sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Encontros Cinematográficos do Fundão 2020, II

 



Onna no naka ni iru tanin, de Mikio Naruse, 1966

Alguns comentadores têm nos últimos anos valorizado a propulsão documental de boa parte da filmografia de Mikio Naruse, e as primeiras sequências de Onna no naka ni iru tanin, o seu antepenúltimo filme datado de 1966, parecem comprovar isso mesmo. Um homem no caos de uma grande metrópole, destacado e perdido no enquadramento, a bruteza sonora e a câmara cravada no solo, observacional mas a tomar o pulso e a temperatura a alguém que parece eminentemente aflito. A próxima cena, um encontro estranhamente casual entre dois amigos num bar, parece continuar essa demanda com a realidade descarnada, a definição de um espaço e de um tempo bem definidos a conservar para uma posteridade. Mas como em muitas outras obras desse misterioso e sabido cineasta japonês, e talvez sobretudo nesta fase derradeira, com a lucidez afiada, já sem ilusões, o peso realista vai abrir a porta para todas as abstracções e alucinantes figurações de uma tragédia puramente humana, omnívora, onde alguns seres caminham para a perdição não por qualquer maldade intrínseca a si mesmos mas sobretudo pelo inexorável descontrole (ou abandono) dos instintos mais básicos: desejo, curiosidade, proibição, transgressão, inocência, tudo a nível sexual como existencial.

Se falei num encontro inicial estranho, dois amigos sozinhos no meio mais universal num acaso duvidoso, os não ditos pressentidos, o controle duro de um e a leveza do outro, e a noção clara de que algo não está bem, de que um perigo espreita, um rastilho invisível que sabemos irá dinamitar a pura observação e destapar uma catástrofe, é porque já estamos perante uma dramaturgia puramente Hitchkokiana, neste caso um Strangers on a Train invertido, ao avesso, contendo todos os fetiches predatórios e sexuais de Strangers num limbo elíptico em que os flashbacks nos são dados a uma luz presente e encantatória, numa autopsia técnica e estilística que seca precisamente o fetiche pelo fetiche. Somos todos convocados a apreciar e a escavar os factos e as dúvidas, os culpados e os inocentes, instigadores e vítimas, o bem e o mal, a ilusão e a carne, para percebermos a possibilidade ou impossibilidade do julgamento. E só por este lado já é absolutamente fascinante apreciar o Thriller e as suas marcadas (mesmo que subtis) mecânicas ocidentais refeito e transgredido pelo aclarar paciente e inflexível de um olhar incontestavelmente outro, oriental. As distâncias da lente de Naruse aos rostos e corpos de cada personagem são tão decisivas e reveladoras como as pulsões que levaram à morte; pulsões, animalescas ou virginais, a que só poderemos aceder através da nossa própria experiência, numa experiência auxiliada pelas formas estritamente cinematográficas que imprimem um tipo de debate e de reconhecimento inauditos.

Mas talvez Naruse nunca tenha sido tão vertiginoso, metafísico e realista como aqui, passando de um estado ao outro sem aviso ou incorporando tudo. Sobretudo numa banda-sonora inclassificável que só pode ser a imagem e a ilustração estraçalhada da cabeça do suposto assassino (nunca iremos ter certezas acusatórias), uma orquestração infernal urdida a picadas eléctricas e electrónicas, peças clássicas harmónicas e calibradas, fogos-de-artifício, fontes indefinidas e distorcidas, natureza vergada, invenções e doenças cerebrais ou vindas dos fundos da alma, numa desarmonia que torna clara uma falta inesquecível ou uma visão que ultrapassou limites inultrapassáveis, sejam eles sacros ou viciados. Esse marido traidor que chega a confessar à sua esposa que nunca foi um verdadeiro amante, que talvez só tenha ficado enfeitiçado pelas tais visões que nos podem queimar de tão poderosas, vai lentamente e sonicamente da perdição à salvação, da desarmonia à limpidez. Um ritmo inexorável em constante contradição, uma resolução inesperada saída de uma elisão kamikase e redentora: depois dessa cena da praia em que o casal decide mais uma vez esquecer o passado, esquecer por eles os dois, pelos filhos que precisam deles, pela mãe dele que tudo sabe, pelo amigo que lhe irá pedir que esqueça o facto de ter matado a sua própria mulher, pelo bem-estar geral, pelos ventos passados que não moem moinhos, esse ser atormentado fecha-se num quarto e num dentro terminal (e os quartos aqui são câmaras ardentes sentenciosas) que se torna o último reduto respirável, acatando a via exemplar, confessional, num gesto que espera curador.

E percebemos a grandeza e a amplitude dessa tomada de decisão irrevogável: o homem desfeito pela dúvida faz o contrário dos decisores ou políticos corruptos, o oposto do poder absoluto e da autocracia indrominada, das esquerdas e das direitas partidárias radicais e escorregadias, enfim, da ausência de uma moral em absoluto. Ao escolher a assunção de “cabeça erguida”, todo o negativo e todo o terrorífico ficam imediatamente para além do bem e do mal, no campo da circunstância e da patologia existencial, ou seja: no campo do medo. Assistimos a uma sublime reparação logo destruída por outro tipo de medo que prefere a paz-podre da nossa civilização pós grande Guerra, com a sua mulher a transfigurar-se – e aqui a ousadia expressionista próxima do fantástico e do filme noir é tremenda - e a matar literalmente a inocência arrancada às tripas e ao determinismo social.

As salvíficas bordas de luz a brotarem do eclipse social e da alma opaca do medo comprimido, a escuridão fomentada pelas regras e pelas leis a eletrocutarem um regresso inicial. Também para além dos julgamentos: jamais as esposas são más, jamais os maridos e a avô são condenáveis, tais como as brincadeiras intrincadas e cruéis dos filhos. Em Onna no naka ni iru tanin todos forçam uma negociação da condenação e do castigo como forma de continuação perpétua de um estado das coisas. Todos menos aquele que esteve no lugar do crime e que não sabendo nada de exacto, apesar das suas mão terem supostamente esganado a garganta alheia, entende que tudo é passível de esclarecimento. E de continuação, basta olhar defronte a morte. Aceitá-la.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Encontros Cinematográficos do Fundão 2020, I

 


Entrevista a Paulo Faria

 

por José Oliveira

 

 1.     Paulo, escreveste o primeiro dos teus romances em 2016, Estranha guerra de uso comum, segundo disseste, para ires em busca da guerra do teu pai (a guerra colonial) mas igualmente para travares uma guerra íntima com as tuas memórias e os teus demónios. Surgiu aí, nessa necessidade pessoal e urgente, a vontade de te atirares para um romance em nome próprio, ou já tinhas tentado antes, nesses anos em que de modo hercúleo e muitas vezes obsessivo traduziste obras essenciais e complicadas?

               A tradução literária comporta, à sua maneira, uma forma de autoria. Portanto, em certa medida, antes de me lançar na escrita de um romance em nome próprio, eu já escrevera romances, os romances dos autores que verti em português. Acho que isso foi muito importante na minha formação enquanto escritor, porque me deu a coragem de escrever. Há pessoas que escrevem com uma certa facilidade, mas não é o meu caso. Vivo um bocado apavorado com o receio de escrever banalidades, coisas sem interesse nenhum. Um pavor excessivo, talvez. Hemingway disse uma vez que aquilo que caracteriza um bom escritor é ter dentro de si uma espécie de «detector de merda», que lhe permite perceber se aquilo que escreveu vale a pena ser publicado ou se é lixo. Publiquei textos na revista Ler e no Público, por ocasião de viagens que fiz. E, quando o meu pai morreu, em 2013, percebi que chegara o momento de escrever um romance (um romance marcadamente autobiográfico, sobre a minha relação com o meu pai) e percebi também que estava pronto para o fazer.

2.     Lançaste já este ano um segundo romance, Gente Acenando para Alguém que Foge, que se por um lado é uma continuação do anterior, acho que rasgas novos horizontes, nomeadamente no território das grandes aventuras. É verdade que o protagonista enfrenta uma certa perdição, uma certa melancolia intransmissível, mas Moçambique surge-nos sempre como fonte de mistérios e fascínios fulgurantes. Como foi esse embate, esse corpo-a-corpo com o terreno ele mesmo e com as fantasmagorias?

               Moçambique é um lugar estranhíssimo. É um lugar violento, cru, onde nos sentimos agredidos, mas onde, ao mesmo tempo, temos vontade de regressar. É um lugar onde parece não haver história, onde tudo parece ter começado ontem, mas, ao mesmo tempo, é um lugar onde me senti em casa, onde senti que estava a regressar ao meu passado, à minha história. O meu pai combateu ali, andou por aquela terra, fez ali a guerra. As fotografias que ele trouxe da guerra foram os meus brinquedos de infância. Moçambique passou, portanto, a ser, mesmo antes de eu lá ter posto os pés, a terra da minha infância.

               Em Maúa, no Niassa, falei com um velho padre italiano, numa missão católica, um homem que chegou a Moçambique ainda jovem. Ele disse-me que, quando ali chegou, em 1975, tentou ajudar, tentou dar o melhor de si. Mas rapidamente percebeu que não chegava. Que, se desse e não recebesse, ficaria esgotado num instante e, ao fim de um ano, ir-se-ia embora. Disse-me que já viu acontecer isso a muita gente. Homens e mulheres que chegam a Moçambique sedentos de ajudar e que rapidamente perdem as energias. No fundo, o que ele me estava a dizer é que, se chegarmos àquela terra convencidos de que sabemos muito e temos muito para ensinar àquelas pessoas, vimo-nos embora com o rabo entre as pernas. A única hipótese é chegar lá com vontade de aprender. Não é nada fácil, mas vale a pena o esforço.

               Ele disse-me outra coisa extraordinária: «Aqui, em África, é preciso elasticidade mental. Uma vez criado esse espírito, tudo nos passa a parecer normal. E então chegamos à Europa e sentimo-nos assustados. Passa a ser a Europa que nos assusta, não África. África passa a ser normal.» Pus-me a reler o Inferno, de Dante, há uns dias, e deparei com um trecho em que Virgílio refere o momento em que o universo sentiu «a concórdia dos elementos», e depois diz que há quem creia que, deste modo, tudo voltou ao caos. Ou seja, o cessar da discórdia, segundo Dante, seria a confusão, o caos. Isto fez-me lembrar as palavras daquele velho padre. Moçambique é um lugar caótico, mas talvez o caos esteja, afinal, na nossa existência aqui no Ocidente, nesta nossa vida regida por uma concórdia postiça, por consensos espúrios que nos fazem aceitar como inevitável uma vida de infelicidade e de angústia para a grande maioria de nós. 

3.     Falei nas aventuras, mas toda essa grande viagem é entrecortada por um grande intimismo, seja ele confessionalismo puro ou catarse. Disseste na apresentação deste livro que podes usar tudo o que qualquer pessoa te diga ou conte a “teu favor”. «Tudo o que disser poderá e será usado contra você no tribunal», como vemos nos filmes americanos. Impões-te alguns limites nesse campo ou a literatura é mesmo o território da liberdade e tu o único juiz?

