quinta-feira, 16 de agosto de 2018

you got game!


 
 
He Got Game” é o grande filme de Spike Lee nos anos noventa, e o filme americano que melhor representa esse tempo. Em Portugal foi largado como uma foleirada para nerds directamente para as prateleiras dos videoclubes no saudoso porque vivo, orgânico, palpável, de autoimolação, formato VHS. Ainda hoje permanece um segredo a desvendar na sua plenitude universal que condensa feliz Michael Jordan e William Shakespeare, os Public Enemy, a Bíblia Sagrada e um movimento operático de rua que possibilita a aceitação de todas as formas cinematográficas revestidas pelo movimento da emoção – infinitas velocidades e ritmos e somente a velocidade e o ritmo únicos da emoção. Congrega, devorante, o esventramento de Jackson Pollock e um ressuscitar agora da arte contemplativa, contrastada e clínica de Andrew Wyeth; a alucinante realidade em primeiro grau de Auguste e Louis Lumière e o speed MTV redimido.

A narrativa começa básica e antiga como a sede de poder. Um pai que é libertado provisoriamente da prisão para tentar convencer o seu filho a assinar um contracto de atleta com a universidade que pertence ao governador que lhe pode reduzir a pena caso siga os seus intentos. Para deste modo a história se tornar trágica e complexa na aproximação do pai, do filho, e das várias santíssimas trindades que chegam do passado e escancaram o futuro. A nostalgia, os cacos do presente, a edificação e a luz – tudo em alta rotação. Num dos grandes momentos do filme o Pai revela ao Filho que o seu nome é Jesus não por causa de Jesus da Galileia mas antes porque muito depois desse existiu um Jesus das quadras de basquetebol que era a verdade, um Jesus da Filadélfia do Norte, um Jesus dos parques de diversão, dos recantos mais inóspitos do planeta. Um Jesus preto, mas um Jesus sem sombras para dúvidas. Um Jesus que também tiveram de abafar, mas isso já são outros quinhentos... o que Spike nos diz, bruto e carinhoso como o ser que educa, e já nos tinha feito ver isso no genérico fresco e bonito como uma primavera inaugural, é que o brilho precioso, o tesouro de qualquer progenitor, de qualquer pai de qualquer raça ou credo ou classe, a redenção de uma humanidade, pode acontecer nos berços de ouro de Nova Iorque ou de Lisboa ou num meio fétido plantado no cú do mundo que mesmo assim possa permitir a uma criança desenvolver o talento e a paixão. Trabalhando todas as horas como Jordan... sofrendo as chagas seculares... as humilhações... justificado.

He Got Game” está ao lado de “The Pride of the Yankees”, de “Bull Durham” ou de “Forget Paris” numa lista dos melhores filmes alguma vez feitos sobre desporto, mas acima de tudo dos que transcendem essa categoria para serem primeiramente sobre o respeito próprio (o self respect acatado e transmitido por Stallone na saga “Rocky”, outro dos melhores filmes de sempre). O Jesus Shuttlesworth de HGG, o recordista das divisões secundárias que não o conta a ninguém encarnado por Kevin Costner em BD ou o árbitro a morrer de amores de Billy Cristal vão com certeza cair nas mais diversas tentações para se manterem firmes na noção também mitológica de que se seguires o teu coração não trabalharás um único dia na vida. Obviamente a única via para o sagrado que não permitirá que se queira tomar banho mais cedo para ir dar uma queca ou snifar uma linha, largar o escritório antes das cinco da tarde, conseguir um atestado de baixa médica pelo amigo da amiga, contar os dias para as férias, querer ter férias... Em “He Got Game”, o filme que escolho para homenagear Francisco Rocha e o seu projecto de mãos vazias agora chamado My Two Thousand Movies, ninguém que aparece ali por inteiro tem um trabalho mas antes uma vida plena à Jack Kerouac ou à Huckleberry Finn, e quem levou a premissa original para lá dos limites acabou por matar a sua paixão e passar a penar nos infernos dos que demais amaram nesta terra das regras.
 
Parabéns, Francisco do Sobral de Monte Agraço, you got game!

quarta-feira, 8 de agosto de 2018



First Reformed, Paul Schrader, 2017

Dois grandes filmes recentes, não necessariamente inseridos na vinheta do contemporâneo, projectam pelos meios essenciais do cinema várias matérias da ordem do invisível: o encontro de almas, o som do silencio, as vozes do silêncio.

“Frantz” e “First Reformed” comportam atrás de si duas guerras diferentes: na do primeiro ainda se fazia ponto de honra em não matar pelas costas o oponente que calhou em sorte ser inimigo; na do segundo a cobardia, a carnificina e o passo seguinte do horror total impõe-se. Num e noutro o Pai insistiu com o filho para se alistar, os rostos dos sobreviventes adquirem a carne viva e defunta que sobrou dos estilhaços bélicos, adquire ainda o espírito do que tombou pelas suas mãos ou pela sua ordem, sendo a coragem a única via de uma possível salvação arrancada às trevas mudas de razão.

Em Ozon o ser que matou o próximo aproxima-se de quem chora a sua vítima e da impossibilidade lógica desse encontro brota uma luz improvável e preciosa composta da honestidade dessas emoções partilhadas que a todos cede um caminho.

Schrader faz o avanço possível do caos abstracto que se alastrou de “Taxi Driver” para uma espécie de novo mundo em êxodo, furado por novas pragas, pejado de existências cercadas nos poços da evolução terráquea, vislumbrando-se um Apocalipse capaz de deixar todos e cada um em estupefacção. O tema continua a ser o do Génesis, o embate com o Paraíso e os jardins do Éden sujos, imperdoavelmente vilipendiados, a expulsão eminente; para lá da rasura formal de Robert Bresson, a violenta austeridade original de John Ford faz os ajustes dos gonzos mestres da criação.

Mas para além da altercação oficial que legaliza e saca o sentido à morte, o Padre, o ambientalista e a sua mulher prenha são metralhados por duas guerras que ocupam todo o seu centro e interior: o silêncio divino, a noite na alma conhecida por todos os homens em todos os tempos, o desespero; e o mal que a raça concedeu ao mundo e à criação, desprezando a natureza, o sagrado. O imemorial e o novo feitos um só bloco de culpa. Irreconciliável.

Pode Deus perdoar-nos? É a pergunta capital para todas essas guerras. Sendo Deus a natureza, a viúva, os pais, ou o desespero. “Frantz” começa por ser negro dos interiores obscuros das casas até às águas brilhantes que não redimem, para o arco-íris complexo mantido na origem dos seres ressuscitar e devolver a ventura. “First Reformed” talvez termine com uma morte de uma atrocidade insuportável que antecipa a esperada desde a primeira tosse que lhe ouvimos, talvez termine com um sonho e uma ilusão, certamente abre para um nascimento.

O rosto dos quarenta anos de Ethan Hawke é um rosto velho e sofrido de falhas inadmissíveis que lá dentro sustenta um olhar de criança preso por finos liames indestrutíveis. Olhar puro que encontra a certeza da mulher prenha que quer seguir em frente rumo a uma união que só pode despegar desta terra e do nosso colete de forças cósmico. Da mais horrível imagem do cinema contemporâneo – o tecido preto da batina sacerdotal violado pela abjecção do colete de explosivos – vamos ficar a planar na dimensão do sonho, parente da coragem e da pureza que assim enfrenta o terror do aleatório que mata pelas costas.

“Frantz” e “First Reformed” abrem triturados, aninhados e sem atalho para a luz e acham qualquer resquício fundamental dela no acreditar mais básico, num acreditar de criança, uma irresponsabilidade que responde a um mundo virado do avesso e sem moral da história. Olhar puro, o verdadeiro Tema das duas obras.

