quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

lado d

"Ce vieux rêve qui bouge", Alain Guiraudie, 2001

"L'anglaise et le duc", Eric Rohmer, 2001

“Rocky Balboa”, Sylvester Stallone, 2006

“Xavier”, Manuel Mozos, 2003

“De son appartement”, Jean-Claude Rousseau, 2007

“Trouble Every Day”, Claire Dennis, 2001

“Int. Trailer Night”, Jim Jarmusch, 2002

“António”, José Alberto Pinto, 2009

"Avant que j'oublie", Jacques Nolot, 2007

"Elephant", Gus Van Sant, 2003



Evidentemente que fazer listas é uma coisa ridícula. Assumo isso. Lamentável estas merdas que me dá para fazer. É mais uma coisa de memória, para não me esquecer, mesmo assim… Paro nos 40, já é demais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


Octave: Não tenho jeito para essas coisas. Mas você tem, mesmo que não pareça.

Louise: Por que não pareço?

Octave: Você dá a impressão de viver no mundo da lua...mas, na verdade, é concreta, prática e realista.


..........


Octave é o indivíduo que passa todo o filme de Rohmer, “Les nuits de la pleine lune”, a tentar comer Louise. Nos 100 minutos que o filme dura a coisa não vai estar fácil para ele, e se vai ou não consegui-lo, isso só poderemos imaginar, para lá do genérico final. Louise? Certamente uma das personagens mais complexas e fugidias de que há memória. Será uma inocente ou uma libertina? Alguém que não consegue estar sozinha, mesmo que para ela invente que disso gosta, ou será simplesmente uma verdadeira puta? Também pode ser que ame tudo demasiado e que por isso mesmo esteja constantemente a dizer que são os outros que a amam demais. Acho difícil para mim responder, e o facto de durante os percursos e as pulsões de Louise eu ter estado sempre a pender para um dos lados opostos (se é que isso existe) só prova a inteligência e o saber do francês sobre a vida, sobre homens, mulheres e relações. È questão contemporânea porque intemporal, porque era assim há mais de vinte anos e é assim hoje, por isso é certo que há muito deve ser assim. Calhou bem, porque é no diálogo acima transcrito que poderá estar a chave para a arte de Rohmer. Os seus filmes são assim, parecem ter a leveza e o tipo de ar que julgamos que a lua tem, são atmosféricos, aéreos, perdidos como a vida, mas é que ao mesmo tempo não existe nada de simplista ou falsamente contemplativo nisso, nada de “espectáculos de cinema” ou de “efeitos de cinema”, nada de demonstração esperta ou de consciência pós-moderna, jamais, os seus filmes são precisamente os mais concretos, práticos, realistas, totalmente passados no planeta terra. São igualmente densos e em filigrana, subtilmente carnais e possuidores de uma volúpia inexpressável em palavras. Que o irracional e o abismo a que Louise se entrega, sem medos e sem pedir desculpas, nos seja mostrado por um olhar assim tão palpável e frontal, logo livre como mais não possa ser, é um saber que parece cada vez mais irremediavelmente perdido nos dias de hoje, nesse cinema que já não consegue ser outra coisa senão um catálogo impressionista e falsamente aconchegador, auto-importante e histérico. Ou seja, cinema feito para vender coisas e "sonhos", para se auto-proclamar novo e fresco. Rohmer é o contrário desse fascismo pré-fabricado pelos maffiosi ou dessa estúpida inconsciência. Rohmer está sempre do lado do fascínio que é a imprevisibilidade da vida e que deveria ser a do cinema, a câmara serve para o que serviu ontologicamente, uma experiência de serenidade diante da cena, logo de vertigem.

evidentemente que todos os filmes que são realmente filmes, são somente uma questão de luz. neste momento, só isso me importa.

domingo, 27 de dezembro de 2009

é o mundo…

...ver o Godard de “For Ever Mozart” em 35mm numa salinha de Braga. os livros, a palavra, o teatro, o cinema e a música…como sempre, tudo disseminado e tudo ordenado, tudo abstracto e tudo absolutamente concreto, numa dialéctica entre alto e baixo (da cultura à politica, ou à filosofia) que parece de facto percorrer tudo. depois são corpos, gestos, rostos, olhares, grandes- planos, cores e uma serenidade e uma fúria à beira do insuportável (calo-me por aqui)…evidentemente, a coisa mais imperdível por estas bandas. com os riscos e tudo...
lado c

