terça-feira, 16 de junho de 2020

CASAS QUEIMADAS - Notas para futuros filmes III




José Oliveira
Junho de 2020



I, Planos à altura da situação, tentar a distância certa (exteriores). Simples campo-contra campo (interior da carrinha).

Bairro em Alvalade, lusco-fusco inapelável, atmosfera sufocante, veículos de alta cilindrada, Mercedes, Jaguar, BMW, vivendas espaçosas, jardins aritméticos, matriz asséptica. A brigada nocturna carrega a carrinha, sacos com duas sandes, refeições quentes na prata, peças de roupa variadas, jantar e ceia garantidos, vestuário possível. Máscaras comunitárias, luvas descartáveis, um voluntário usa sempre, outro nunca usa, dois usam conforme. Um homem do desporto, dois estudantes, um desempregado. Na rota impressa num tablet, as residências mais inóspitas à face do planeta terra. Sem comentários. Pelos Olivais velhos, duas paragens. Na primeira, o freguês habitual não aparece, no lugar vago apenas uma embalagem tetra-pack de vinho maduro tinto Lidl, um cobertor acobreado, a comida intacta do dia anterior. Na segunda, uma longa descida desde a estrada sossegada ladeada de vivendas germinadas até a um jardim encafuado, típico de tarefas de escuteiro, um senhor de barbas brancas, sem muito cabelo, desgrenhado e carregado de pauzinhos das árvores, casa de cartões junto a um casebre de guarda, mudo, com gestos entre a aflição existencial e a impossibilidade de explicação de coisa alguma. Um par de quilómetros e de curvas e contracurvas em fuga para a frente, duas casas abandonadas, grafitadas, ocupadas, número oitenta e quatro, de onde saem uns braços e uns farrapos agradecidos, juvenis, numa matriz desolada a cores garridas. No quarto ponto, Lidl de Xabregas, ruínas de alguma coisa antiga, de alguma habitação ou fabriqueta, chama-se, berra-se, Alguém aí?, boa-noite, alguém aí?, temos refeição quente, hoje é quente. Aparentemente, nada. Vinte metros à frente, numa paragem de autocarro, um senhor dos seus sessenta anos, explica que conhece muita gente da instituição, conta das saudades, cumprimenta o velho amigo voluntário que se voluntariou pela primeira vez, inicia uma ladainha cifrada, vários minutos, ininterruptos, vísceros.  Seguidamente, ainda em Xabregas, um carreiro, metade terra-batida, metade empedrado, fragoso, bravio, sem data, conduz aos abismos do cemitério do Alto de São João, que paira em silhueta nos altos, as campas alinhadas como sentinelas inconfessáveis contra um firmamento ainda resistente, os ciprestes já como que adormecidos, repousados, noite de completo breu estranhamente luzidio, dois voluntários transportam o cesto da comida, um à frente e outro atrás, alinhados, como quem transporta um caixão, o terceiro, na frente, topa o caminha, na rectaguarda, o último deles, tactea melindrosamente. Distinguem-se várias tendas, variada alvenaria, ora tosca, ora limada, aviários sem bicharia, grutas ecoantes, secas, o resto é um nublado dos mais diversos materiais e combinações. O supervisor chama, Aí alguém?, amigos, não querem comer nada, então, já de barriguinha cheia?, aparecem ou quê? Levanta-se um vulto negro, magro, depois outro, mais velho, de pensos nos joelhos, Boa-noite, hoje somos seis. Contam-se refeições. Seis?, mas já têm novos inquilinos outra vez, é? De cada vez é sempre mais um, sim senhor. Vou pousar aqui mas não deixe cair, veja lá, não posso arranjar mais porque está tudo contado, depois não temos para os outros. Seis pacotes para as mãos, as refeições quentes em cima de uma estaca de madeira instável, sorrisos cúmplices, agradecidos, talvez um pouco tímidos. Próximo ponto, falhado. Um número quarenta e quatro apenas conduz ao cemitério judaico, nem vivalma. Na estação do Oriente, metade da carga aliviada. Três voluntários na rectaguarda, em organização, em contagem, um a entregar em mãos, a dizer bom-apetite. Refugiados, meninas estilo dread, uma velhinha magra de cabelos branco-mítico a pedir roupa e informações do espaço de apoio, aleijados, doentes, tosses, estômagos a doer,  drogados, esfarrapados, surrados, cancerosos, uma numerosa família com um rapaz de dez anos, gordinho, camisa do Benfica, que deixa tombar imediatamente a refeição quente, Não dá para outra?, deixei escorregar sem querer. Não, se não, não chega para todos, faltam muitos pontos. Correrias na última da hora, salvações na última da hora, já depois da hora, nos descontos, uns com sorte ainda, outros a correrem atrás da carrinha, falhanços, braços caídos. Parque das nações, três em frente ao Altice Arena, meia idade, brancos, praticamente indiferenciáveis, agradecidos, encolhidos, outro em falta, Talvez tenha ido mijar, deixe a comida aí, por favor, eu informo, é bom moço. E um espaço estranhamente vago, austero, com uma prata da comida quente de ontem ainda intacta. Na carrinha, um ciclista estafeta da Glovo estaciona, Não tem comida?, é apoio, certo? Eu preciso de comida também, esta merda de empresa não paga um caralho. O saco das sandes é oferecido, e logo recusado. Caralho, recusando comida, é?, não quero a merda das sandes, quero comida quente. Olhares suspeitos, sem solução. Não dão, recusando comida, puta que pariu. Segunda paragem do Parque das Nações, várias filas de cartões colados, formando cubos-casas, num dos últimos, uma mulher dos trinta anos, parece uma menina, bem-parecida, cabelos castanhos longos, penteados, sorriso ténue, fala do tempo e da ventania, do acaso e da esperança, um casal de travestis com barba de três dias, primeiramente só um, Fala lá carago, ainda ontem me chateei porque não acreditaram que somos duas, anda, levanta-te. Chegam, a correr, cambaleantes, os atrasados da estação do Oriente, um deles pede mais uma sandes para o pequeno almoço, pedido recusado, resposta aceite, Eu percebo amigo, já cá não está quem falou, evidentemente que se pudessem vocês ofereciam outra, qual é a dúvida, e afasta-se sorridente com a sua mala de rodas estilo aviador, impecável, em direcção a nenhum aeroporto. Antes da partida, ainda um sem-abrigo recente, inglês, prudente, simpático. A carrinha rola, rola. Zona marginal, Av. Infante D. Henrique a Sta Apolónia Cais da Pedra, manobras intrincadas de acesso, imediações da discoteca LuxFrágil. Meia dúzia de tendas frágeis, atadas com molas, pregos, abraçadeiras finas, carcomidas, uma putrefacta, encostadas a caixas de electricidade com anúncios de festas canceladas, postes de iluminação toscos. Numa das barracas, um casal, pedem água, Não é possível, só comida, hoje não foi possível garrafas de água. Outro pede uma camisa, Talvez seja possível, já vou procurar. Numa tenda improvisada a tecido variegado, um jovem ainda, trinta e tal anos, dentes corroídos, olheiras carregadas, Olhe, o meu amigo daqui, você sabe quem é, aqui o vizinho, foi para um hostel e eu não, como é qué isto?, tem algum jeito, éramos inseparáveis... Incompreensão, falta de resposta assertiva, Vamos tentar saber alguma coisa. Na tenda final, esverdeada, desmaiada, junto à porta de entrada da discoteca, entesada com molas, a frase escrita Jesus Ama Os Pecadores, a borrona preta. Uma mão sai de dentro dela, esquiva, uma fracção de segundo, cortante, Obrigado. Segue-se em frente, até ao próximo viaduto, Mesmo ao lado onde aqui atrasado largaram um bebé num caixote do lixo, foi um destes quem o descobriu. Para cima de vinte habitações, tendas, cartões, plásticos, cobertores, perímetros inventados, cercados, colheres de sopa niqueladas, cantis vazios, gorros de todos os feitios, rádios forjados, baterias desenrascadas, cuecas, peúgas, graxa para sapatos, secadores de cabelo, pentes tortos, pentes impecáveis, espuma para a barba, lâminas, sabonetes, detergente Omo, escovas de dentes, mata-moscas, chaves de fendas, broxas, diluente, quinquilharia indistinguível, ferruginosa, nada. Uns levantam-se e vão à carrinha, casais na tenda suplicam água, dormentes profundos, um deles que não quer nada, resoluto, a ruminar de solidão, outro em volta, a falar animadamente ao telemóvel, num para-cá-e-para-lá de fala-barato típico, fato de treino branco, Adidas, cabelo e aspecto cuidado, a percorrer os becos forjados pelos quais ninguém reza, na noite ali cavernosa. No fosso da linha de vagões, vários objectos pousados, pendentes, recônditos, mini-rádios, mini-garrafas de whisky, headphones, temperatura irrespirável, electrificada, quase nuclear, frio interior. Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia, bondade, só bondade, um senhor de sessenta anos que não pode andar, sentado num cartão, operado várias vezes antes da pandemia, espécie de incontinência urinária, Tenho de mudar o saco de quatro em quatro horas. Vá entregar àquele amigo que não anda, por favor, ou levo eu, e do outro lado da estrada está uma família nova, passem por lá, se puderem. Na Ribeira das Naus desce-se ao fundo de um oceano clamante de água, martelado a pedrinhas, enfarinhado, lúgubre e heróico, duas refeições a alguém invisível. Ainda em torno de uma esplanada outrora só para estrangeiros, dois jovens barbudos com tendas relativamente novas. Várias voltas ao Rossio, um suicida do Terreiro do Paço que se mete na frente da carrinha, desesperado, fora de rota. Dois dormintes perfeitamente em baixo da porta do Teatro Nacional de São Carlos, só cobertores e farrapos coloridos, em fiapos, precários, os mais austeros de todos, a razia. Estação do Rossio, várias construções inauditas, futuristas, barrocas, artilhadas, desenrascadas, espaçadas. Numa delas, vazia, vários compêndios em língua chinesa, uns em cima de outros, quase simétricos. Ninguém, mas de repente, alguém, novo, fresco, O que eu precisava era de uns cobertores, lençóis, roupa de cama, dá para marcar aí? Acenos de cabeça, Vamos tentar. Obrigado, eu percebo perfeitamente se não der para trazer. Tem aí peúgas e slips, que bom, isso é sempre preciso, eu prefiro slips aos boxers, muito mais suaves. Metam aí as refeições que eu distribuo, são quatro a contar comigo, ali no parapeito, deus vos abençoe. Estou aqui há três dias mas quero dar um jeito a isto, portanto se der para me trazerem uma vassourinha também agradeço, só ontem contei as beatas e parei nas cento e vinte, mas pretendo tornar isto catita, arrumadinho, boa noite e obrigadinho. Sé de Lisboa, porta incomensurável, um acordado, outro a dormir, e uma estória contada pelo supervisor passada nesse lugar. Alguém, há uns tempos, que saiu da casa de saúde nesse dia, e o morador habitual. Vocês prometeram-me umas sapatilhas, onde estão?, não vos perdoo cabrões. Tentativas de socos, insultos, entre-ajudas, fuga. Mas não admito humilhações, estou cá para ajudar e não para me rebaixar, se tivesse de ser partia-lhe os cornos. Costumamos comer uma bifana ali no Rossio, na primeiro de Dezembro, mas por causa desta coisa está tudo fechado, chegamos a casa pela uma da matina e matamos o bicho. Faltam duas paragens. A família do outro lado da Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia, perto do rio, meia-idade, perfeitamente normal, apaixonada, abraçada, com sede. E a última, entre a fábrica da Nacional desde 1849 e os Silos Portuários. Como numa picada, como numa guerra, atravessa-se, passo a passo, pelo meio de duas filas de vagões de mercadorias, enferrujados, poirentos, quase orgânicos, expressionistas, pés bem assentes nos trilhos, Ajuda alimentar, boa noite, alguém aí? Languidamente, olhando à direita e à esquerda, ajustando o olhar no escuro, o ouvido no silêncio, verificando e perscrutando o canto mais esconso, o buraco mais denso. Um elemento pula vagão acima, tenta uma panorâmica geral, chama, nada. Para lá dos vagões, um descampado, árido, ervas, areia, duas tendas gigantescas, arrebentadas, pendentes, aparentemente nenhuma alma humana dentro, nenhum corpo humano, nenhuma réplica, muitos gatos, gordos, escanzelados, peludos, carecas, velhos, doentes, esfomeados. O supervisor avista um vulto ao fundo da tenda, sombreado, opaco, algo a suspirar microscopicamente, diz-lhe que tem a comida junto a ele. Nenhuma resposta humana, nenhum avatar, nenhuma raça, nenhum credo, apenas miares e choros, sem idioma. Pula-se os vagões, um atalho, outro. A Brigada nocturna regressa a um bairro de Alvalade, luminoso, chamativo, calmo. Cumprem-se os rituais de fecho de missão. Nenhum eco pairante de consumição, nenhum sinal pairante de suplício, uma calma de morte.

