabalho. Um seu primo morre. Como numa fantasia de Frank Capra a fortuna volta-lhe a bater à porta. Aparentemente fica rico de novo.

Filme em partes distintas, com cheiros e moods vários. Filme que se vai perdendo e deixando de ser filme. É como sempre a compreensão ontológica de Rohmer a ser posta em prática. Saída do cinema, entrada na vida. Ou seja, a primeira parte, a dos copos e das romarias, é cheia de nouvelle vague, o que equivale a dizer que é cheia de cinema americano. Hawksiana, talvez. O protagonista vai-se perdendo e o filme com ele. Uns bons 45 minutos só a vermos aquele tipo a desgraçar-se e a humilhar-se. De um oposto a outro e vamos para o lado de Rossellini. O cinema poderia ter sido inventado para seguir uma pessoa por Paris, pelo Sena, pelas periferias, assim, sem efeitos nem enfeites. O cheiro do mundo, o toque das coisas, o caos da realidade. A visão e reconhecimento das coisas a mudarem como muda a realidade em alguns filmes de Cronenberg. Mas, volte face, o tipo sorri outra vez e já encontramos um movimento de câmara à americana e uma chegada ao universo. Capra e uma data deles, novamente. Mas, como tudo o que têm a ver com astros, nada é certo, final misterioso cá para mim.

É isto que eu admiro e que me interessa, esta liberdade em convocar legados e fazer entrever fantasmas, esta consciência das coisas e este interesse pelo humano e pela realidade. E, tendo pensando em tantos nomes e tanto cinema, tudo acaba por permanecer tão inocente, tão bruto, tão essencial. Fresco. Coisa para muito poucos.

Já agora, “Le Signe du lion” chama-se o filme.
sempre achei que o lirismo só arrebata verdadeiramente, só me põe de rastos verdadeiramente, quando em comunhão com uma violência qualquer. quando advém de uma violência. quando a par com uma violência. violência como coisa abstracta, indefinível, metafísica mesmo (merda, já não me lembrava como tenho medo à palavra…). lirismo que tanto pode queimar no sol como num rosto. num deserto de areia ou na pedra mais anódina. em qualquer matéria claro está, a mais concreta ou a mais abstracta, mas quando tocada pelo fogo de uma qualquer violência, uffffff…
a violência do lirismo....menos conversa, à frente.


Tais palavras e Samuel Fuller são para mim a mesma coisa. Se juntarmos solidões incomensuráveis e desilusões irremediáveis temos um quadro significativo e só falamos do mesmo. Acho que poderia pensar tais coisas de praticamente todos os seus filmes, de “Pickup on South Street” a “Run of the Arrow”, mas penso no que ontem vi, “The Crimson Kimono”.

Nada que se distinga pela originalidade do conto, nada de efeitos espectaculares, surpresas atrás de surpresas, etc., como sempre, nada disso. Mais coisa menos coisa é um thriller entre americanos e japoneses que acontece em Los Angeles e que até têm triangulo amoroso. Nada de extraordinário dito assim, tudo extraordinário quando plasmado por Sam para a grande tela. Começa em plano geral sobre a dita cidade, bem do alto, escuríssimo e fugidio, quase a derreter-se, vai descendo até ao nível da rua, entra num qualquer bar e fixa-se numa bailarina. Bailarina que não dura mais de dois minutos na fita mas que vai dar muito que falar. O resto é investigação mais ao menos à maneira clássica, dois detectives que se apaixonam pela mesma mulher, muitas dúvidas e muitas indecisões, desconfianças, violência emocional. Isto mais do que tudo – violência emocional. Algo que Fuller vai desprendendo a cada enquadramento e a cada movimento de câmara até ao limite do suportável. E nossa, é aqui que a coisa atinge aqueles voos e aquela chama que só um Fuller deste mundo poderia conseguir. É coisa temperamental, obviamente. Nenhuma procura da obra-prima/perfeita, redonda, acabada, limada, equilibrada, ó não, com Sam não, apenas que as imagens e sons tenham vida, vibrem, peguem fogo. Paixão, sinceridade, apenas isto.

