terça-feira, 7 de julho de 2026

ENCONTRO COM ANDREA GIROLAMI

 


por José Oliveira


Os Encontros de Cinema do Fundão 2025 tiveram a honra de contar com o lendário Enzo G. Castellari, que veio acompanhado do seu filho, Andrea Girolami. Foram momentos divertidos, em que Enzo conversou com toda a gente, distribuiu sorrisos e fotografias, contou histórias fabulosas. Estivemos na presença de uma personagem mítica, que, no entanto, ali estava em carne e osso.

Andrea foi fundamental, tendo sido muito mais do que um simples intermediário em todo o processo. Igualmente generoso nos sorrisos, e com as suas próprias histórias na ponta da língua – além de realizador, foi um importantíssimo assistente de realização. Entre os muitos filmes em que foi o braço direito do realizador conta-se o ultra-premiado O Paciente Inglês. Logo no aeroporto, fez-nos saber que estava a escrever dois livros sobre o pai, sendo o primeiro uma conversa «tu cá, tu lá» com Enzo sobre a obra-prima High Crime (La Polizia incrimina, la legge assolve, no original italiano), de 1973, um filme pioneiro.

Foi o mote perfeito para criarmos uma nova rubrica, apelidada significativamente Fade In, que permite passarmos de uma edição dos Encontros para outra com uma ligação – ou um raccord, se quisermos – que faça pleno sentido. Assim, teremos um filme potentíssimo, projectado ao ar livre, e uma conversa com Andrea sobre o seu precioso livro: La Polizia incrimina, la legge assolve – Il film che ha creato un genere. Como o livro não está traduzido em português, não se irá realizar o típico lançamento oficial. Teremos antes uma conversa em torno desta ideia e deste processo tão original – dois profundos conhecedores da arte e da indústria do cinema à volta de uma obra marcante, que, não por acaso, são pai e filho.

Segue-se uma conversa breve, mas permeada por muito amor, ao pai, à família, ao cinema, à vida. Porque cheia de vitalidade, é bonito quando sentimos que há coisas para dizer e que não se pode parar. Bravo Girolamis!


O teu livro é um caso porventura inédito na História do Cinema: um filho a entrevistar o pai, sobre um filme realizado pelo segundo. Como tiveste essa ideia?

Sim, de facto, é um caso único em que um filho entrevista o seu pai. Nos últimos anos, tenho reparado que muitos «filhos de realizadores ou actores/actrizes» decidem escrever um livro sobre os seus pais. Uma espécie de livro de memórias. Existem livros óptimos e maravilhosos. Em vez disso, queria criar algo original e mais respeitoso – um «livro de diálogos entre pai e filho» – enquanto viam um filme. Durante a nossa conversa, partilhámos muitos episódios das nossas vidas pessoais e cinematográficas. O livro teve tanto sucesso que muitas pessoas me pediram para escrever mais. Assim, estou a trabalhar no meu terceiro livro. Espero que os editores do meu último livro (Bloodbuster, de Milão) também gostem deste. Será mais uma «converseta» entre «pai e filho» enquanto assistem a Street Law. Incluirá muitos, muitos extras fantásticos e extremamente raros. Além disso, há outro livro de conversas entre «pai e filho» a caminho, abordando todo o universo do «Cinema de A a Z». Este é um projecto mais complexo e intenso. O livro sobre High Crime será publicado nos EUA. Cruzem os dedos!

 

E por que é que escolheste o High Crime em particular? Poderia ter sido outro filme ou esse marcou-te de alguma forma?

As minhas primeiras memórias do cinema são das filmagens de High Crime. Eu tinha apenas três anos de idade! Este filme é muito importante porque também deu início ao género poliziesco em Itália. É considerado o primeiro filme de acção policial. Para homenagear esta obra-prima inestimável, quis criar um livro também importante. Para todos os fãs do género poliziesco — incluindo eu. Desde a minha infância que as conversas em família durante as refeições giravam em torno do cinema. Nunca falávamos de desporto, religião ou política. Sempre falámos e discutimos sobre cinema. Eu comia cinema ao pequeno-almoço, cinema ao almoço, cinema ao jantar. E não era só na minha família nuclear... O meu avô (Marino Girolami), o meu tio (Enio Girolami), a minha irmã (Stefania Girolami), o tio do meu pai (Romolo Guerrieri) e também do lado da minha mãe. A minha mãe (Mirella Casini) era montadora de filmes e todas as suas irmãs trabalhavam em montagem. Uma das minhas tias (Tatiana Casini-Morigi) era montadora pessoal do Alberto Sordi... Para além de todos os amigos da família, muitos dos quais eram estrelas de cinema e membros da equipa de filmagens nos bastidores.

