quarta-feira, 28 de maio de 2008

O Incomensurável


Manoel de Oliveira e Lima Duarte em "Palavra e Utopia"
"O Cinema é, de certo modo, um grito no deserto. Há quem ouça, há quem não ouça. Muitas vezes, na selva, nasce uma flor maravilosa... nasce, lá viveu o seu tempo e morre...e ninguém a viu. E é quanto basta. O ter resistido é quanto basta. Não precisa de mais nada"
Manoel de Oliveira, in O Homem Imaqginado, João Mário Grilo
O filme de Robert Kramer desenvolve-se num outro nível. Depois de ter trabalhado na Europa, nomeadamente em Portugal, onde esteve pessoalmente envolvido na Revolução dos Cravos, Kramer retorna ao seu país de origem com o seu amigo de longa data, Paul McIsaac. Decidem, para verificar o estado da nação, como os nossos presidentes da República gostam tanto de comentar, percorrer uma estrada Norte Americana, a tal Route One, que vai desde o norte do país, perto do Canadá até à Flórida, no sul do país. E nessa tal viagem decidem ir ao encontro de tudo o que encontram, desde a paisagem física até à humana.

O filme é imenso. Desde a sua duração (4 horas e meia) até ao seu conteúdo, este espalha-se por territórios raramente trilhados por algum autor cinematográfico. Nunca o Cinema se aproximou tanto do Homem, logo da Vida, logo da Verdade. Ou melhor, da busca da Verdade. Kramer filma o bom do Homem, o mau do Homem, mas de uma maneira tão sensível e terrena que juízos de valores são, desde o princípio, logo excluídos. Do filme ficam os sentimentos, as pessoas encontradas ao longo da viagem, os verdadeiros Estados Unidos vistos pela câmara de filmar (e, numa perspectiva de Vertov, a câmara de filmar como um verdadeiro olho humano) de um realizador, de um autor que nunca recusou a realidade tal como ela o é: complexa porque ninguém consegue perceber quão simples são as pessoas. Porque ninguém consegue perceber quão simples é esta busca impossível da Verdade. Porque ninguém consegue perceber o verdadeiro sentido do Cinema.

Rogério Feitor

Kramer, Kramer, Kramer

(...) Esse pai, o falso «Doc» (Paul McIsaac é antes um cirurgião da sociedade americana), volta a ser «convocado» como «alter ego» do realizador para percorrer, num périplo filmado, a Estrada nº 1 dos Estados Unidos, a mais importante do país nos anos 30, e que atravessa toda a costa leste, desde o Maine, na fronteira com o Canadá, até à Florida. A razão da busca parece ser evidente: qual a maneira de cruzar ainda a ficção, o documentário e a militância no final dos anos 80, depois do fim das utopias ter sido decretado? Kramer chamou Route One/USA ao seu filme e é esse imenso «rasgo na América», imenso também pela sua riqueza humana ao longo de 4 horas e meia de duração (...) Kramer gastou cinco meses na rodagem, um ano na montagem e utilizou uma equipa extremamente pequena: para além de Paul McIsaac, o próprio Kramer foi operador de câmara, Richard Copans alternou a produção com a direcção de fotografia e Oliver Schwob gravou o som. O que se descobre é surpreendente e invisível no cinema corrente: de «ghetto» em «ghetto», Kramer faz perder a noção de tempo (o tema do seu filme sempre existiu) enquanto revela, numa viagem em que cada encontro é um ponto de partida, a miséria que os Estados Unidos esconde, os seus «eternos exilados», dos hispânicos aos índios ou aos negros. O filme mostra as minorias e apresenta uma sociedade violenta, castigada pela política de consumo do país e permanentemente à margem, como o próprio trabalho de Kramer como cineasta. Trata-se de uma representação pessimista sobre um presente chamado «progresso» que, afinal, se tornou medíocre. A constatação é pesada mas é urgente conhecê-la.

Francisco Ferreira

terça-feira, 27 de maio de 2008

entre Kenji, Roberto e António

(...) o passeio da menina com a garrafa de vinho no ANA são as mesmas emoções que os passeios de Ingrid Bergman em "Stromboli"...os gritos de morte da mãe Ana confundem-se com os silêncios suicidas da Senhora Yuki de Mizoguchi.(...)

Pedro Costa

...

por vezes deparo-me com raccords que me fazem andar de lado. Vejo dois dos filmes que mais amo e...lembrava-me destas frases de Costa, tinham que estar em algum lado, tinham, e estavam...é assim.