E naqueles momentos em que aqueles seres – tão comoventes, tão desprotegidos – estão sobre o quadro de Fuller e sobre a luz de Fuller, um quadro que se recusa a fragmentar e a ilustrar, uma luz tão emotiva como as emoções que em jogo estão, ai sei, de certeza certa, que a arte lírica é a arte mais violenta e que a mais violenta é a mais lírica.
A câmara de Fuller é utensílio que se recusa a seguir uma linguagem comum, que vibra como o próprio Fuller vibra como sempre que o ouvi falar, obcecada com as pessoas e com o que dentro delas está, atenta a alguma variação ínfima, a uma subtileza qualquer, que se recusa a cortar e que prefere reenquadrar, é método que não é método, é olhar ávido de emoção e de verdade. Depois reparo que nas cenas puramente action – e Sam foi quem disse que “cinema is action” – os planos já são outros, já são mais sobretudo, o filme já corre como que ansioso por poder reencontrar o que não parece action mas que é o cúmulo do action – duas pessoas num espaço, às vezes mais, o mundo todo naquelas almas. È como comparar uma potente carga de porrada a uma insuportável descarga eléctrica, descarga que não dá para escapar. Por surpreendente que possa parecer preferido a porrada, a mil.

“A câmara é um microscópio que detecta a melodia do olhar.”, disse-o Nick Ray, e tanto ele como Sam nunca a utilizaram de outra forma, e é assim que tais corpos e tais olhares, tais espaços e tal ar do tempo, estão em fogo a cada instante e logo suscitam a violência da catarse. Pelo menos para mim, mas como sempre, só falo de mim.

quinta-feira, 12 de março de 2009

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ev'rybody's building the big ships and the boats,
Some are building monuments,
Others, jotting down notes,
Ev'rybody's in despair,
Ev'ry girl and boy
But when Quinn the Eskimo gets here,
Ev'rybody's gonna jump for joy.
Come all without, come all within,
You'll not see nothing like the mighty Quinn.

I like to do just like the rest, I like my sugar sweet,
But guarding fumes and making haste,
It ain't my cup of meat.
Ev'rybody's 'neath the trees,
Feeding pigeons on a limb
But when Quinn the Eskimo gets here,
All the pigeons gonna run to him.
Come all without, come all within,
You'll not see nothing like the mighty Quinn.

A cat's meow and a cow's moo, I can recite 'em all,
Just tell me where it hurts yuh, honey,
And I'll tell you who to call.
Nobody can get no sleep,
There's someone on ev'ryone's toes
But when Quinn the Eskimo gets here,
Ev'rybody's gonna wanna doze.
Come all without, come all within,
You'll not see nothing like the mighty Quinn.

Quinn The Eskimo (The Mighty Quinn), Bob Dylan


já viram planos assim? neve assim? o melhor é ver em sessão dupla com um Ford. "Cheyenne Autumn", maybe.

We Can´t Go Home Again

“ I don´t know what the fuck that means”

“Para quê usar a palavra underground? Só se for para dar um toque de distinção a filmes péssimos, feitos por gente inapta”

Nicholas Ray

...

isto é o que vou dizer a quem me vier com conversas de filmes underground. ou de culto, pois como alguém me disse uma vez , cantor de culto é o Tony Carreira…
portanto, fuck – com o mesmo sentido do fuck ali de cima – existem é filmes. filmes. filmes. nunca distingui entre o mais caro do Bruckheimer ou aquele feito com meia dúzia de tostões roubados. ou melhor, normalmente gosto mais dos segundos, mas nunca se sabe e isso são outros vinte. mas em todos os casos só existem…filmes. o resto é o fogo. um filme ou têm fogo ou não têm.


hey Nicky…thanks.


Philippe Garrel

segunda-feira, 9 de março de 2009

Estava a ver “White Dog” na edição que interessa. Coisa séria. Quem é que um dia chamou a isto filme racista? Evidentemente que é uma fita de amor. Da impossibilidade do amor num mundo destes, ok, mas uma “love story”, singular, lírica e implacável, daquelas que só um Fuller desta vida conseguira contar e que há muito tempo deixou de ser possível por aqueles lados.
“porque é que se diz sempre te amo, e se responde sempre, te amo” diz ela para ele no “Les Baisers de secours” de Philippe Garrel. e depois cai-lhe nos braços e ficam como vejo na imagem. e o resto das imagens vão ser sobre isto, homem/mulher/luz. porque não te esqueças, tudo é só luz. Garrel, por hoje e pelos próximos, o maior. que mais dizer deste conjunto de imagens e de sons? mais poesia? claro, mas assim não vais longe…indizível pois claro, e só faz sentido no momento e depois, na ressaca. o resto é palavreado…

que andas tu a tentar convencer (-te)? não faço ideia…

domingo, 8 de março de 2009

"falta de imaginação"