               Borges tem um texto magnífico chamado A Cegueira, em que escreve a certa altura: «Ninguém é poeta das oito às doze e das duas às seis. Quem é poeta é-o sempre, e vê-se assaltado pela poesia continuamente.» Ora, quem diz poeta diz romancista. A partir do momento em que decidi escrever, passei a ser assaltado continuamente pela escrita. É um vício terrível, uma droga, em certa medida. Sinto muitas vezes que tenho de me dominar, tento passar algum tempo a conversar com os outros sem que tudo o que me digam seja por mim coligido para uso futuro, mas é difícil. Ou antes, é impossível. O mundo é um lugar fascinante, estão sempre a acontecer coisas debaixo do meu nariz, as pessoas estão sempre a contar-me histórias, estou sempre a ouvir conversas, e tenho a impressão de que, se não agarrar todas essas jóias, elas se vão perder. Tenho muito medo de desperdiçar boas histórias. E depois ainda há a memória e a infância, que são um poço sem fundo. Não consigo deixar de tecer mortalhas, tapeçarias, panejamentos com estes fios que estou sempre a agarrar. 

4.     Uma das tuas características mais conhecidas enquanto tradutor é a investigação e o trabalho de campo, que, em alguns casos, decides levar a cabo, desde a “reconstituição” de alguns passos do assassinato de JFK para o Libra, de Don DeLillo, até às viagens à terra natal de Cormac McCarthy e ao seu Oeste. Nos teus livros, todo esse trabalho detectivesco surge impresso, muitas vezes passo a passo, faz parte da narrativa desde o presente até aos tempos remotos da infância. A um nível extremamente preciso, mas também onírico, muitas vezes feérico, quase fora de controlo. Uma vez disse para mim mesmo que, se tivesse de usar uma fórmula para a tua escrita, seria algo do género: Cormac McCarthy + Jack Kerouac. A crueza de McCarthy e o lirismo de Kerouac. Mas julgo que é redutor, pois já inventaste uma constelação única. Utilizas todas essas influências ou procuras esquecer tudo – se tal for possível - e começar de novo?

               Os bons livros que lemos marcam-nos, claro. No caso de um tradutor, como eu, os textos que traduzo marcam-me muito mais, porque a tradução implica uma leitura muito atenta, um dissecar da escrita do autor palavra a palavra, frase a frase. Hemingway falava muito do «icebergue do romancista», aquela ideia de que, por cada página que um bom escritor escreve, há outras dez que ficam por escrever. Mas, dizia ele, o leitor repara se essas páginas que não chegaram a ser escritas estão lá ou não. Se não estiverem, elas surgem como buracos na prosa. Parece-me evidente que este icebergue do escritor não é formado somente pelas suas vivências, mas também por tudo o que leu. Portanto, sei que, quando me sento a escrever, mesmo que não estejam à tona de água, o Kerouac que traduzi e o Cormac McCarthy que traduzi estão em mim, fazem parte do meu icebergue. 

5.     É ainda evidente na estrutura dos teus romances, como também em muitos dos artigos que vais publicando nos jornais, uma montagem que nunca surge “programática” nem simplesmente paralela, mas antes é sempre surpreendente, ora cortando a direito num momento grave, ora retomando o fio a outra meada ou tecendo as mais inesperadas rimas e alusões entre os diversos tempos e espaços. Sabendo que és um cinéfilo, procuras no cinema alguns destes e de outros processos?

               O cinema sempre foi para mim muito importante. Fui uma criança solitária, um adolescente solitário. Nunca tive muitos amigos, era uma pessoa estranha, não conseguia conversar com os outros, dizia piadas de que ninguém se ria, lia livros que ninguém lia. A escola e o liceu foram para mim um longo tormento. A universidade foi outro tormento. O cinema sempre foi uma maneira de fugir dos outros. Metia-me numa sala de cinema, sozinho, sentava-me na plateia, as luzes apagavam-se e, durante uma hora e meia, duas horas, três horas, ninguém me chateava. Se a sala estivesse vazia e eu fosse o único espectador, tanto melhor. Claro que as coisas que aconteciam na tela assumiam proporções avassaladoras. Sonhava com os filmes, metia-me na pele das personagens, imaginava finais alternativos, ramificações da história. Quando gostava de um filme, ia vê-lo duas, três, quatro vezes. Penso que, sem dar por isso, o modo de narrar cinematográfico se meteu em mim. Art Spiegelman diz que a banda desenhada permite fazer coisas que o cinema não consegue fazer, nomeadamente contrapor momentos temporais diferentes em simultâneo, jogar com o tempo e com o espaço de um modo muito ágil. A prosa também o permite, obviamente. Claro que isto são tudo reflexões que faço agora, pondo-me de fora da escrita. No momento em que escrevo, limito-me a escrever, não penso no que vai sair. 

6.     Por último, e regressando ao início da conversa, achas que só se deve escrever sobre aquilo que nos marca e assombra ou é possível escrever sobre qualquer assunto de um modo pessoal e omnívoro?

               Há escritores fabulosos que não escrevem, pelo menos directamente, acerca dos seus demónios íntimos. Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez, só para citar dois de que gosto muito. Não me parece legítimo, como já ouvi fazer, estabelecer uma espécie de hierarquia entre a ficção sem pendor autobiográfico, como a destes autores, que seria a mais nobre, e a ficção de pendor autobiográfico (Lobo Antunes, para só citar um dos exemplos maiores na nossa língua), encarada como uma espécie de parente pobre. Acho que a linha divisória é outra. Voltamos sempre a Borges, que escreveu: «O encantamento, como disse Stevenson, é uma das qualidades essenciais que deve ter o escritor. Sem o encantamento, o resto é inútil.» Respondendo à pergunta, portanto: é possível escrever sobre qualquer assunto, desde que o escritor e, como tal, o leitor, sintam o encantamento a envolvê-los. Sem isso, é melhor, de facto, estarmos quietos e dedicarmo-nos a outra coisa.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Sério Fernandes - O Mestre da Escola do Porto

 



Mestre / jamais Mestre: filosofia prática.

 

Sério Fernandes, tal como José Saramago revelou certa vez, tem uma visão total e desempoeirada da sua obra artística e do seu legado e assim sabe que passado o reino dos humanos nesta terra o cosmos não saberá que Homero escreveu A Odisseia. Também como os novíssimos e primitivos Glauber Rocha, Werner Herzog ou Rainer Werner Fassbinder, acredita que o processo, a vivência e a comunhão durante a feitura de uma obra de arte é o fulcro, jamais o resultado final. Como esses e não muitos mais, só dialoga com limites e abismos, sem meias verdades, uma questão existencial: uma coisa é uma coisa e não outra coisa: ou é arte ou é cultura: ou é Apolíneo ou é Dionisíaco: ou é vida ou é morte.

Limpar a merda toda de mais de cem anos de confusão entre a arte do cinema e o negócio do cinema; limpar a datação e os atavios argumentistas; limpar todos os acessórios, todos os efeitos, todos os filtros, todas a leis vãs, económicas e castradoras de uma invenção e de um meio gigantesco (o cinematógrafo) constantemente violado pelo pecado original do lucro, da ganância e do ego: eis a demanda de Sério Fernandes. Um meio incomensurável como o cinematógrafo não pode somente servir para contar «historinhas», tem de agarrar a eternidade, eis a moral. Como esses (Glauber, Herzog, Fassbinder) e não muitos mais, se a feitura de uma obra de arte é questão de vida ou de morte, tudo é permitido: roubos, empréstimos, mentiras, falsificações, amor; e em última ou primeira instância, a destruição do produto final; justiça poética: enterrar as latas de película num buraco do Porto, na terra Portuense, gesto matricial, será o acto derradeiro. Limpar (e libertar) a obra e o criador da potência maléfica do Tema, do compromisso, da utilidade, da responsabilidade.

Convocar os irmãos Auguste e Louis Lumière, Aurélio Paz dos Reis, e ficar-se nessa modernidade definitiva, para tudo ser revolucionário, como na primeira vez, como na invenção, de olhar limpo. Uma síntese cósmica onde um único Quadro Artístico Cinematográfico (fixo, de câmara na mão ou no ombro, plano sequência de um minuto – eis uma tentativa de definição impossível) tem de comportar todos os milhões de planos cinematográficos que sonhamos e rejeitamos, todo o cinema e não-cinema. Nesse quadro cinematográfico estão todas as paralelas de D. W. Griffith, todas as dialécticas de Serguei Eisenstein, toda a montagem; todas as gestas  e toda a música de Luís de Camões («Camões, o que vale a pena ler na cadeira de “realização cinematográfica”, a par de Charles Baudelaire e de Pier Paolo Pasolini, é isto que tenho para vocês lerem», S.F); nesse quadro cinematográfico tem de estar obrigatoriamente a experiência do brilho e da publicidade e do espectáculo em fora-de-campo que ele (e muitos) praticou antes da morte e da ressurreição. No quadro cinematográfico concebido por Sério Fernandes - e oferecido de mãos vazias à irmandade dos seus alunos, essa comunhão e coro grego - deseja-se alcançar o princípio do universo, límpido, claro, intacto; e que não sirva para nada senão para esse fim, o da criação cinematográfica.

Em Sério Fernandes - O Mestre da Escola do Porto, de Rui Garrido, tudo isso nos é provado e legado com a única das certezas definitivas e lúcidas: a paixão. Quem assim se expressa e ama, só pode estar certo. Ao mesmo tempo que se assume o absoluto, assume-se a morte, a consonância dos vivos com a consonância dos mortos, numa rotação perfeita. Sério Fernandes ama a lua, o sol, os animais vivos, os animais mortos, o aluno mais interessado, o aluno mais desprezado; o épico, os humilhados, os ofendidos, o complexo, o invisível: de igual para igual. Sério Fernandes - O Mestre da Escola do Porto traça o mesmo percurso ascendente da fabulosa vida de Sério Fernandes: da via-crúcis e da escuridão até aos altos e à claridade solar sem problemas de consciência.

Sem problemas de consciência: entre tantas vidas dentro de vidas e filmes dentro de filmes, é por isso que a existência de Sério Fernandes - O Mestre da Escola do Porto é essencial; mesmo ou pela contradição ao mestre, mesmo ou pelo forçar do registo e da confissão para lá da memória ou do mito a que Sério Fernandes estaria sujeito caso esta obra não estreasse comercialmente. No entanto, sem problemas de consciência.