Impossível, isto é impossível ter sido construído…


«Para mim, a ascensão de Ingrid Bergman ao alto do vulcão ou a descida da Senhora Yuki para a casa de chá à beira do lago, ficaram-me indissociadas e indissociáveis.»

João Bénard da Costa


.....

Eu sei que o Improvável não é Impossível, mas momentos destes são Impossíveis, sim, visionei-os mas não acredito…

Nas Nuvens…


Acabo de receber uma box, que, entre outras coisas têm lá dentro um DVD duplo de Le Soulier de Satin, ou “Os Sapatos de Cetim”, a MONUMENTAL obra de Manoel de Oliveira. Em Portugal não existe: obrigado Espanha!
Portanto seguem-se, brevemente, 415 minutos de retiro…

Miguel: continua a mesma merda ou pior...


Fizeste o Conservatório com gosto e entusiasmo?

Miguel Gomes: Não, não, fiz a escola com uma enorme frustração. Como é que se ensina alguém a fazer filmes? O que eu queria mesmo era fazer filmes. Não sei como é que as coisas estão agora, mas naquele tempo havia uma indeterminação entre o que deve ser um curso técnico - nas quatro áreas de formação: som, imagem, montagem e produção - e outra coisa, que tinha mais a ver com a realização. Essa outra coisa era a que me interessava. Tive o Paulo Rocha e o Seixas Santos (excelente a dar a cadeira de História do Cinema do primeiro ano) entre os professores e a ideia que guardo é que, ou por cansaço ou por descrença no futuro do cinema em Portugal, eles não acalentavam grandes perspectivas ou esperanças para os novos que ali estavam e que, justamente, se estavam ali era porque queriam fazer filmes neste país. Nessa medida, o curso foi frustrante para mim e para os meus colegas.

isto...é isto!

«foi uma das tentativas mais bem sucedidas de viver um filme, todo aquele desejo de viver um filme, sentir que não é uma coisa que se faz pontualmente mas que se vive.»

Robert Kramer sobre Route

(o "filme dos filmes", o filme da vida, o filme dos Homens e do Mundo)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Route One USA



Acabo de assistir á versão de 255 minutos de Route One USA, O filme de Robert Kramer. Se bem que não é um filme (embora o vá tratar por filme…), nem é cinema, são imagens e sons, é a câmara a entrar na vida e a vida a entrar na câmara.
Não vou dizer que é o maior filme de todos os tempos (são tramadas estas coisas…), mas sim que é o filme que eu gostava de ter realizado: em toda a HISTÒRIA do cinema.
Mas sempre digo mais qualquer coisinha: o mais bonito e minimal filme do mundo, realizado no maior império do mundo; o mais avassalador objecto em que o centro são as margens, e quando não o são, o resto só serve para as reforçar.
E uma coisa que para mim, neste momento, é indiscutível: depois de John Ford, Robert Kramer, cronologicamente como o maior dos realizadores Americanos. Nem anos 70, nem Malick, nem Tarantinos, nadinha!
…aqui já não interessa por aí além, ou nada, a verdade já estava reposta, o crepúsculo atingido...mas, porque nos grandes autores há sempre "um", esta prodigiosa cena da luta final em Rocky Balboa é, juntamente com o último filme do Romero, o uso mais irónico e significante do digital, da altíssima definição, a sua critica e problemática. Como? Porquê? Para quê? Etc…
Sublime momento em reverso do resto do filme.

domingo, 25 de maio de 2008

quando vejo uma imagem, penso logo em outra imagem, simples como 1+1, (nunca foi outra coisa...) e complicam tanto...

Doce

Se o cinema português fosse uma pessoa e o apanhasses sozinho uma noite num bar a beber uns copos e lhe pudesses dar um conselho, apenas um, qual seria?

"Não tenhas medo e não ligues ao que dizem sobre ti, a maior parte não tem noção. És belo, por isso acredita nas coisas bonitas e grandes de que és capaz."

Ana Moreira

*é a mais bela, com a inocência na cara...mas é infinitamente mais lúcida, perspicaz, sábia e doce, do que a star Joaquim de Almeida.

inteligente, directo

I just don’t trust any composer to really do it. Who the fuck is this guy coming in here, putting his shit over my movie? What if I don’t like it? And if I was in a situation like that, chances are, I WOULDN’T like it. Fuck that!