"La France", Serge Bozon, 2007

"Notre musique ", Jean-Luc Godard, 2004

"Mystic River", Clint Eastwood, 2003

"Zhantai", Zhang Ke Jia, 2000

"Miami Vice", Michael Mann, 2006

"Les glaneurs et la glaneuse", Agnès Varda, 2000

"We Own the Night", James Gray, 2007

"Les amants réguliers", Philippe Garrel, 2005

"Être et avoir", Nicolas Philibert, 2002

“La captive”, Chantal Akerman, 2000

sábado, 26 de dezembro de 2009

lado b


"The Brown Bunny", Vicent Gallo, 2003

"Homecoming", Joe Dante, 2005

"Le Monde Vivant", Eugène Green, 2003

"Merde", Leos Carax, 2008

"He Fengming", Wang Bing, 2007

"La Libertad", Lisandro Alonso, 2001

"Sud pralad", Apichatpong Weerasethakul, 2004

"Kairo", Kiyoshi Kurosawa, 2001

"Espelho Mágico", Manoel de Oliveira, 2005

"En la ciudad de Sylvia ", josé Luis Guerín, 2007
lado a (década)


"Ne touchez pas la hache", Jacques Rivette, 2007

"Une visite au Louvre", Danièle Huillet, Jean-Marie Straub, 2004

"John Carpenter's Cigarette Burns", John Carpenter, 2005

" 'R Xmas", Abel Ferrara, 2001

"Ni na bian ji dian", Ming-liang Tsai, 2001

"Juventude em Marcha", Pedro Costa, 2006

"Vai~E~Vem", João César Monteiro, 2003

"O Signo do Caos", Rogério Sganzerla, 2005

"Die innere Sicherheit ", Christian Petzold, 2000

"Ti piace Hitchcock?, Dario Argento, 2005


Não gosto de fazer listas, nunca gostei. Enfim, ainda não sei bem porque decidi fazer isto, mas cá ficam alguns dos filmes que mais gostei nesta década, divididos em três ou quatro blocos. Obviamente que não sei a ordem. Alguns, porque outros, não os conto a ninguém...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009



"Cinema is only mise en scene"

sábado, 19 de dezembro de 2009



...no inicio podia chamar-se assim: "o palhaço velho e a bailarina suicida". é aquele momento que parece imperfeito, sem sentido mesmo, a tornar-se o mais perfeito dos momentos, o mais feliz. o mais improvável dos relacionamentos a transformar-se no mais vital. a salvar. a curar. não deve haver muitas coisas assim tão tocantes...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


o olhar limpo. sem “ideias de cinema.”

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009


de Daney para Biette.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

«Desde os seus primeiros filmes, Godard sente grande repulsa de "contar uma história", de dizer "no começo havia/no fim há": Sair da sala de cinema era escapar também dessa obrigação bem-formulada pelo velho Fritz Lang em O Desprezo: "É preciso terminar sempre aquilo que começamos".
Diferença fundamental entre a escola e o cinema: não precisamos agradar aos alunos, dar-lhes prazer, já que a escola é obrigatória – é o estado que quer que todas as crianças sejam escolarizadas. Mas no cinema, para conservar seu público, é preciso dar-lhes algo para ver, para crer, contar-lhes histórias (bobagens). Por isso a acumulação de imagens, histeria, retenção, calibragem de efeitos, descarga, happy end: catarse. Privilégio da escola: reter os alunos para que eles retenham as lições; o mestre retém seu saber (ele não diz tudo) e pune os maus alunos com horas de retenção.»

Serge Daney, "La rampe"

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

“Mantenho, como Glauber Rocha, que o cinema é justamente feito para os operários e os camponeses, que responde à sua necessidade vital. O cinema vai buscar a sua força à experiência quotidiana dos camponeses e dos operários, ao passo que os intelectuais não têm experiência nenhuma, é preciso que se saiba que eles nem sequer vivem. É por isso que os filmes não significam nada para eles, quando é nos filmes que outros encontram aquilo que os preocupa e têm de superar, dia após dia.”