 

sábado, 21 de novembro de 2020

GUERRA de José Oliveira e Marta Ramos


Publicado no suplemento ípsilon do jornal Público a 23 de Outubro de 2020: https://www.publico.pt/2020/10/23/culturaipsilon/cronica/guerra-1935984


Dizem que para fazer um filme — ou uma obra de arte — pode valer tudo. John Cassavetes, um dos príncipes do cinema independente, afirmou que assim que a câmara começa a rolar um realizador deve deixar de fora as suas misérias, os problemas pessoais, a falta de dinheiro, etc., e proteger o filme de tudo o que é acessório, em direcção a uma pureza. John Ford, depois dos grandes épicos e dos Óscares, surpreendeu alguns dos seus próximos ao afirmar que gostaria era de fazer “filmes na cozinha”, filmes pequenos, filmes familiares. Durante este longo e tortuoso período de confinamento pandémico muito se falou nas mudanças que o cinema sofrerá, tanto ao nível da exibição como na produção. Mas basta vermos o apoio que grandes festivais de cinema europeus atribuíram (e atribuem) a filmes que em alguns casos têm quatro ou cinco co-produtores internacionais para percebemos a tremenda injustiça desta repartição. Ao contrário do slogan, parece que tudo ficará igual ou pior: um filme que já tem milhões de orçamento de vários países precisará de uma soma menor que a um jovem cineasta “descalço” daria para vários filmes? E que dizer das não-respostas que esses mesmos festivais dão a jovens cineastas com filmes sem cheta feitos “porque senão morriam”? “Quem é o seu produtor, distribuidor, ou agente de vendas? Algum deles tem pedigree internacional? Assim não podemos passar o seu filme mesmo que seja uma obra-prima”. Na semana passada um programador-estrela a quem nos recomendaram mandar Guerra (pois há muito esgotamos o orçamento para inscrições no site) respondeu-nos que só via longas-metragens quando lhe pagavam para as escolher para festivais ou então para o jornal seu ganha-pão, caso contrário era perda de tempo, a não ser que fosse uma “curta”. Rainer Maria Rilke respondeu assim ao seu jovem admirador nas Cartas a um jovem poeta: “(…) pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever”; “Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever?” No meu caso comecei com a Marta Ramos e uns amigos um filme com o recém falecido actor José Lopes — todos os jornais falaram dele na hora da morte — quando ele estava desempregado, eu estava desempregado, a Marta tinha um emprego diverso, e a única preocupação era arranjar menos de dois euros para o José Lopes regressar a Rio de Mouro para estar perto da filha; também por esses tempos a nossa média-metragem de título Longe tinha acabado de estrear em Locarno.

Achava que tinha sido por volta das primeiras apresentações do Longe, aí entre Maio e Agosto de 2016, que começámos a falar com o Zé (Lopes) acerca de um novo filme. Mas, há pouco tempo, a Ana Petrucci mostrou-me uma carta do Zé, escrita pelo próprio pulso numa folha de papel e deixada à porta dela, que mostra que a ideia já vem de trás. Não sei ao certo quantas semanas ou meses, pois na carta o Zé convida-a para o papel de psicóloga e faz referência ao facto de ela não ter estado presente na estreia do filme Pastor da Noite — realizado por Mário Fernandes e com o próprio Zé num papel tão autobiográfico como no Guerra — que decorreu na Cinemateca, no dia 5 de Maio. Isto surpreende-me, pois das duas uma: ou nós já falávamos do filme nos primeiros meses desse ano ou então o Zé já tinha a estrutura na cabeça e as personagens centrais e antecipou-se à nossa pergunta, que esperávamos ser eterna: o que vamos fazer a seguir?


Lembro-me bem das primeiras e definitivas impressões dele: fazer algo diferente do Longe, porventura menos centrado nele e que funcionasse como uma homenagem às muitas pessoas do seu bairro que, ao longo dos anos, lhe contaram histórias sobre a sua experiência na Guerra Colonial Portuguesa. Lembro-me de passearmos de noite pela Av. Duque de Loulé, do Marquês até ao liceu Camões, de cima para baixo e de baixo para cima, e de ele logo delinear cenas muito claras, situações pormenorizadas, sequências cadenciadas, respirações e silêncios significativos, elipses de cortar à faca, da personagem do amigo Castro à reunião dos ex-combatentes. Nessa noite falou ainda de outro projecto que nunca veremos e que seria baseado em shortstories que andava a escrever sobre episódios passados em comboios, uns mais cómicos, outros mais trágicos. “É isto que tenho, só isto”, disse-me com toda a simplicidade, como se não fosse nada. Escolhemos primeiramente Guerra pela questão forte da homenagem às muitas pessoas que ele admirava e amava, e decidimos começar a passar coisas para o papel.


Logo nas primeiras vezes que nos sentámos a uma das mesas de um dos três centros comerciais que existiam na zona do Saldanha, o Zé já tinha o trabalho de casa quase todo feito em relação ao “tema”, sem “brincar em serviço”, e citava estudos científicos e mostrava trechos transcritos para os seus blocos de notas de livros sobre psicologia e stress pós-traumático de guerra que ele tinha ido buscar a diversas bibliotecas e a amigos especialistas, sem esquecer as “prisões” de Camilo Castelo Branco; referia conversas que tivera com uma psicóloga chegada e já pensava mesmo na maneira de falar com ela para utilizarmos o seu escritório para as cenas em que ele, que seria o protagonista, iria desabafar. Foi ele que nesses primeiros dois ou três encontros deixou claro todo o esqueleto narrativo, os lugares da acção e a dramaturgia que deveríamos perseguir: ele teria uma mulher, a Fernanda, um filho melhor do que ele que estava prestes a encontrar o amor da sua vida e que era professor de português, e o tal companheiro de armas; o filme abriria com um flashback no qual o poema O menino de sua mãe de Fernando Pessoa, dito por um miúdo numa aula do filho, levaria a história para o presente onde encontraríamos o protagonista com a sua obsessão; o café do bairro e os raspanetes do Castro, o lago do Campo Grande e o pedido de casamento à Nanda, o tal encontro de veteranos que tinha de ser mesmo com veteranos, e não com actores a fingir, e que seria obrigatoriamente filmado na hoje desaparecida Casa dos Amigos do Minho, na Rua do Benformoso 244, as sessões com a psicóloga que tinha de ser a Ana Petrucci para ele se conseguir mesmo expor de alguma forma, e a “invenção” mais estranha de todas que ainda hoje me deixa estupefacto e me escapa: uma estranha Pietà que mistura a esposa e a “exorcista” e na qual ele é o Cristo Morto.


Um tema a um tempo glorificador ou elegíaco misturado com mutações e fantasmagorias do arco-da-velha. Os encontros continuaram a suceder-se, nunca num lugar romântico ou exemplar mas sim no centro dos centros do consumismo, do capitalismo galopante e da feira das vaidades; não numa biblioteca silenciosa mas sim num Shopping Center: aí éramos completamente anónimos e tal como o John Ford e os seus argumentistas à procura do próximo filme (lembrando uma história que o João Palhares contou num texto para o Dar a Ver em 2017 e que foi muito importante para nós), Ford de que tanto o Zé falou ao longo do processo, era questão de nos posicionarmos no lugar certo e observar o mundo todo a desfilar — de doutores a pedreiros, das belas donas-de-casa às futuras mentes brilhantes que ali estudavam diariamente, e que já nos eram próximos de alguma forma, reformados que viam a bola ou liam calhamaços romanescos gigantescos (numa determinada fatia de tempo o cineasta e escritor António de Macedo foi nosso vizinho), varredores, advogados, chico- espertos, travestis, etc. —, mas sobretudo esse exercício Fordiano de olhar para a “pessoa comum” e tentar adivinhar qual seria o seu modo de vida, a sua profissão, a sua vocação ou paixão, se estaria triste ou feliz e que sonhos teria, ou que actor ou personagem do cinema ou da literatura faria lembrar, etc., e passar essa inspiração corriqueira e sublime do quotidiano para as folhas em branco que estávamos a tentar preencher. Claro que depois também eu e a Marta metemos coisas nossas, que o Zé normalmente aprovava, para depois moldar tudo com a sua presença, com a sua dicção, com o olhar…


Foi num desses lugares (talvez na Duque de Loulé?) que o Zé afirmou, sem sombras de dúvidas e sem cláusulas que permitissem aos realizadores alterar o final, que o Manecas, a sua personagem, teria obrigatoriamente que morrer no epílogo, como nos westerns. Morrer, assim mesmo, como morrem as personagens de Ford e de Hawks, de corpo inteiro e acatando ou escrevendo mesmo o seu destino. “No man died more gallantly”, é assim que John Wayne descreve a morte de Henry Fonda no final do Forte Apache, e era esse tipo de elegância e de doçura que se queria, sem se saber como. O Manecas e o amor à Mãe — não seria a mulher do Manuel a tratá-lo assim mas a sua Mãe já falecida, em cartas, nas visitas à sua morada final como quem não trata a morte como ponto final, ou em chamamentos do outro mundo — seriam o cerne principal e central do filme, o motor do drama, para lá da questão da Guerra.


Mãe escrita com letra maiúscula, assim como Filho, tal como na Bíblia, Mãe como Alma mater, todas as mães, como todos os filhos, eram estas as crenças, os pedidos e as afirmações definitivas do Zé. Nunca o vimos com tantas certezas. Nem com tantos segredos, mistérios, ou simplesmente clareza. Uma pessoa que ama os seus neste mundo, mas que quer regressar ao berço que o espera no outro mundo. E um cerimonial derradeiro como nos valentes filmes clássicos, tão encenados como verdadeiros, um duelo no qual o antagonista é ele mesmo. Foram estas coisas que tentámos fazer, artesanalmente e ao longo dos anos, com a ajuda de todos, dos veteranos de guerra que construíram a sua própria cena à sua maneira e desprezando a “cópia conforme”, até ao efeito especial final oferecido pelo grande artista Zina, da montagem orgânica e omnívora que a Marta cavou e escavou até aos limites, até ao som e à fúria dos baixos e dos silêncios do Felipe Zenícola. Um filme meu, do Zé, da Marta, e de muitos outros que eu nem sequer conheci. Está aí, pronto para ser mostrado, feito com o amor, dedicação, tempo e trabalho que todos ofereceram, o dinheiro dos amigos, da filha, das mães. Feito sobretudo com a vida, a memória e o presente do Zé, de cada dia. O percurso da ficção e do quotidiano a colarem-se, indestrinçáveis, com contradições e defeitos impressos para sempre. Haverá espaço para gestos destes que, na luz ou na escuridão, continuam a existir em muitas partes do mundo, neste mercado onde só prémios, subsídios ou milhões contam?


Amanhã, 24 de Outubro, Guerra estreia no DocLisboa. Estão todos convidados.

domingo, 27 de setembro de 2020

CARTA DE MÁRIO FERNANDES PARA JOSÉ OLIVEIRA A PROPÓSITO DE "OS CONSELHOS DA NOITE"

 



15-9-2020

Saí de madrugada do bas fond da antiguidade e estacionei agora o velho na estação de serviço de Estarreja para me abastecer de café e cigarros com um whisky de transição. Devia estar a caminho de Cacela-a-Velha…

Vamos ao que interessa!

Adorei “Os Conselhos da Noite”, um dos mais belos filmes que vi na última década. Comoveu-me logo de entrada: a silhueta cansada na linha do horizonte em lúgubre aurora / o ranger azul do portão / a doença: fogo que arde sem se ver / a passagem de testemunho do Zé Lopes, o Homem de “Longe”.

A morte a nascer da vida e a vida a nascer da morte. Um paradoxo ambulante.

Aí vai o Roberto, aí fomos nós ontem à noite, mais um périplo destes e desço às catacumbas… Por momentos quase vi os túmulos pesados dos antepassados bracarenses, temporariamente arrebatado para a escuridão… Posso dizer-te que o filme continuou para lá da palavra “fim”.