 

Sabemos do teu gosto pelo Poliziesco all'Italiana, o que te leva a visitar e a fotografar os locais de acção de muitos clássicos. Como explicas essa paixão?

Essa é uma óptima pergunta! Bem, tudo começou quando costumava visitar o set de filmagens do meu pai em rapaz... Ao longo dos anos, vi alguns locais desaparecerem ou mudarem. Decidi fazer um especial «Ontem e Hoje» dos sets de filmagem do meu pai e da minha família... Comecei a visitar os locais originais dos filmes e, de repente, percebi que muitos locais usados ​​pelo meu pai e/ou pelo meu avô também estavam em muitos outros filmes poliziesco... Então, comecei a coleccionar e a criar este enorme arquivo fotográfico poliziesco. Um dia, gostaria de publicar um livro, «Ontem e Hoje no Poliziesco Italiano». Há momentos em que, depois de tirar as fotografias, paro e imagino-me ali – durante a rodagem da cena. Durante as minhas buscas por locais, encontro muitas pessoas que têm memórias dos sets de filmagem. Em particular, lembro-me de quando visitei um posto de abastecimento de combustível – encontrei o dono e perguntei-lhe se podia tirar fotografias. Ele concordou e disse-me que se lembrava muito bem do meu avô!!! «Comecei a trabalhar aqui quando era apenas uma criança. Lembro-me muito bem do seu avô. Era muito amável com toda a gente. Olha só para mim agora, sou o dono do posto de abastecimento». No final, enviei-lhe as fotografias do «Antes e Depois» do seu posto de abastecimento. Ele disse-me que as tinha emoldurado!! Outra ocasião foi quando visitei um ginásio – o proprietário não fazia ideia de que o ginásio tinha sido utilizado num poliziesco. Permitiu-me tirar fotografias e, no final, pediu-me uma cópia do meu trabalho. Também tem as minhas fotografias do «Antes e Depois» emolduradas na parede da entrada do ginásio. Estou a espalhar a minha paixão por toda a parte...

 

Quais são os teus poliziescos favoritos? E, já agora, existe algum realizador no cinema italiano recente que trabalhe esse género?

Os meus poliziescos favoritos? Os do meu pai, do meu tio e do meu avô. Os três criaram maravilhosas obras-primas do Poliziesco. Mas gostaria de dizer que também aprecio muito Umberto Lenzi, Sergio Martino, Stelvio Massi, os irmãos Corbucci, Bellocchio, Lizzani, Monicelli, Comencini, Damiani... Hoje em dia? Stefano Sollima, filho de Sergio Sollima. É um GRANDE realizador de cinema. Aplaudo também os filmes de Michele Placido, dos irmãos Manetti e de Matteo Garrone.

 

[Tradução de José Oliveira]


[Entrevista realizada para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026 e igualmente publicada no Jornal do Fundão: https://www.jornaldofundao.pt/cultura/encontro-com-andrea-girolami]

ENCONTRO COM ALEX COX

 


por José Oliveira


A carreira do britânico Alex Cox é curiosa, estranha e finalmente fascinante. Começou em grande, em Hollywood, com uma primeira longa-metragem apoiada por uma Major, a Universal. Repo Man não foi um sucesso bombástico, mas hoje em dia é um dos epítomes do chamado «filme de culto». Paul Thomas Anderson, o grande cineasta americano que também sempre conservou uma forte independência, considera-o um dos seus mestres.

Seguidamente atirou-se de cabeça ao punk – movimento para ele formativo e cuja atitude nunca abandonou – não para glorificar Sid Vicious e os Sex Pistols, mas antes para afirmar contundentemente e sem pedir desculpas que Sid foi um vendido, nada contribuindo para o movimento e morrendo como um idiota, palavras suas. Anos depois, quando perguntaram ao líder dos Sex Pistols, John Lydon, qual a verdade presente em Sid and Nancy, ele respondeu que talvez o nome Sid estivesse correcto.