«Bem-aventurados aqueles cujos caminhos são íntegros e que vivem de acordo com a Lei do Eterno!» - palavras que saem da boca do Padre, dos Salmos, do Fiódor Dostoiévski de Schrader ou veladas na libertinagem dos poetas dos amados de "Frantz".

segunda-feira, 6 de agosto de 2018



Frantz, François Ozon, 2016

A beleza imprevisível e intacta de "Frantz" para nada serve sem a transcendência da partilha; a incomensurável paisagem, a regeneração possível cedida pelo vento nas árvores, um brilho lancinante da água num lago, experimentados sozinhos, não têm a capacidade de florescer o espírito atormentado pela Guerra permitida pelos homens. Não apelam à revelação. Os dois seres mirrados, em deambulações ao deus-dará, que desde o início são puxados um para o outro em terreno hostil e por uma presença física que não existe, só alcançam o sentido da existência numa impossível comunhão com o passado ou nessa potente luz que vai emanando da verdade da assunção dos sentimentos; uma verdade que não está nem nas palavras nem nas intenções mas sim na presença e no presente inteiros, trabalhando no coração do próximo rumo a futuras primaveras; os olhares sem freio, o rosto descarnado, a entrega despida são as sementes e o sol garantido para todas as próximas temporadas.

Assim, as cores podem brotar nos resgates do que já não pode advir, mas também oferecer o milagre de quem ousou a coragem e o passo para o abismo ao invés da segura razão. Compaixão, compreensão, perdão. E finalmente o amor. Talvez aquele amor para lá de tudo que alguns chamaram Omnia. E que permite que de um quadro suicidário de Manet surja o espectro fulgurante das chamas de todos os futuros amanhãs. Para lá das teorias ou das dialéticas, com a bênção do Ernst Lubitsch de “Broken Lullaby” e o trucidante paraíso virgem de cada entrega no absoluto.

François Ozon e os resgates de uma graça indescritível e silenciosa que já parece fazer parte de um mundo irremediavelmente perdido e só entrevisto nos velhos sonhos.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Rui Chafes sobre Cavalo Dinheiro




Para lá das nuvens, auscultando o etéreo, e com todo o peso e fatalidade terrestre. Uma gravidade insólita.

domingo, 22 de julho de 2018

Cavalo Dinheiro em Bracara Augusta




A arte brutal de Rui Chafes ressuma do choque entre matérias brutas. A mão e as sinapses do artesão em luta contra a substância resistente. Prumo e esquadria defronte do fogo-fátuo e do gelo. A paciência. O tempo como único aliado. O olhar indesviável. Moléculas. Bicharocos. Deformações cósmicas. Ferragem orgânica. O diálogo com a morte. Chafes busca a redução como a única via para a transcendência. Clangor final do universo pacificado. Pedro Costa, o realizador, trabalha com a bruteza da memória e da sensibilidade de gente real comungando da mesma brutalidade. Gente real que para a raça dominante é somente pó.
 
Ambos carregam um mundo consigo – a catedral do metal e a parte lendária do povo. Sobre isto António Reis, o poeta, escreveu:

Aquele homem que ali vai e que tu vês,

é um atlante.

Um atlante, sim! Suporta um mundo enorme!

(tão grande, como não podes imaginar...).
 
Cavalo Dinheiro é pura electricidade, confronto com o fluxo original das sombras; escorre de cada partícula da carne ou da palavra alta tensão; electricidade sanguínea, alta voltagem geral, decibéis, nervos, relâmpagos. Olhos a escorrerem água e faíscas. Membros programados para embater no império do medo. Nobuhiro Suwa, trabalhador próximo, comparou-o ao afinar delicado de uma guitarra. O melindre do toque, do ajuste ínfimo e essencial entre a matéria do humano e a matéria da luz, tudo o que sabemos.
 
Dos espelhos de Juventude em Marcha e da luta longínqua da figura contra o seu fundo vamos ser queimados por superfícies aterradoras de compostos visuais puramente físicos e puramente maquínicos, combinações de carne e de sangue com pixels vergados, o acabado peso do silêncio e a revolução expressionista reinventada num passado de mortos inaceitáveis. Os olhos, a pedra, as curas, os anjos, o sussurrar, a magia, as lápides, energia e epiderme no comprimento de onda do "Star Spangled Banner" de Jimi Hendrix ou dos rios cegantes de Conrad. Não paradoxalmente, Costa busca nessas ondas contíguas a redução como a única via para a transcendência. Cavalo Dinheiro é uma hecatombe comprimida.

Ainda absolutamente Fordiano. Mantém o homem no centro e toda a descarga voltaica é questão de justiça. Vamos ver melhor, vamos ver o fogo desta gente mítica e real. Do interior para fora. Os seres, o Ventura, a parte que vai continuar a ser espezinhada é a parte original. Os olhos choram e fuzilam. Os membros e a verve prometem guerra. E unidos vencidos vencerão. Ventura continua tão enorme despido contra um tanque de guerra ou na máquina do tempo terrorífica do elevador tal como todo este inaudito big-bang apenas purifica a essência. Que continua a ser o que podem os homens. Depois de todas as mentiras terem sido contadas, passadas as chacinas e as revoluções falhadas, ainda um grito de resistência.

Cavalo Dinheiro passa na próxima terça-feira em Braga pela segunda vez; urgem os choques eléctricos das reposições e do amor escondido na noite.

Com apresentação de Chafes, o magistério do tempo e a visita do divino.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Marlowe... Burke Devlin... Joe Gillis... Ben Bradlee...




Nunca “choraremos” demais (uns happy fews...) as fabulosas personagens de detectives ou de jornalistas incorruptíveis e fumadores como se não houvesse amanhã que o professor Carlos Melo Ferreira foi recusando aos seus alunos em filmes de género que nunca saíram do papel ou que ficarão para sempre envergonhados nas poeirentas gavetas ao abrigo de qualquer investigador...

Mas dos filmes de Pedro Costa ele sempre aceitou falar em conferências ou nos cafés e escrever muito, mesmo que nas aulas fosse ultra misterioso e fascinante a respeito deles, como se para conservar todos os segredos, elipses, não-ditos dos monumentos – não usurpando o significado daquela preciosa palavra americana milestones que só brilha se não cair na rotina.

«Vejam, e formem a vossa opinião. Depois conversamos.» Dizia classicamente, para que ninguém andasse a falar do que não sabia ou a papaguear opiniões alheias. Mas ele escutava sempre mais do que falava, pelo menos sobre Juventude em Marcha.

Porém desta vez permitiu-me filmá-lo e para mim foi como se tivesse concretizado um pouquinho de todos os noirs ou policiais conjuntos com que sempre fui sonhando.

Thanks, sir!

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Juventude em Marcha em Bracara Augusta



O meu encontro com Juventude em Marcha aconteceu no Outono de 2006 na semana da estreia em Portugal. Em plena cinefilia destrutiva e farto de escutar dos professores que o cinema é uma coisa cara e para os “escolhidos” alguém me mostrava que com uma câmara digital perfeitamente banal aliada a uma pesquisa sobre essa nova tecnologia (codecs, color correction, masks, CCD vs CMOS, etc., a confusão aproximava-se mais de uma patologia recentemente descoberta e sem cura à vista) num vórtice sempre a confundir-se com o amor mais acabado se conseguia alcançar a desmesura e a dignidade de John Ford.

Entrar no filme foi um soco seco no estômago oco. Primeiro apareceu o som no negro, um rumorejar humano algures e um vazio atordoante, logo coisas a caírem, depois veio a imagem, umas ruínas e um céu tão negro que devorava tudo, imediatamente objectos monstruosos a serem largados por uma janelinha, o seu cair a ensurdecer o mais surdo, a pequena luz bruxuleante que pelo filme todo tentaria alumiar a escuridão de um bairro condenado, uma luzinha a tentar salvar o que podia, a tentar deixar ver, fazer justiça – este era o primeiro plano e o cinema na minha cabeça a redefinir-se, pareceu-me o primeiro plano que alguma vez vi.