Quentin Tarantino

*bastante inteligente, e Quentin sendo Americano, diz precisamente o contrário da simplicidade e ignorância de Almeida. It´s all about movies.

azedo

«O Governo português tira subsídios aos mais novos para os dar ao Manoel de Oliveira,como aconteceu como AntónioPedro Vasconcelos. Deram-he um subsídio para depois lho retirarem. Se compararmos as audiências do CallGirl com as dos filmes do Manoel de Oliveira a diferença é enorme. Há poucas pessoas a ver os filmes dele. Não se pode dar eternamente subsídios ao mesmo realizador»

No entanto, defende que Manoel de Oliveira «deve fazer filmes até aos 120 anos, mas com o dinheiro que ganha em França e dos muitos prémios que recebe». Em jeito de confissão, o actor diz que é «amigo de Manoel de Oliveira há muito anos», mas não gosta das suas últimas obras. «Não vejo um filme inteiro dele há algum tempo. Ele faz as coisas como vê. Deve ser da idade.»

Joaquim de Almeida

*além de azedo é um pouco burro, não estamos na América nem somos Americanos. Grazias.

sábado, 24 de maio de 2008

Classe

Classe tous risques, Claude Sautet, 1960. Sereno monumento sublime, a data é decisiva. Um ano depois do cúmulo do cinematógrafo segundo Robert Bresson, no mesmo ano de À bout de souffle – o que equivale a pensar em toda a nouvelle vague – sete anos antes de Le Samouraï de Jean-Pierre Melville, finais do período dourado do classicíssimo de Hollywood, dos grandes noirs, etc…

É uma baliza importante, pois dentro do filme está tudo isto e muito do que viria. É o minimalismo apaixonante e distanciado de Bresson, a doçura de Belmondo ou a implacabilidade de Lino Ventura (qual Bogart), é a depuração máxima e ao mesmo tempo virgem de todas as peças atmosféricas dos noirs – para o lado da sofisticação Hawksiana e da singeleza de Lewis.

É grave, é implacável, é nostálgico e seco. É tudo o que Truffaut falhou em Vivement dimanche! – um cinzelado sobre o blanc et noir que destrói qualquer ideia de género.
Depois, aquela dialéctica entre os dois personagens principais, bem como os percursos contrários e aproximativos, são de uma crueza terrífica – o trabalho sobre os destinos. Melville iria dizer que Sautet era melhor que ele. Não posso comentar coisas destas.

as nossas distribuidoras...

E já agora, nem falo do último, Sang sattawat, (Syndromes and a Century, 2006), mas onde está a Obra-Prima de Apichatpong Weerasethakul, Sud pralad (Tropical Malady), que até ganhou um prémio, num festival famoso há uns anos e que está constantemente a ser arrumado pelos distribuidores, a mudarem a data, a enganarem os cinéfilos, respondam?

E depois pretendem acabar com a pirataria – é obvio, qualquer cinéfilo o vai baixar da Internet, qualidade fabulosa, e assistir logo.
Tenham vergonha e não gozem os cinéfilos, nem sala nem DVD…


I knew people would not understand it. It's a shame people write so many things when they haven't seen it. When you see the film, it makes more sense. It's an art film. It should be playing in museums. It's like an Andy Warhol movie.

Chloë Sevigny

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Romero



Só hoje me pude deslocar ao cinema para ver um filme que muito ansiava, de um dos grandes cineasta vivos: George A. Romero.
Diary of the Dead é um grande filme, um fabuloso filme.
É, primeiro de tudo, o anti-Rec, aqui o dispositivo e a matéria de fundo juntam-se em estado de graça.
Grande filme parábola sobre o estado das coisas e das acções/anseios dos homens; grande metáfora/denuncia/autópsia sobre o killer instint desta nossa raça, e grande filme acerca– só comparável a Redacted, de Brian de Palma – da verdade e a manipulação de todas as imagens e de todos os signos, dando ainda umas potentes alfinetadas ás instituições (ás de cinema, principalmente) e ao desejo, tão inocente e infantil, da possessão e durabilidade de todas as coisas.
Mise en scene sóbria, cientifica, radical e sem nunca se pôr em bicos de pés, Romero nunca por nunca moraliza ou espetaculariza os eventos – é o mais justo e caustico dos filmes.
Sobre o mundo e sobre as imagens, sobre a realidade e sobre a manipulação. Sobre o novo e o velho.