Logo depois, com Straight to Hell, reuniu em Almería – o lugar sagrado do Spaghetti Western – um grupo de actores e de músicos demenciais para uma história descabelada: Joe Strummer (aqui como actor, ele que tanto compôs musicalmente para Cox), Courtney Love, Sy Richardson, Elvis Costello, Dennis Hopper, Grace Jones, Jim Jarmusch ou os The Pogues, eles mesmos. Uma aventura que sintetizou muito dos seus interesses e que ao mesmo tempo os explodiu – punk!

Mas, como muitas vezes acontece, foi a sua obra-prima que acabou com a sua carreira hollywoodiana. Walker prolongou a sua obsessão pela Nicarágua e pelos sandinistas – a génese de Straight to Hell era um concerto com os The Pogues e outros cúmplices nessa Nicarágua – ao mesmo tempo que saldou «dívidas» à ultra-violência útil de Sam Peckinpah e ofereceu a Ed Harris o papel da sua vida. Algumas marcas de estilo e anacronismos que Cox tornou só suas – como uma espécie estranhíssima de stop motion em imagem real acelerada ou elementos modernos em filmes de época – surgiram igualmente em êxtase. Uma obra única e temperamental que foi um fracasso e arrebentou com as suas ambições na Meca. E um longo período sem filmar chegou…

Mas que não se lamente, pois os filmes que seguidamente inventou ou arrancou a ferros, tornando o impossível uma realidade, continuaram únicos, guerrilheiros, em alguns casos verdadeiramente fascinantes. Só um exemplo ou outro: El Patrullero, passado no México, com produção mexicana e japonesa, leva o plano-sequência a um novo estado de tensão; documentários sobre Akira Kurosawa ou o The Last Movie de Hopper, trabalhos para televisão, algumas «curtas» evocativas, até à decisão drástica de produzir as suas obras mediante crowdfunding [financiamento colaborativo]. E foi esse sistema que possibilitou a sua obra derradeira já em 2025 – veremos se é verdade… – com Dead Souls, pedindo um western emprestado a Nikolai Gógol e arrancando um filme sereno, fulgurante e lírico.

Pelo meio, escreveu livros sobre a sua carreira, sobre o seu modo de produzir e realizar filmes independentes, sobre os Euro Westerns, foi professor e com certeza mentor, manteve um blogue ultra-pessoal, enfim, conservou-se sempre mais do que activo. Certa vez, Michael Cimino disse a uma jovem que queria ser cineasta que tudo valia – fazer um filme ou escrever um, ou escrever sobre os filmes, ou escrever um romance, ou poesia –, o que importava era não ficar parado ou desistir. E tudo isso poderia ser cinema. Foi o que Cox fez.

A entrevista que se segue foi feita descontraidamente, depois de Cox ter enviado DVD, Blu-rays ou posters para uma data de gente de todo o planeta que ajudou a financiar o seu último filme. É sabido que nós, os europeus, falamos, falamos e falamos, bla bla bla, e que os americanos (embora Cox seja britânico, mas…) disparam, bang!, one shot, ou seja, que uns falam muito e outros são directos. Mas acho que o grande cineasta e exegeta dessacralizado não tomou a sério o meu repto, que o deixava à vontade para responder Fordianamente às minhas questões, antes foi guiado pelo essencial, pela memória mais imediata, talvez mais verdadeira, e pela espontaneidade. Tomei a liberdade de recontar histórias ou estórias em vez de Alex, mas só porque ele me deixou à vontade para tal.

I Fought the Law, talvez tenha sido o credo de Alex Cox, mas a lei ganhou?


Fala-nos um pouco dos teus tempos de juventude: onde cresceste, quais os teus interesses, como é que decidiste estudar Direito em Oxford?

Cresci numa cidade-satélite entre Liverpool e Ellesmere Port, onde se encontram as refinarias de petróleo. Acho que ir ao cinema foi um dos meus principais interesses, desde cedo. Na década de 1970, a «ideia» era que um jovem deveria ir para a universidade, estudar e tornar-se cientista. Como não tinha aptidão científica, os meus pais e professores achavam que eu deveria estudar a «ciência» do Direito. Eu também não tinha aptidão para isso, mas os estudantes eram muito mais livres e sem o peso das dívidas naquela altura, e eu passava a maior parte do meu tempo a representar e a dirigir peças.

 

Como nasceste nos anos 1950, apanhaste a explosão do movimento punk inglês. Participaste activamente nessa cena musical e cultural?

Não, também não tenho qualquer habilidade musical.