Filmaste uma Via Crúcis boémia e o Roberto carrega o filme às costas como Cristo a cruz. Mas não só…   

(um golinho para embalar)

Por vezes parece que a sua vida se transformou numa quixotesca ficção de Hollywood. Talvez tenha visto demasiados filmes ou lido demasiados romances de cavalaria como o cavaleiro da triste figura. Ou então é o álcool que faz confundir o plano objectivo com o plano subjectivo. Ou deixou-se habitar pelo fantasma do escritor frustrado… Vejo-o deprimido e eufórico, debaixo e acima da cidade, atalhando caminhos de iluminação divina e limpando o cu da garrafa ou o chão do bar em trágica zombaria. Vejo-o arrastado e sugado por buracos ou gargantas de pedra fria, a fugir de si mesmo… Vejo-o em grutas subterrâneas inundadas de vinho e música barulhenta e como um eremita numa cela de frade. Vejo-o a baptizar a Sara de Sarah Jane (sci-fi) ou inventar duelos à Jess James… Vejo-o rezar com toda a fé e logo a seguir conspurcar-se na noite… Vejo-o ouvir música autodestrutiva e os sinos da ressurreição… Vejo-o almejar a salvação ou a picar-se como o escorpião… Vejo-o imaginando estrelas, procurando sensações baratas, transportando a tristeza para claustros de mosteiros… Vejo-o jogar à sardinha com as vidas passadas… Vejo um yo-yo de homem, das torres imponentes à lua na valeta… Vejo-o encafuado, a cuspir os pulmões ou a respirar num efémero idílio abraçado a um cavalo… Vejo-o numa ânsia de encontrar um projecto, como se estivesse à espera de alguma coisa e ao mesmo tempo não esperasse nada… Vejo-o a polir esquinas ou na mesa do canto a pensar sabe-se lá no quê, talvez na próxima bebida… Vejo-o em embates familiares e na profundidade mais esventrada… Vejo-o perseguido por lembranças, consumições, oportunidades desperdiçadas por imaturidade, medo, injustiça ou paixão pela fatalidade… Vejo um dente negro vacilando na boca infernal… Vejo as noites perdidas do pobre Roberto Dias… Vejo os travellings da sua errância de flâneur e o ponto perdido no espaço. Vejo um jovem Hamlet embriagado na dúvida, labirintos, corredores ou túneis sem fundo à vista. Vejo um ser febril: os que o amam só se podem queimar.

O filme é um caleidoscópio que não pára de girar e deixa-se levar sem rumo definido por um actor magnífico. Gosto dessas panorâmicas ascendentes e descendentes, casam maravilhosamente com a incessante ascensão e queda do protagonista, assim como a câmara a vogar por detalhes arquitectónicos e históricos e pelas ruas mais anónimas com tesouros de personagens, enfim, a vida na sua incandescência, com a língua da rua e calão sem paninhos quentes.

Sujidade e graça, câmara a rezar nas alturas para depois escavar como uma toupeira na fossa, tudo para agarrar a cidade pelos cornos, a Braga libertária e castradora, putona e ascética, a Braga que te ama e odeia, pecaminosa e redentora, do libertino Pacheco ao recalcitrante Camilo.

Braga personagem, altos e baixos, céus e infernos, ruínas, igrejas, bares, bairros, bordéis, mosteiros, jardins, comércios démodés, praças, ruas, esquinas, cinemas, pavilhões, tascas, antros, túmulos, retratos, janelas, sombras, geografia sentimental e secreta. Braga possuída inteira e fluida, em plano sequência, às vezes mais rápido, outras vezes mais lento, conforme a disposição vital. Braga na contraditória e desconcertante diversidade, filmada à altura, sem piruetas de estilo, popular e boémia, apesar de os bandidos a quererem para inglês ver. Braga que no seu leito acolhe todos sem discriminação - coxos, desempregados, marialvas, pró-activos, estudantes, putas, chulos, losers, advogados, porteiros, músicos, betos, bêbedos, beatas, ateus, bailarinos, comerciantes, uma multidão de gente de toda a laia que povoa a sua solidão – e a todos atribui o nobre título de poetas, pois a verdadeira poesia está na rua e não raras vezes vem da sarjeta. Braga que nos diz, pela voz do bailarino, que a “vida é um perpétuo baile” e que a noite e o dia, a melancolia e a alegria, a morte e a vida, são faces de uma mesma moeda. Roberto em Braga, comédia humana à procura do tempo perdido. 

Braga, “palco vivo onde vários actores representam diversas peças” (cito de memória o Pessoa), a cena da dança macabra do bailarino, como se fosse o esqueleto do Roberto (“há sempre uma cidade dentro de nós, há sempre solidão dentro de nós”); a cena no pavilhão do ABC, essa recordação presente dos tempos felizes, sem as responsabilidades cabronas; a cena da roulotte onde o riso é o dinheiro dos pobres; o manguito das horas certas; o “momento transcendente que alimpa um pouco a sujidade citadina” (outra camada fascinante é o escreviver o próprio filme); as estrelas que só existem no firmamento dos amantes.

Uma órbita elíptica em que as personagens se tocam, afastam e se voltam a encontrar.

Adoro a Sara (Marta Carvalho), o sol da meia-noite, o fósforo riscado na Sé La Vie, a estrela cadente, o amor fugaz que permanece, a amada de noite e a ignorada de dia (que cena fabulosa a despedida presencial dos amantes, ele de costas, ela de frente a oferecer-lhe tudo: indiferença, sacrifício, coragem e cobardia no mesmo plano).   

Seja a vida um sopro, mas lá está ela ao virar da esquina sob a forma de uma bebida ou de um encontro súbito com um amigo. Que maravilha a câmara fixar-se no “comboio descendente”, a canção distribuída generosamente pelos pequenos grupos, todos no comboio descendente que é a vida, da gargalhada ao fim da linha; e a música a circular como uma garrafa fraterna para o brinde solidário dos solitários.   

(pausa para mais um whisky)

Sei que é um filme feito com a tua própria carne e adivinho algum sofrimento. Terás que passar pelo crivo do Presidente Honorário do cinema experimental asiático pós-moderno, do Alto Embaixador para o Cinema da Não Emoção, da Associação dos Cogumelos Cartesianos, do Comité por um Cinema Responsável para com a Sociedade Contemporânea, do Sindicato das Lombrigas e do Ministro dos Saldos Universitários! Sabem tudo esses caralhos, excepto fazer papas de sarrabulho.

Serás rejeitado pelos festivais e pelos críticos, pois há uma certa grandeza anónima neste filme, feito de coisas comuns e simples, para lá das modas, que nunca fará montra. Dirão os encartados que o filme não é suficientemente “moderno” nem socialmente comprometido… E também não será novidade para ti que a maior parte dos curadores, programadores e críticos foi recrutada entre os fariseus.

De há dez anos para cá, imagino que o panorama não se tenha alterado, os mesmos alarves do cinema abacalhoado à Miguel Gomes (para quando a nomeação para a Secretaria de Estado dos Brinquedos?), as mesmas galinhas-chocas dos ovos moles do Nicolau, as mesmas produtoras milionárias de influências, consta que um cara de cu disse gastar milhões de euros em jornalistas (vide cineleaks). Enfim, o cinema não escapa ao estado de podridão que medra no país, onde os honestos são apenas os mais caros…

Se querias ter sucesso, devias ter metido um crocodilo-bebé (com patrocínio da Lacoste) a passear na Sé de Braga, mergulhares as tuas personagens num decorativismo colonial a preto-e-branco, ires até à Amadora de câmara ao ombro, usares uma lanterna na cabeça para procurar uma espécie exótica, ou adaptares um clássico da literatura (de preferência do Plano Nacional de Leitura). Aí críticos encantados, aplauso dos espectadores inteligentes, o belo sexo começa a frequentar a sala de montagem, a produtora prospera, os festivais abrem as pernas, o ica os seus orçamentos afectivos…

O cinema português só se fodeu quando deixou de andar nu. Hoje não temos críticos, temos costureiros à la mode com uma bela filarmónica de arrivistas e trampolineiros.

Prepara-te, pois, para o inventário de imbecilidades que lerás a propósito do filme. Eles não gostam da artilharia da vida, estraga os cosméticos…

Vão embirrar com a gíria de Braga, com os actores porque são actores, com os não actores porque são não actores, vão dizer que as geniais elipses são falhas de ligação, que a cena se sobrepõe por vezes à narrativa, não vão entender o desequilíbrio vital do protagonista e da realização e ainda apontar um ou outro erro de gramática. As cagadas do costume em prosa apurada. E, claro, pecado capital: o filme não gira à volta do umbigo de Lisboa. 

Como quase sempre, só o tempo fará justiça e colocará este filme no lugar que merece. O resto é espuma. 

E agora sigo viagem, um abraço,

Mário Fernandes

P.S.: Levo no coração os romeiros da noite: Sampaio e Dida (os maiores!), Martas lindas, Jorge bacano, Pedros, Adrião, Mr. Pereira, Tina, Carlos e Carla, José Miguel, Camilo, Adolfo, Zé, Tiago, João, Manel, Bruno e tantos outros. Sempre a rock & rollar!

terça-feira, 16 de junho de 2020

CASAS QUEIMADAS - Notas para futuros filmes III




José Oliveira
Junho de 2020



I, Planos à altura da situação, tentar a distância certa (exteriores). Simples campo-contra campo (interior da carrinha).