II, Ponto de vista do carro. Simples movimentos descritivos.

Alameda Dom Afonso Henriques, uma hora da madrugada, passadeira do lado do Hotel AS Lisboa, calor frio. Uma jovem de trinta anos, calças brancas de hospital, camisa branca de hospital, chinelos descartáveis de hospital, touca branca transparente de hospital ao pescoço, fita de triagem de hospital no pulso, adesivo de soro descolado nas veias do pulso. Pára junto à passadeira, descalça os chinelos descartáveis de hospital, vira-se ao contrário, atravessa a passadeira ao para trás, lentamente, olhar em frente às arrecuas, sorridente, despida. Pára novamente, na placa central divisória, um carro pára também, apesar de estar o sinal verde. Estás bem?, precisas de ajuda, não devias fazer isso, sabias? A menina sorri ao condutor, Muito obrigado pela informação, se o diz, eu acredito, vou estar atenta, e responsável. A menina atravessa a outra faixa, passa pelo meio de um bando de jovens, indistintos, indiferentes. Como quem ensina o caminho ao diabo, diziam os antigos. O carro arranca, hesitante.

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«No entanto, segundo fazia notar o secretário-geral da Federação do Trabalho, os negócios resistiam a novas quebras de actividade.
Autoconfiança para os sem-cheta e apoio governamental para os que já tinham mais do que aquilo que podiam gastar, esse era o plano. No entanto, os bancos dos jardins estavam húmidos todas as manhãs, quer chovesse quer não; e era possível uma pessoa fartar-se, mesmo que fosse de bananas.»

A Walk on The Wild Side, de Nelson Algreen (tradução: António Borga e Salvato Telles de Menezes)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CASAS QUEIMADAS - Notas para futuros filmes II




José Oliveira
Maio de 2020


I, Panorâmicas descritivas, reveladoras, planos-americanos.