 

Estudaste primeiramente cinema em Bristol (University of Bristol) e depois em Los Angeles (UCLA). Foram úteis esses estudos?

Sim, com certeza. Num ano em Bristol, aprendias as bases da produção cinematográfica em 16mm, edição de áudio e trabalho de vídeo em estúdio. Na UCLA, havia equipamento de sobra e era possível pôr em prática essas competências!

 

Como foram os tempos na UCLA e que parceiros e professores mais te marcaram?

Era um ambiente fantástico, com muitas pessoas bonitas e interessantes. Charles Burnett foi o aluno que mais me impressionou, a mim e à minha geração, creio. Tinha estudado na UCLA alguns anos antes de nós e fez uma longa-metragem independente incrível, Killer of Sheep.

 

Repo Man, a tua primeira longa-metragem, combina muita coisa de forma anárquica, mas perfeitamente lógica e mordaz. Ficção-científica, banda desenhada, sociedade de consumo, a era atómica, etc, etc., muito humor e um casting surpreendente, com os grandes Harry Dean Stanton e Emilio Estevez frente a frente. Foi divertido escrever o filme?

Escrever é sempre divertido.

 

Foi fácil convencer o Harry Dean a entrar no filme?

Sim. Tudo o que tínhamos de fazer era oferecer-lhe dinheiro!

 

E, já agora, como chegaste ao imenso director de fotografia Robby Müller? Deves ter belas histórias destas duas personagens…

Originalmente, queria trabalhar com Steve Fierberg, um director de fotografia muito talentoso. Mas Nesmith [Michael Nesmith, o executivo que convenceu a Universal a entrar no barco] não gostava desse estilo de filmagem de «câmara à mão», que era próprio do Fierberg, por isso Peter McCarthy, o produtor, disse-me que podia escolher qualquer outra pessoa no mundo inteiro. Tínhamos acabado de ver O Amigo Americano e pedimos o Robby. Se quiseres histórias divertidas sobre esta época, compra um exemplar do meu livro X FILMS. Todas as histórias estão lá e já me esqueci da maioria delas. [O entrevistador foi pesquisar e encontrou esta história deliciosa: durante a rodagem de Repo Man, Cox ficou a saber que Muhammad Ali se encontrava por perto, num ginásio da zona de Venice, a treinar; correu até lá e encontrou-o a «encher» com outros companheiros, aproximou-se e disse-lhe que gostaria muito que ele aparecesse na cena final do filme que estavam a fazer e que seria filmada nessa mesma noite; Ali disse-lhe, numa voz suave, que tinha um novo manager, que lhe exigia um milhão de dólares para ele mesmo sobre qualquer trabalho que aceitasse, mas que se os produtores do filme tivessem de acordo ele que voltasse dentro de umas horas; depois de terem apertado a mão num compromisso, o pobre Cox tentou convencer os produtores, mas sem sucesso.]

 

Sid and Nancy, o teu filme seguinte, é uma carta de amor-ódio explosiva e visceral a dois grandes protagonistas do punk. Como é que trabalhaste o equilíbrio entre o biopic e a dramaturgia ficcional?

Boa pergunta. Esqueci-me da resposta, mas aposto que está no meu livro. [Novamente, o entrevistador não teme o desafio e lança nova história – ou será estória?: os figurantes das cenas de concertos foram escolhidos pela sua aparência e autenticidade, o que significou que muitos verdadeiros punks de crista e atitude furiosa estivessem entre os eleitos; nessa época, os verdadeiros punks tinham o hábito de cuspir nas bandas que gostavam, o que levou a que os actores e músicos que interpretaram os Sex Pistols e outras bandas se queixassem constantemente por causa dos banhos de saliva; Cox, não querendo estragar a «festa» dos verdadeiros figurantes, e na sua ânsia de autenticidade, nunca lhes pediu que não cuspissem.]

 

Straight to Hell é uma paragem fundamental na tua filmografia, pois combina o género Spaghetti Western com o incomparável Joe Strummer e uma data de coisas inclassificáveis. Quais são as melhores memórias desse período em Almería?

A beleza do deserto... dormir sob as estrelas... ter o privilégio de filmar naquele cenário de western de adobe, antes de ele regressar à terra...

 

Walker é possivelmente a tua obra-prima, fundindo a sátira política, a violência desmesurada a la Peckinpah, a anarquia punk e o cinema mudo (na relação entre a personagem principal e a sua amada). Como foi trabalhar com o mítico argumentista de Pat Garrett and Billy the Kid, Rudy Wurlitzer?