Bairro em Alvalade, lusco-fusco inapelável, atmosfera sufocante, veículos de alta cilindrada, Mercedes, Jaguar, BMW, vivendas espaçosas, jardins aritméticos, matriz asséptica. A brigada nocturna carrega a carrinha, sacos com duas sandes, refeições quentes na prata, peças de roupa variadas, jantar e ceia garantidos, vestuário possível. Máscaras comunitárias, luvas descartáveis, um voluntário usa sempre, outro nunca usa, dois usam conforme. Um homem do desporto, dois estudantes, um desempregado. Na rota impressa num tablet, as residências mais inóspitas à face do planeta terra. Sem comentários. Pelos Olivais velhos, duas paragens. Na primeira, o freguês habitual não aparece, no lugar vago apenas uma embalagem tetra-pack de vinho maduro tinto Lidl, um cobertor acobreado, a comida intacta do dia anterior. Na segunda, uma longa descida desde a estrada sossegada ladeada de vivendas germinadas até a um jardim encafuado, típico de tarefas de escuteiro, um senhor de barbas brancas, sem muito cabelo, desgrenhado e carregado de pauzinhos das árvores, casa de cartões junto a um casebre de guarda, mudo, com gestos entre a aflição existencial e a impossibilidade de explicação de coisa alguma. Um par de quilómetros e de curvas e contracurvas em fuga para a frente, duas casas abandonadas, grafitadas, ocupadas, número oitenta e quatro, de onde saem uns braços e uns farrapos agradecidos, juvenis, numa matriz desolada a cores garridas. No quarto ponto, Lidl de Xabregas, ruínas de alguma coisa antiga, de alguma habitação ou fabriqueta, chama-se, berra-se, Alguém aí?, boa-noite, alguém aí?, temos refeição quente, hoje é quente. Aparentemente, nada. Vinte metros à frente, numa paragem de autocarro, um senhor dos seus sessenta anos, explica que conhece muita gente da instituição, conta das saudades, cumprimenta o velho amigo voluntário que se voluntariou pela primeira vez, inicia uma ladainha cifrada, vários minutos, ininterruptos, vísceros.  Seguidamente, ainda em Xabregas, um carreiro, metade terra-batida, metade empedrado, fragoso, bravio, sem data, conduz aos abismos do cemitério do Alto de São João, que paira em silhueta nos altos, as campas alinhadas como sentinelas inconfessáveis contra um firmamento ainda resistente, os ciprestes já como que adormecidos, repousados, noite de completo breu estranhamente luzidio, dois voluntários transportam o cesto da comida, um à frente e outro atrás, alinhados, como quem transporta um caixão, o terceiro, na frente, topa o caminha, na rectaguarda, o último deles, tactea melindrosamente. Distinguem-se várias tendas, variada alvenaria, ora tosca, ora limada, aviários sem bicharia, grutas ecoantes, secas, o resto é um nublado dos mais diversos materiais e combinações. O supervisor chama, Aí alguém?, amigos, não querem comer nada, então, já de barriguinha cheia?, aparecem ou quê? Levanta-se um vulto negro, magro, depois outro, mais velho, de pensos nos joelhos, Boa-noite, hoje somos seis. Contam-se refeições. Seis?, mas já têm novos inquilinos outra vez, é? De cada vez é sempre mais um, sim senhor. Vou pousar aqui mas não deixe cair, veja lá, não posso arranjar mais porque está tudo contado, depois não temos para os outros. Seis pacotes para as mãos, as refeições quentes em cima de uma estaca de madeira instável, sorrisos cúmplices, agradecidos, talvez um pouco tímidos. Próximo ponto, falhado. Um número quarenta e quatro apenas conduz ao cemitério judaico, nem vivalma. Na estação do Oriente, metade da carga aliviada. Três voluntários na rectaguarda, em organização, em contagem, um a entregar em mãos, a dizer bom-apetite. Refugiados, meninas estilo dread, uma velhinha magra de cabelos branco-mítico a pedir roupa e informações do espaço de apoio, aleijados, doentes, tosses, estômagos a doer,  drogados, esfarrapados, surrados, cancerosos, uma numerosa família com um rapaz de dez anos, gordinho, camisa do Benfica, que deixa tombar imediatamente a refeição quente, Não dá para outra?, deixei escorregar sem querer. Não, se não, não chega para todos, faltam muitos pontos. Correrias na última da hora, salvações na última da hora, já depois da hora, nos descontos, uns com sorte ainda, outros a correrem atrás da carrinha, falhanços, braços caídos. Parque das nações, três em frente ao Altice Arena, meia idade, brancos, praticamente indiferenciáveis, agradecidos, encolhidos, outro em falta, Talvez tenha ido mijar, deixe a comida aí, por favor, eu informo, é bom moço. E um espaço estranhamente vago, austero, com uma prata da comida quente de ontem ainda intacta. Na carrinha, um ciclista estafeta da Glovo estaciona, Não tem comida?, é apoio, certo? Eu preciso de comida também, esta merda de empresa não paga um caralho. O saco das sandes é oferecido, e logo recusado. Caralho, recusando comida, é?, não quero a merda das sandes, quero comida quente. Olhares suspeitos, sem solução. Não dão, recusando comida, puta que pariu. Segunda paragem do Parque das Nações, várias filas de cartões colados, formando cubos-casas, num dos últimos, uma mulher dos trinta anos, parece uma menina, bem-parecida, cabelos castanhos longos, penteados, sorriso ténue, fala do tempo e da ventania, do acaso e da esperança, um casal de travestis com barba de três dias, primeiramente só um, Fala lá carago, ainda ontem me chateei porque não acreditaram que somos duas, anda, levanta-te. Chegam, a correr, cambaleantes, os atrasados da estação do Oriente, um deles pede mais uma sandes para o pequeno almoço, pedido recusado, resposta aceite, Eu percebo amigo, já cá não está quem falou, evidentemente que se pudessem vocês ofereciam outra, qual é a dúvida, e afasta-se sorridente com a sua mala de rodas estilo aviador, impecável, em direcção a nenhum aeroporto. Antes da partida, ainda um sem-abrigo recente, inglês, prudente, simpático. A carrinha rola, rola. Zona marginal, Av. Infante D. Henrique a Sta Apolónia Cais da Pedra, manobras intrincadas de acesso, imediações da discoteca LuxFrágil. Meia dúzia de tendas frágeis, atadas com molas, pregos, abraçadeiras finas, carcomidas, uma putrefacta, encostadas a caixas de electricidade com anúncios de festas canceladas, postes de iluminação toscos. Numa das barracas, um casal, pedem água, Não é possível, só comida, hoje não foi possível garrafas de água. Outro pede uma camisa, Talvez seja possível, já vou procurar. Numa tenda improvisada a tecido variegado, um jovem ainda, trinta e tal anos, dentes corroídos, olheiras carregadas, Olhe, o meu amigo daqui, você sabe quem é, aqui o vizinho, foi para um hostel e eu não, como é qué isto?, tem algum jeito, éramos inseparáveis... Incompreensão, falta de resposta assertiva, Vamos tentar saber alguma coisa. Na tenda final, esverdeada, desmaiada, junto à porta de entrada da discoteca, entesada com molas, a frase escrita Jesus Ama Os Pecadores, a borrona preta. Uma mão sai de dentro dela, esquiva, uma fracção de segundo, cortante, Obrigado. Segue-se em frente, até ao próximo viaduto, Mesmo ao lado onde aqui atrasado largaram um bebé num caixote do lixo, foi um destes quem o descobriu. Para cima de vinte habitações, tendas, cartões, plásticos, cobertores, perímetros inventados, cercados, colheres de sopa niqueladas, cantis vazios, gorros de todos os feitios, rádios forjados, baterias desenrascadas, cuecas, peúgas, graxa para sapatos, secadores de cabelo, pentes tortos, pentes impecáveis, espuma para a barba, lâminas, sabonetes, detergente Omo, escovas de dentes, mata-moscas, chaves de fendas, broxas, diluente, quinquilharia indistinguível, ferruginosa, nada. Uns levantam-se e vão à carrinha, casais na tenda suplicam água, dormentes profundos, um deles que não quer nada, resoluto, a ruminar de solidão, outro em volta, a falar animadamente ao telemóvel, num para-cá-e-para-lá de fala-barato típico, fato de treino branco, Adidas, cabelo e aspecto cuidado, a percorrer os becos forjados pelos quais ninguém reza, na noite ali cavernosa. No fosso da linha de vagões, vários objectos pousados, pendentes, recônditos, mini-rádios, mini-garrafas de whisky, headphones, temperatura irrespirável, electrificada, quase nuclear, frio interior. Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia, bondade, só bondade, um senhor de sessenta anos que não pode andar, sentado num cartão, operado várias vezes antes da pandemia, espécie de incontinência urinária, Tenho de mudar o saco de quatro em quatro horas. Vá entregar àquele amigo que não anda, por favor, ou levo eu, e do outro lado da estrada está uma família nova, passem por lá, se puderem. Na Ribeira das Naus desce-se ao fundo de um oceano clamante de água, martelado a pedrinhas, enfarinhado, lúgubre e heróico, duas refeições a alguém invisível. Ainda em torno de uma esplanada outrora só para estrangeiros, dois jovens barbudos com tendas relativamente novas. Várias voltas ao Rossio, um suicida do Terreiro do Paço que se mete na frente da carrinha, desesperado, fora de rota. Dois dormintes perfeitamente em baixo da porta do Teatro Nacional de São Carlos, só cobertores e farrapos coloridos, em fiapos, precários, os mais austeros de todos, a razia. Estação do Rossio, várias construções inauditas, futuristas, barrocas, artilhadas, desenrascadas, espaçadas. Numa delas, vazia, vários compêndios em língua chinesa, uns em cima de outros, quase simétricos. Ninguém, mas de repente, alguém, novo, fresco, O que eu precisava era de uns cobertores, lençóis, roupa de cama, dá para marcar aí? Acenos de cabeça, Vamos tentar. Obrigado, eu percebo perfeitamente se não der para trazer. Tem aí peúgas e slips, que bom, isso é sempre preciso, eu prefiro slips aos boxers, muito mais suaves. Metam aí as refeições que eu distribuo, são quatro a contar comigo, ali no parapeito, deus vos abençoe. Estou aqui há três dias mas quero dar um jeito a isto, portanto se der para me trazerem uma vassourinha também agradeço, só ontem contei as beatas e parei nas cento e vinte, mas pretendo tornar isto catita, arrumadinho, boa noite e obrigadinho. Sé de Lisboa, porta incomensurável, um acordado, outro a dormir, e uma estória contada pelo supervisor passada nesse lugar. Alguém, há uns tempos, que saiu da casa de saúde nesse dia, e o morador habitual. Vocês prometeram-me umas sapatilhas, onde estão?, não vos perdoo cabrões. Tentativas de socos, insultos, entre-ajudas, fuga. Mas não admito humilhações, estou cá para ajudar e não para me rebaixar, se tivesse de ser partia-lhe os cornos. Costumamos comer uma bifana ali no Rossio, na primeiro de Dezembro, mas por causa desta coisa está tudo fechado, chegamos a casa pela uma da matina e matamos o bicho. Faltam duas paragens. A família do outro lado da Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia, perto do rio, meia-idade, perfeitamente normal, apaixonada, abraçada, com sede. E a última, entre a fábrica da Nacional desde 1849 e os Silos Portuários. Como numa picada, como numa guerra, atravessa-se, passo a passo, pelo meio de duas filas de vagões de mercadorias, enferrujados, poirentos, quase orgânicos, expressionistas, pés bem assentes nos trilhos, Ajuda alimentar, boa noite, alguém aí? Languidamente, olhando à direita e à esquerda, ajustando o olhar no escuro, o ouvido no silêncio, verificando e perscrutando o canto mais esconso, o buraco mais denso. Um elemento pula vagão acima, tenta uma panorâmica geral, chama, nada. Para lá dos vagões, um descampado, árido, ervas, areia, duas tendas gigantescas, arrebentadas, pendentes, aparentemente nenhuma alma humana dentro, nenhum corpo humano, nenhuma réplica, muitos gatos, gordos, escanzelados, peludos, carecas, velhos, doentes, esfomeados. O supervisor avista um vulto ao fundo da tenda, sombreado, opaco, algo a suspirar microscopicamente, diz-lhe que tem a comida junto a ele. Nenhuma resposta humana, nenhum avatar, nenhuma raça, nenhum credo, apenas miares e choros, sem idioma. Pula-se os vagões, um atalho, outro. A Brigada nocturna regressa a um bairro de Alvalade, luminoso, chamativo, calmo. Cumprem-se os rituais de fecho de missão. Nenhum eco pairante de consumição, nenhum sinal pairante de suplício, uma calma de morte.

II, Ponto de vista do carro. Simples movimentos descritivos.

Alameda Dom Afonso Henriques, uma hora da madrugada, passadeira do lado do Hotel AS Lisboa, calor frio. Uma jovem de trinta anos, calças brancas de hospital, camisa branca de hospital, chinelos descartáveis de hospital, touca branca transparente de hospital ao pescoço, fita de triagem de hospital no pulso, adesivo de soro descolado nas veias do pulso. Pára junto à passadeira, descalça os chinelos descartáveis de hospital, vira-se ao contrário, atravessa a passadeira ao para trás, lentamente, olhar em frente às arrecuas, sorridente, despida. Pára novamente, na placa central divisória, um carro pára também, apesar de estar o sinal verde. Estás bem?, precisas de ajuda, não devias fazer isso, sabias? A menina sorri ao condutor, Muito obrigado pela informação, se o diz, eu acredito, vou estar atenta, e responsável. A menina atravessa a outra faixa, passa pelo meio de um bando de jovens, indistintos, indiferentes. Como quem ensina o caminho ao diabo, diziam os antigos. O carro arranca, hesitante.