Esplanada em plena Rua do Saco, vista para o Largo do Mastro e para o pátio infantil, final de tarde, sol translúcido, harmonioso, rasante algures, conciliador, pólen primaveril como neve a ciciar nos rostos de alguns, no acaso. Quatro mesas ocupadas. Um casal a ler, a comer gelados, a beber café. Dois nepaleses conversadores, imperiais geladas nas mãos. Três mulheres, uma com um calipo sabor a cola, dos seus trinta anos, outra a fumar e a beber imperial gelada, saia preta curta e top branco apertado, cabelo comprido e complexamente enroscado, é a mais nova, de vinte e poucos anos, e a mais velha, nos sessenta, com um gelado de chocolate, atenta, ouvinte, contemplativa. Na mesa junto à porta, uma mescla de seis pessoas, homens e mulheres na casa dos trinta e dos quarenta, quase todos possantes, gordos, consolados, de calções e saias vulgares, veraneantes, sem nenhum traço distinto aparente. Para um lado e para outro anda o dono do estabelecimento, limpa o açúcar desperdiçado de uma mesa, retira as beatas de um cinzeiro, entrega atabalhoadamente uma imperial estupidamente gelada e a esbordar. Retira a máscara cirúrgica logo que sai para a esplanada, coloca-a assim que pode quando acede ao interior. Sobre o plano elevado da faixa de rodagem um autocarro da Carris desfila vagarosamente na direcção do Largo do Mastro, rastejante, rumo à paragem, oferecendo a combustão negra de gases e químicos às fossas nasais, bocas e olhares dos frequentadores da esplanada, pára na paragem fazendo tempo, com o motor ligado. O condutor sai com a máscara cirúrgica no queixo, dirige-se ao café, desinfecta as mãos com desinfetante cutâneo à base de álcool etílico 70%.  colocado no portal, pede pela casa de banho. Repentinamente, surge uma bicicleta, um fato de treino da seleção portuguesa de futebol em cima dela, um cachecol da selecção portuguesa de futebol a cobrir um rosto magro, carregado de crateras, avermelhado, que se destapa assim que o veículo é encostado junto à tasca, pousa a mochila preta, carregada, claramente remendada por agrafos gigantes e toscos, espreguiça-se, chama pelo dono que está dentro, pede uma taça de tinto. O dono assoma vagarosamente, diz que ele tem de usar máscara para entrar, que tenha calma, que fale baixo que ele não é surdo, e que só lhe serve a taça nessas condições, e lá fora. Não uso dessa merda, não uso mesmo, foda-se, quarentenas, quarentenas…, eu cá só se for quarentonas, essas amando-lhes uma pinadela, agora máscaras, nem pensar, não mesmo, a máscara vai ser o copinho de tinto… mata tudo, à foda-se, tudo com medo de morrer, olha, você vai durar para sempre, vai ficar cá para colecção, não morre aquela que está ali a passar, toda equipada, à foda-se, uns dias dizem que temos de usar essa merda, outros dias já não, um dia a merda do vírus fica colado nesta mesa, outro dia nunca na vida, devem ganhar bem com essa merda, e pensar que somos burrinhos, só veem fumaça. O homem da selecção portuguesa continua nesta ladainha, saca uma nota de cinco euros remendada do bolso, alisa-a, estica-a, o dono abana a cabeça, diz valha-te deus, volta a entrar. A mochila aterra com estrépito numa cadeira, como que se desmonta, de dentro sai uma embalagem de vinho maduro tinto tetra-pack Bernardes, um pão grande de Mafra embrulhado num saco castanho, uma lata de azeitonas pretas, uma gamela e uma pá de alisar cimento, ele volta a meter tudo para dentro, retira do fundo umas calças elásticas pretas para mulher, leva-as contra o sol, estica-as, a taça de vinho e o troco chegam, ele pousa-as na mesa, bebe do copo, deixando cair uma porção considerável, tremelicando. Este caralho é sempre o mesmo, não se preocupem, conheço-o há vinte anos. Ainda mais inesperado do que a chegada do homem da selecção portuguesa são os latires caninos, os dentes rangentes, os gemidos, esgares graves, agudos, dementes, dois animais que se digladiam no centro da faixa de rodagem, levantando alcatrão ainda fresco colado ao pólen puro. Um cão gigantesco, acastanhado, focinho pontiagudo, ameaçador, outro de metade do tamanho daquele, branco, alvo, mas igualmente enervado, não reconciliado, picado. O dono do cão pequeno tem pulso firme, afasta-o, afaga-o, leva-o contra o seu peito. O dono do cão grande não pode com ele, berra-lhe, desmancha-se para o chão, desprotegido, meio tonto, meio pateta, à roda com a fita que prende o bicho à coleira, um saco de plástico junta-se entre ele e o cão grande que não larga o cão pequeno, o rosto arranha-se no chão, os óculos também se arranham, dois indianos e uma portuguesa juntam-se para ver o estranho acontecimento, poeira densa, barulho de coisas a roçarem. As coisas acalmam-se, um dono já em cada lado do passeio, o dono do cão pequeno prende o seu animal a um banco e vai tirar satisfações ao dono do cão grande. Sotaque de Leste Europeu, aparência de Leste Europeu, talvez ucraniano?, possante, vinte e picos anos, musculado, ar temível, t-shirt Olympique de Marseille Ultras, diz ao homem mais velho e careca que é obrigatório açaime num cão desse porte. O outro arranja uma justificação sobre a cor, algo incompreensível, sem sentido. Falam em inglês tosco. O jovem de leste pede-lhe doze vezes o número de telemóvel, para o caso do seu cão ter ficado ferido. Insistência, ar contrafeito, ar medroso, troca de números. O homem da selecção portuguesa junta-se a eles e diz que um cão daquele porte tem de ter açaime, o dono careca não gosta e declara que cada um deve meter-se na sua vida, o jovem de leste diz que o homem da selecção portuguesa tem razão e que ele compreendeu perfeitamente o seu português. O homem da selecção portuguesa diz ainda que cães não é para ele, que não limpa merda de ninguém. Um para cada lado, o homem da selecção portuguesa afaga o seu cabelo comprido, bem penteado, risco ao meio, afia ainda mais o seu olhar de lince, dois berlindes faiscantes acima do nariz comprido e aguçado, dirige-se para a sua mesa, acaba a taça, pousa-a estrondosamente, pede outra. O dono afirma que lhe traz outra na condição de se portar bem. O homem da selecção portuguesa pega nas calças elásticas e tenta vendê-las a uma senhora da mesa mais frequentada, a senhora possante olha para elas, estica uma das pernas, ergue-as ao sol, chega à conclusão de que nunca aquilo lhe servirá. Mas compre, para a sua filha, para a sua mão, dois euros não é dinheiro. A taça de tinto é assente na mesa, nada feito, não há negócio. A mesa da senhora e das jovens levanta-se, as pernas da mais nova reflectem a lívida brancura ao sol rasante algures, fala como uma matraca pelo telemóvel, o homem da selecção portuguesa declama que assim vale a pena ver umas pernas, a mulher dos seus trinta anos, vestido apertado, diz-lhe que tenha juízo, que acabe com aquela treta, o homem da selecção portuguesa responde que elas têm de manter a distância de segurança de dois metros para com ele, que isso está previsto na lei, e continuam a discussão, como num jogo de ténis, devoluções para trás e para a frente, a viela lateral a separar as facções, como uma espécie de rede de não agressão, a mais nova a dar mais importância ao matraquear por telemóvel do que ao resto, até o dono gritar acabou, até as mulheres virarem costas, recalcitrantes, a mais nova indiferente. O dono pede-lhe novamente para ele se portar bem, pois senão perde clientes, ninguém quer ir a um lugar para lhe moerem a cabeça. Senhor Zé, o senhor conhece-me, é com todo o respeito, as raparigas nem máscara tinham. Tudo se acalma momentaneamente, o homem da selecção portuguesa recebe um telefonema e começa a gritar que está perto do Paço da Rainha e que o encontro é lá daqui a meia horinha. Os nepaleses levantam-se, atravessam a rua, entram na biblioteca de São Lázaro. A dupla de leitores mantém-se impassível, um livro de Nelson Algren, outro de Fernando Assis Pacheco. O dono interrompe essa dupla, pergunta se está tudo bem, diz-lhes que aquele moço tem problemas, mas que é bom moço, não é mau de todo, há muito pior, por aí, disfarçados, e que o papel dele é como o dos árbitros da bola, ingrato. O dono do cão grande passa sozinho para cima, direcção largo do mastro, de telefone em punho, ainda a bufar. O homem da selecção portuguesa mete as calças elásticas na mala, desliga a chamada, diz até amanhã se deus quiser a toda a gente, diz desculpem qualquer coisinha, diz que não tem medo do corona, só tem medo dos idiotas, trepa elegantemente para cima da bicicleta, arranca, de mochila às costas, uma rabanada de vento traz mais uma camada de pólen, um autocarro furibundo ronca novamente na curva adjacente. 

II, Panorâmicas lentas, planos inteiros, laterais.