Foi maravilhoso. Rudy é uma raridade: um verdadeiro cavalheiro.

 

A partir de Walker, deixaste de trabalhar com os grandes estúdios e tiveste um longo período de inactividade. Como foi essa reinvenção em que tiveste constantemente de forjar novas formas de financiamento, inclusive, nos anos recentes, o crowdfunding?

Acho que não inventei nada. O crowdfunding é certamente uma forma de fazer filmes de baixo orçamento. Fiquei muito satisfeito com as minhas duas experiências com o Kickstarter.

 

O teu último filme, Almas Mortas, é para mim uma súmula da tua obra, mas também uma prova de enorme frescura e risco. Combina todas as obsessões passadas com um novo tipo de humor que, sem dúvida, advém de Gógol e que serve perfeitamente para falar do presente. Foi a crítica à actualidade política o que mais te interessou?

Não. O filme não é uma crítica aos acontecimentos políticos actuais. Passa-se num sistema de injustiça e violência de longa data que persiste independentemente do partido político que está no poder. Jay Gould, o magnata ferroviário americano, terá dito que não temia uma revolução, porque poderia contratar metade da classe operária para matar a outra metade. Disse isso na década de 1880. Ainda hoje é verdade.

 

Escreveste muito sobre cinema, revelaste jóias e nomes desconhecidos, deste aulas… Continuas a ver filmes e a querer descobrir novos cineastas?

Às vezes. Gostei muito do Flow! Mas também revejo filmes mais antigos de que gostei, como o Cadaveri Eccellenti, do Rosi, ou o Le Salaire de la Peur, do Clouzot.

 

E, para fecharmos, o que mais te interessa hoje em dia no cinema e na música?

Arte independente, criada sem absolutamente nenhum uso de IA (Inteligência Artificial).

 

[Tradução de José Oliveira]


[Entrevista realizada para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026 e igualmente publicada no Jornal do Fundão: https://www.jornaldofundao.pt/cultura/encontro-com-alex-cox]

ENCONTRO COM JOÃO GUERRA


por José Oliveira


João Guerra é mais uma figura injustiçada naquilo a que se costuma chamar «meio do cinema português». Não uma indústria, possivelmente não uma oficina, mas um pequeno meio cheio de tensas relações e ressabiamentos, próprio de um pequeno espaço onde todos os dias as mesmas pessoas se cruzam e competem umas com as outras. Um tipo honesto, disponível, que gosta de rigor e de precisão e que, assim, aturou um entrevistador que depois da longa entrevista lhe voltou a ligar algumas vezes para confirmar referências ou fontes. Guerra é um homem honesto em meandros onde essa honestidade não costuma levar a sucessos. Mais e melhor do que isso, não encontrei nele ponta de ressabiamento ou de azedume, o que é muito diferente da tristeza e da mágoa que ainda poderá sentir. Mas Guerra também telefonou por iniciativa própria, pois não se sentia bem por se ter esquecido de mencionar filmes ou pessoas importantes com quem trabalhou. Um rigor e uma precisão que se vêem perfeitamente em Longe Daqui, o seu belo e inusitado road movie, um meteorito que aterrou em 1993 na paisagem do cinema tuga e que desorientou quem esperava cinefilia e filiação. É notório que Guerra preferiu a via da pesquisa e do experimentalismo, da verdade do momento e da intuição, e assim temos uma aventura registada na película, a experiência de fazer o filme documentada, bem como um lirismo discreto que só se revela a quem se deixar ir… Os críticos da altura também preferiram ajustar contas com quem lhes tinha mordido os calcanhares do que olhar bem para aquele objecto não identificado… E como também não sabiam o que escrever, tão atordoados ficaram, dispararam a célebre bola preta a rodos… perdeu João Guerra, que não mais voltou às longas-metragens. Agora que o filme foi restaurado, esperamos que tenha uma segunda vida. E que Guerra volte à sua grande paixão.


Comecemos pelo princípio: quais as tuas origens? Nasceste em Lisboa?