Pasmo que não se quebrou até ao último plano, em que Ventura, o heróico Ventura filmado por Costa com a mesma dimensão e aura com que o maior dos cineastas filmou Woody Strode, o Sargento Negro, em Sergeant Rutledge, se encontra no centro de uma cama que parece uma Via Láctea numa postura ao mesmo tempo livre e tão hierática como uma estátua de Michelangelo, e uma criança absolutamente estupefacta por tal visão, no cantinho inferior direito do derradeiro dos enquadramentos sem margem para dúvidas, tentando aceder ou escalar uma montanha; depois outra vez o negro e um vento que só pode ser o inaudito das revoluções e das fidelidades.

Pelos meios dos 155 minutos fui percebendo que um rosto comum ou a maçaneta de uma porta de contraplacado sem qualidade, um quadro Bíblico de Rubens ou a Vanda Duarte mais inchada a falar de fraldas têm de ser respeitados e trabalhados da mesma forma, com o mesmo empenho e fé – qualquer dos quadros me apresentava o peso de séculos, a espessura do eterno, o tempo sem tempo, o fatal presente. E uma inocência que despertava no espantoso e imprevisto movimento de câmara nesse anfiteatro novo e mesozoico da Gulbenkian que ia das árvores para os bancos a misturar todos os elementos e prosseguia até ao sumptuoso rasgar de uma barca entre nevoeiros e aparições, a aurora de Murnau oferecida aos deserdados.

E as cartas a uma mulher escritas e reescritas mais uma e outra vez até às estrelas que nunca vamos ver mas que brilham até ao fim... o sofá vermelho à porta de casa com o fato negro e a postura certa traçadas pela força expressionista do Fritz Lang de aço... o compasso lento e supersónico de uma tensão vital entre as trevas brancas e os esconderijos luminosos... o choque entre o asseptismo abjecto das habitações modernas e a escuridão das velhas barracas a cederem a possibilidade da comunhão e da partilha... a desmultiplicação dos filhos, do pão e das dádivas.

E assim a maior das dádivas foi conhecer toda uma outra parte do mundo e de uma humanidade e ficar a saber que com o nada se pode fazer tudo. Depois fui descobrindo em sucessivas revisões que Juventude em Marcha contém a épica de Hollywood e a intimidade dos grandes amadores. Quem me indicou o filme foi o professor e “Hawksiano” Carlos Melo Ferreira, que secretamente quase implorou a trinta jovens com sede de acção e muitos deles “Godardianos” a irem ao cinema ver uma obra com tal título e figura enigmáticos.

Por muito disto e pelo muito que não percebo nada, é um dos filmes da minha vida.

Juventude em Marcha passa amanhã (terça-feira) no LUCKY STAR - Cineclube de Braga com apresentação em vídeo de CMF.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

No Quarto da Vanda em Bracara Augusta



Parafraseando Truffaut acerca de Abel Gance, hoje em dia Pedro Costa liga a câmara na sua terra e em frente aos seus e já só sai poesia; poesia sem género arrancada aos dias e noites de rodagens consecutivos em meses e anos inaceitáveis para o “cinema normal”, arrancada à noite, ao sono, cavada na noite, no suor, no sangue, na luz, na pedra, estripada à tecnologia e aos filtros profissionais em transplante milagroso, aos reflectores de supermercado; tempestades de uma intensidade precisa e inegociável.

Mas houve um tempo em que tudo era desconhecido, terra queimada, susto, um homem e uma mulher na solidão do derradeiro jardim, a guerra, e nisso a possibilidade de recomeçar de novo, tudo, o cinema, uma moral, uma humanidade.

Na terra queimada escutou-se um passo para o abismo, com os ditos drogados, indigentes, a escumalha para queimar que não interessa a ninguém, agarrou-se na tocha pioneira de Griffith, na talocha de um pedreiro do Gênesis e na fúria silenciosa de Faulkner (cada vez mais e visto à distância é o fogo primordial desta obra gigantesca) para obter formas, cores, as escalas de um Rembrandt.

Nos lámbios desta nova e banalizada raça digital, há alguém que dedica todo o tempo do mundo ao outro e não grita isso; antes ou depois das festas promocionais, fora de moda.

No Quarto da Vanda, a obra do século XXI, passa hoje em Braga.

terça-feira, 3 de julho de 2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018




Breathless, Jim McBride, 1983
 
No vídeo de apresentação ao Breathless americano o seu realizador conta-nos demoradamente a sua quota-parte numa das narrativas mais fascinantes e trágicas da história de Hollywood – a luta entre os realizadores e os estúdios, os autores e a indústria, a visão pessoal contra a necessidade de vender bilhetes e pipocas. Jim McBride esteve na Cinemateca Portuguesa a 2 de Maio do presente ano para introduzir a sua primeira obra e conversar com o público. Não no âmbito de qualquer retrospectiva sobre a sua multifacetada carreira, não como homenageado num festival qualquer – apesar do director da Cinemateca, José Manuel Costa, ter referido que a McBride cairia como uma luva o rótulo de herói independente no Indielisboa que acontecia por aqueles dias – muito menos por estar a tentar realizar um filme no nosso país, mas sim porque veio visitar Portugal e tinham-lhe falado muito bem dessa instituição. Foi ele mesmo a mandar um email, a pedir encarecidamente que lhe dessem a honra de mostrar um dos seus filmes em tão mágico lugar.

David Holzman's Diary foi então a escolha, que José Manuel Costa considerou uma das primeiras obras que mais marcaram o cinema desde aí, filme independente não por moda mas por vontade irrefreável. A introdução do realizador foi breve, simples, right to the point: como em 1967 ele não imaginava o mundo da blogosfera, do youtube, dos facebooks ou do instagram, e inspirado pela revolução da nouvelle vague francesa – a sua obsessão definitiva, como estamos a perceber – e aproveitando a nova leveza dos meios técnicos, decidiu ficcionalizar um diário, com uma certa distância mas metendo lá dentro muito da sua vida e experiência. Convidou amigos, captou o seu quarto e o seu tempo, fixou as rotinas e os rituais de uma geração e de uma época, saiu para a rua e foi ao encontro do outro, deu a entender e lançou para futura análise o ar daquele presente, do existencialismo ao Vietname. Isto disse ele e disseram alguns dos poucos espectadores de uma sessão que não foi badalada, sessão a que ele assistiu sem “problemas de consciência”, tendo sido consensual que o Big Brother não trouxe revolução nenhuma e que um gesto destes já continha em filigrana e terrível o embrião desse monstro anestesiante da preciosidade de cada ser, antecipando-o sem a sua abjecção. Visto hoje, o filme pode até já não ter o impacto da época, a frescura da descoberta sem aviso, essa intimidade e despudor chapados no ecrã que em 67 não estavam profanados, mas além de uma delicadeza e de uma verdade intrínsecas no instante sagrado, quando a câmara sai largada porta fora e se torna puramente observacional, ontológica mesmo, entregando-se às gentes e aos seus espaços num registo puramente etnográfico de quem quer conservar a memória envolvente, o esquema e a estrutura despegam para a emoção do descerramento de um artefacto humanista e por isso mesmo inigualável. Na dura Needle Park à beira dos anos 70 e nos seus passeios próximos redescobrimos espantados toda uma parcela do mundo que tanta ficção tentou emular, tal como quatro anos depois em The Panic in the Needle Park, um tocante filme de Jerry Schatzberg que como este prova que a ternura não tem palco, nem raça, nem condição estabelecidas.