+

Juventude em marcha não é ficção. Mas também não é documentário. Ele é o que é. Não gosto de ficar a inventar coisas, não gosto nada das coisas inventadas. Não sei escrever e não gosto quando as pessoas começam a interpretar coisas escritas.

Pedro Costa

sábado, 7 de março de 2009

«Para mim, todas as dificuldades que Orson Welles encontrou no box office, e que certamente travaram o seu ímpeto criador, resultam de ele ser um cineasta-poeta. Os financeiros de Hollywood (e, para ser justo, o público no mundo inteiro) admitem a bela prosa, John Ford, Howard Hawks, ou mesmo a prosa poética, Hitchcock, Roman Polanski, mas muito dificilmente a poesia pura, a fábula, a alegoria, o conto de fadas. Não há nisso motivo para felicitar Orson Welles por ter permanecido fiel a si próprio e por não ter feito concessões uma vez que, mesmo se o quisesse, ele não poderia agir de outra maneira. Cada vez que ele diz “Acção” transforma a vil realidade em poesia»

François Truffaut, 1978, tradução Carlos Melo Ferreira.

esqueço a comparação com Welles, bem como toda a conversa sobre a dificuldade em filmar, que Gus Van Sant aparentemente não têm. no entanto, sobre “Milk,” a coisa têm sido perguntar se é clássico ou moderno, se é alternativo ou avant-garde, ou pelo contrário, convencional e formulaico, se Gus Van Sant se manteve fiel aos seus últimos filmes, e a tudo o que ele próprio representa, ou se se vendeu a Hollyood num biopic glorificador…humm, desconfio destas coisas, como me apetece desconfiar desses chavões incertos e fáceis de escrever, demagógicos. sobretudo, da forma como se utilizam.

lembrei-me daquela história que diz que “O belo é o Vero e o Vero é o Belo”, lembrei-me de o João Bénard da Costa me ter explicado, num livro, que o que isto significa é “outras maneiras de dizer, como os velhos gregos, que ninguém sabe se aquilo a que chamamos vida é a morte e se aquilo a que chamamos morte é a vida” e acrescenta “região de imagens e de ideias que o cinema nunca deixou de explorar”.

pois bem, tenho consciência que tal coisa só valerá para mim, mas enfim…também acho que, e principalmente depois de ver filmes como “Milk”, ninguém sabe se aquilo a que chamamos de cinema clássico é o mais moderno dos cinemas ou se o que chamamos de mais moderno é o mais clássico. ou se o novo é o velho e o velho é o novo. ou se o ser alternativo é atitude de defesa/protecção e o ser tradicional é o mais hard. e todas estas palavras terão de ser percebidas em aspas, tendo em conta o modo como a maior parte das enciclopédias as trata. mas o que importa isso para partir a louça toda? em todos os casos, acho que o que mais me interessa é o ser genuíno e sincero, “Milk” é-o de certeza. e é então inclassificável. e sim, acho que Van Sant já atingiu aquele ponto em que de cada vez que liga a câmara tudo se transforma na sua poesia, filme ele o que filmar, com os meios e dinheiro que filmar, no lugar que for. não poesia de “poesia”, sim aquela em que como nos seus filmes anteriores, de “Gerry” a “Last Days”, vêm envolta em morte anunciada.

mas para os que afirmam convencionalismo, à boca cheia e com intenções secundárias, só isto: viram bem os planos sequência que Van Sant constrói em muitas cenas interiores e mesmo em algumas exteriores? a forma como Savides, o maior director de fotografia americano, arrisca a sub-exposição em muitos momentos? (à beira do amadorismo, como muitos diriam), a maneira como imagens de arquivo e de ficção são sobrepostas? a tal poesia de morte a encontrar-se com o mais inocente dos fairy tales, “Somewhere over the rainbow” incluído? aquele plano reflectido no apito e mil outras coisas? …

sexta-feira, 6 de março de 2009

"el cine más allá del cine"

¿Podrías desarrollar lo que decías sobre la presencia de las personas?