A minha história nesse aspecto é curiosa. Tudo começa com o meu avô, que era agrónomo, que foi para Angola trabalhar, e aí nasce o meu pai, numa cidade do interior chamada Nova Lisboa, que hoje é Huambo. Mais tarde, o meu pai vem para Portugal fazer o curso de medicina veterinária, onde conhece a minha mãe. O meu pai regressa a Luanda para trabalhar e já leva a minha mãe. Somos sete irmãos, os três mais velhos nascem em Luanda, e quando a minha mãe veio passar férias em Lisboa eu nasço aí, em 1958. Os três mais novos nascem também em Angola, em Huila. Sou o único retornado da família, no sentido em que nasci em Lisboa e voltei para Lisboa. A história da minha mãe também é extraordinária, pois nasceu em Cabo Verde, filha de um governador. Quando lá fui pela primeira vez, muitos anos depois, para filmar, esse povo considerou-me logo um deles. É um povo incrível. Isto para te dizer que a minha relação com o espaço é diferente, porque uma coisa que me marcou muito no meu regresso a Portugal, quando fico realmente a conhecer Portugal – apesar de ter vindo num curto período de férias em 1969, mas era um miúdo – isto em 1975, foi o facto de não haver natureza em bruto, pois sempre que olhavas à volta vias urbanização. Em Angola tu afastavas-te uns 10 Km de uma cidade e a partir daí só vias natureza. Aqui mesmo que subisses à Serra da Estrela ou coisa do género continuavas a ter civilização. O meu pai, além de ser médico veterinário, tinha outra profissão genial: estava a desenhar os parques nacionais de Angola, que hoje são as zonas onde é proibido caçar, as chamadas reservas naturais. O meu pai foi um pioneiro nisso, e, portanto, a minha infância, quando chegavam as férias grandes, era acompanhar o meu pai nesse trabalho na natureza em África. O contacto com a natureza foi brutal e teve uma enorme, enorme, influência em mim. Quando eu volto a ter novamente essa noção do espaço, com horizontes sem fim, foi por 1976/77, pois sempre fui velejador desde miúdo e comecei a sair para o mar, com o qual tenho uma relação muito forte, numas travessias de barco à vela até ao Algarve, ou outros lugares. Só aí é que voltei a estar rodeado de natureza, apesar de ser uma coisa muito plana. Essa relação com o meio natural continua muito forte e na minha carreira profissional gostaria de voltar a fazer documentários sobre a natureza, pois só fiz uns dois e logo no início. Se tiver saúde, isso é o que mais gostaria de voltar a fazer.

 

Tiveste então uma infância feliz…

Uma infância de contacto muito forte com a natureza, com as pessoas, marcou-me muito.

 

Tinhas 17 anos quando regressas definitivamente a Portugal…

Tinha 16 anos, fiz o PREC, digamos assim… [Risos] Vivi o PREC com muita intensidade, como toda a minha geração. Tive sempre uma paixão pela fotografia, fotografava muito desde miúdo, tinha câmaras fotográficas e um pequeno laboratório de revelação e de ampliação a preto e branco. Uma paixão que nasceu de forma intuitiva, comecei a fotografar muito não sei porquê, e na altura, já em Lisboa, até me quis inscrever no Ar.Co, que já existia, mas na mesma altura soube que havia uma Escola de Cinema, que se chamava Escola Superior de Cinema, dentro do Conservatório, onde também havia música, teatro…

 

Antes de irmos mais fundamente a esse período da Escola de Cinema, que estudos tinhas quando voltaste de Angola?

É importante referir que embarcámos em Dezembro de 1974 e escapámos à guerra civil em Angola, que começou em 1975. Passámos o natal e o ano novo embarcados e chegámos a Portugal no novo ano. Eu tinha o 6.º ano, continuei os estudos em Portugal no liceu do São João do Estoril, ia desenvolvendo a minha paixão pela fotografia, entretanto fui chamado para a tropa, porque o serviço militar era obrigatório na altura. Perdi o ano nesta confusão do PREC, devo ter sido dos poucos alunos chumbados durante esse período, mas eu era muito atirado para a revolução, digamos assim. Depois houve um «descambanço», mas foi um período muito interessante onde tudo podia acontecer. E em 1977 dediquei-me mais àquilo que queria fazer na vida, a fotografia, depois a Escola…

 

Já lá vamos. Na tropa foste para onde, só por curiosidade.