Voltando a Breathless, que foi aparecendo durante toda a conversa como o ponto de maior estupefacção na sua caminhada, e regressando às descabeladas e maquiavélicas aventuras oferecidas pela meca do cinema a quem tem uma ideia contrária ao sucesso vigente, McBride apareceu diante dos poucos mas bons que decidiram perder a última novidade ou o primeiro premiado em grande forma, absolutamente jovial e leve, risonho, simpático e a falar com qualquer um, inclusive num português bem aceitável para quem teve um ano de aulas nos anos oitenta. Ficando-se a saber da trucidante aventura que foi concretizar o remake da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, esperar-se-ia uma figura taciturna, talvez mesmo uma personagem na defensiva, o artista maldito ainda e sempre vergado por uma cruz que carregou e levou a um porto tramado, mas nada esteve tão longe de qualquer desses clichés. Forever young, acompanhado da esposa, de um filho e de uma filha ainda jovens, estivemos na presença de um puro saído de um filme de Frank Capra, um Mr. Smith ou um John Doe no que ao coração diz respeito, lembrando o James Gray que há uns anos apareceu no festival Lisboa / Estoril com uma ninhada de filhos a agarrar-lhe a gabardina enquanto este contava a rir-se as suas lutas com os executivos televisivos que rapidamente o despediram. O tipo de sensibilidade, de desprendimento e de humor de quem foi percebendo as regras do jogo, o significado das pequenas mas únicas vitórias que importam, as mãos limpas e a grandeza de quem não sugou o sangue oferecido em bandejas douradas mas antes resgatou o brilho e a redenção essenciais de arenas tão retorcidas. Homens que saíram da elevação do cinema clássico americano para as terríveis aventuras do cinema moderno, não vendendo a alma ao diabo. McBride filmou com dinheiro, sem dinheiro, com a película de 16mm e a câmara na mão emprestada e a ferver de ideias mas também com stars e muitos camiões de produção, deu o seu toque a um episódio de Six Feet Under quinze anos depois de ter caído na The Twilight Zone. O esfomeado que se perdeu de amores pelos falsos raccords, pela energia renovadora e pela juventude de Godard ou de Truffaut é ainda um dos últimos representantes da dura cepa dos valores de John Ford ou Howard Hawks. Sem resquício de bazófia ou de ressabiamento, apreciando nos dias de hoje em que não vai filmando tanto Wong Kar-Wai como Nuri Bilge Ceylan. Nascido em 1941, é um iniciante.

«About the future, which I don't know, you don't know! Nobody knows it! So fuck it, roll the dice!»

Quando se sugeriu a McBride a realização de um double bill em Braga com os dois Breathless a sua humildade voltou a dar cartas, disparando imediatamente que talvez fosse uma seca para os espectadores, ver a mesma história duas vezes... E apesar do fascínio, da admiração de fã número um ou da aproximação sempre imprevisível ao monstro sagrado – Mc contou ainda que uma vez falou ao vivo com Godard mas ele, já taciturno, quase só deu os bons dias – não existe nada de reverência contraproducente ou de citação fácil – mesmo que se prove que a iconografia e a carga explosiva está do lado de Pierrot le Fou, não vai ser Rimbaud a esbracejar mas algo bem mais instintivo e primário. Godard, nos seus filmes e nos seus escritos, ensinou muitas vezes como amar os «bons americanos» - de John Wayne a Manny Farber – e o filme de 1983 tem orgulho disso. Richard Gere emula Jerry Lee Lewis e baila com Sam Cooke, imita Jesse James ou os vertiginosos de Gun Crazy do filme de Joseph H. Lewis para encontrar a polaroid, o super-herói ou a verdade crua e espampanante de si mesmo. O movimento geral e a electricidade não vão sobre os trilhos e estrilhos do jazz modernista ou da pirotecnia estilística mas antes desliza na Americana clássica da velha Hollywood de fundos falsos, céus encarnados a fogo como os sentimentos em causa ou espalhando magia pela escala de planos infalível dos tarefeiros – e neste ponto a participação, as viagens e a poética fascinante do texano L.M. Kit Carson no argumento serão decisivos; Americana que não significa nostalgia vácua, muito menos mediação simbólica, antes fusão e luta com os quadradinhos da banda-desenhada cósmica que se debate entre o amor mais puro e a liberdade do absoluto, embate com o precioso cinema ele mesmo nessa cena orgástica em que o fugitivo possui a miúda na parte de trás da tela, numa assunção dessas imagens e sobretudo dos diálogos míticos mas também numa violação desses códigos e da subtileza de uma arte que sugeria mais do que mostrava, respiração frenética do beatnik de Kerouak torcendo e digerindo as ondas jazzísticas. De Las vegas, passando pelo deserto até Los Angeles e suspirando pelo México com o mesmo fôlego ou falta dele com que Jesse deseja a miúda francesa – a devolução principal de Mc a Godard – o Breathless de 83 é uma obra puramente americana e que mete em causa toda essa mitologia. Um filme com tomates, como tudo o que é singular.

Sob o signo de um nova Americana que aglutina e mete em guerra o classicismo e a Nova Hollywood dos anos setenta, mas capitalmente sob o domínio ou a tragédia da figura primitiva do hustler. Que pode ser o citado Jesse James, Theodore Roosevelt, o Paul Newman do filme de Robert Rossen, Michael Jordan, Sean Combs ou qualquer um dos biliões de anónimos nessas pradarias ou bilhares que perderam e dobraram a parada. Para mesmo aqui a questão e a moral ser fugidia, ambigua, sem centro, em dialécticas essenciais, precisamente actuando à maneira dos hustlers originais – cowboys ou matadores, colonizadores ou índios – ao exemplo da inacreditavelmente bela e perigosa cena da piscina, em que ele assume a ela o “tudo ou nada” do seu credo, para lá do “tudo” ou do “alguma coisa”; ou, talvez ainda mais sintomático, quando William Faulkner é contradicto para se preferir o “nada” à “dor”, chegando-se mesmo a utilizar o maior escritor americano como quem ousa cortar a rede do abismo sexual. Pelos fundos barrocos ou pós-modernistas de neons tipicamente anos oitenta, composições fotográficas ludibriantes ou ruínas plásticas, estamos mais uma vez no Romeo and Juliet de Shakespeare e soterrados na profusão de símbolos, estampas, iconografias e lixo dos novíssimos tempos. Talvez por aí o mais bonito, a dádiva deste remake parido viciado e virgem a um mesmo tempo, seja o movimento da bela, da Monica Poiccard feita por uma Valérie Kaprisky bazada da idealização da BD para a carne bruta desta paisagem suja, aura total utilizada assim por uma única vez: inicia-se cheia de medo, a tremer e a pedir ao delinquente que se vá embora, “não fode nem sai de cima”, preservando as cunhas e as saídas profissionais a todo o custo, para... lentamente, percebendo e vendo o incêndio no corpo e no espírito do Jesse ressuscitado do mito e da lenda e do pó americano, se entregar toda e nada como no mundo do cinema, esticando a ilusão até ao tiro final que como nas fitas irá ficar suspenso. Suspensão e fôlego, são estas as velocidades e o tempo que importam. Obrigado pela coragem, Mr. McBride. E volte sempre que quiser.
 
(texto escrito para o LUCKY STAR - Cineclube de Braga)

sexta-feira, 8 de junho de 2018



That Cold Day in the Park, Robert Altman, 1969

Logo um ano depois de Robert Altman ter sido despedido do seu primeiro filme feito para cinema – no meio de dois machões, James Caan e Robert Duvall e o sonho da conquista lunar e da competição my penis is bigger than yours – por causa de sobrepor diálogos e tentar fazer coisas nunca antes tentadas em cinema num “Countdown” que podia ter sido muito melhor, o cineasta por tantos considerado outro machão sem par fechou-se com uma mulher no seu mundinho, e quando a largava numa narrativa gelada mas carregada das mantas da música das revelações primeiras da infância, era só para obter ainda mais reflexos dela. Só uma dica aparte para quem quiser tirar um curso de direcção de fotografia de borla: László Kovács, o mestre dos road-movies, ilumina e desperta cada partícula (interior que resplandece para nós) desse mundinho pequenino que é a casa das bonecas assombrada de Frances em constante epifania (existe outra filmada retoricamente dessa forma para vermos o contraste entre o real e o simulacro); tal como no “Brewster McCloud” posterior o igualmente genial Jordan Cronenweth e Lamar Boren reteram do chão e de toda a atmosfera viscosa cada ruga e cada fedor de metano dos sonhos do petróleo americano e das ilusões supremas em plano-sequência.