Campo dos Mártires da Pátria, meio dia, sol quase a pino, sem crostas, queimante. Barulho esfuziante, entorpecedor, planante, estupefaciente, crianças, patos, galinhas, perus, pais, mescla de complicada destrinça. Para Oeste, três arrumadores aguardam a sua vez, clamantes por uma viatura que estacione em frente ao Goethe-Institut Portugal – Lisboa. Um nos seus quarenta anos, cabelo curto, raro, calças e camisa cinzas, puídas, sem marca, com máscara cirúrgica no queixo. O mais velho, nos cinquentas, de rabo de cavalo brilhante e esbranquiçado, pelo meio das costas, forte, camisola dos Lakers tradicional, dourado já amarelado, número trinta e dois, Magic Johnson, lavado, resplandecente, olhar meigo, canino, sem máscara comunitária. E o mais novo, nos trintas, rabo de cavalo preto, calças de ganga Levis originais, t-shirt branca sem marca, máscara cirúrgica na cabeça, coberta de café e queimadura de tabaco, a fumar um cigarro. Não falam, perfilados, concentrados, em trabalho. Muitos corredores, muitas brincadeiras, meia dúzia de piqueniques, o chapinhar no lago, um sol de ananases. O arrumador mais novo sai da linha de trabalho, entra numa lateral do jardim, o cigarro curto ainda cesso, abre a braguilha, desce a máscara cirúrgica, fica algures entre a boca e o queixo, mija furiosamente sobre uma planta com aspecto de couve achatada, sacode o órgão genital, fecha a braguilha, corre para um carro que está prestes a estacionar, ajeita a máscara cirúrgica, realiza gestos geométricos com as mãos, diz assim, a direito, está bom, está bom, dona, prostra-se junto da porta, o cigarro nas últimas, resistente, uma mulher de meia-idade, de branco, calças brancas, blusa azul, sai da viatura, entrega uma moeda ao ajudante. A mulher atrapalha-se, fecha o carro com as chaves, abre-o, retira um telemóvel e um pequeno saco, fecha-o, pressiona o comando duas vezes, vai caminhando no passeio para os lados da Mú - Gelato Italiano e da sua fila de cinco metros, passa a mão pelo cabelo e pelo suor da testa, saca um gel desinfetante, limpa as mãos, o telemóvel, o saco, o rosto. Obrigadinha, minha senhora, passe um bom dia.

III, Planos inteiros, frontais, de conjunto, grande profundidade de campo, desfoque interdito.

Largo do Mastro, onze da noite, temperatura amena, a parca luz eléctrica misturada à lua descoberta, a fazer o que pode. Andaram a cortar cabeças e narizes lá em África, a matar pretos nossos, mas tão fodidos, vocês não têm memória, nem passado. Vocês brancos estão fodidos. Atenção, é diferente dos Estados Unidos da América, Portugal é diferente dos Estados Unidos da América, porque eles têm uma coisa diferente, os Estados Unidos da América têm competitividade, são competitivos, vocês brancos daqui não, os Portugueses não têm passado, nem memória, nem são competitivos. Cortaram as nossas cabeças, narizes, e fugiram para aqui, olhem-me nos olhos, vocês um dia vão-se foder todos, acreditem que se vão foder. Ninguém sabe quais as suas origens. Não papo grupos. Acreditem que se vão foder. Assentados no chão estão uma rapariga e um rapaz, a rapariga a beber cidra, a fumar, o rapaz a beber cerveja de garrafa média, no banco ao lado, outra rapariga, outro rapaz, a beberem cerveja de garrafa média, o rapaz a fumar, todos eles brancos, todos a olharem para o fantasma negro surgido subitamente da noite e do silêncio. Na fonte central, três raparigas, a conversarem, indiferentes, todas elas brancas, jovens, leves. Fantasma de carnagem suada, sulcada, olhos esgazeados, também pretos pretos, vestimenta esfarrapada, preta, vermelha, amarela, sapatilhas tipo Converse All Star, contrabandeadas, estraçalhadas. Nas costas vários sacos escuros que ele não deixa ver bem, cobertores a espreitarem, invólucro de prata parecido com os sacos para mortos dos médicos forenses, a brilhar, a incomodar, cartões de caixote, agrafados, pendentes com fita-cola acastanhada, garrafas de água, pacotes de vinho, plásticos. Tão fodidos, não existe competitividade, alguém me arranja um cigarro? O rapaz do chão responde que não fuma, o rapaz do banco oferece-lhe tabaco de enrolar, mortalhas, filtros. Na loja de conveniência do lado saem três miúdos com litrosas, visivelmente alegres. O fantasma negro abana a cabeça, volta-se, desaparece na noite, silencioso, sem olhar para trás.

IV, Campos, contra-campos, gerais, aproximados, larga duração, nunca grande-plano.

Rua dos Anjos, tempo indecidido, nuvens altas, espessas, prenhas, corrente com estranho cheiro a maresia, brisa morna, um pouco electrizante, horizonte avermelhado, ameaçador. Restaurante Sol-Rio, trancado a cadeado, poeirento, montra tapada com cortinados improvisados, pendentes, várias folhas com dois meses coladas com avisos aos clientes, vamos estar fechados uma semana por causa de questões de saúde. O vento, talvez sul, faz levantar contra a vidraça e contra o toldo folhas de jornais esvoaçantes, sacas plásticas, entulho, pó. O caixote do lixo do lado direito da entrada treme, vazio, a feder a piriscas húmidas. As bandeiras portuguesas de tamanhos vários colocadas em diversas janelas agitam-se. Do outro lado da rua, à sombra, assentado na borda ocre de um prédio impessoal, um homem de setenta anos, baixo, forte e mirrado ao mesmo tempo, cabelo branco puxado para trás à força de brilhantina, óculos de sol estilo aviador originais, camisa branca com finas riscas verdes, notoriamente lavada, calças pretas de corte delicado, recto, sapatos clássicos pretos, cabisbaixo, mão na testa a proteger-se de alguma coisa aparentemente invisível, apaziguado, convencido. A seu lado, um balde branco, meio cheio, com uma pasta gordurenta de banha de porco, uma colher de pau espetada no meio, em tensão. De quando em vez, de modo praticamente impercetível, abana a cabeça. De quando em vez, um saco, um jornal, ou simples poeira, perpassa-lhe o rosto, ele pisca os olhos. Nos ouvidos arranham-lhe antigos sons e palavreado, como cócegas, escuta taxistas, varredores, trolhas, mulheres da vida, doutores, estudantes, hippies, punks, amigos, proxenetas, géneros e raças que ele nunca saberá.  Em frente ao restaurante passa uma rapariga, talvez nova, camisola preta de mangas cavas com a frase Travailler pour Manger!, calções brancos curtos, esfiapados, cabelo preto apanhado, magríssima, rosto chupado, de idade difícil de adivinhar. Senhor Manuel, ei, senhor Manuel, acorde, quando é que abre o restaurante, hoje é segunda não é? O homem do outro lado da rua abana notoriamente a cabeça, tira os óculos, desempena um pouco as dobradiças das costas, fala pausadamente, não muito alto, com boa dicção, Acho que nunca mais, rapariga, talvez nunca mais.

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“O pouco dinheiro de que dispunha destinava-se quase exclusivamente ao tabaco e ao álcool, com vantagem para a bebida. A sua preferência não se devia à necessidade de afogar qualquer preocupação ou fase de desânimo, estados de espírito que raramente conhecia, pelo menos em consciência. Fazia-o apenas porque, enquanto emborcava as bebidas, não se achava inactivo. Encontrava-se desempregado e nada mais tinha para fazer.”

 David Goodis, “Brigada Nocturna” (Colecção Xis, Editorial Minerva)


[Publicado originalmente na rubrica Sala de Projeção do site da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema: http://saladeprojecao.cinemateca.pt/casas-queimadas-ii-notas-para-futuros-filmes/]

quinta-feira, 21 de maio de 2020

CASAS QUEIMADAS - Notas para futuros filmes




José Oliveira
Abril / Maio de 2020


O Burke Devlin interpretado por Rock Hudson em THE TARNISHED ANGELS de Douglas Sirk continua a ser a minha personagem preferida na história do cinema. Um jornalista alcoólico que troca os factos mortos («dead facts») que fazem as delícias dos ávidos editores cegos, surdos e burros por aquilo que não consegue perceber, rastejando na sujidade, no lixo, na lama, na indecência, e, como um Príncipe romântico e solitário, mantendo-se essencialmente limpo. Jornalista meio espantalho e meio palhaço num mundo de seriedade virada do avesso, manda às ortigas a cobertura política prestigiosa, a falaciosa pertinência da actualidade forjada, preferindo entregar as chaves de casa a uns semelhantes, despidos, eternos, irracionais, perdidos na entrega total às paixões, fatalmente suicidários, descobrindo neles a beleza e o amor absolutos, provocando a estupefacção do seu editor e dos calculistas como ele.


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I, plano fixo único, geral, picado.

