sexta-feira, 12 de agosto de 2011





Há muito que não existe um Walsh, como não existe um Ford ou um Hawks. Essa casta que, complexa e labiríntica, humanamente e cinematograficamente, recusava os jogos de metáforas e as tintas das china estéticas e narrativas para só ficar o essencial, o que de facto é e está lá. Um filme como "They drive by night" a ser feito hoje em dia ficaria com uma duração de umas três ou mais horas, foi o preço de "tanto e tanto talento" que hoje em dia os suplementos artísticos dos jornais nos entregam.


Aquilo que já sabemos, o mundo parece andar a um ritmo trepidante – os satélites, os aviões, as máquinas digitais, os avids, os portáteis dos jornalistas dos festivais – mas uma peça de arte deve ser lenta, dilatada, fazer-se poética e se possível sensorial. E o que aqui falta...

Walsh contava e mostrava coisas sem fim, coisas do arco-da-velha, coisas singelas, idas e vindas, momentos de amor, paz e guerra, mil e uma coisas e os filmes continham toda a fulgurância que 90 minutos poderiam conter. A cada cena, a cada acção, a cada palavra, a cada gesto, a cada suspiro – o máximo laconismo, a máxima intensidade. Arte da concisão + arte da dramaturgia. Cada coisa dura o que tem a durar, tal como cada homem faz o que tem que fazer. A poesia inscrita na acção. O Resto é quase sempre pose ou vontade de imposição, essa afectação.

Glória do classicismo, obviamente, mas repare-se na construção de "They drive by night" e meça-se os ditirambos normalmente aplicados ao cinema moderno:

- O uso da elipse, nunca escancarado como em tanto desse rotulado "cinema do tempo", antes impregnado nessa linha recta onde as curvas se vão mostrando e diluindo e destruindo. O tempo passa e passa na caleidoscópio serena de Walsh.

- Sem excepção, cada plano possui gente dentro, um motivo, uma razão de ser, jamais se limita a qualquer embelezamento ou estranhamento. O que não impede, antes pelo contrário, as fabulosas ambiências e a espessura atmosférica de cada espaço.

- A psicologia da personagem de Ida Lupino que é tratada como a fome de paixão de Bogart ou a fidelidade de Raft, e assim nos surge assustadora.

Filme de fidelidade. Arte de fidelidade.


5 comentários:

Ricardo Martins disse...

Este filme é absolutamente brilhante. Vi-o há uns anos e nunca mais me esqueci daquela estória. Com actores daqueles que já não se fazem.

João disse...

Há uns tempos, disseste que poderias mostrar-me o teu filme. Posso vê-lo e mostrar-te algo que fiz também?

José Oliveira disse...

João, envia-me um mail, por favor.

Carlos Natálio disse...

Sim, porque a fidelidade hoje em dia é outra: fidelidade à indústria ou à congruência dos festivais, fidelidade à bizarria ou ao choque, à originalidade, à luta por uma posição. Tudo coisas entre a própria coisa e a câmara.

José Oliveira disse...

ah, sem dúvida, essa tal ""bela"" ditadura do razoável...e da auto-promoção, que é a mesma coisa.