Es lo que me ha salvado sin saberlo del mal documental. Me sorprendió mucho: era en eso en lo que creía y no en un plató de cine como antes. No creía para nada en mis otras películas, fueran buenas o malas. Truffaut dijo una frase absolutamente genial a propósito de Rossellini, que se me quedó grabada en la cabeza porque podría decir lo mismo. Decía que Rossellini había empezado con un pueblo, después había pasado a una ciudad, después a una región, a una isla, a un país, a un continente y finalmente al planeta, a las ideas, con Socrate, Il Messia... Y añadia: "Creo que Rossellini no tenía ese lado idiota, casi estúpido que hace falta tener para hacer cine como los demás, como en Hollywood, o como el que yo hago. Hay que tener algo de animal para pasarse cinco, seis, siete semanas delante de personas que se agitan y dicen: ´Te quiero...` Rossellini no tenía eso". Sin ser un gran fan de las películas de Rossellini, creo que comparto eso con él y que he hecho el mesmo recorrido: me puse delante de Vanda, creí en mi, en ella, en el cine más allá del cine. Hasta entonces no había visto el cine como un trabajo, sino como un asunto de flâneur, de poeta, de artista, del postadolescente que era. Todo aquello no me gustaba demasiado, pero lo hacía todo el mundo. Y allí, en el barrio, encontré otra cosa: bastaba con creer que Ventura era una figura legendaria con dos caras, que lleva en sí el impulso de los pioneros de Fontainhas y su ineluctable tragedia. Chantal Akerman me dijo que Juventud en marcha le recordaba a una película de Pasolini rodada en África, en la que se decreta de igual manera: tú vas a ser el rey, tu el príncipe, y eso basta.

Pedro Costa
O que eu mais gostei no filme de Demme – para além de Anne Hathaway, sempre – é o modo como o projecto formal/estético nem por um momento dá a sensação de valer por si só, de ser o fim em si, antes existir assim para reforçar o imenso sentimento de perda e a solidão da personagem de Hathaway. Depois são as sábias escolhas do cineasta para transmitir toda essa desolação de uma personagem que não se consegue encontrar nem se consegue compreender, e a forma como o filme faz dessa questão o seu centro, com uma inteligentíssima utilização do fora de campo e das escolhas dos ângulos de câmara, sempre a manter a distância certa para não tentar adivinhar o inadivinhavel, antes para fazer jus à complexidade do humano, foi o que mais me interessou. A crueza do digital e a leveza dos materiais apagam-se (sendo no entanto essenciais e só assim podendo ser) no interesse por uma personagem e pelo mundo que a rodeia – com tudo o que isto significa em comparação.
E acho que é por aqui, no tratamento dado à solidão, que podemos evocar Cassavetes, muito mais do que qualquer lembrança do Dogma 95. Por mim já esqueci tal coisa há muito tempo e não há um único movimento de câmara ou corte que me lembre de tal coisa.

quinta-feira, 5 de março de 2009

fabuloso

Daqui a uns 15 anos (ou menos, espero eu) nas folhas das cinematecas de muitos lugares há-de escrever-se qualquer coisa assim sobre “Changeling” de Clint Eastwood:

“Recebido friamente tanto pela crítica como, em certa medida, pelo público, que parece não ter reconhecido aqui as temáticas dos filmes anteriores do realizador, “Changeling” é hoje uma das obras essenciais da obra de Eastwood, filme chave na desconstrução da ideia feita do “último dos clássicos” – se bem que também o seja, como todos os outros – bem como um dos mais arriscados e surpreendentes da sua carreira. Obra soturna, Kafkiana, completamente estilhaçada na forma como vai variando a sua linguagem e concisão. Melodrama, filme de terror, demarche politicamente contestatária, entre muitas outras coisas, hoje já ninguém se atreve a duvidar da grandeza deste fabuloso filme”

Enfim, qualquer coisa como isto e a constatação de que Anjelina Jolie é prodigiosa.