Campo dos Mártires da Pátria, sete da tarde, sexta-feira, nem sol nem chuva. Um homem dos seus quarenta anos está atento ao passeio do seu cão. Coxo, roupa casual azulada, baixo, gordinho, com ar de pessoa afável. Troca diversos olhares de incompreensão com os poucos passantes. Está atento ao deambular do seu animal, sempre com sacos de plástico a saírem do bolso, prontos para entrarem em acção. Robusto, pêlo amarelo-torrado, de ar simpático, pesado e leve, o cão vai correndo livre, consciente da protecção incondicional, da admiração mútua. Sacos do Pingo Doce para cá e para lá, a abarrotarem, um monte indistinto de plástico e papel, carne, leite, produtos de limpeza, papel higiénico, tubos e embalagens a saltarem para fora. O cão vai mijando nas ervas, nas flores vermelhas e violáceas, o dono em alerta desvia o olhar uns segundos para olhar uma velhinha corcovada com o seu fardo, dois nepaleses na casa dos trinta, um com máscara comunitária e outro sem, lado a lado dir-se-ia perigosamente, fumando dir-se-ia perigosamente, um casal mascarado a voltar apressadamente ao lar com duas baguetes da Padaria Portuguesa. O cão avança furiosamente sobre uma planta com aspecto de couve achatada, estanca, caga, foge, efusivo. O dono faz o seu trabalho, apanha a merda com um saco plástico para dentro de outro saco igual, dá um nó, pacientemente, a mancar, resoluto, inexorável, e coloca-se de sentinela, novamente. Mais um autocarro sem passageiros, o condutor a beber água no chafariz junto à quadra desportiva trancada a cadeados, fumando, olhando para o relógio. Caí o crepúsculo.

II, planos inteiros, planos americanos, planos de peito, planos individuais, planos de conjunto, travellings, campo-contra campo?, posição da câmara à altura do homem, talvez não tentar o grande-plano.

Jardim Constantino, seis da tarde, sol duro coado pelas imensas árvores. Cabine telefónica PT sem clientes, do lado da nova esquadra da PSP, a fita proibitiva desfeita, um carrinho do Lidl dentro a proteger a roupa da cama, a cama e o vestuário de alguém. Num dos bancos a Leste, cinco pessoas, um deles ostentando um casaco camuflado da tropa, tem um saco plástico reutilizável Pingo Doce desbotado de cinquenta cêntimos que é a sua casa, seguro entre as pernas, dentro os copos de plástico usados, pratos usados, mantas, cuecas, meias. No banco Sul, o grupo mais animado. O elemento mais novo e espadaúdo faz a festa, é o único sem barba, ar marroquino, chega com um litro de vinho tinto maduro Minipreço em embalagem tetra-pak, dá um beijo na face a um companheiro gordinho, careca, da mesma idade, sensivelmente. Dois deles estão de mãos dadas, entrelaçadas, ora às festas, ora a jogar braço-de-ferro. O mais velho dos quatro tem duas medalhas ao peito, bolorentas, indecifráveis, calças de pijama com uma das pernas arregaçadas até ao joelho, varizes, carne viva friccionada, pus amarelado. A Norte, as mesas de jogo ostentam mais fitas desanimadoras de riscas brancas e vermelhas, três reformados rememoram velhas partidas da bisca ou da sueca, antigas discussões, os que partiram, as mulheres. A Oeste uma jovem indiana fala através da máscara comunitária azul escura para um conterrâneo novo e sem cabelo, parece ser uma primeira vez, parecem dizer que as coisas estão melhores, que o pior já passou, que já podem voltar àqueles bancos, trocam alguma coisa. Ele levanta-se, vai falando ainda, aponta para o relógio, aponta com o queixo para a frente, sorriem, segue o seu caminho. Um minuto passa e um jovem cabeludo de máscara comunitária verde e penosamente manufacturada vai ter com ela, conversam por uma hora. Os indigentes do Sul repartem o vinho, o do meio tira do bolso uma caixa plástica com amêndoas de chocolate coloridas, é o que tem a roupa mais suja e coçada, reparte-as. O elemento que costuma levantar a louça suja na esplanada fechada do centro do jardim não bebe, não fala, olha para o Quiosque Hamburgueria Mustarda, longamente. Abana a cabeça compulsivamente e interage com o ar, parece escutar músicas ou lengalengas de outrora, é o único deles que tem máscara comunitária, branca, limpa, papel vegetal a transbordar nas pontas, dificuldades várias com a cigarrilha. No banco Leste reparte-se pão entre o velhote da casa ambulante marca Pingo Doce e o vizinho do banco do lado. Os reformados batem com garrafas de água plásticas vazias nos joelhos e nas canelas, numa melodia sem história. Um homem não muito velho, de barbas brancas, fato-de-treino creme esfiapado, marca Ardidas, anda descalço para trás e para a frente, para trás e para a frente, como que a marcar um ritmo só dele, uma memória só dele. No antebraço pendura-se um saco estraçalhado marca El Corte Inglés, a transbordar de pão duro. O barulho seco e o eco seco que o pão faz quando cai no empedrado torna-se o único motivo para os vizinhos voltarem a olhar para ele, dura milésimos de segundo. Um rapaz da Uber estaciona num bloco de betão junto das mesas de jogo em estado de sítio e retira do gigantesco saco verde térmico uma bebida energética Monster verde 500 ml. Perto do centro, entre Leste e Sul, sentam-se quatro reformados, um trabalhou toda a vida no balcão dos correios ali perto, outro em estações da CP na região de Lisboa, outro reformou-se cedo por causa do coração, outro foi afinador de máquinas na Alemanha por mais de trinta anos. Começam uma partida de sueca, num banco despido, áspero, carregado de pólen e cheiro primaveril, o mais novo tem o isqueiro em punho e é o único sem qualquer tipo de máscara comunitária ou cirúrgica, os outros têm todos máscaras cirúrgicas cedidas por um funcionário da junta de Arroios. Juntam-se a eles dois espectadores, um ex-bombeiro voluntário, um ex-empregado de mesa do restaurante Sol-Rio, sem máscaras comunitárias, sem máscaras cirúrgicas. No sobrevivente balcão do quiosque fechado alguém absolutamente comum devora uma salada de frutas, embrulhada numa folha de prata, sem qualquer tipo de talheres. Uma jovem atleta, de máscara social cor-de-rosa e viseira de acetatos, sapatilhas Nike cor-de-rosa, contador de calorias no braço esquerdo, óculos de sol pretos arredondados, gel desinfectante preso na cintura, parada, faz uns alongamentos na fonteira do jardim, respira fundamente, cruza-o fulgurantemente de Oeste para Leste, desaparece da vista. O homem das barbas brancas, continuando para trás e para a frente, para trás e para a frente, inaugura uma melopeia inidentificável, pedregosa, fazendo lembrar um profeta desistente, segundo as palavras do homem comum da salada de frutas. Na pastelaria Aloma, a fila para o café, pastéis de nata, pão, etc., quase chega à dúzia de pessoas, afastadas pelo menos um metro umas das outras, notoriamente conscienciosas. No prédio por cima do Novo Banco o Hastag #vamostodosficarbem recebe os derradeiros raios de sol.

III, planos subjectivos, panorâmicas horizontais, subjetiva indireta livre?