Há muitos muitos anos um jovem inconsciente fez a sua primeira grande viagem sem família, acompanhado pelos colegas de turma do nono ano português, todos eles finalistas e meios à deriva numa insularidade atordoante. A ilha em causa e a sua humidade ainda puxavam mais à transgressão ansiada, mesmo que não se saiba bem porquê e sem obrigações quase todos tivessem ido ver “La vita è bella” de Roberto Begnini”, fonte de purificação. Houve naturalmente perseguições inacabáveis nas ruas entre locais e continentais, espreitadelas nos duches femininos e jogo da bola, mas sobretudo uma primeira noite acordada com muito barulho, algumas garrafas e saltos na cama. Como fazíamos parte de um colégio de uma certa ordem religiosa, um colégio de freiras, veio a primeira das nossas acompanhantes meter ordem no galinheiro, uma freira alta, espadaúda, feia e arrepiantemente masculina, aquela que ensaiava connosco as músicas para a missa - “poe tua mão na mão do meu senhor da galileia” - e era a existência exemplar; espetou sem dó nem piedade uma estalada ao melhor amigo do jovem inconsciente e tudo acabou num milésimo. Sem saber o que fazer, já cada um no seu poleiro, cama desfeita, entra mansamente a nossa segunda acompanhante, completamente oposta à primeira, a quarentona loira, ousada no cigarro e no andar e no decote, olhar selvagem de doce, aquela senhora a quem dizíamos meia dúzia de palavras entre o corar e que só estaria no colégio por causa de boas famílias ou da inteligência irrefutável. Fez a cama ao rapaz, possantemente e delicadamente que até dói, disse “para esquecer”, deu ou pareceu que deu uma carícia, e deu boa noite. Tinha de ser tão longe de casa e de modo tão estranho que a religião livre da bondade me fazia a apresentação, me entregava a ficha de inscrição e a recolhia assinada.

“That Cold Day in the Park” é esse tal filme que poderia ser muito simples se as regras do nosso jogo não tivessem sido tão viciadas, no qual uma mulher sozinha numa grande casa sem propósito percebe que pode convidar para ela um jovem que foi vendo à chuva todo o dia não santo das suas janelas. Começa muito simples, muito franco, a câmara singela a seguir os bons sentimentos e o filtro do silêncio a envolver tudo. Ela quer fazer bem ainda sem saber porquê, ele faz-se de mudo e lembra um animalzinho. E de repente parece que estamos numa versão muda e com a psicologia desse período do cinema do “L'Enfant sauvage” de Truffaut. Mas como a mulher continua a falar, e a falar..., e o jovem tem uma segunda vida que ela desconhece, essa atmosfera abstracta, vacilante, carregada de desfoques e de falta de nitidez, de atalhos errados e de traçados desnecessários, dessincronias não planeadas, começa a desprender-se dos medos que vamos conhecendo à mulher, dos seus traumas, da sua teia confusa, do seu nojo, e da sua ausência de idade. O que estava a ser tão puro, lentamente, fica viciado sem domínio. Existe um instante fulcral, ela a despir-se toda – sem tirar uma única peça de roupa – para ele, mas no lugar dele só aparece a sua imemorial boneca já desmembrada. Se ele lá estivesse e escutasse talvez tudo pudesse encaminhar-se diferentemente e ao ministério do silêncio se juntasse umas harpas da harmonia. Mas as sombras, os cristais cegantes, a ínvia naturalidade das coisas e dos percursos conduziram a esse instante e tudo convergiu para a torção final nos infernos dos inocentes. Como quando se pensa que um segundo a mais ou a menos teria evitado a hecatombe. Altman é um dos grandes cineastas do não-linear, da recusa da atracção molecular e da sintonia, da refutação das regras quânticas que nos unem e nos separam aplicadas à alma - toca a perfeição e a condenação, não acaba a experiência com um relatório definitivo a passar álcool nas mãos: é o plano final de horror e compaixão.

Se a professora à primeira vista não-exemplar, mas só à primeira, não calhasse passar pelo quarto do jovem inconsciente... Se a freira tivesse vencido e convencido para regressar em breves e infinitos futuros... Se... Se tudo se tivesse passado ao contrário e o dístico das aparências obliterasse a catedral da verdade, talvez, porventura, uma faca final como aquela de “That Cold Day in the Park” tivesse adensado mais um pouco o silêncio da perdição inconsciente.

terça-feira, 5 de junho de 2018



À bout de souffle, Jean-Luc Godard, 1960

Jean-Luc Godard, o mais romântico e lírico dos críticos franceses da Cahiers du cinéma que no final dos anos cinquenta passaram à realização, segundo a opinião de João Bénard da Costa no primeiro dos catálogos da Cinemateca Portuguesa a ele dedicados. Godard que com À bout de souffle inventou e arrancou no contrabando o mais avant-garde dos petardos da Nouvelle vague que influenciaria inúmeros realizadores e artistas futuros, de Jim McBride a António-Pedro Vasconcelos, passando por Quentin Tarantino ou Wong Kar-wai. Que posteriormente teria períodos inclassificáveis numa obra inclassificável e estratosférica, desde a fase maoísta até se unir a Jean-Pierre Gorin e outros camaradas no Grupo Dziga Vertov, viajando até aos quatro cantos do mundo, de África ao Brasil, procurando a massa e os ecos de uma revolução política e artística. O JLG que flertou com Hollywood e sonhou com a sua reversão, que daí e de muitos outros lugares fugiu a sete pés para se enfiar em laboratórios revolucionários onde faria as mais impossíveis experiências com imagens e sons, sacando e testando raccords utópicos, revelando-nos ilusões e traçados possíveis, escancarando ou entrevendo as portas de novos mundos e linguagens... o intelectual furioso que à maneira de um James Joyce se apropriou da palavra gasta, da tecnologia, da filosofia, da história, da ciência, para ir muito além do conhecido, forjando limites e fronteiras... Puissance de la parole. O cinema e todas as histórias, inclusive a nossa, no monumental Histoire(s) du cinéma, uma das grandes obras do século XX, só comparável a Picasso ou à conquista da lua. Os emocionantes ensaios de poucos minutos, encomendas, cartas a amigos ou a falecidos, Dans le noir du temps... Tribute to Éric Rohmer. Jean-Luc Godard, que recentemente, depois de há muito usar o vídeo sem legislação alheia, enveredou pelos sinais, ondas, cores e combinações mais esconsas e oblíquas das 3 dimensões. O “eremita” que no passado festival de cinema de Cannes cumpriu a sua conferência de imprensa oficial via video-chamada, para deleite e espanto dos presentes e ausentes. Seriam precisas centenas de folhas biogáficas e hagiografícas para se começar a entender ou a perceber um pouco de toda esta complexidade, mas acreditando que cada um tem o seu Godard e o entende à sua maneira, fica-se por aqui. De resto, a irresistível juventude das suas primeiras obras, das cores às mulheres, são uma das primeiras e mais carinhosas lembranças de qualquer cinéfilo, estudante de cinema ou curioso. 

O filme de hoje será o último do nosso ciclo de cinema Francês, ponto de chegada de tanta experimentação e poesia até à sua data e constante inspiração até aos dias de hoje. Muito se escreveu, se estudou e comparou a propósito de À bout de souffle, desse filme breve como uma bala perdida e jovial como os primeiros amores, dedicado à Monogram Pictures que produziu filmes por tuta-e-meia de um Budd Boetticher, e de resto o nosso vídeo de apresentação no qual temos a honra de escutar Joel Yamaji já tudo isso nos resume, fornecendo-nos novas, pessoais e humanistas luzes nesta actualidade dominada pela vontade de poder e de falso brilho a custo de guerra mundial. Peça com diferentes velocidades, à imagem das reduções gripadas numa caixa de mudanças faiscante ou aos fôlegos arrítmicos de uma caixa torácica de limites excedidos em vícios ou em demasiada saúde, a oposição natural e trilhante entre um solo distendido por muitos minutos num quarto de casal improvisado e provisório em relação com os sopros e nervos dos fogos-fátuos das fugas, não fazendo sentido tal andamento sem o seu oposto. Gesto artístico e selvático que preferiu o fluxo sanguíneo à encenação e à idealização, a febre ao controle, a intempérie e infiltração da alma e o perigo da perdição ao racional e à lucidez dramatúrgica, pessoal, industrial ou outra para qualquer caso, soltando a máquina de filmar, a montagem e vergando toda a atmosfera para os estremecimentos em causa, sob o ritmo do Jazz em equilíbrios precários numa corda bamba absoluta, arestas cortantes, desarmonias vitais, síncope acossada, como o título português e a perseguição deste mítico filme. 