quarta-feira, 4 de março de 2009

"You put my heart in a vise and proceeded to twist that vise until the last frame." Foi o que Quentin Tarantino disse a propósito de "Frozen River" de Courtney Hunt. Tipo de frase boa para a publicidade – visto que Q.T me habitou a tiradas destas a propósito de coisas intragáveis como “Man on Fire, por exemplo – se o filme não fosse magnifico, e é. É ver e sentir a câmara da cineasta a captar cada temperatura variável daquelas personagens e das gélidas paisagens da reserva Mohawk entre o estado de New York e o Quebec, a urdir uma trama fortemente emocional - com Melissa Leo (absolutamente inacreditável, qualquer coisa como uma das grandes actrizes americanas) numa mãe obrigada a fazer pela vida para sustentar os seus filhos (vão ser os seus trabalhos no inferno) - que tanto dispensa toda e qualquer tipo de gordura associada ao género, como faz tábua rasa de qualquer conceito de “filme indie”, para entregar algo verdadeiramente genuíno e sentido.

De resto, tanto me lembrei da forma como Michael Mann utiliza o digital de alta definição – de maneira crua, interessado na realidade – como numa frase de João Bénard da Costa a propósito do cinema de Rohmer: “é o último dos cineastas que sabe que o essencial, no cinema, não é da ordem da linguagem, mas da ordem do ontológico.”

Se não estrear é um escândalo.

"i write and direct. and I'm good."


à quarta é de vez: “Ed Wood” é a obra-prima de Tim Burton e um dos meus filmes favoritos. Deep como Ed é a coisa mais tocante que me lembra de ver em filme é coisa de uma vida. tal ideia já me tinha passado pela cabeça mas desta vez tudo finalmente se iluminou. something like…o mais arrojado dos filmes formalmente conceptualmente de uma sofisticação classe impressionante – aqueles ângulos são são…são – mas também envolto numa aura de estranho amadorismo não o convencionado mas aquele que vêm do coração e explode o industrialmente correcto que só assim permite estar à altura do mais genial dos cineastas: Edward D. Wood Jr. que como Orson Welles escrevia / realizava / actuava tudo já pelos 26 anos.

provocação? não / por hoje não / com coisas destas não. como dizia Piper Laurie para Paul Newman no “The Hustler” do Robert Rossen “you're not a loser, eddie, you're a winner. Some men never get to feel that way about anything.” ou seja: substitua-se Eddie por Ed e está feito. bastou certa gente ter proclamado que se tratou do pior cineasta do mundo para logo alguém poder dizer que se tratou do melhor/não é não saber escrever/é querer escrever. ou o mais cândido o mais livre o menos pretensioso o que dá no mesmo e o torna incomparável. “they don't want the classic horror films anymore. today it's all giant bugs. giant spiders, giant grasshoppers... who will believe such nonsense?” diz Lugosi a Ed. Ed babado/Ed impressionado/Ed como uma criança.

pois pelo que vi porque Tim me mostrou porque os filmes de Ed existem poucos amaram qualquer coisa como Ed amou o cinema. não um fasciniozinho não oportunismo nada de querer ser vedeta isso não. uma paixão louca incomensurável que o fazia mover planetas e cometas para filmar para filmar / assim mesmo. mesmo com humilhações concessões rebaixamentos…Ed diz ok e faz cara inclassificável e comovente/em vez de mandar à merda quem se mete no trabalho do artista. o que lhe importava era ligar a câmara e depois dizer: “cut! that was perfect!” mesmo que logo alguém lhe dissesse que o plateau tremeu todo/que aquilo era abaixo de cão ele logo atirava do fundo de si: “no, it's fine. it's real.” alguém que para respirar precisava de filmar de estar lá. escrever em três dias rodar em quatro montar de gás estrear logo de seguida. o cinema sempre foi dos loucos sempre foi espectáculo de monstros e de sonhos / viagem demencial / mergulho no abismo nada mais.

pode-se pensar: mas assim qualquer um fazia um filme eu respondo: nunca vi ninguém assim e é tudo. “worst film you ever saw.” mesmo depois disso ele alarga o sorriso e diz “well, my next onewill be better.” Hawksianamente.