Avenida Almirante Reis, nove e meia da noite, terça-feira, lua cheia, noite clara, quase dia cinzento, quase eclipse inaudito. Uma bola de ténis é constantemente lançada pelo passeio adiante, acto contínuo, um pequeno cão, preto e branco, às manchas irregulares, corre para ela, recolhe-a entre os dentes, devolve-a ao dono. Ritmo cadenciado, sem falhas, automático. O dono está junto à tenda de campismo Quechua, esverdeada, azul, descorada, gasta, montada na reentrância de um prédio, a tocar no centro de formação Do It Better: Home, a dois metros da entrada de moradores. A bola é novamente atirada, o cão volta a percorrer um percurso semelhante, a direito, longitudinal, vinte metros, apanha a bola com um pequeno esgar, um salto, volta, devolve-a. A observar tudo isto, do outro lado da avenida, ao lado do Pomar Fresco, o vizinho da frente, resmungão, mirolho, mudo, quarentão de cabelo branco e duro, óculos de sol Ray-Ban estilo aviador notoriamente contrafeitos no peito da camisa aberta branca suja, lar composto de caixas de cartão do Continente com cobertores fétidos e nauseabundos. Esbraceja, pontapeia a atmosfera, rasga a noite e o luar em movimentos cortantes, atira uma pedra que apenas chega à placa central divisória, apanha a beata atirada por um passante ousado, não confinado, em desregra. O dono do cão, de cabelos compridos, oxigenados, saia azul-bebé pelos joelhos, top cor-de-rosa choque colado à pele estriada, soutien branco sujo a sair do top e dos minúsculos mamilos, saltos altos pretos, tipo estiletes, sem meias, pele das pernas coberta com pêlos russos, barba de três dias da mesma gama, agarra a bola na mão, ri-se, bate na tenda, pede a alguém para sair numa voz grave e cavernosa e constipada, dois rapazes na casa dos trinta, quase gémeos, de calças de ganga azuis e t-shirts pretas indistintas, cabelos pretos e barba de uma semana, largam a tenda, olham para o vizinho do outro lado da avenida, rieem-se, passam um cigarro de um deles entre mãos, o cão guincha, ladra, tenta chegar à bola, entrelaça-se nas pernas do dono. Um dos trintões mexe no telemóvel, um poderoso ritmo reggaeton começa a bombar de uma coluna interior à tenda, dança-se, eles três, o cão ao colo, uma das mãos pega ainda num deformado peluche-pinguim monstruoso, uma mescla intraduzível. A sirene que devora infernalmente o macadame apenas se torna mais um ingrediente do caldo. O vizinho do outro lado da avenida recolhe-se, paralisado.

IV, travellings, planos de conjunto, frontais e laterais, talvez não tentar o grande-plano.

Rua Jacinta Marto, Rua da Escola do Exército, Rua José Estêvão, doze e trinta, sol praticamente a pino, poeira. Fila de pessoas desde a Escola do Exército até à Jacinta Marto em direcção à sopa social da Academia Militar. Um carro da polícia municipal defronte do portão, ainda fechado. Do lado da frente da Academia, a entrar pela José Estêvão adentro, mais pessoas, umas em pé, que preferem comer mais tarde para não gramarem a fila, outras prostradas nas bordas das lojas fechadas, em lajes e em degraus, junto aos cadeados e aos avisos de clausura, admirando o silencioso espectáculo. Distância social não procedente, não praticável, não obrigada. Uma massa distinta, todas as idades a partir dos vinte, donas de casa, jovens bem-parecidos, colaboradores em regime Layoff sem nada com que se entreterem a conversar com os que esperam pela comida, gordos, magros, escanzelados, brancos, pretos, mulatos, curtidos pela torreira do sol, avós velhinhas de cabelos brancos saídas de contos infantis do antigamente, um ou outro brutamontes com cara de poucos amigos, apátridas, imigrantes, indigentes, escorraçados, refugiados na corda-bamba, jogadores, perdidos da vida, sentinelas de alguma coisa ainda, perfilados, paralisados, sonolentos. Alguns destacam-se por um pormenor discordante, excêntrico, subtil: um jovem oriental de boné Air Jordan cor de vinho, agachado, um preto de camisa exótica com quase todas as cores conhecidas, bamboleante, numa dança desenfreada na estrada interrompida, talvez para o tempo passar mais rápido, dois a lerem livros, um na fila com um calhamaço de capa espectacular, outro no chão com um livro escuro corriqueiro, um branco de cinquenta anos, baixo, cabelo branco, comprido, desgrenhado, casaco de couro preto coçado, calças de ganga pretas, barba de uma semana amarelada do tabaco, como uma estrela de rock sem cheta, a contar uma história a um homem da sua idade vestido de preto, roupas largas, de muletas, cabelo ralo, gordo, moreno, de aspecto muçulmano: logo no primeiro dia em que o barbeiro da Forno do Tijolo abriu portas na primeira fase de desconfinamento, um tipo bem-posto dos seus cinquentas foi cortar o cabelo com um miúdo giro, depois de ter cortado o seu mandou o indiano cortar o do rapaz, foi tomar uma bica, uma hora depois não tinha aparecido, o indiano perguntou ao rapaz pelo pai, ele respondeu-lhe que não era o pai dele, que era um desconhecido que o encontrou na rua e que lhe perguntou se queria ir cortar o cabelo com ele. Conclusão do contador da história: esta merda vai ficar toda igual. Risos. Doze e quarenta e cinco, mais poeira e mais ruído das máquinas das obras que recomeçam trabalho em frente ao hospital Dona Estefânia. Ruído ainda dos passos das botas na brita de dois militares que se aproximam de dentro da Academia. O sol em pino absoluto. As portas abrem-se. Um rumor humano. A fila avança. O mundo desperta, equilibra-se.

V, Teleobjectiva 70-300 mm do lado do Novo Banco, lentes despolidas, planos cerrados, perscrutadores.

Jardim Constantino, onze da manhã, chuva fina não coada pelas imensas árvores. Espaço praticamente vazio, cinzento, lúgubre, solo um pouco viscoso pelo escorrer de vinho e cerveja e sobras da festa recente, brilhante, ar purificado, leve, andadeiro. De volta do quiosque fechado e por de baixo do toldo que teima em estar disponível, seis indivíduos, uns protegidos com capas, outros no chão com cobertores ou o próprio casaco, um deles a comer qualquer coisa de um saco branco ao balcão teimoso, ainda outro de tronco nu dentro de um lençol, parece sacudir um casaco ou manto pesado. Perante a chuva fina a paisagem surge velada, a massa humana mesclada, mesmo assim um cão preto e de assinalável porte espeta o focinho para fora do seu caixote, junto ao dono recolhido.

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«Quatro horas antes eles não tinham tecto e eu morava nesta casa, e agora passa-se exactamente o contrário. Dir-se-ia que a pobreza obedece a leis cósmicas semelhantes às que regem o nível do mar; dá ideia que, se os corpos dos vagabundos que dormem nos bancos de jardim e nas salas de espera das estações ferroviárias não perfizerem um certo peso, o mundo é bem capaz de se virar de pantanas, cuspindo-nos pelos ares, desvairados, aos guinchos, a esbracejar, quais estrelas cadentes, até desaparecermos no vazio.»

William Faulkner, em PYLON, o livro no qual THE TARNISHED ANGELS se baseia. (tradução: Paulo Faria)


[Publicado originalmente na rubrica Sala de Projeção do site da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema: http://saladeprojecao.cinemateca.pt/casas-queimadas/]

domingo, 3 de maio de 2020

Lisboa, 2020

"Se há um Deus, e frequentemente acredito que há um Deus, tenho a certeza de que ele dirá: «Continua, meu rapaz. Não me parece que possa ajudar-te, mas não gostaria que toda essa gente te dissesse o que deves fazer.»" 

The Deer Park, Norman Mailer *

 (Hollywood, Macarthismo, perdições no deserto, mas...)

 



* Hollywood não passada mais uma grande guerra, bruxas no ponto da mira, realizadores falhados, argumentistas falhados, stars novas estropiadas, velhas estrelas estropiadas, haréns ou casas de má-fama; chulos falhados, prostitutas donas-de-casa, prostitutas prostitutas, impotentes, derivas ao deus-dará, desertos salvíficos, heróis, aviadores, anjos queimados... sonhadores.

A crueldade e o cruzamento nos cruzamentos das paixões e das demências. Totalitarismo atómico, totalitarismo terreno, carne e Deus sacramente corrompidos, homens a continuarem a ser homens depois do Apocalipse.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O espectáculo mediático mata mais do que qualquer vírus

Um trecho da parte IV do Conto em Tempo de Pandemia "Autocertificação" que o Paulo Faria tem vindo a publicar no Jornal Público.

E que no meio de toneladas de lixo e de inutilidades diárias é o que mais me interessa.

«A atmosfera saturara-se de mensagens optimistas, «Juntos vamos vencer esta batalha», «Juntos vamos conseguir». Havia bandeiras de Portugal nas varandas, como durante os campeonatos europeus de futebol, como durante os mundiais. Na prática, porém, as pessoas que soltavam ou propagavam essas tiradas esperançosas e que desfraldavam às janelas as bandeiras ufanas eram as primeiras a abraçar os cenários mais negros, recusando-se a correr o mais pequeno risco. Num quadro de incerteza, em que pouco se sabia do vírus, optavam por pressupor o pior, deduziam que ele se transmitia de todas as maneiras possíveis e imaginárias, através do ar, à distância, debaixo de água, preferiam achar que ele resistia a tudo, ao calor, ao frio, à secura, à luz do Sol, que ele se colava a todas as superfícies, à pele humana, ao plástico, ao cartão, aos tecidos, obstinado, feroz, quase indestrutível, a não ser por acção do sacrossanto álcool etílico. As pessoas mostravam-se, simultaneamente, muito optimistas e muito pessimistas, sem que isso as afectasse, sem que se apercebessem, sequer, dessa contradição insanável. Pior: como se essa contradição as fortalecesse e lhes desse alento. Como se o optimismo piegas e o pessimismo histérico se reforçassem mutuamente.»