Fui chamado para a força aérea. Era obrigatório o serviço militar, como já disse. Mas tive o azar de ser chamado para a força aérea, que eram dezoito meses, quando o serviço militar do exército eram apenas dezasseis.  Mas quando somos novos dois meses fazem-nos imensa impressão, parece-nos muito mais tempo. Mas eu cumpri alegremente como soldado, apesar de ter podido ter outra patente, enfim. Fiz questão de permanecer como soldado, e fui condutor-auto do Estado-Maior-General das Forças Armadas, portanto, ainda fui condutor de alguns militares do Estado-Maior desse período, de 1985, por aí. Lá cumpri o serviço e inscrevi-me na Escola. Fiz o exame escrito, eles selecionavam as pessoas que achavam mais interessantes, e depois havia uma entrevista. E, para minha surpresa, fui admitido.

 

Lembras-te quem fazia a entrevista?

Lembro, era o José Bogalheiro. Por acaso estive há pouco tempo na Escola de Cinema com Os Filhos de Lumière - que é uma associação que trabalha o cinema com jovens – com quem eu voltei agora a trabalhar depois de muitos anos. Num jantar de antigos alunos da Escola de Cinema, onde também estava o Manuel Mozos, cruzei-me com a Teresa Garcia e ela perguntou-me se eu não queria voltar. E nesta retoma tive umas reuniões com eles na Escola Superior de Teatro e Cinema, agora na Amadora, e cruzei-me com o Bogalheiro. Fiz a Escola de Cinema primeiro, que eram só três anos, aquilo a que eles chamavam bacharelato, e depois fiz a pós-graduação em 2000.

 

Só para completar este período da tua infância e adolescência, em Angola vias filmes no cinema? Na televisão?

Via imensos filmes. Não havia televisão em Angola, mas íamos muito ao cinema. Era cinema americano, e um dos filmes que mais me impressionou foi o Ben-Hur. Era um formato muito largo, e era num cinema ao ar livre em Luanda. Lembro-me de ver esse filme em miúdo e de ficar absolutamente impressionado com a dinâmica do cinema. Depois, quando entrei na Escola de Cinema, passava dias inteiros na Cinemateca. Outra experiência muito interessante que tive no período da Escola foi que conheci um angolano que vinha a Portugal comprar filmes para levar para Angola. Ele fazia o visionamento dos filmes e convidava-me para os ver com ele.

 

Entras então para a Escola de Cinema em que ano?

A minha turma é de 1981. Na primeira vez que me inscrevi não abriram inscrições para esse ano, depois como perdi dois anos na tropa só consegui entrar em 1981. O Manel [Mozos] andava já no terceiro e eu entrei para o primeiro.

 

E assim colegas e professores que te marcaram, lembras-te?

Oh pá, lembro-me! Fernando Vendrell, João Cayatte, Luís Alvarães, António Loja Neves, que não sei se chegaste a conhecer… era um tipo extraordinário. Aliás, o António foi produtor da primeira curta-metragem produzida na Escola de Teatro e Cinema, onde numa cadeira do António Reis – e eu era um grande apaixonado pelo cinema e pela figura dele – o projecto lançado por mim e pelo António foi aceite pela Escola. Fez-se em 16 mm, cópia síncrona, e acabou por ser o primeiro filme da Escola a ir ao Festival de Cinema de Tróia, organizado pelo Manuel Costa e Silva, que também era professor na Escola. Filmámos nas ruínas do antigo jornal Républica e no pátio da Conservatória, ambos no Bairro Alto.

 

Mas porque é que foi a primeira…

Foi a primeira vez que a Escola teve condições para produzir uma curta com cópia síncrona. Lembro-me de termos filmado aquilo e de termos uma cópia em double band, e o Costa e Silva gostou do que viu e lá meteu o filme no festival com uma cópia síncrona. E lá fui eu com o António e outros alunos apresentar o filme ao primeiro Festival de Cinema de Tróia. O filme chamava-se Le Dormeur Du Val, um poema de Rimbaud, e é de 1984. Lembro-me de o António Reis ter dito que ia colocar isso como um dos trabalhos em que participou na sua carreira e de juntar a essa referência uma cópia do poema. Foi a minha primeira realização.

 

Tens falado do Reis, que mais professores te marcaram?

Apanhei a linha dura da Escola de Cinema. Paulo Rocha, Seixas Santos, Luis Miguel Cintra…

 

O Bénard?

O Bénard estava na Cinemateca, mas não dava aulas…

 

E o Silva Melo?

Sim, foi um professor muito importante, pois foi com ele que desenvolvi um projecto que partiu de uma ideia do Luís Alvarães [Longe Daqui]. Depois, quando concorri a um subsídio, o Silva Melo fez parte da reescrita do argumento.