Obviamente que a partitura de Martial Solal é decisiva e descarna ainda mais as ruas, as personagens bamboleantes, os ínvios caminhos, a colagem modernista; é ela o motor do descentramento, o pistão que se solta da engrenagem e que reduz a cinzas a gravidade conhecida no terreno. Tudo isto, esta pressão entre as massas concretas dos meios e a metafísica desprendida dos corpos e dos cérebros, funde directamente com Miles Davis, desta época o artesão e artista que tanto se poderá ligar a Godard. Na monumental História do Jazz erguida por Ken Burns em 2001, define-se assim Miles: «Davis tinha apenas vinte e três anos em 1949 quando começou a frequentar o apartamento de Gill Evans. Ele queria encontrar uma nova moldura para o estilo distinto e introspectivo que estava a desenvolver. Bem, Miles tinha de encontrar um som, um estilo que contivessem a delicadeza da sua natureza. Ele mantinha a aspereza cortante lá dentro. A sua música não era chorosa nem fraca. Porém, tinha uma nova delicadeza. Um sentimento que faz o romance aflorar e o transmite às pessoas. É um som bastante delicado para ser de um homem. Lester Young, antes dele, era assim. Miles tem uma vulnerabilidade e não teme partilhá-la com quem o ouve. Quando ele permitiu que essa vulnerabilidade permeasse o seu som, a sua música tornou-se irresistível.» 

Para além da possível boutade, consegue-se arranjar paralelos para cada uma das comparações: também Godard frequentou apartamentos decisivos, mesmo que só com a sua caneta, o de Renoir e o de Rossellini, depois Fritz Lang como seu actor ou estátua, obtendo neles toda a frescura e liberdade; uma delicadeza, uma sensibilidade e uma aspereza cortante que segue da lembrança de Jean Vigo como do trompete para a câmara e para as convulsões de Belmondo, mais à frente para os grandes-planos de Anna Karina, chegando à ficção-científica toda nesta terra e não na lua de Alphaville; sem choro, nem fraqueza, mas sempre introspectivo, desbravando sendas dadas como seguras e combinando o que tem propensão para se afastar, nos anos 80 planaria pelos altos voos filosóficos mas mesmo assim cacofónicos de Passion até Prénom Carmen, atingindo eternos retornos e avessos na Nouvelle vague, já nos anos 90; Miles, que na sua missão desconhecida tocou no rock'n'roll, na electrónica, no noise, tirando o trompete de base ao jazz, também foi desconcertando todos os seus admiradores, seguidores ou puristas, em fusões e choques perfeitamente produtivos, isto é, esfomeados de humanismo, com todas as sensações; mas de tudo lhe chamaram, mal tratado como um suposto maluco ou chico-esperto, mano de Godard, não lhes perdoando supostos visionarismos ou atitudes herméticas. 

Uma certa delicadeza e uma certa aspereza. Um certo lirismo e nervo. Contemplação desassossegada. Nem mais. Cada um que aproveite e use o que quiser. Que deite fora. Recuse. Se aproprie. Que se salve. Contradiga. Redima. Se perca. Todos os caminhos em aberto.
 
(texto escrito para o LUCKY STAR - Cineclube de Braga)

quarta-feira, 30 de maio de 2018



Tirez sur le pianiste, François Truffaut, 1960

François Truffaut, o enfant terrible da nouvelle vague Francesa. François Truffaut, o mais violento dos críticos da geração de Jean-Luc Godard ou Jacques Rivette, que antes de passar a meter a mão na massa da realização atacou uma geração anterior de realizadores do seu país acomodados ao prestigio e à qualidade literária, aos grandes meios, o tal “cinema de papa” conivente com a ocupação nazi explicado e desmontado no mítico artigo dos Cahiers du cinéma nº 31 apelidado “Une certaine tendance du cinéma français”, dado ao prelo em Janeiro de 1954. O protegido do pai de todos os que escreveram e não escreveram nessas revistas, André Bazin, O crítico. Há todo um universo Truffaut que chega da sua infância contada e recontada pela pena ou pelos seus filmes, quase trinta até falecer precocemente com 52 anos em 1984, até às suas grandes aventuras privadas com as mais belas actrizes e não-actrizes, passando pelas amizades com grandes mestres como Roberto Rossellini ou Alfred Hitchckok – cujo livro-entrevista partilhado é o saint graal da cinefilia – até servir de actor para Steven Spielberg no fabuloso Close Encounters of the Third Kind, dádiva e concretização de um sonho escrito algures na parte mágica da sua efabulação incomparável pela mão do generoso cineasta americano. Há vários Truffauts, todos eles convergindo na emoção, numa emoção violentíssima porque interessada nos abismos da paixão, do amor louco, até aos delírios vomitados da sua impossibilidade e finitude. 

Sempre surpreendente, começando por fazer filmes uns contra os outros, gestos antagónicos, tentando desse modo atingir o essencial nos mais diversos espaços, épocas e tons, que exemplo mais claro do que comparar a sua longa-metragem inaugural, Les 400 Coups com o filme que hoje vamos ver, Tirez sur le pianiste, realizado logo um ano depois dessa data de 1959 tão fundamental para a história do cinema? A primeira foi a biografia filmada, terna, filmes e livros no centro, cheia de nostalgia e de um pudor ferrado, almejando a veracidade mas amando a aura cristalina, dando ao escuro lancinante Jean-Pierre Léaud para o seguir para sempre, até hoje. O segundo, que num certo sentido paga mais dívidas ao cinema do que o primeiro, é a carta de amor aos realizadores americanos que tanto marcaram essa geração, realizadores que eles trataram como ninguém, mostrando a sua importância e génio inclusive aos mesmos e a essa nação, amor ao filme noir – termo inventado pela crítica francesa – e à literatura policial, aqui segundo o poet of the losers David Goodis, entre referências várias. Um filme que é vários outros e vários livros e tanta memória do escuro e da solidão. 

Um golpe inesperado, uma pedrada no charco, quando todos estavam à espera que Truffaut aproveitasse imediatamente o sucesso atingido no tiro de partida. Seguindo de perto os acontecimentos do livro em que se baseia, Down there, conservando os flashbacks, a voz-off e outros mecanismos típicos desse universo tanto fílmico como literário, Truffaut começa logo a virar tudo do avesso, a reinventar em cima das regras e da atmosfera, usando um formato largo de filmagem (2.35 : 1 nada convencional para os filmes de género), um preto e branco sujo aonde a luz está constantemente a escoar e a fugir, transtornada, e sobretudo uma movimentação nervosa da câmara, sempre solta e atrás da personagem ou da causa, tão acossada como o protagonista principal, numa forma que estala qualquer verniz pressuposto. 