Jean-Marie Straub

"A Corner in Wheat ", D.W. Griffith, 1909

O segundo plano do filme, aquele em que se semeia a terra; três trabalhadores e dois animais que vão e vêm, a coreografia e a concentração no trabalho, um quase hieratismo da pose e do gesto. O olhar impassível, sensível e absolutamente imperturbável da câmara de Griffith. Uma frontalidade e uma fixidez cristalinamente em sintonia com a natureza e com o homem. Que intensidade e calma… Posso estar sempre a dizer o mesmo, e di-lo-ei mil vezes, mas era isto que o cinema prometia…

*que neste período a câmara fosse praticamente sempre frontal e imóvel, não me diz absolutamente nada.

sábado, 5 de dezembro de 2009

"Nature has ten million times the imagination of the most imaginative of artists. "

Jean-Marie Straub


O olhar limpo, contemplativo, imperturbável. A calma e a serenidade de quem já viu de tudo e nada precisa inventar. A sublime distância. São assim os filmes finais de Jean Renoir, uma leveza inaudita, como são os de Ford, os de Ozu ou os de Hawks. É preciso partir muita pedra…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

"Routine Pleasures", realizado pelo Jean-Pierre Gorin em 1986. Entra o Manny Farber, entra o Godard por uma foto e é sobre "men and imagination" , "illusory America" e tudo mais. Ou então "a remake of Only Angels Have Wings ". E não digo mais nada...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009



"The Musketeers of Pig Alley", D.W. Griffith, 1912



"The Female of the Species", D.W. Griffith, 1912

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Tenho para mim que “Lili Marleen” é para Fassbinder o que “The Big Red One” é para a obra de Fuller. Dois cineastas que praticamente sempre filmaram guerra – em muitos sentidos, a guerra dos sentimentos, das paixões, das mentiras, etc – a proporem-se filmar a guerra no sentido mais literal e directo. Uma espécie de paroxismo. É verdade que o filme do alemão é sobretudo sobre uma mulher que no caos do nazismo atinge, sem querer, a fama e um certo poder, ou seja, o filme não tem por centro o belicismo propriamente dito, e como sabemos Fuller possui vários outros filmes de guerra como género. Mas será sempre numa espécie de paralelismo, ou equivalência, entre o espectáculo da propaganda e o espectáculo da guerra, da violação do íntimo pelo global e pelo poder, que o filme vibrará. Existe mesmo aquele momento único em que a bruteza da encenação e da montagem põe, lado a lado, as palmas e os gritos dos soldados alemães e do publico para a vedeta, ao mesmo nível dos tiros e das explosões do campo de batalha. Momento assustador, catártico, em que Fassbinder rima directamente com Eisenstein ou com Godard. Filmes de guerra que obviamente nascem do temperamento e da paixão dos cineastas, da maneira como se filma, daí a imensa violência e ternura com que a câmara percorre os espaços e os corpos – dos espaços aos corpos, dos corpos aos espaços, algo verdadeiramente carnívoro – a maneira como o granulado e o sujo do que é por natureza imundo vai contra ou se liga com os mais puros momentos de luz artificial, de melodrama tocado por Sirk. Só tocado, pois os suores e as libertações de desejo em Fassbinder, como em Fuller, jamais serão somente “pós qualquer coisa”, existe sempre uma candura, uma grandeza e uma chama que incendeia a tela e produz essa singularidade impactante da encenação e dos afectos. É um arrebatamento que funciona da mesma maneira que os zooms siderentes e nervosos, no meio do turbilhão a máquina têm que encontrar o tal instante da verdade, tem que rasgar, numa virilidade que jamais permitirá “momentos de cinema” ou qualquer género de ilustração. É uma questão de sangue, sempre.

“quanto mais artificial mais real?” O maneirismo nos limites – a saturação dos signos melodramáticos, o seu exagero e finalmente a sua explosão, perfeitamente contida nas bordas do enquadramento – para se chegar a algo de muito urgente, de muito verdadeiro, de muito franco. Obviamente para se sentir as marcas na carne e na pele – e acho que é por aí que surge o ríspido cinzelamento do preto e do branco, a cor muitas vezes pode enganar, enquanto que o preto é preto e o branco é branco, e usado sem rodriguinhos é implacável – mas acima de tudo para mostrar o teatro da vida, a perdição e a abstracção. Ou seja, na fogosidade imagética construída por Fassbinder a gravidade vai aparecer pela dolorosa consciência da condição das personagens, da sua fatalidade. Não há escape quando são jogados certos jogos, toda a luz que as envolve só serve para vermos ou para sentirmos isso, neste sentido, um filme perfeitamente nu, exposto, sem efeitos.

"Die Sehnsucht der Veronika Voss"