Pró Caralho os gajos das distribuidoras! Só ontem é que soube que estreou um filme de Claude Chabrol, o magnifico Chabrol, o homem que deu, literalmente, a maior lição de realização cinematográfica dos anos 90.
Ainda por cima só numa salinha de Merda em Lisboa, nem o Porto teve direito. O Cinema, o Futebol, a Justiça…é tudo a mesma merda.
Os críticos, esses também se estão a cagar, também é por isso que já ninguém liga, já não se sabe quem é Chabrol, nem se vai saber quem é Garrel, etc, etc…

"ta ta ra ta, ta ta ra". "ta ta ra ta, ta ta ra". "ta ta ra ta, ta ta ra".
Só querem disto, eu também quero, mas e o CHABROL?
"Afinal, passam a vida a dizer que no cinema está tudo demasiado convencional e agora dizem que o filme não é suficientemente convencional..."

S.S

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Parabéns Senhor OLIVEIRA III




Por Sérgio Dias Branco

geometria - Plano metáfora...

...ou o formalismo que logo se dilui.

The Man Who Knew Too Much, Alfred Hitchcock, 1956

toda uma gigantesca diferença...

Fabuleux, Two lovers, tourné en un an par James Gray qui d'habitude met sept ans pour faire un film. On va faire court, et pourtant il y a énormément à dire sur ce film excentrique. Vivement qu'on y revienne. Joaquin Phoenix (lourd, tout de guingois, génial. Vraiment : génial) tombe amoureux de sa voisine, tandis qu'il se laisse aimer par une autre fille. C'est bizarre, lui est bizarre, maladroit, presque comique, mais entièrement dans ce qu'il fait, quand il dit « I love you » par exemple, il le dit 15 fois. Ce pourrait être une anti-comédie-romantique, mais ce n'est pas vraiment ça, ça bouge de l'enthousiasme jusqu'au renoncement tragique, il y a l'ombre d'un détraquement mental, mais de l'anomalie du personnage Gray ne tire aucun effet de poésie à la noix (l'épouvante du genre « film de débile léger », façon Punch-drunk love). C'est encore un peu La Nuit nous appartient, mais côté mélo, encore une fin sublime, un peu funèbre, heureuse aussi, mais si, c'est un paradoxe et ça tient : un enterrement qui est aussi, en même temps, la naissance de l'amour. Il y a deux regards-caméra déchirants, des plans à tomber (avec un style : discret, qui travaille en retrait), des envolées monumentales et, bref, on en est fou.

Jean-Philippe Tessé

D’une beauté fracassante, le film « Two Lovers » confirme le parcours sans faute de James Gray. Un grand cinéaste, un grand film.

Fracassante de beauté, l’ouverture du film dans un crépuscule de plomb sur un pont survolé par des oiseaux noirs, porte en elle toute la puissance du fatum. Comme toujours chez Gray, l’épilogue du film répond en sourd écho à son prologue, encadre l’histoire pour lui insuffler de la force. C’est là aussi la beauté et la supériorité du cinéma ou de l’art sur le monde réel : trouver une logique, un sens à la vie quand il n’y en n’a pas toujours dans la réalité.

Delphine Valloire

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Filmado com uma gravidade que por vezes soa ridícula, Two Lovers é um dramazinho em que o perfume de tragédia não esconde um permanente cheiro a água de rosas.

EURICO DE BARROS, em Cannes

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este (Eurico de Barros, sim, é um festivaleiro excitadinho...havia os casamenteiros, agora existem os festivaleiros, tudo areia do mesmo saco, o ridículo é que julgam ter piada.)
Quantas vezes vou insistir? Quantas forem precisas!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dario Argento, para ajudar a perceber o Mestre



Dario Argento: An Eye for Horror, Leon Ferguson, 2000






















- entre Kiarostami e Rohmer -


Há um curioso link entre dois dos filmes que mais gosto, Close-Up de Abbas Kiarostami e Conte d'automne de Eric Rohmer.
Por um lado aquilo que tenho vindo a insistir, ou seja, ao ritmo do cinema, estas duas obras impõe o ritmo da vida. Como são tão importantes os percursos nos dois filmes, tão fulminantes de vida: o carro e a mota, a mota ou o carro.
Em Kiarostami pensemos no plano sobre a mota em que o som vai falhando, em Rohmer nos créditos finais colocados sobre o baile até ao último segundo. Uma e a mesma coisa: uma espécie de negação filmica em direcção à corroboração da realidade como principal fonte de qualquer construção de cinema.
Depois, no espaço oco ou invisível, as pontas de cinema, mais como ditério do que outra coisa qualquer.
Em Close-Up havia o suspense Hitchcokiano da cena em que o impostor é identificado e preso, toda a linguagem utilizada ia nesse sentido.
Em Conte d'automne o que mais se destaca é uma espécie de utilização de secantes paralelas que se vão detonar a certa altura, já não no sentido de Griffith, sim qualquer coisa a ver com o sentido quase pós moderno, muito anos 90.
Na soma ou na ressaca, o que fica é a insuflação da vida, e é por isto que o cinema destes é algo tão simples e ao mesmo tempo intricado.