o que seria se Edward D. Wood Jr. vivesse nos dias de hoje? câmaras digitais de quatro tostões para filmar premieres e final cuts devidamente pirateados e prontinhos a editar o e-mule e as salas com fitas antigas de monstros antigos e anacrónicos de sci-fi chunga e todos os derivados outros tantos programas para fazer os mais estrambólicos efeitos especiais todo o tempo para filmar e um mundo a explorar esta falta de pudor etc…se Ed foi o mais livre cineasta do mundo(“print it”) o que seria hoje?

out. “visions are worth fighting for. why spend your life making someone else's dreams? “ xuta Orson o ídolo e já ninguém para Ed o fã.

terça-feira, 3 de março de 2009

outsiders

…que andava a pensar? que “Rebel Without a Cause” é dos quatro o mais lírico e o mais cósmico? que “The Last Picture Show” é aquele onde a nostalgia se faz corpo e o lirismo dói de igual forma? que “Rumble Fish”é poesia estupefaciente, delírio indizível? …sim, mas só até à próxima revisão ou estado de espírito, até porque falta um. qual rapaz? “The Outsiders”, aquele que me surge mais carnal, mais em primeiro grau, mais ao nível a que vivi, incluindo certos delírios exportados da estratosfera. enfim, guardadas as comparações e distâncias. you know? of course.

…isso e outra coisa…qual coisa? aquela ideia – um pouco tonta, um pouco inocente - de que depois de ver coisa assim ficar a achar que o cinema só pode existir da chamada maneira clássica. ou talvez da chamada maneira Nicholas Ray. ok, já são devaneios escusados…

estava ainda a pensar que posso incluir no grupinho um filme português que têm a actriz mais linda do mundo. enfim, quando sair em dvd digo qualquer coisa…

domingo, 1 de março de 2009

O MAIOR!

Mickey, por estas alturas como The Motorcycle Boy no seminal "Rumble Fish" de Francis.

Even the most primitive of societies have an innate respect for the insane.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

selo de qualidade

“The Reader”, de Stephen Daldry, é mau demais. Coisas destas são as coisas que mais me irritam. Ponho-me a pensar e chego à conclusão de que prefiro aguentar certos blockbusters de acção, ou filmes falhados mas arriscados (segundo uma ideia que um amigo meu me falou…), do que aturar estes pastelões académicos, prestigiados e supostamente importantes. É um daqueles filmes feitos para receber o selo de qualidade e para satisfazer a quota de projectos sérios e de cariz literário (e isto não é cinema, é literatura filmada) que Hollywood todos os anos necessita. Que os Óscares todos os anos necessitam. “Driving Miss Daisy”, “The English Patient”, “A Beautiful Mind”, “The Cider House Rules”. “Atonement”, no ano passado, etc, etc. É esta linha pesada e feita importante que me tira do sério.

“The Reader” não têm nada que mexa naquelas arrastadas duas horas, tudo é de cera, inerte, pomposo. Para mim é mesmo mal filmado e iluminado, à beira do mau gosto estético. A forma como os tempos são misturados e a narrativa assim fragmentada, numa tentativa de imprimir densidade e “significação”, é porventura o ponto mais baixo de uma dramaturgia que nada tem para oferecer, nada tem para pôr em jogo, para fazer sentir. Aliás, montagem é coisa que não existe, Daldry não possui qualquer senso de duração, de tensão – veja-se as cenas eróticas ou de tribunal, tudo possui o mesmo ritmo normalizado, marcado a cronómetro, maquinal. É o mesmo princípio da MTV, só que ao invés de se dirigir à juventude dirige-se à burguesia, aos votantes. MTV ao ralenti, não existem duas imagens ligadas que produzam algo, qualquer raccord. A mesma coisa para o sentimento de mundo, de ambiente, que obviamente se reduz a ilustrações mil vezes usadas para mostrar Berlim e os motivos em causa.
Essa coisa do peso da culpa e do arrependimento, da redenção, da má consciência, etc., tem as costas muito largas e serve para os poderosos ala irmãos Weinstein terem a sua aura de prestígio. Desconfiei imediatamente do produto assim que o vi ser promovido no programa da Oprah, na verdade, este é um filme-oprah.

Kate Winslet? Está bem e nada atrapalha, mas não creio que chegue.

(não precisava ter escrito isto, não precisava ter visto o filme, mas…)
The Nutty Director

Jerry Lewis in conversation with Peter Bogdanovich

Peter Bogdanovich: How did you start directing, Jerry? Didn't you do some home movies first? I take it you did Sunset Boulevard and you called it Fairfax Ave?