Sim, "Snowden" é um grande filme de Oliver Stone (o que interessa depois de JFK)




Palavras de um tipo com tomates, Edward Snowden. E que sabe obviamente muito mais sobre O Medo do que os milhões de comentadores de bancada inúteis que andam para aí a brilhar e a meter medo:
«Muitos governos vão – ou, melhor, já estão – a aproveitar esta pandemia para avançar na “arquitectura da opressão.
(...)
À medida que o autoritarismo se alastra, que as leis de emergência proliferam, à medida que nós sacrificamos os nossos direitos também estamos a sacrificar a nossa capacidade para deter o avanço no sentido de um mundo menos liberal e menos livre.
(...)
Acreditam mesmo que depois da primeira onda [da pandemia], da segunda onda, da 16ª onda, quando o coronavírus já for uma memória distante, que essas capacidades [de geolocalização, por exemplo] não vão ser mantidas? Que essas bases de dados vão ser eliminadas? Não importa como é que estas técnicas e estes dados estão a ser utilizados agora – o que está a ser construído é a arquitectura da opressão.
(...)
Eles dizem que é para análise dos contactos pessoais [no âmbito da pandemia] – para saber com quem é que esteve alguém que teve infecção confirmada – e isso, à superfície, parece ser uma boa ideia. Mas este tipo de monitorização não funciona quando estamos perante a escala de uma pandemia.
(...)
Temos de conseguir garantir que estão a ser activados alguns travões na pandemia, mas não na nossa sociedade.
(...)
Você até pode ter confiança nas pessoas que têm estes dados em seu poder, mas um dia alguém irá abusar destes dados.
(...)
Estes sistemas, se nós não os alterarmos, um dia eles vão tomar decisões de forma automatizada para determinar quem é que consegue um emprego, quem é que pode ter uma casa. E quem é que não pode ter essas coisas.»

segunda-feira, 20 de abril de 2020

15 filmes dos anos 2010-2019



Nas gigantescas salas escuras do cinema, nos cineclubes encafuados onde se fuma, em casa com a net sempre a quebrar, netfilx, My Two Thousand Movies, no portátil dum puto, filmado com o telemóvel dum puto, ficção de horas, documentário de horas, em episódios ou tudo duma assentada, 3 minutos ou 10 segundos, um fragmento sem entrada nem saída, séries, blockbusters, nos, vos, eles. Tudo é cinema.


- Cavalo Dinheiro, Pedro Costa, 2014 / Vitalina Varela, Pedro Costa, 2019

- The Master, Paul Thomas Anderson, 2012

- American Sniper, Clint Eastwood, 2014 / The Mule, Clint Eastwood, 2014

- O Estranho Caso de Angelica, Manoel de Oliveira, 2010 / Visita ou Memórias e Confissões, Manoel de Oliveira, 2015

- O.J.: Made in America, Ezra Edelman, 2016

- Wolfram, A Saliva do Lobo, Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010

- True Detective, Nic Pizzolatto (criador), 2014

- Holy Motors, Leos Carax, 2012

- E Agora? Lembra-me, Joaquim Pinto, 2013

- The Last Day of Leonard Cohen in Hydra, Mário Fernandes, 2018

- Já Visto Jamais Visto, Andrea Tonacci, 2013

- Creed, Ryan Coogler, 2015

- Ad Astra, James Gray, 2019


«Há cineastas, como há pessoas, que procedem por silogismos e assim destroem tudo e se destroem a si próprias. Há cineastas, como há pessoas, que estão para além de qualquer lógica e transfiguram tudo o que tocam em oração e oblação. Nessa delirante irracionalidade do amor, apanágio de tão raros.»

João Bénard da Costa

[Imagem: Andrea Tonacci, a melhor pessoa do mundo, em Já Visto Jamais Visto]

domingo, 19 de abril de 2020

God knows there’s something special about heroes

Cinema, 2020, O acontecimento

"The Last Dance", por Jason Hehir e Michael Jordan

Hoje.



Deixo ficar ainda os meus cinco (dos que vi) filmes / documentários favoritos produzidos pela ESPN (que tenho em altíssima conta):

- O.J.: Made in America, Ezra Edelman, 2016

- Jordan Rides the Bus, Ron Shelton, 2010

- Mike Tyson, ESPN SportsCentury, 2002

- Tim Richmond: To the Limit, Rory Karpf, 2009

- Rodman: For Better or Worse, Todd Kapostasy, 2019

sábado, 11 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Spencer's Mountain” de Delmer Daves




A escolha de José Oliveira

LINK: https://mega.nz/file/2yIxRKBb#mnOxuyAGXRFt8Dbh6R5YKJnViP9UXj8yoEJQoIe3Ovc


O filme que hoje vamos ver foi realizado por um dos mais talentosos e prolíferos classicistas de Hollywood, Delmer Daves. Hoje um pouco esquecido, tocou em praticamente todos os géneros, do filme de guerra e de aventuras (Destination Tokyo, a sua estreia em 1943) ao filme noir (o mítico Dark Passage, baseado no romance do misterioso David Goodis, usando o olhar subjectivo de Humphrey Bogart durante um tempo considerável), concluindo a sua carreira no ano de 1965 em Itália e com Maureen O'Hara, em mais uma das muitas adaptações literárias que levou a cabo pelo próprio punho, ficando nos anais a história da actriz ter detestado o trabalho do operador de câmara que segundo ela a não beneficiou, torcendo então pela equipa Italiana que depois de cada dia de filmagens jogava uma partida de futebol contra a parte americana da equipa de filmagens; The Battle of the Villa Fiorita, chamou-se a empreitada. Realizador e argumentista que possuía verdadeiramente o material que escolhia, não um tarefeiro que aceitava qualquer material para muito bem ou mal o despachar, visto em retrospectiva abriu muitos caminhos para a nova Hollywood reclamar autorias nos anos 70, até chegar a Quentin Tarantino ou Paul Thomas Anderson.

Mas foram os westerns a comporem a parte mais brilhante da sua carreira. Broken Arrow abriu e surpreendeu os fifties e é um dos filmes mais importantes desse período, pois tal como The Last Wagon, de 1956 e talvez a sua obra-prima, Daves vai fundo na complexa questão racial da fundação dos Estados Unidos, a mestiçagem e a eterna questão da pertença, aprimorando ainda o seu portentoso talento para filmar paisagens de um modo inteiro que o coloca ao lado de John Ford ou de Anthony Mann. Mas imediatamente no ano seguinte, o expressionista 3:10 to Yuma (imbatível adaptação do escritor pulp Elmore Leonard) é um novo marco, carregado de suspense e terrífico, fechando logo depois esse ciclo fascinante com o vertiginoso e abissal The Hanging Tree, auscultando um Gary Cooper tão torturado e cansado como no terminal Man of the West. Daves sempre foi muito respeitado pelos seus pares, mas nunca teve grandes favores da crítica nem prémios, nem em França, onde os rebeldes da futura nouvelle vague nunca lhe prestaram a atenção merecida.

Faltou referir imensa coisa ao longo dos seus trinta filmes, nomeadamente o lado Shakespeariano de algumas obras, mas vamos então para Spencer's Mountain, o seu antepenúltimo filme e um dos pontos altos do cinema americano. Precioso pois junta Henry Fonda com Maureen O'Hara nas montanhas, nas verduras, nas neves e nos lagos do Wyoming, envoltos num sereno esplendor transcendental que só Michael Cimino seria capaz de estar à altura nos grandes espaços contíguos de Heaven's Gate. «Over 100 years ago, my grandpa come into this land. Grandpa climbed this mountain and said, "this is it' and he built him a sod house' got himself a wife'and they named the whole mountain after him. Spencer's mountain it is to this day.» E logo vamos ver que quem profere orgulhosamente estas palavras, o filho Clay Spencer de Fonda, esteve à altura do legado do pai que primeiramente conquistou a montanha e pronunciou o "this is it'", com os seus nove filhos, desde o recém-nascido até ao primeiro dos Spencer que está prestes a ser graduado e tem em vista a faculdade.