Personagem acossada é o pianista de Charles Aznavour, que aparece como um falso culpado, um inocente acossado à maneira do mestre do suspense Inglês – como escreveu Carlos Melo Ferreira no seu apaixonante livro O Cinema de François Truffaut – para mais tarde percebermos que se calhar o seu passado sempre o puxou para os acontecimentos rocambolescos que irão urdir e abrasar a trama, não perdoando certas decisões ou falta delas. Pianista num bar rasca, um simples empregado de diversão, tarefeiro anónimo, que vive com prostitutas e não liga por aí além aos amores platónicos a ele dirigidos, fantasma que matou a esperança própria e sempre merecida, mudando de nome e de alma, morto inconfessado. Quando o passado lhe acaba por lançar a pesada e ansiosa garra aparece-lhe um dos irmãos que certo dia escolheu maus caminhos, mortais desígnios, de seguida ainda outro irmão em pior estado, e ao ter de fugir para o proteger e os proteger recorda-se das outras vidas, de quando foi um pianista famoso mas pagou por isso um preço impossível, recorda-se ainda de ter renunciado a essa família, de ter almejado a diferença dos semelhantes, de uma certa renuncia ao sangue, mesmo sem culpas. 

Entre um novo amor que surge e o “regresso a casa”, bate-lhe de frente a possibilidade de retomar ao nome de baptismo, de voltar ao auge, mas, não saberemos se por ele querer ao não, tudo retoma ao ponto inicial, como um fatalismo inelutável, depois de uma arma lhe ter sido oferecida e da segunda paixão ter sido ceifada de modo tão trágico como a primeira. E por este lado, pela imposição do destino e de uma natureza, pela impossibilidade de escapar ao meio e à lengalenga da infância, Truffaut filia-se a Goodis e ao cinema negro mais desesperado e lírico, nos quais o mais duro dos homens é vergado por esse peso primordial e primogénito. Na Philadelphia do escriba das mil vidas ou na Paris dos intelectuais sedentos, cada qual é mesmo cada qual, uma constituição única que produz efeitos, seja o Behaviorismo ou o célebre “eu” do existencialismo francês, sem automatismos. 

E Truffaut, tão fiel a si como à verdade intraível da história de Goodis, vai cavando nesse escuro novas maneiras de trazer ao lume as imagens e o drama, como na primeira conversa ao piano entre os dois irmãos e o dono da espelunca, onde tudo o que é subjectivo e frontal, dos ângulos de câmara às intenções, surge torcido para um melhor entendimento; ou os véus em penetração nas sombras e na luz rarefeita nesse encontro do pianista com a prostituta que acaba na cama e na rotina, manto espinhoso; culminando na voz-off da empregada que demora a entregar-se ao amado, começando do nada a narrar os segredos mais inconfessáveis até se deter nela mesma. Ainda pulsões e vipes de montagem a ensinarem Martin Scorsese ou Spike Lee, nesse bater horrendo à porta do agente ou nas divisões fotográficas e lúgubres do ecrã em daguerreótipo experimental. 

O final na neve, antes do oblívio calado, tem o chamamento de David W. Griffith e as vísceras a ferver de Nicholas Ray. Truffaut a tentar a claridade mas a escuridão e os fundos da alma a imporem-se. Truffaut, o não académico que depois iria flertar com a máxima transgressão ligada umbilicalmente ao máximo apelo e beleza (desafiando e lutando para afastar a perversão) em La peau douce, preferindo ainda a loucura, as tripas e os vómitos de fora à rendição na L'histoire d'Adèle H., contradizendo perfeitamente o filme de hoje; o homem que amaria a mulheres para lá do racional mas também as crianças desse modo puro. Até ao infinitamente purificador altar dos mortos de La chambre verte. O cineasta mas acima de tudo o homem que se zangou algures no caminho com Godard pelas velhas oposições entre a arte e a cultura, é assim tão radical como, por isso incomparável, consumindo-se livre e comprometido na máxima busca interior e na máxima contradição. Não se sai ileso do cadente Truffaut.

(texto escrito para o LUCKY STAR - Cineclube de Braga)

quinta-feira, 24 de maio de 2018




"The Last Day of Leonard Cohen in Hydra", Mário Fernandes, 2018

E aqui está mais uma estreia de um filme de Mário Fernandes na Cinemateca Portuguesa, o que tem significado, quase sempre, uma oportunidade única para os ver – one shot. Esperemos que desta vez alguém atento e merecedor consiga convencer o realizador a levar este filme longínquo para outras paragens. Muitos ainda nos lembramos do seu magnum opus que estreou nesta catedral em 2011 e que voltou a passar recentemente num ciclo dedicado aos “novos” do cinema Português, Lost West. É um western de quase três horas que de uma só vez abarca todas as variações desse género pioneiro – dos clássicos americanos de John Ford até ao estertor de Sam Peckinpah passando pelos spaghetti e seus sucedâneos - sendo na mesma medida uma radiografia à passagem devastadora de uma grande corporativa pelas minas da região do Fundão e mais abrangentemente da Beira Baixa, com uma clareza documental impressionante, carta de amor a essa terra que é a sua e um filme de amigos. Amigos que continuariam a trabalhar nos filmes seguintes, atrás e à frente da câmara, nos argumentos ou na montagem. O Debate da Loucura e do Amor, de 2012, partiu de Louise Labé para se tornar numa luta entre a imagem, o som, e o movimento confinado dos corpos num espaço bem definido, desafiando todas as durações e sincronias. Logo no ano seguinte, mais um gesto passional, desta feita ao Bob Dylan das Beiras, em Jerónimo, como é que vais?, outra vez um cowboy, livre e inadaptado, fiel demais, numa obra que volta a violentar todos os géneros e formatos – misturando a biografia, o musical, o road-movie, o digital, vhs, ecrãs panorâmicos e caseiros, etc. - com um único alvo: a emoção e a verdade daquele ser. Mais recentemente, já em 2016, colocou um recepcionista anárquico e obcecado pelo escritor inglês do século XVIII Henry Fielding num hostel lisboeta de baixo custo para meter na linha quem o merece e favorecer os desfavorecidos, a preto e branco e com um tipo de humor mais negro e logo realista do que os cedros do cemitério para onde o Pastor da Noite se dirige nas suas folgas. Feito o apanhado, e descontando as suas co-realizações, vamos ver The Last Day of Leonard Cohen in Hydra, que novamente não vai corresponder ao esperado nem às expectativas, numa atitude e num trabalho que é menos experimental – modelo já completamente viciado e académico e que hoje em dia vai correspondendo ao anunciado nas sinopses e na imprensa – e que tem tudo a ver com a aventura, com o desbravar terreno, neste caso, captar, perseguir, transfigurar, reter a luz em questão.

Dedicado a Leonard Cohen e a Marianne Ihlen, logo tudo nos remete para o conhecido tempo em que o cantor e poeta viveu na ilha de Hidra, na Grécia, com a sua companheira, uma vida de outrora ainda não esquecida, amada, que vive na espinha, a amante e uma criança, os dias de ternura, as lágrimas e a nostalgia... coisas que são ditas pela própria voz de Cohen, num genérico a negro mas já cheio de imagens e de sentidos, poéticos e concretos, que serve igualmente para traçar os mais diversos caminhos, abrindo secretas fendas no solo conhecido dos filmes (ou no modernismo) e cavando narrativas que vão aglutinar ou conciliar, por exemplo, versos de Paul Valéry, a voz de Ray Charles, de Marta Ramos e de Loukia Batsi, a mitologia Helénica e as subtis referências à nossa cultura e envergadura tuga.

Uma narrativa detectivesca de um Philip Marlowe apátrida obcecado com o retrato de alguém que um dia lhe calhou em sorte num caso talvez indesvendável que o levou aos confins de um mundo? A claridade e essa luz diáfana de um país em que cada coisa é trazida à luz / trazida à liberdade da luz / trazida ao espanto da luz, segundo Sophia de Mello Breyner? Assim, esse homem destroçado encarnado por Rui Pelejão – também não muito longe do cowboy no fim da linha de Lost West e dessas deambulações eternas – vai perguntando a uma fotografia, a uma imagem fixa, Quem és tu?, afirmando e suplicando Vim à tua procura, apaixonando-se por ela, pedaço inanimado e inorgânico em lenta combustão que irá ressuscitar precisamente através da luz e das sombras, do sol e do ar límpidos e únicos que puxaram esse corpo vestido com calções portugueses e de feitios próximos à literatura e ao universo pulp para o cosmos estatuário e mítico de um absoluto em que esse milagre se torna possível. Quando a imagem se torna movente, nesses belíssimos quadros em que é preciso pedras para a segurar das forças intempestivas do vento e do fogo solar, ou em que ela surge emoldurada e numa comunhão, fazendo mesmo corpo com os malmequeres amarelos (também remotamente conhecidos como flor-das-almas) que são como estrelas num céu, flores prestes a devorar a noite, começa a ser possível deixar partir para sempre essa memória, uma memória, um inaudível murmúrio que talvez tenha sido tudo – Amo-te, amo-te – que talvez tenha sido a ilusão das ilusões, a assunção de uma natureza condenada a errar, como na letra de Ray Charles ou como o plano final, todo o mar, toda a terra e todo o firmamento abertos.