Chega! Chega! Chega!

"James Gray, cineasta que é capaz de suscitar fervores amorosos que têm a mesma intensidade das energias que o rejeitam, quebrou a sua série de filmes sobre a família e a mafia (o último dos quais foi Nós Controlamos a Noite) com Two Lovers, filme sobre... a família. Ficam de fora os gangsters (e a fixação em O Padrinho), está cá dentro a história de um rapaz (Joaquin Phoenix) obcecado por uma loura (Gwyneth Paltrow) enquanto a família dele quer que ele se case com outra."

Vasco Câmara em Cannes

...

Isto já vai para além da ignorância e teimosia, chamem-lhe o que quiserem…a mística falsa comparação já mete nojo, cheira mal e fede.

Duel


...também continuo sem nunca ter visto nada assim. 3 words: Concreto, desesperado, selvagem.
O mais belo filme do mundo, a mais possante interpretação feminina ever. Bem como não tenho dúvidas em afirmar que dá 100-0 a Johnny Guitar, outro dos filmes mais belos do mundo. Sem aspas ou itálicos. Tout Court.

terça-feira, 20 de maio de 2008

It's All True


É perguntar aos professores da Escola de Cinema…que desviam os olhos quando reconhecem o jovem apaixonados que eles um dia foram. E aos broncos das televisões públicas e privadas. Aos ministros e aos políticos que promovem os negócios dos poderosos e matam à nascença os pequenos produtores e os primeiros filmes. Restam os casos: um rapaz, uma rapariga. Conheço alguns. Ficarão sozinhos e perdidos. Não farão as publicidades. Vão viver com pouco dinheiro. São uns selvagens. Não vão ter estabilidade profissional, nem mais saídas, nem encomendas nenhumas. Não vão acreditar que "o cinema é uma linguagem e tem a sua gramática". Tem os seus riscos e é um trabalho feito passo a passo. Eu tenho fé. A juventude tem sede de sangue.

Pedro Costa

Parabéns Senhor OLIVEIRA II

Maravilhoso constatar que é no Brasil, do outro lado do Atlântico, que prestam estas homenagens - escrevem sobre o seu cinema apaixonadamente - ao Senhor Manoel de Oliveira (o cineasta que está muito para lá de uma ideia única de Cinema), aqui...

(Um filme Falado, foi o meu primeiro Oliveira, e nunca me esquecerei)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

my blade without runner III

Estonteante delírio este cruzamento entre a anarquia de Carpenter e os bailados (muito cinema clássico americano, muito pintura, no sentido que Tarantino referiu) ala John Woo. A cena junto á ponte, em pleno Bronx, vale 100 Blade Runner´s.
“cheap, bricolé, simple, maniable.” É a estes filmes, feitos com muito amor e sem riqueza alguma, que estas frases haveriam de ser aplicadas, e não a objectos que custam para cima de 100 milhões de dólares, mesmo que sejam muito bons.

ainda Oliver Stone

Quanto a JFK nunca tive dúvida alguma – um dos grandes filmes dos anos 90, um dos grandes filmes sobre a América, e, principalmente, sobre uma ideia e uma mitologia americana, puramente americana. Além de todo esse lado humano, politico, etc…era redefini dor de toda uma ideia de mise en scene e de montagem (violenta, furiosa, sofisticada, sem dúvida) que não mais fazia do que reencontrar-se com o fundo filmico, ou seja, defender uma perspectiva, um ponto de vista, até ao infinito. E era fabuloso, e era tocante, no final, o falso apaziguamento tinha a força da acalmia que vêm depois das tempestades. Assustou muita gente, mas as coisas são como são.

Worl Trade Center, o filme sobre um brutal acontecimento recente, tinha ainda mais tendência a assustar. Por minha parte continuava a admirar, principalmente o facto de Stone ter apagado muitas das suas marcas e sinais do seu cinema recente – Any Given Sundey é o caso exemplar – e ter construído um filme no escuro, sobre o escuro. A maneira quase Bressoniana como tratou o espaço e o tempo (uma surdina transcendente, tudo a durar o que precisava de durar) reflectida naqueles magníficos fades que funcionavam como apagador de todo o espectáculo televisivo, de todas as imagens e sons, que parecia tornar impossível sacar uma nova imagem. Foi neste trabalho contrário que Stone erigiu, que o impossível se tornou possível.
Mas confesso: duvidava ainda de um lado que me parecia um pouco literal, o melodramático das cenas familiares, um flanco que me precisa pretensiosamente espiritual, a puxar á lágrima, etc…
Enfim, foi este texto que me limpou as dúvidas e desconfianças. O filme não é directo e literalizado, é um reflexo de um império e das suas tomadas de posição, Stone filma sempre o que está ao lado, nos vazios e nos espaços ocos, e é magnífico, vibrante. Todas as explicações estão nas palavras de João Mário Grilo.