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«No entanto, segundo fazia notar o secretário-geral da Federação do Trabalho, os negócios resistiam a novas quebras de actividade.
Autoconfiança para os sem-cheta e apoio governamental para os que já tinham mais do que aquilo que podiam gastar, esse era o plano. No entanto, os bancos dos jardins estavam húmidos todas as manhãs, quer chovesse quer não; e era possível uma pessoa fartar-se, mesmo que fosse de bananas.»

A Walk on The Wild Side, de Nelson Algreen (tradução: António Borga e Salvato Telles de Menezes)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CASAS QUEIMADAS - Notas para futuros filmes II




José Oliveira
Maio de 2020


I, Panorâmicas descritivas, reveladoras, planos-americanos.

Esplanada em plena Rua do Saco, vista para o Largo do Mastro e para o pátio infantil, final de tarde, sol translúcido, harmonioso, rasante algures, conciliador, pólen primaveril como neve a ciciar nos rostos de alguns, no acaso. Quatro mesas ocupadas. Um casal a ler, a comer gelados, a beber café. Dois nepaleses conversadores, imperiais geladas nas mãos. Três mulheres, uma com um calipo sabor a cola, dos seus trinta anos, outra a fumar e a beber imperial gelada, saia preta curta e top branco apertado, cabelo comprido e complexamente enroscado, é a mais nova, de vinte e poucos anos, e a mais velha, nos sessenta, com um gelado de chocolate, atenta, ouvinte, contemplativa. Na mesa junto à porta, uma mescla de seis pessoas, homens e mulheres na casa dos trinta e dos quarenta, quase todos possantes, gordos, consolados, de calções e saias vulgares, veraneantes, sem nenhum traço distinto aparente. Para um lado e para outro anda o dono do estabelecimento, limpa o açúcar desperdiçado de uma mesa, retira as beatas de um cinzeiro, entrega atabalhoadamente uma imperial estupidamente gelada e a esbordar. Retira a máscara cirúrgica logo que sai para a esplanada, coloca-a assim que pode quando acede ao interior. Sobre o plano elevado da faixa de rodagem um autocarro da Carris desfila vagarosamente na direcção do Largo do Mastro, rastejante, rumo à paragem, oferecendo a combustão negra de gases e químicos às fossas nasais, bocas e olhares dos frequentadores da esplanada, pára na paragem fazendo tempo, com o motor ligado. O condutor sai com a máscara cirúrgica no queixo, dirige-se ao café, desinfecta as mãos com desinfetante cutâneo à base de álcool etílico 70%.  colocado no portal, pede pela casa de banho. Repentinamente, surge uma bicicleta, um fato de treino da seleção portuguesa de futebol em cima dela, um cachecol da selecção portuguesa de futebol a cobrir um rosto magro, carregado de crateras, avermelhado, que se destapa assim que o veículo é encostado junto à tasca, pousa a mochila preta, carregada, claramente remendada por agrafos gigantes e toscos, espreguiça-se, chama pelo dono que está dentro, pede uma taça de tinto. O dono assoma vagarosamente, diz que ele tem de usar máscara para entrar, que tenha calma, que fale baixo que ele não é surdo, e que só lhe serve a taça nessas condições, e lá fora. Não uso dessa merda, não uso mesmo, foda-se, quarentenas, quarentenas…, eu cá só se for quarentonas, essas amando-lhes uma pinadela, agora máscaras, nem pensar, não mesmo, a máscara vai ser o copinho de tinto… mata tudo, à foda-se, tudo com medo de morrer, olha, você vai durar para sempre, vai ficar cá para colecção, não morre aquela que está ali a passar, toda equipada, à foda-se, uns dias dizem que temos de usar essa merda, outros dias já não, um dia a merda do vírus fica colado nesta mesa, outro dia nunca na vida, devem ganhar bem com essa merda, e pensar que somos burrinhos, só veem fumaça. O homem da selecção portuguesa continua nesta ladainha, saca uma nota de cinco euros remendada do bolso, alisa-a, estica-a, o dono abana a cabeça, diz valha-te deus, volta a entrar. A mochila aterra com estrépito numa cadeira, como que se desmonta, de dentro sai uma embalagem de vinho maduro tinto tetra-pack Bernardes, um pão grande de Mafra embrulhado num saco castanho, uma lata de azeitonas pretas, uma gamela e uma pá de alisar cimento, ele volta a meter tudo para dentro, retira do fundo umas calças elásticas pretas para mulher, leva-as contra o sol, estica-as, a taça de vinho e o troco chegam, ele pousa-as na mesa, bebe do copo, deixando cair uma porção considerável, tremelicando. Este caralho é sempre o mesmo, não se preocupem, conheço-o há vinte anos. Ainda mais inesperado do que a chegada do homem da selecção portuguesa são os latires caninos, os dentes rangentes, os gemidos, esgares graves, agudos, dementes, dois animais que se digladiam no centro da faixa de rodagem, levantando alcatrão ainda fresco colado ao pólen puro. Um cão gigantesco, acastanhado, focinho pontiagudo, ameaçador, outro de metade do tamanho daquele, branco, alvo, mas igualmente enervado, não reconciliado, picado. O dono do cão pequeno tem pulso firme, afasta-o, afaga-o, leva-o contra o seu peito. O dono do cão grande não pode com ele, berra-lhe, desmancha-se para o chão, desprotegido, meio tonto, meio pateta, à roda com a fita que prende o bicho à coleira, um saco de plástico junta-se entre ele e o cão grande que não larga o cão pequeno, o rosto arranha-se no chão, os óculos também se arranham, dois indianos e uma portuguesa juntam-se para ver o estranho acontecimento, poeira densa, barulho de coisas a roçarem. As coisas acalmam-se, um dono já em cada lado do passeio, o dono do cão pequeno prende o seu animal a um banco e vai tirar satisfações ao dono do cão grande. Sotaque de Leste Europeu, aparência de Leste Europeu, talvez ucraniano?, possante, vinte e picos anos, musculado, ar temível, t-shirt Olympique de Marseille Ultras, diz ao homem mais velho e careca que é obrigatório açaime num cão desse porte. O outro arranja uma justificação sobre a cor, algo incompreensível, sem sentido. Falam em inglês tosco. O jovem de leste pede-lhe doze vezes o número de telemóvel, para o caso do seu cão ter ficado ferido. Insistência, ar contrafeito, ar medroso, troca de números. O homem da selecção portuguesa junta-se a eles e diz que um cão daquele porte tem de ter açaime, o dono careca não gosta e declara que cada um deve meter-se na sua vida, o jovem de leste diz que o homem da selecção portuguesa tem razão e que ele compreendeu perfeitamente o seu português. O homem da selecção portuguesa diz ainda que cães não é para ele, que não limpa merda de ninguém. Um para cada lado, o homem da selecção portuguesa afaga o seu cabelo comprido, bem penteado, risco ao meio, afia ainda mais o seu olhar de lince, dois berlindes faiscantes acima do nariz comprido e aguçado, dirige-se para a sua mesa, acaba a taça, pousa-a estrondosamente, pede outra. O dono afirma que lhe traz outra na condição de se portar bem. O homem da selecção portuguesa pega nas calças elásticas e tenta vendê-las a uma senhora da mesa mais frequentada, a senhora possante olha para elas, estica uma das pernas, ergue-as ao sol, chega à conclusão de que nunca aquilo lhe servirá. Mas compre, para a sua filha, para a sua mão, dois euros não é dinheiro. A taça de tinto é assente na mesa, nada feito, não há negócio. A mesa da senhora e das jovens levanta-se, as pernas da mais nova reflectem a lívida brancura ao sol rasante algures, fala como uma matraca pelo telemóvel, o homem da selecção portuguesa declama que assim vale a pena ver umas pernas, a mulher dos seus trinta anos, vestido apertado, diz-lhe que tenha juízo, que acabe com aquela treta, o homem da selecção portuguesa responde que elas têm de manter a distância de segurança de dois metros para com ele, que isso está previsto na lei, e continuam a discussão, como num jogo de ténis, devoluções para trás e para a frente, a viela lateral a separar as facções, como uma espécie de rede de não agressão, a mais nova a dar mais importância ao matraquear por telemóvel do que ao resto, até o dono gritar acabou, até as mulheres virarem costas, recalcitrantes, a mais nova indiferente. O dono pede-lhe novamente para ele se portar bem, pois senão perde clientes, ninguém quer ir a um lugar para lhe moerem a cabeça. Senhor Zé, o senhor conhece-me, é com todo o respeito, as raparigas nem máscara tinham. Tudo se acalma momentaneamente, o homem da selecção portuguesa recebe um telefonema e começa a gritar que está perto do Paço da Rainha e que o encontro é lá daqui a meia horinha. Os nepaleses levantam-se, atravessam a rua, entram na biblioteca de São Lázaro. A dupla de leitores mantém-se impassível, um livro de Nelson Algren, outro de Fernando Assis Pacheco. O dono interrompe essa dupla, pergunta se está tudo bem, diz-lhes que aquele moço tem problemas, mas que é bom moço, não é mau de todo, há muito pior, por aí, disfarçados, e que o papel dele é como o dos árbitros da bola, ingrato. O dono do cão grande passa sozinho para cima, direcção largo do mastro, de telefone em punho, ainda a bufar. O homem da selecção portuguesa mete as calças elásticas na mala, desliga a chamada, diz até amanhã se deus quiser a toda a gente, diz desculpem qualquer coisinha, diz que não tem medo do corona, só tem medo dos idiotas, trepa elegantemente para cima da bicicleta, arranca, de mochila às costas, uma rabanada de vento traz mais uma camada de pólen, um autocarro furibundo ronca novamente na curva adjacente. 

II, Panorâmicas lentas, planos inteiros, laterais.