Spencer's Mountain é um conto, quase ou mesmo um conto de fadas, sob a égide da abundância: crias, natureza, os diversos elementos, os acasalamentos vários, as dádivas e os legados de mãos vazias, muitos pais, muitos filhos, muitos ciclos. O eterno-retorno e todos esses milagres em filigrana. Com aquela luz também bíblica que rasga as nuvens do genérico para cair sobre a terra prometida. Vamos reparar, talvez hoje em dia anacronicamente, que todos se tratam por irmãos, todos parecem reconhecer-se irmãos, semelhantes, ajudando-se mutuamente, dividindo esforços, sem superioridades por aí além. É neste Paraíso Perfeito, porventura hoje irremediavelmente perdido ou bastante remoto, que se continuarão a desenrolar problemas semelhantes aos de todas as gerações em todas as épocas. E como sempre, tudo passa. Aqui numa respiração que tudo relativiza.

Os sonhos «maiores do que a vida» que presidem à construção de uma segunda casa no topo do mundo que jamais sairá do esqueleto; a dificuldade que o «rapaz do campo» tem em entrar para o ensino superior, apesar de ter aprendido as diversas matérias à maneira de Abraham Lincoln; o ostracismo mesmo que sub-reptício a quem não está inserido no campo religioso de uma comunidade; enfim, as eternas ciumeiras e vinganças perpetradas pela flutuante instituição do amor e sobretudo do amor não correspondido. Temos no início aquele momento sublime onde na casa em perpétua construção Fonda mostra ao filho a vista que pensou oferecer à amada no acordar de todos os dias, e será essa bela ambição desmesurada o preço a pagar por não ter entendido que todo esse maravilhamento já estava inteiro na sua casa actual, no desfilar proporcional dos nove filhos, do bebé às loirinhas do meio, do intelectual às adolescentes com sangue na guelra.

Fonda aceitará que todo esse maravilhamento, esse lar comum e magnânimo, esse privilégio incomparável, essa posse, não se medem em mais quatro paredes mas sim em toda a envolvência a perder de vista, transformadora, transcendental, e sagrada. Por instantes esqueceu-se, como por instantes todos nós nos podemos esquecer do essencial, mas irá vender tudo isso sem remorso a favor desse primoroso portal que pela primeiríssima vez um membro do clã poderá abrir para todos os outros. Com tal no espírito, tanto irá estar à altura da sua palavra severa aquando do assinar da candidatura do filho à faculdade, como nas mesmas elevações do seu Pai que tragicamente morre nesse hiato mas que no testamento pede ao neto: «Aim for the stars».

«If I had my way, you'd be president of these United States. Clayboy, it was like reaching for the sun and the moon and the stars, wasn't it, dear?», idealizou temerariamente a mãe. E assim foi, e assim poderá ser mais uma vez. Em Spencer's Mountain todos já nasceram com a mais sublime das dádivas, e todos os encontros e desencontros reservados ao factor humano e ao seu perene grito existencialista começam a entrar nos eixos e a colherem a verdadeira luz quando se olha simplesmente em volta, se respira, se limpa o olhar. Acolhendo e agradecendo toda essa abundância, até às estrelas. Um filme tão simples como genial, tão elementar como complexo. E um cineasta no domínio absoluto dos seus meios e da abertura ao outro grande meio natural: a cerimónia de graduação aglutina o hino nacional e a nostalgia da Americana, o discurso apaixonado e confessional da professora-mãe, as lágrimas e o orgulho, com os planos contra-picados que elevam tudo isso até alturas celestiais, tornando o cerimonial uma síntese de todo o trabalho paciente, meio invisível e dedicado de anos, condensando-o pelas formas cinematográficas.

Tudo o resto, e que resto, é a consumada e natural comunhão entre a técnica e esse espírito imperturbável original, nomeadamente nas operações com as gruas que Daves foi apurando em sequências vertiginosas nos westerns para aqui as usar subtilmente, muitas vezes na intimidade, unindo os habitantes à sua terra: no funeral do patriarca, depois de perscrutar os rostos e a mágoa de um modo quase documental, a câmara olha a disposição dos presentes de cima, move-se muito lentamente até enquadrar as montanhas e os céus gigantescos, acalmando e diluindo aí as nossas dores, infinito que nos ultrapassa; pouco depois, já no meio urbano, da primeira vez que vemos o jovem Clayboy na faculdade e ele diz que esse é o mais bonito lugar do mundo, a grua entra em acção e mostra-nos os relvados, as flores e sobretudo um novo mundo que espera o elemento que ousou sair da casca. As gruas que fazem fluir levemente o movimento, tornando-o a um tempo claro e cintilante, combinadas com o ecrã rasgado (o CinemaScope…), fundindo as horizontais das planícies com a verticalidade dos seus habitantes, numa perfeita rotação complementar. Muitos exemplos deste trabalho extremamente maleável e não maquínico poderiam ser dados, dos inícios de sequências em novos espaços ou descrevendo e dramatizando eventos fortes ou significativos, até a instantes fugazes e aventureiros, ficando mais um desafio para se estar atento no riquíssimo rol de possibilidades deste grande cineasta, cheio de coração.

Spencer's Mountain é a abundância, a regeneração e o estado de graça sempre possíveis a quem decide tomar atitudes (como Fonda a ir falar com o reitor, olhos nos olhos, como deve ser), não se desinteressando pelo que o rodeia. Agradecendo, como faz uma das mais novas na oração à mesa, por cada insignificância, desde os pássaros que cantam à comida no prato à fofura do mundo que para ela ainda é tudo. THE WORLD STEPS ASIDE TO LET ANY MAN PASS IF HE KNOWS WHERE HE IS GOING, assim mesmo em capitais, é outro presente da professora ao seu filho. Obrigado, montanha.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Nicholas Ray por Tag Gallagher



Nicholas Ray (Galesville, Wisconsin. 1911-79)  Acting, writing and di­recting, in radio, theater, and television.  First film, 1948, They Live by Night.

   French critics such as Truffaut, Godard, Rohmer and Rivette were lion­izing Ray at a time when Americans were disregarding him.  Partly this disparity was due to Ray epitomizing the desperation of contemporary life, whereas in America during the 50s existential attitudes were only begin­ning to be fashionable.  Partly it was due to Ray smelling like a Hollywoodized version of Elia Kazan, whom New York adored.  Ray had worked with Kazan and shared James Dean with him, and his characters have the same wounded anguish just below the surface.  But Ray made his action scenes bigger-than-life as well, by treating them as choreography, and in general distanced to exasperation the conventions of every genre or convention he touched.  His camera seemed to call everything into ques­tion by the uncomfortable way it meditated over landscapes and rooms (he had studied architecture in his youth with Frank Lloyd Wright).  Ray was not understood.

   Ostensibly, indeed ostentatiously, what were in crisis in Ray’s films were traditional institutions: army and government, justice and schools, the family and sex roles.  But even though Ray had been nourished in radical populist movements during the 1930s, his films are only superficially about what’s wrong with society, and even less about the class struggle and how to fix things.  Rebel without a Cause (1955) starts out about juvenile delinquency but ends up being about the same things as Bitter Victory, a film that starts out about soldiers in the desert, or Savage Innocents, a film that starts out about Eskimos.  And Ray’s antagonists too usually end up confronting a “moral equivalence between their supposedly antithetical natures.” [i]  

   The real drama in Ray, rather than the apparent one, is the Romantic struggle between aspiration and nihilism, between principles and dreams and a hostile, senseless world.  Ray is neither documentary (suburban high school; desert war; Eskimo life) nor fiction (Kazan); he is a yearning, a yearning for transcendentals that maybe don’t exist.  What kind of a uni­verse is it where everything always goes wrong, where I’m so miserable?  Is there anything, in Godard’s phrase, “beyond the stars”? [ii]

[i]  Jonathan Rosenbaum, in  Cinema p. 811.
[ii].  “Au-delà des étoiles,” loc. cit.

c. 1994 for a Spanish cinema encyclopedia /  Trafic (part of an article on c. 50 Hollywood directors) ]