Parabéns Senhor OLIVEIRA


Merda - o filme que mais quero ver

Au milieu du film, Merde est rabroué par son aîné, Maître Voland joué par l’excellentissime Jean-François Balmer, dans une langue imaginaire et non sous-titrée qui consiste à grogner, à se taper les dents de l’ongle et à se mettre des claques : une performance inoubliable qui dure 10 minutes, d’autant plus incroyable qu’elle se comprend parfaitement. Voilà, pour résumer « Merde » c’est plus d’une trouvaille à la minute ; donc, mathématiquement, en trente minutes, Carax fait mieux que plusieurs réalisateurs de films en Compétition réunis. CQFD.

Le génie est décidément une grande injustice divine.

Uma série de duvidas eliminadas…

A ILHA AMERICANA

Compreende-se mal como tanta gente vai reduzindo World Trade Center, de Oliver Stone, a uma simples litania nacionalista embrulhada no aparato colossal dos acontecimentos do 11 de Setembro. No soberbo filme de Stone – um dos grandes filmes que o cinema americano produziu nos últimos anos -, o atentado, propriamente dito, é uma sombra (plano magnífico e emblemático da sombra do avião sobre os prédios da Broadway).

É uma maneira clara de dizer que o filme não é sobre isso (como o tentou ser United 93, de Paul Greengrass, ou as incontáveis mini-séries televisivas sobre o assunto), mas sobre o que isso expõe: a condição insular de uma América concentracionária, cada vez mais isolada e incompreensível para o mundo (vejam-se os planos de aproximação de Manhattan, a partir do ferry de Staten Island).

Sobre essa perplexidade, Oliver Stone construiu um filme de uma simplicidade terrível, que se passa metade debaixo da terra, e onde a alegoria se funde com uma imagem intensamente realista, exigindo dos estúdios uma correcção tecnológica impressionante para servir um propósito que se diria “menor”: a continuidade visual conseguida a partir de imagens de proveniência muito heterogénea, um procedimento em tudo semelhante ao seguido em JFK, filme que forma, com World Trade Center, um díptico incontornável sobre a história recente americana.

João Mário Grilo (agradecido)

domingo, 18 de maio de 2008

anacronismo/"falsidade" de pacotilha


É um Demy. Ponto final parágrafo."

...o que só vale para ele, não para esse esterco velho mas mascarado de moderno que é o cinema de Honoré.

violenta poesia

pedagogia



"Digamos, para simplificar, que Arnaud Desplechin é um dos maiores cineastas europeus em actividade."

João Lopes

...

Para esquecer esta simplificação/excitação, deixo, no mínimo, um cineasta de quase todos os países europeus. Máximo dois, exceptuando, por obvias razões, a França:

Pedro Costa, Manoel de Oliveira; Victor Erice, Adolfo Arrieta; Jean-Luc Godard, Jaques Rivette; Eric Rohmer, Claude Chabrol, Philippe Garrel, Leos Carax; Nanni Moretti, dário Argento, Enzo G. Castellari; Werner Herzog, Wim Wenders; Jerzy Skolimowski, Andrzej Wajda; Nuri Bilge Ceylan; Mike Leigh; Anton Corbijn; Aleksandr Sokurov; Béla Tarr; Amos Gitaï, Elia Suleiman; Michael Haneke; Constantin Costa-Gavras; Lukas Moodysson; Aki Kaurismaki; Cristian Mungiu; Jonas Mekas; Miloš Forman; Jim Sheridan; Lars von Trier.

P.S: se me esqueçi de algum mais importante que Desplechin é favor avisar.

sábado, 17 de maio de 2008

Pursued - um filme


Se não há duvida que Raoul Walsh foi um dos grandes pioneiros, cinzelando pelo mundo peças puríssimas e inocentes, há coisas que o transportam, indelevelmente, para uma modernidade – o que só confirma que esta (a modernidade) já nasceu primordialmente.
Reparemos no seu comovente Pursued de 1947, filme dirigido em estado de graça, cândido, construindo cada plano como se descobrisse esta arte pela primeira vez – daí o tal pioneirismo.
Mas o filme é uma tragédia, o final é ala Shakespeare, a construção narrativa fora de linha, os raccords mentais bastante complexos, as relações ultra dúbias.
O mais imaculado mas também o mais agudo. Fabuloso Walsh – é isto que falta aos supostos modernos ou pós modernos desta época um pouco deprimente, um fazer por inteiro, um “fazer um filme” sem a consciência de genialidade.

singelamente...