Campo dos Mártires da Pátria, meio dia, sol quase a pino, sem crostas, queimante. Barulho esfuziante, entorpecedor, planante, estupefaciente, crianças, patos, galinhas, perus, pais, mescla de complicada destrinça. Para Oeste, três arrumadores aguardam a sua vez, clamantes por uma viatura que estacione em frente ao Goethe-Institut Portugal – Lisboa. Um nos seus quarenta anos, cabelo curto, raro, calças e camisa cinzas, puídas, sem marca, com máscara cirúrgica no queixo. O mais velho, nos cinquentas, de rabo de cavalo brilhante e esbranquiçado, pelo meio das costas, forte, camisola dos Lakers tradicional, dourado já amarelado, número trinta e dois, Magic Johnson, lavado, resplandecente, olhar meigo, canino, sem máscara comunitária. E o mais novo, nos trintas, rabo de cavalo preto, calças de ganga Levis originais, t-shirt branca sem marca, máscara cirúrgica na cabeça, coberta de café e queimadura de tabaco, a fumar um cigarro. Não falam, perfilados, concentrados, em trabalho. Muitos corredores, muitas brincadeiras, meia dúzia de piqueniques, o chapinhar no lago, um sol de ananases. O arrumador mais novo sai da linha de trabalho, entra numa lateral do jardim, o cigarro curto ainda cesso, abre a braguilha, desce a máscara cirúrgica, fica algures entre a boca e o queixo, mija furiosamente sobre uma planta com aspecto de couve achatada, sacode o órgão genital, fecha a braguilha, corre para um carro que está prestes a estacionar, ajeita a máscara cirúrgica, realiza gestos geométricos com as mãos, diz assim, a direito, está bom, está bom, dona, prostra-se junto da porta, o cigarro nas últimas, resistente, uma mulher de meia-idade, de branco, calças brancas, blusa azul, sai da viatura, entrega uma moeda ao ajudante. A mulher atrapalha-se, fecha o carro com as chaves, abre-o, retira um telemóvel e um pequeno saco, fecha-o, pressiona o comando duas vezes, vai caminhando no passeio para os lados da Mú - Gelato Italiano e da sua fila de cinco metros, passa a mão pelo cabelo e pelo suor da testa, saca um gel desinfetante, limpa as mãos, o telemóvel, o saco, o rosto. Obrigadinha, minha senhora, passe um bom dia.

III, Planos inteiros, frontais, de conjunto, grande profundidade de campo, desfoque interdito.

Largo do Mastro, onze da noite, temperatura amena, a parca luz eléctrica misturada à lua descoberta, a fazer o que pode. Andaram a cortar cabeças e narizes lá em África, a matar pretos nossos, mas tão fodidos, vocês não têm memória, nem passado. Vocês brancos estão fodidos. Atenção, é diferente dos Estados Unidos da América, Portugal é diferente dos Estados Unidos da América, porque eles têm uma coisa diferente, os Estados Unidos da América têm competitividade, são competitivos, vocês brancos daqui não, os Portugueses não têm passado, nem memória, nem são competitivos. Cortaram as nossas cabeças, narizes, e fugiram para aqui, olhem-me nos olhos, vocês um dia vão-se foder todos, acreditem que se vão foder. Ninguém sabe quais as suas origens. Não papo grupos. Acreditem que se vão foder. Assentados no chão estão uma rapariga e um rapaz, a rapariga a beber cidra, a fumar, o rapaz a beber cerveja de garrafa média, no banco ao lado, outra rapariga, outro rapaz, a beberem cerveja de garrafa média, o rapaz a fumar, todos eles brancos, todos a olharem para o fantasma negro surgido subitamente da noite e do silêncio. Na fonte central, três raparigas, a conversarem, indiferentes, todas elas brancas, jovens, leves. Fantasma de carnagem suada, sulcada, olhos esgazeados, também pretos pretos, vestimenta esfarrapada, preta, vermelha, amarela, sapatilhas tipo Converse All Star, contrabandeadas, estraçalhadas. Nas costas vários sacos escuros que ele não deixa ver bem, cobertores a espreitarem, invólucro de prata parecido com os sacos para mortos dos médicos forenses, a brilhar, a incomodar, cartões de caixote, agrafados, pendentes com fita-cola acastanhada, garrafas de água, pacotes de vinho, plásticos. Tão fodidos, não existe competitividade, alguém me arranja um cigarro? O rapaz do chão responde que não fuma, o rapaz do banco oferece-lhe tabaco de enrolar, mortalhas, filtros. Na loja de conveniência do lado saem três miúdos com litrosas, visivelmente alegres. O fantasma negro abana a cabeça, volta-se, desaparece na noite, silencioso, sem olhar para trás.

IV, Campos, contra-campos, gerais, aproximados, larga duração, nunca grande-plano.

Rua dos Anjos, tempo indecidido, nuvens altas, espessas, prenhas, corrente com estranho cheiro a maresia, brisa morna, um pouco electrizante, horizonte avermelhado, ameaçador. Restaurante Sol-Rio, trancado a cadeado, poeirento, montra tapada com cortinados improvisados, pendentes, várias folhas com dois meses coladas com avisos aos clientes, vamos estar fechados uma semana por causa de questões de saúde. O vento, talvez sul, faz levantar contra a vidraça e contra o toldo folhas de jornais esvoaçantes, sacas plásticas, entulho, pó. O caixote do lixo do lado direito da entrada treme, vazio, a feder a piriscas húmidas. As bandeiras portuguesas de tamanhos vários colocadas em diversas janelas agitam-se. Do outro lado da rua, à sombra, assentado na borda ocre de um prédio impessoal, um homem de setenta anos, baixo, forte e mirrado ao mesmo tempo, cabelo branco puxado para trás à força de brilhantina, óculos de sol estilo aviador originais, camisa branca com finas riscas verdes, notoriamente lavada, calças pretas de corte delicado, recto, sapatos clássicos pretos, cabisbaixo, mão na testa a proteger-se de alguma coisa aparentemente invisível, apaziguado, convencido. A seu lado, um balde branco, meio cheio, com uma pasta gordurenta de banha de porco, uma colher de pau espetada no meio, em tensão. De quando em vez, de modo praticamente impercetível, abana a cabeça. De quando em vez, um saco, um jornal, ou simples poeira, perpassa-lhe o rosto, ele pisca os olhos. Nos ouvidos arranham-lhe antigos sons e palavreado, como cócegas, escuta taxistas, varredores, trolhas, mulheres da vida, doutores, estudantes, hippies, punks, amigos, proxenetas, géneros e raças que ele nunca saberá.  Em frente ao restaurante passa uma rapariga, talvez nova, camisola preta de mangas cavas com a frase Travailler pour Manger!, calções brancos curtos, esfiapados, cabelo preto apanhado, magríssima, rosto chupado, de idade difícil de adivinhar. Senhor Manuel, ei, senhor Manuel, acorde, quando é que abre o restaurante, hoje é segunda não é? O homem do outro lado da rua abana notoriamente a cabeça, tira os óculos, desempena um pouco as dobradiças das costas, fala pausadamente, não muito alto, com boa dicção, Acho que nunca mais, rapariga, talvez nunca mais.

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“O pouco dinheiro de que dispunha destinava-se quase exclusivamente ao tabaco e ao álcool, com vantagem para a bebida. A sua preferência não se devia à necessidade de afogar qualquer preocupação ou fase de desânimo, estados de espírito que raramente conhecia, pelo menos em consciência. Fazia-o apenas porque, enquanto emborcava as bebidas, não se achava inactivo. Encontrava-se desempregado e nada mais tinha para fazer.”

 David Goodis, “Brigada Nocturna” (Colecção Xis, Editorial Minerva)


[Publicado originalmente na rubrica Sala de Projeção do site da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema: http://saladeprojecao.cinemateca.pt/casas-queimadas-ii-notas-para-futuros-filmes/]

quinta-feira, 21 de maio de 2020

CASAS QUEIMADAS - Notas para futuros filmes




José Oliveira
Abril / Maio de 2020


O Burke Devlin interpretado por Rock Hudson em THE TARNISHED ANGELS de Douglas Sirk continua a ser a minha personagem preferida na história do cinema. Um jornalista alcoólico que troca os factos mortos («dead facts») que fazem as delícias dos ávidos editores cegos, surdos e burros por aquilo que não consegue perceber, rastejando na sujidade, no lixo, na lama, na indecência, e, como um Príncipe romântico e solitário, mantendo-se essencialmente limpo. Jornalista meio espantalho e meio palhaço num mundo de seriedade virada do avesso, manda às ortigas a cobertura política prestigiosa, a falaciosa pertinência da actualidade forjada, preferindo entregar as chaves de casa a uns semelhantes, despidos, eternos, irracionais, perdidos na entrega total às paixões, fatalmente suicidários, descobrindo neles a beleza e o amor absolutos, provocando a estupefacção do seu editor e dos calculistas como ele.


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I, plano fixo único, geral, picado.

Campo dos Mártires da Pátria, sete da tarde, sexta-feira, nem sol nem chuva. Um homem dos seus quarenta anos está atento ao passeio do seu cão. Coxo, roupa casual azulada, baixo, gordinho, com ar de pessoa afável. Troca diversos olhares de incompreensão com os poucos passantes. Está atento ao deambular do seu animal, sempre com sacos de plástico a saírem do bolso, prontos para entrarem em acção. Robusto, pêlo amarelo-torrado, de ar simpático, pesado e leve, o cão vai correndo livre, consciente da protecção incondicional, da admiração mútua. Sacos do Pingo Doce para cá e para lá, a abarrotarem, um monte indistinto de plástico e papel, carne, leite, produtos de limpeza, papel higiénico, tubos e embalagens a saltarem para fora. O cão vai mijando nas ervas, nas flores vermelhas e violáceas, o dono em alerta desvia o olhar uns segundos para olhar uma velhinha corcovada com o seu fardo, dois nepaleses na casa dos trinta, um com máscara comunitária e outro sem, lado a lado dir-se-ia perigosamente, fumando dir-se-ia perigosamente, um casal mascarado a voltar apressadamente ao lar com duas baguetes da Padaria Portuguesa. O cão avança furiosamente sobre uma planta com aspecto de couve achatada, estanca, caga, foge, efusivo. O dono faz o seu trabalho, apanha a merda com um saco plástico para dentro de outro saco igual, dá um nó, pacientemente, a mancar, resoluto, inexorável, e coloca-se de sentinela, novamente. Mais um autocarro sem passageiros, o condutor a beber água no chafariz junto à quadra desportiva trancada a cadeados, fumando, olhando para o relógio. Caí o crepúsculo.

II, planos inteiros, planos americanos, planos de peito, planos individuais, planos de conjunto, travellings, campo-contra campo?, posição da câmara à altura do homem, talvez não tentar o grande-plano.