Jerry Lewis: Yeah. [laughter]. We did half a dozen satirical, ah...Fairfax Ave was Sunset Boulevard. OK. Then we did The Reinforcer.

(...)


(para me lembrar que tenho de caçar todos os que ele realizou...)
Retour en force : après le bad trip The Fountain, la promesse d'accalmie de The Wrestler - plus carré, moins barré - remet les idées au clair. Si la simplicité du traitement de cette variation carnavalesque sur le mythe des vieux héros fatigués (la trame évoque un Rocky Balboa revu à la sauce Superstars du catch) touche en plein coeur, c'est qu'Aronofsky y fait briller comme jamais les deux singularités de son cinéma.

C'est à ce bel éclat de lucidité, cette manière d'aimer sans y croire - tout entière contenue dans la résignation du vieux Rourke soufflé comme un popcorn et rejeté par sa fille - que The Wrestler doit sa beauté aplanie : fiction-éclipse (sublime extinction du plan final) pour un mélodrame à l'admirable simplicité.


assim, sem muito barulho, só para mais tarde eu me lembrar. pois como diz o L.M.O: Há coisas que doem.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

“Mister Lonely”

Quem conhece “Gummo” ou “Julien Donkey-Boy” já sabe o que o espera, território onde a candura e o onirismo explodem a cada momento, por vezes como flashes ampliados, brutais, a maior parte do tempo como coisa inteira, terreno onde as convenções não tem lugar e a liberdade se faz essência.
Auto-indulgência, já sabemos, é uma das palavras favoritas de Harmony, o tal Rimbaud de uma certa geração, e se tal vocábulo tem algo a ver com a libertação de todas as amarras a que o cinema em geral – e principalmente o cinema do país dele – se deixou prender, rumo a territórios próximos do sonho e da vigília, então, que seja sempre auto-indulgente – ele e o Gallo, p.e – que cá estou eu para curtir estas coisas.

E se “Mister Lonely” surge investido dos mesmos gestos, eles aqui não parecem tão perigosos e terminais, melhor, Harmony não usa de um tom quase ostensivo ou provocatório que irrompia nas fitas anteriores e que eram maravilhosos. É isso, existe aqui uma espécie de doçura, uma maior ternura para com os personagens – mesmo que os “Freaks” de Tod Browning continuem a ressoar – e mesmo para com os lugares, que parece algo de novo e sugere novos caminhos e reinvenções. Uma nova luz também e certas aberturas (discursivas, visuais) luminosas que parecem declaração de princípios do cineasta – mais indulgência… – mas que nunca se tornam moles nem requentadas, antes potência da estranheza. Coisas incríveis na imagem e no som, quase violentação entre as duas bandas, sobreposições encantatórias, uma vibração sonora por vezes áspera, crua, que junto com o brilho de certas imagens nos fazem sentir coisas realmente novas. Sentir é a palavra certa, é um universo antes de tudo sensorial, e tudo isto vale por si. Mesmo se podemos considerar este filme, e abra-se aspas, o seu mais “narrativo”.

Acho que vale a pena experimentar esta poesia nos antípodas de quase tudo o que se pode arranjar. Bónus: Leos Carax num papel, obviamente, esquisitíssimo, que só reforça o tom de estranheza geral.

lancinante

Mister Lonely de Harmony Korine
Porque é que num filme de muito homens, em certo sentido um filme de grupo à maneira clássica, os momentos em que as mulheres aparecem tão brutais e vibrantes quanto as cenas de pancada?

Ainda a reforçar o fora-de-tempo da personagem de Randy (logo de Mickey), a cena em que ele escolhe aquela peça de roupa bastante berrante para oferecer à filha. “Não sei, esta parece mais Rock’n Roll. O que achas?”
Rock’n Roll, diz Randy. Pouco depois, Ratt a abrir a abrir com "Round and Round". Mais à frente Guns com "Sweet Child O' Mine", and so on...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ainda sobre “The Wrestler”

Aquela cena em que de dentro da sua caravana Randy 'The Ram' Robinson chama um puto, que está lá fora a brincar, para vir jogar Nintendo consigo. Começa a jogatana, obviamente jogo de wrestler, e o puto decide disparar: “conheces o “Call of duty 4”?
Um inocente e meio anacrónico Randy pede-lhe para repetir o título do jogo umas 3 ou 4 vezes, depois pede-lhe para explicar sobre de que trata tal coisa. Obviamente que não fica muito convencido, se calhar nem entendeu bem aquela lengalenga. O miúdo, esse, está claramente a fazer um frete, um favor, nem sequer aceita um segundo round de desforra. Aquele já não é o seu jogo.