Sem qualquer tipo de pretensão, de espécie nenhuma (a não ser a minha opinião), é isto: quero continuar a amar Garrel ou Carax, não analisar Honoré ou Noé; quero dissecar Robert Kramer, Monte Hellman ou Kotcheff, não os movie brats; quero compreender Skorecki não Rosenbaum.
Singelamente…é a mesma coisa que ver os filmes de Monteiro ou Costa ou Kiarostami: Vida, não somente máquinas!

mais nada 2

Q: What do you see now in American film that interests you? Why don't you like Robert Altman? Have you seen STAR WARS, etc.?

Serge Daney: Robert Kramer, John Cassavetes, Paul Newman, Stephen Dwoskin, Monte Hellman, etc. As for Altman, I have the disagreeable feeling that he is a little master, very at ease in the notation of naturalistic detail, who has taken it into his head to rival Bergman or Antonioni. What is very unpleasant in his cinema that the only thing he asks us to believe in is the intelligence of the auteur. The auteur is always more intelligent than his guinea pigs, he always knows more than they do, but his knowledge is always protected. You don't find this contempt - I purposely cite very lofty auteurs - in Bresson or Antonioni, because these are people who could care less about what one has to look like one is thinking in order to appear intelligent (that is to say "non-dupe," in Lacanian jargon.) The films of Jerry Schatzberg, Scorsese, Coppola, etc. do represent a respectable and somewhat academic tradition. But I still have the impression that there has been no real innovation, for almost twenty years now, in this cinema.

mais nada 1

Q: The "new" CAHIERS was critical of its heritage: you reread Ford, dissected Bresson, psychoanalyzed Bazin. Why was this necessary?

Serge Daney: This criticism was obviously a last homage, more or less avowed, that we rendered to what we have always loved. We wanted to reread Ford, not Huston, to dissect Bresson and not Rene Clair, to psychoanalyze Bazin and not Pauline Kael. Criticism is always that: an eternal return to a fundamental pleasure. Why, as concerns me, was my relationship to cinema bound up with THE INDIAN TOMB, RIO BRAVO, UGETSU MONOGOTARI, PICKPOCKET, NORTH BY NORTHWEST, PAISAN, GERTRUD? There is a dimension to cinephilia which psychoanalysis knows well under the name of "mourning work": something is dead, something of which traces, shadows remains...

Incidentally, in the collective text on YOUNG MR. LINCOLN, we distinguished clearly between ideology and writing. We were very conscious then of the danger (which we subsequently did not always avoid) of confounding ideology and writing. Now - it's quite simple - the cinema loved by the CAHIERS - from the beginning - is a CINEMA HAUNTED BY WRITING. This is the key which makes it possible to understand the successive tastes and choices. This is also explained by the fact that the best French filmmakers have always been - at the same time - writers (Jean Renoir, Jean Cocteau, Marcel Pagnol, Sacha Guitry, Jean Epstein, etc.)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

quite dialectical...

Longe do Paraíso

Fabuloso "dénouement"

Por: Luís Miguel Oliveira (PÚBLICO) 10-4-2003

Palavras para quê, é um artista americano... e já quase toda a gente disse tudo o que há de essencial para dizer sobre "Longe do Paraíso".

Frisemos apenas duas coisas: a primeira, sinal sobretudo de uma maturidade impressionante de Haynes, é a maneira como o seu filme transcende o "gesto", a maneira como não se contenta em ser uma "instalação", assim reduzindo a manobras quase pueris de objectos recentes como o "Psico" de Van Sant ou as "Oito Mulheres" de Ozon. A segunda, decorrente da primeira, é o trabalho sobre os códigos e as formas do melodrama: estão lá, manifestam-se, mas da mesma maneira que os "anos 50" (que estão no filme, essencialmente, como "projecto") só interessam a Haynes na medidam em que sugerem ou explicitam a sua própria incapacidade e o seu falhanço. Nesse sentido, o fabuloso "dénouement" de "Longe do Paraíso", com a devolução da protagonista à banalidade do "fluxo" da vida e do mundo, permite falar numa espécie de "pós-melodrama".