Entre mulheres suas semelhantes que escrevem cartas em penedos nas águas celestes da ilha e mulheres que utilizam essa claridade também lunar e cegante para ler, passando por rituais mágicos e jogos de azar e sorte, duelos contra o vento e contra si mesmo em arenas despovoadas aonde todos os ecos são possíveis, sobretudo os da alma, talvez a opção de não utilização de som-directo em preferência por uma voz-off de diálogo interior – para lá do óbvio monólogo, diálogo com todas as coisas que o cercam e díspares – surja como natural. A questão da esfinge, da miragem e da quimera, de um paraíso possível e perfeito sempre fugidio como a medida e condição do horizonte, bem como as tangentes a esse paracinema e a uma metafísica funesta da imagem e da memória que uma certa Hollywood meteu em primeiro plano (Laura, de Otto Preminger e seus derivados) reenvia-nos muitas vezes à potência do cinema mudo, da hiperbolização da imagem e da sua composição, das passagens ambíguas entre a treva e o dia, do primado da imaginação, da fantasia, da feérie, ao invés da descrição e do sublinhado que o som “normal” pode trazer como armadilha. Na primeira vez que o detective (talvez seja óbvio que ele é um escritor, mas nos bons e velhos tempos todos os grandes escritores eram detectives, à maneira de Truman Capote ou de Samuel Fuller) se senta a uma mesa para escrever à máquina e para beber whisky, não é imediatamente que o notamos lá fora na janela e no negro da noite, antes vai-nos sendo revelado pelo lume de uma vela, dessas velas que descarnam a noite num filme ou iluminado por elas ou pelo sistema solar, pelo branco da camisa que tenta que o corpo não desapareça e pelo cigarro. A entrada em cena é assim modulada em minúsculas gradações que recuperam uma certa hipnose puramente cinematográfica que o digital tem vindo a limpar e a higienizar.

Tudo se parece passar realmente num único dia, como nos diz o título, no último dia. E numa luta e numa tensão primordiais. Uma luta entre a incandescência e o fogo com a claridade e a água. Nunca se sabendo quais destes representa o negro, a consumição. Não é seguro que seja o fogo a devorar o que há para devorar e que o branco signifique a alvorada e o recomeço. Estamos no princípio da tensão. Nada é preto no branco e o entrelaçamento, a comunhão e a ruptura são a matéria principal e em causa deste abismo; que tal como a voz-off e toda a musicalidade intrínseca, a partir de um certo ponto, algures naquela floresta de símbolos, se volve sonoridade concreta, parecendo, como por golpes mágicos ou naturais, pertencer à imagem e à sua envolvência, cinema puramente sonoro. O resto é um mistério, ou sem história ou com as histórias de todos os seres que amaram e destroçaram algo por uma educação no mundo, é a impossível combinação do policial sem pais nem filhos do Professione: reporter de Michelangelo Antonioni com o lento cerimonial de Sergio Leone aparentemente contradicto pela lembrança de F.W. Murnau. Mais uma vez, vamos estar aonde nunca pensamos. Mudo... Sou o mesmo... Mudo... Sou o mesmo...


José Oliveira
[folha de sala para a ante-estreia do filme na Cinemateca Portuguesa, 23/05/2018]



Visages villagesAgnès Varda e JR, 2017

E com a sessão de hoje vamos perfazer várias rimas, sendo a mais bela de todas o facto de Agnès Varda ter sido companheira e obviamente colaboradora muito próxima do inigualável Jacques Demy, do qual vimos faz agora um mês o sumptuoso e renovador Les demoiselles de Rochefort, que surgiu no ecrã gigante do nosso Cineclube como um novo amanhecer desta arte ainda totalmente jovem. O que Varda contribuiu para os filmes de Demy, e o que Demy ensinou por sua vez a Varda, será sempre objecto de fascinante especulação e fantasia, que vamos deixar ao critério de cada um. De resto, desde que Demy morreu precocemente, ela não mais parou de o homenagear, tanto subtilmente e em segredo nos seus filmes, como noutros que dele falaram literalmente ou como num sonho, em Jacquot de Nantes ou L'univers de Jacques Demy

Tendo começado a realizar em 1955 com La Pointe-Courte Varda nasce sob o signo da nouvelle vague, do lado da Rive Gauche, cúmplice de Marker, Resnais, Kast, Doniol-Valcroze, e obviamente do fascinante Gene Kelly francês seu amado, e possui como quase todos eles uma carreira riquíssima e diversa que recomendamos cada um perseguir. Por hoje vamos destacar o obrigatório Cléo de 5 à 7 de 1962, corajoso e cru retrato de uma mulher sem posições "feministas" e já numa invenção formal perfeitamente singular, sem rede nem amarras; o duro e generoso Sans toit ni loi, de 1985, que reinventou Sandrine Bonaire e nos deixou vislumbrar ainda outros lados da mulher Cléo. Depois, eternamente jovem, cheia de sede pelas novas tecnologias e pelas suas possibilidades de diário filmado e da autonomia absolutas – perto dos quartos e do íntimo gigantesco de Marcel Proust que ela tanto ama – sacou, arrancou à frieza dos zeros e uns o revolucionário Les glaneurs et la glaneuse, humilhando o bug do mundo virtual à entrada dos anos 2000. 

Hoje, Visages villages, forjado meio sem querer e sem expectativas a meias com o fotógrafo e artista visual JR, sem argumento escolar nem pressão de produtoras, com a buchinha no bolso e o pátio de recreio na memória, completamente imerso na bela irresponsabilidade e na curiosidade primordial, numa viagem iniciática como nos velhos contos infantis nos quais o velho e o novo, diferentes, de outras eras, se encontram e se descobrem na mais descabelada das aventuras. Nem sequer estamos diante de uma passagem de testemunho, jamais alguém dá conselhos definitivos ou certezas acabadas. Muito distante dos filmes finais de certos mestres que se embrenharam em metafísicas impenetráveis, Varda atira-se de cabeça ao risco do passo seguinte no desconhecido, obtendo sangue novo numa claridade jubilatória. Os dois vão ao encontro de anónimos pelos lugares mais remotos de França, ela com a máquina de filmar e ele com as fotografias e os grandes formatos de impressão prontos para imortalizar essas pessoas simples e grandes nas superfícies mais inesperadas em estampas magníficas como em planos cinematográficos justos. 

Então, pela arte deles e por um coração aberto ao conhecimento e ao outro, ganham amizades e emoções impagáveis, diferentes do que é possível no cinema da ficção, e sobretudo muito muito diferentes da ficçãozinha dos dias de hoje. Divertido e terno, cheio de revelações e surpresas ao novo – por exemplo, ela a mostrar-lhe a campa de Henri Cartier-Bresson e a presentear-nos com histórias deliciosas e privadas ou a meter-lhe medo com a possibilidade de conhecer Jean-Luc Godard – como de insuflação do compromisso e da entrega pelo novo que ela agarra como elixir da longa vida, o mais bonito do filme são mesmo essas aproximações e entendimentos entre naturezas aparentemente longínquas. Um road-movie humanista sem mapa, nem lei, nem roque, muito menos beira. 

Uma boa viagem. Eternamente jovens!


(texto escrito para o LUCKY STAR - Cineclube de Braga)