Parecendo que não, aquilo diz muito sobre o tipo de homem que ali está, e tem toda a razão o Randy, também eu joguei muitas vezes o “Call of duty” (prai o 2), altos gráficos, som potente, aventuras do arco da velha, etc…Mas nunca mais reencontrei a magia das primeiras vezes, uma Mega Drive e um Sonic em 2 dimensões, por exemplo...nada de muito sofisticado, mas na altura, tremendamente viciante e irrepetível.

É isso, as coisas andam explosivas demais, repare-se como Aronofsky filma humildemente tanto as caras dos personagens como o televisor com o jogo, uma certa ordem nas coisas.
Acho que nem deveria estar a escrever sobre “The Wrestler”, gostei tanto, mas tanto, que quaisquer palavras me soarão desnecessárias. Fuck. A coisa é tocante. Melhor, desarmante. Aquilo que todos já ouvimos falar está lá em bruto, e é impossível descrever – um homem e uma espécie de via-sacra, os fantasmas que retornam, a dificuldade de reconhecimento em relação ao que se foi, o afunilamento. Acho que tem a ver sobretudo com a primordialidade de um corpo. “Este sou eu, é assim, mais nada”. Isso e a vocação. Mas não vale a pena divagar, acho que o trunfo principal do filme é a singeleza, melhor, a forma como se recusa a deixar brotar grandes temas, mensagens, lições, falsas esperanças, etc…Não existe demagogias ou empolamentos, tudo é de uma simplicidade quase naïf (no melhor sentido).
Acho que no limite o filme é todo como no plano inicial – uma câmara a seguir um homem, o seu corpo, o peso deste e das coisas. E é assim que o filme se torna grande e vem mostrar coisas realmente vitais.

E Mickey Rourke é extraordinário, com todas as letras, o que ele oferece é a mais sublime dádiva que um actor pode dar ao seu realizador. Dá-se a ele próprio. E de resto é preciso dizer isto – Darren Aronofsky está totalmente à altura daquele homem e dos acontecimentos. É tanto mais surpreendente quanto é verdade. Zero de exibicionismos, zero de conceptualismos de pacotilha, nenhum “inventanço” de montagem, nem uma merda de um truque, tudo é filmado à altura dos homens e das ocorrências. Uma câmara que só se interessa pelo homem e pelo mundo que o rodeia, que cria o espaço necessário para captar perfeitamente os dois, para os fazer sentir. A câmara, o olhar, só têm interesse por aquela carne, por aquelas emoções sussurradas. Nunca ultrapassa a linha em que a técnica se faz matéria e centro. Ali a matéria é o homem e o mundo. O contrario dos filmes anteriores de Darren. Portanto, dizer que os actores estão fabulosos (e estão, todos), mas que Darren não cumpre, é uma daquelas boutades dignas do mais sofrível pedantismo. Porque a única coisa que aqui se manipula é a luz - tornada agreste, crua - o recurso mais antigo e essencial do cinema, que é o que tudo molda e deixa entrever. De resto, Marisa Tomei a estilhaçar qualquer ideia feita – presença de “tomates” (salvo seja) – rude, visceral, mas muito mulher. E também a Evan Rachel Wood, sempre que entra a coisa atinge umas alturas (foda-se, está linda)…

P.S: porra, os “coçórios” das cenas de luta reinventam a palavra visceral. E mesmo aqui só temos a câmara e a exposição da película a trabalhar. O resto é carne, sangue, suor. O Darren têm tudo nas mãos para se tornar outra coisa...

P.S 2: tanta coisa, blablabla, e eu quero é rever o filme…para apurar similitudes com o “Rocky Balboa”, estar com os três actores e para escrever umas coisas sobre os 90´s (ou então, não…).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Jorge Jesus. Obrigado, mestre.