sexta-feira

Duas notas sobre o ípsilon. A primeira de alegria, ou seja, um filme importante como "La Graine et la Mulet" traz texto de Vasco Câmara e critica de Luís Miguel Oliveira – já havia saudades.
A segunda, é que logo ao lado, lá aparece o Mourinha a escrever sobre o Ozon, cada um faz o que pode, mas… a criticar "Far From Heaven" de Todd Haynes. Enfim, o tipo de coisa que não leio.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Tag Gallagher top

• Diary for Timothy (Humphrey Jennings, 1945)
• French Can Can (Jean Renoir, 1955)
• Gertrud (Carl Theodor Dreyer, 1964)
• A Geisha (Kenji Mizoguchi, 1953)
• The Earrings of Madame De... (Max Ophüls, 1953)
• Morocco (Josef von Sternberg, 1930)
• New Rose Hotel (Abel Ferrara, 1998)
• Sunrise (F.W. Murnau, 1927)
• Voyage in Italy (Roberto Rossellini, 1954)
• Wagonmaster (John Ford, 1950)
• War and Peace (King Vidor, 1956)
• Zabriskie Point (Michelangelo Antonioni, 1970)

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Sei que é idiotice destacar um filme numa lista destas. Mas Zabriskie arrebentou comigo, continua a arrebentar. Desde aqueles planos iniciais quentíssimos, abstractos, com os estudantes apontando estratégias, até á convergência do homem e da mulher, deserto fora (qual Pierrot) , serpenteando até à múltipla orgia - total anarquia/libertação/alienação…todos os paradoxos são possíveis…
Para acabar com: a explosão definitiva, não tenho ainda certezas, mas ela é total, olímpica, em vislumbre de um novo começo, aqui a música dos Pink Floyd é significante.
É perigoso porque só me apetece engajar e estourar com esta merda toda – passe expressão.
Só Godard, Gorin, Glauber…sei lá…passaram por esta violência da linguagem.

Technicolor noir


Existe sempre este carregamento em Ulmer (o cúmulo será sempre Detour), uma espécie de enegrecimento que torna os seus pequenos (em tamanho) objectos em condensações vitais dos destinos e das verdades dos homens. Incrível a utilização desta arte gravada nesta forma.

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Tout ce que le cinéma peut exprimer se trouve dans ce "petit" film, mi-western, mi récit-d'aventures, à la limpidité et à la richesse de sens confinant au sublime. En vingt-cinq ans de carrière, Ulmer a eu le temps de digérer les influences les plus lointaines et les plus fécondes (le Kammerspiel pour l'expressivité des décors réduits, Murnau pour l'universalité et la densité du propos). Pressé par les circonstances, il a également cultivé jusqu'au génie son sens de l'économie dramatique et de l'économie tout court. The Naked Dawn représente la somme de son œuvre et en même temps le film est si simple, si accessible qu'il peut lui servir d'introduction. C'est une "morality play" (fabliau à portée morale antérieur à la Renaissance) comme l'auteur les aime, racontant l'histoire d'un jeune homme accablé de défauts mais encore malléable et entrant, grâce à un aîné, sur une voie où il trouvera peut-être le moyen de s'améliorer. Son mentor est un voleur, personnage non respectable par excellence, mais qui a pour lui son expérience et sa lucidité.

A l'inverse du jeune homme, il ne se paie pas de mots et de faux semblants. Cela n'est que la trame de l'œuvre qui contient aussi une parabole à plusieurs niveaux et offre une série très riche de variations sur l'errance et la vie sédentaire, la dilapidation et l'accumulation des biens, l'exclusion et la participation, la lucidité et l'hypocrisie. Toute vérité, dans ce récit aux dialogues littéraires et plein de sens, est nuancée par son contraire. En même temps, à travers le personnage d'Arthur Kennedy, le film distille une mélancolie poignante qui se hausse aisément au tragique. Le talent unique du cinéaste est tout entier contenu dans la première séquence (un aventurier aide son compagnon à entrer dans la mort). Ici l'émotion est à son comble. Une émotion de fin de film, alors que l'histoire commence à peine.

Jacques Lourcelles

"Poetic and violent, tender and droll, moving and subtle, joyously energetic and wholesome... reminds us inevitably of Renoir and Ophuls."

François Truffaut

rochedo

nada ver com Tarkovsky; zero de Sokurov, obviamente; anti Reygadas;

quarta-feira, 14 de maio de 2008

- preferia uma pancada na tola -

Antonioni-Godard-Gorin...
Zabriskie Point, Michelangelo Antonioni, 1970