Jardim Constantino, seis da tarde, sol duro coado pelas imensas árvores. Cabine telefónica PT sem clientes, do lado da nova esquadra da PSP, a fita proibitiva desfeita, um carrinho do Lidl dentro a proteger a roupa da cama, a cama e o vestuário de alguém. Num dos bancos a Leste, cinco pessoas, um deles ostentando um casaco camuflado da tropa, tem um saco plástico reutilizável Pingo Doce desbotado de cinquenta cêntimos que é a sua casa, seguro entre as pernas, dentro os copos de plástico usados, pratos usados, mantas, cuecas, meias. No banco Sul, o grupo mais animado. O elemento mais novo e espadaúdo faz a festa, é o único sem barba, ar marroquino, chega com um litro de vinho tinto maduro Minipreço em embalagem tetra-pak, dá um beijo na face a um companheiro gordinho, careca, da mesma idade, sensivelmente. Dois deles estão de mãos dadas, entrelaçadas, ora às festas, ora a jogar braço-de-ferro. O mais velho dos quatro tem duas medalhas ao peito, bolorentas, indecifráveis, calças de pijama com uma das pernas arregaçadas até ao joelho, varizes, carne viva friccionada, pus amarelado. A Norte, as mesas de jogo ostentam mais fitas desanimadoras de riscas brancas e vermelhas, três reformados rememoram velhas partidas da bisca ou da sueca, antigas discussões, os que partiram, as mulheres. A Oeste uma jovem indiana fala através da máscara comunitária azul escura para um conterrâneo novo e sem cabelo, parece ser uma primeira vez, parecem dizer que as coisas estão melhores, que o pior já passou, que já podem voltar àqueles bancos, trocam alguma coisa. Ele levanta-se, vai falando ainda, aponta para o relógio, aponta com o queixo para a frente, sorriem, segue o seu caminho. Um minuto passa e um jovem cabeludo de máscara comunitária verde e penosamente manufacturada vai ter com ela, conversam por uma hora. Os indigentes do Sul repartem o vinho, o do meio tira do bolso uma caixa plástica com amêndoas de chocolate coloridas, é o que tem a roupa mais suja e coçada, reparte-as. O elemento que costuma levantar a louça suja na esplanada fechada do centro do jardim não bebe, não fala, olha para o Quiosque Hamburgueria Mustarda, longamente. Abana a cabeça compulsivamente e interage com o ar, parece escutar músicas ou lengalengas de outrora, é o único deles que tem máscara comunitária, branca, limpa, papel vegetal a transbordar nas pontas, dificuldades várias com a cigarrilha. No banco Leste reparte-se pão entre o velhote da casa ambulante marca Pingo Doce e o vizinho do banco do lado. Os reformados batem com garrafas de água plásticas vazias nos joelhos e nas canelas, numa melodia sem história. Um homem não muito velho, de barbas brancas, fato-de-treino creme esfiapado, marca Ardidas, anda descalço para trás e para a frente, para trás e para a frente, como que a marcar um ritmo só dele, uma memória só dele. No antebraço pendura-se um saco estraçalhado marca El Corte Inglés, a transbordar de pão duro. O barulho seco e o eco seco que o pão faz quando cai no empedrado torna-se o único motivo para os vizinhos voltarem a olhar para ele, dura milésimos de segundo. Um rapaz da Uber estaciona num bloco de betão junto das mesas de jogo em estado de sítio e retira do gigantesco saco verde térmico uma bebida energética Monster verde 500 ml. Perto do centro, entre Leste e Sul, sentam-se quatro reformados, um trabalhou toda a vida no balcão dos correios ali perto, outro em estações da CP na região de Lisboa, outro reformou-se cedo por causa do coração, outro foi afinador de máquinas na Alemanha por mais de trinta anos. Começam uma partida de sueca, num banco despido, áspero, carregado de pólen e cheiro primaveril, o mais novo tem o isqueiro em punho e é o único sem qualquer tipo de máscara comunitária ou cirúrgica, os outros têm todos máscaras cirúrgicas cedidas por um funcionário da junta de Arroios. Juntam-se a eles dois espectadores, um ex-bombeiro voluntário, um ex-empregado de mesa do restaurante Sol-Rio, sem máscaras comunitárias, sem máscaras cirúrgicas. No sobrevivente balcão do quiosque fechado alguém absolutamente comum devora uma salada de frutas, embrulhada numa folha de prata, sem qualquer tipo de talheres. Uma jovem atleta, de máscara social cor-de-rosa e viseira de acetatos, sapatilhas Nike cor-de-rosa, contador de calorias no braço esquerdo, óculos de sol pretos arredondados, gel desinfectante preso na cintura, parada, faz uns alongamentos na fonteira do jardim, respira fundamente, cruza-o fulgurantemente de Oeste para Leste, desaparece da vista. O homem das barbas brancas, continuando para trás e para a frente, para trás e para a frente, inaugura uma melopeia inidentificável, pedregosa, fazendo lembrar um profeta desistente, segundo as palavras do homem comum da salada de frutas. Na pastelaria Aloma, a fila para o café, pastéis de nata, pão, etc., quase chega à dúzia de pessoas, afastadas pelo menos um metro umas das outras, notoriamente conscienciosas. No prédio por cima do Novo Banco o Hastag #vamostodosficarbem recebe os derradeiros raios de sol.

III, planos subjectivos, panorâmicas horizontais, subjetiva indireta livre?

Avenida Almirante Reis, nove e meia da noite, terça-feira, lua cheia, noite clara, quase dia cinzento, quase eclipse inaudito. Uma bola de ténis é constantemente lançada pelo passeio adiante, acto contínuo, um pequeno cão, preto e branco, às manchas irregulares, corre para ela, recolhe-a entre os dentes, devolve-a ao dono. Ritmo cadenciado, sem falhas, automático. O dono está junto à tenda de campismo Quechua, esverdeada, azul, descorada, gasta, montada na reentrância de um prédio, a tocar no centro de formação Do It Better: Home, a dois metros da entrada de moradores. A bola é novamente atirada, o cão volta a percorrer um percurso semelhante, a direito, longitudinal, vinte metros, apanha a bola com um pequeno esgar, um salto, volta, devolve-a. A observar tudo isto, do outro lado da avenida, ao lado do Pomar Fresco, o vizinho da frente, resmungão, mirolho, mudo, quarentão de cabelo branco e duro, óculos de sol Ray-Ban estilo aviador notoriamente contrafeitos no peito da camisa aberta branca suja, lar composto de caixas de cartão do Continente com cobertores fétidos e nauseabundos. Esbraceja, pontapeia a atmosfera, rasga a noite e o luar em movimentos cortantes, atira uma pedra que apenas chega à placa central divisória, apanha a beata atirada por um passante ousado, não confinado, em desregra. O dono do cão, de cabelos compridos, oxigenados, saia azul-bebé pelos joelhos, top cor-de-rosa choque colado à pele estriada, soutien branco sujo a sair do top e dos minúsculos mamilos, saltos altos pretos, tipo estiletes, sem meias, pele das pernas coberta com pêlos russos, barba de três dias da mesma gama, agarra a bola na mão, ri-se, bate na tenda, pede a alguém para sair numa voz grave e cavernosa e constipada, dois rapazes na casa dos trinta, quase gémeos, de calças de ganga azuis e t-shirts pretas indistintas, cabelos pretos e barba de uma semana, largam a tenda, olham para o vizinho do outro lado da avenida, rieem-se, passam um cigarro de um deles entre mãos, o cão guincha, ladra, tenta chegar à bola, entrelaça-se nas pernas do dono. Um dos trintões mexe no telemóvel, um poderoso ritmo reggaeton começa a bombar de uma coluna interior à tenda, dança-se, eles três, o cão ao colo, uma das mãos pega ainda num deformado peluche-pinguim monstruoso, uma mescla intraduzível. A sirene que devora infernalmente o macadame apenas se torna mais um ingrediente do caldo. O vizinho do outro lado da avenida recolhe-se, paralisado.

IV, travellings, planos de conjunto, frontais e laterais, talvez não tentar o grande-plano.

Rua Jacinta Marto, Rua da Escola do Exército, Rua José Estêvão, doze e trinta, sol praticamente a pino, poeira. Fila de pessoas desde a Escola do Exército até à Jacinta Marto em direcção à sopa social da Academia Militar. Um carro da polícia municipal defronte do portão, ainda fechado. Do lado da frente da Academia, a entrar pela José Estêvão adentro, mais pessoas, umas em pé, que preferem comer mais tarde para não gramarem a fila, outras prostradas nas bordas das lojas fechadas, em lajes e em degraus, junto aos cadeados e aos avisos de clausura, admirando o silencioso espectáculo. Distância social não procedente, não praticável, não obrigada. Uma massa distinta, todas as idades a partir dos vinte, donas de casa, jovens bem-parecidos, colaboradores em regime Layoff sem nada com que se entreterem a conversar com os que esperam pela comida, gordos, magros, escanzelados, brancos, pretos, mulatos, curtidos pela torreira do sol, avós velhinhas de cabelos brancos saídas de contos infantis do antigamente, um ou outro brutamontes com cara de poucos amigos, apátridas, imigrantes, indigentes, escorraçados, refugiados na corda-bamba, jogadores, perdidos da vida, sentinelas de alguma coisa ainda, perfilados, paralisados, sonolentos. Alguns destacam-se por um pormenor discordante, excêntrico, subtil: um jovem oriental de boné Air Jordan cor de vinho, agachado, um preto de camisa exótica com quase todas as cores conhecidas, bamboleante, numa dança desenfreada na estrada interrompida, talvez para o tempo passar mais rápido, dois a lerem livros, um na fila com um calhamaço de capa espectacular, outro no chão com um livro escuro corriqueiro, um branco de cinquenta anos, baixo, cabelo branco, comprido, desgrenhado, casaco de couro preto coçado, calças de ganga pretas, barba de uma semana amarelada do tabaco, como uma estrela de rock sem cheta, a contar uma história a um homem da sua idade vestido de preto, roupas largas, de muletas, cabelo ralo, gordo, moreno, de aspecto muçulmano: logo no primeiro dia em que o barbeiro da Forno do Tijolo abriu portas na primeira fase de desconfinamento, um tipo bem-posto dos seus cinquentas foi cortar o cabelo com um miúdo giro, depois de ter cortado o seu mandou o indiano cortar o do rapaz, foi tomar uma bica, uma hora depois não tinha aparecido, o indiano perguntou ao rapaz pelo pai, ele respondeu-lhe que não era o pai dele, que era um desconhecido que o encontrou na rua e que lhe perguntou se queria ir cortar o cabelo com ele. Conclusão do contador da história: esta merda vai ficar toda igual. Risos. Doze e quarenta e cinco, mais poeira e mais ruído das máquinas das obras que recomeçam trabalho em frente ao hospital Dona Estefânia. Ruído ainda dos passos das botas na brita de dois militares que se aproximam de dentro da Academia. O sol em pino absoluto. As portas abrem-se. Um rumor humano. A fila avança. O mundo desperta, equilibra-se.

V, Teleobjectiva 70-300 mm do lado do Novo Banco, lentes despolidas, planos cerrados, perscrutadores.

Jardim Constantino, onze da manhã, chuva fina não coada pelas imensas árvores. Espaço praticamente vazio, cinzento, lúgubre, solo um pouco viscoso pelo escorrer de vinho e cerveja e sobras da festa recente, brilhante, ar purificado, leve, andadeiro. De volta do quiosque fechado e por de baixo do toldo que teima em estar disponível, seis indivíduos, uns protegidos com capas, outros no chão com cobertores ou o próprio casaco, um deles a comer qualquer coisa de um saco branco ao balcão teimoso, ainda outro de tronco nu dentro de um lençol, parece sacudir um casaco ou manto pesado. Perante a chuva fina a paisagem surge velada, a massa humana mesclada, mesmo assim um cão preto e de assinalável porte espeta o focinho para fora do seu caixote, junto ao dono recolhido.

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«Quatro horas antes eles não tinham tecto e eu morava nesta casa, e agora passa-se exactamente o contrário. Dir-se-ia que a pobreza obedece a leis cósmicas semelhantes às que regem o nível do mar; dá ideia que, se os corpos dos vagabundos que dormem nos bancos de jardim e nas salas de espera das estações ferroviárias não perfizerem um certo peso, o mundo é bem capaz de se virar de pantanas, cuspindo-nos pelos ares, desvairados, aos guinchos, a esbracejar, quais estrelas cadentes, até desaparecermos no vazio.»

William Faulkner, em PYLON, o livro no qual THE TARNISHED ANGELS se baseia. (tradução: Paulo Faria)


[Publicado originalmente na rubrica Sala de Projeção do site da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema: http://saladeprojecao.cinemateca.pt/casas-queimadas/]