 

De quem te sentias mais próximo e de que ideia de cinema?

O António Reis marcou-me definitivamente, acho que toda a minha geração foi muito marcada por ele, e mesmo antes. Também gostava imenso do cinema do Seixas Santos. O João César não foi professor, mas foi um dos cineastas cujo cinema mais me marcou.

 

Diz-se que, por esses anos, a Escola se dividia em quem gostava mais de cinema americano e de cinema europeu, arte e acção… onde é que te posicionavas?

Eu ainda estava a descobrir as coisas, mas sempre tive a sensação de que essa distinção é uma falácia. Não é bem uma falácia, mas é uma coisa que de facto não existe. Até aceito que sim, mas quando eu fiz o Longe Daqui parti livremente… sem pensar muito nisso. Fiz uma preparação bastante apurada, sobretudo na escolha dos actores. Mas lembro-me, quando parti para a realização do filme, que o produtor Paulo Branco, sentindo que eu estava a «panicar», cheio de dúvidas – disse-lhe mesmo que era muito cedo para eu começar a filmar – se virou para mim e disse que não me admitia isso, que eu tinha era de ir para a frente e fazer o que achava que tinha a fazer. Atira-te, disse ele, pois é assim que se fazem as coisas.

 

O Longe Daqui é de 1993, a partir da ideia do Alvarães, como já disseste. Quanto tempo passou entre essa primeira ideia e a produção do filme?

Foram dois anos e pouco, quase três anos.

 

Quando meteste o filme a concurso foi logo aprovado ou…?

Sim, para meu espanto foi logo aprovado. Não estava à espera, foi muito surpreendente. Eu nessa altura já trabalhava como assistente de câmara… o primeiro filme que fiz de longa-metragem como técnico foi como segundo assistente de câmara no Repórter X, do José Nascimento. O Nascimento também era professor de montagem na Escola, era o seu segundo ano como professor. Eu segui a área da imagem, onde ensinavam o Costa e Silva, o Daniel Del Negro… o Daniel era professor do primeiro e segundo ano, e o Costa e Silva do último ano, quando tínhamos de escolher a área.

 

Deve ter sido muito interessante, o Del Negro muito jovem como professor, e o Costa e Silva já um mestre…

Foi muito interessante. O Daniel era uma pessoa muito, muito reservada, fechada sobre si. O Manuel era muito diferente, punha-nos a fazer exercícios de iluminação, e quando nós achávamos que a cena estava pronta para filmar ele pegava numa máquina fotográfica, para ver como é que estava a luz pelo enquadramento, e discutíamos a coisa, fazíamos os fotogramas… Foi nessa altura que o Manuel foi fazer a fotografia do Repórter X, quando o Nascimento teve o subsídio estava eu no último ano do curso. O primeiro assistente de imagem foi o Amílcar Carrajola, e convidaram-me para fazer de segundo assistente.

 

Correram bem essas rodagens? Tens boas recordações?

Correu bem, pá. Foi extraordinário e muito duro. Um filme muito difícil de fazer, muitas cenas nocturnas filmadas com uma Arri 2, que era uma câmara muito ruidosa; se querias ter som síncrono tinhas de a pôr dentro de um blimp, que era uma carapaça onde a câmara entrava, feita em chumbo, com um vidro óptico à frente de uma grossura enorme. Toda a câmara era envolvida por essa cápsula por causa do barulho que produzia. E era muito pesada, foi muito difícil.

 

E que mais experiências tiveste antes do Longe Daqui?

Fiz com o Edgar Pêra Os Musicais do Sudoeste, onde fui assistente do José Pina. Mais tarde até fiz a fotografia para uma curta do Pina chamada O Mistério da Boca do Inferno. Outro que me lembro bem foi o Alma Ta Fika, do João Sodré, foi a primeira vez que fui a Cabo Verde, como primeiro assistente, em 1989, um documentário muito interessante. A Maldição do Marialva, do António De Macedo. Primeiro assistente no A Idade Maior, a estreia da Teresa Villaverde. O Xavier, do Manuel Mozos, e o Malvadez, do Luís Alvarães.

 

Como foi o Xavier?

Muito, muito interessante. Só apanhei a segunda retoma, mas aí fiquei a conhecer melhor o Manuel. Ele já me tinha convidado para ser seu assistente de montagem no Agosto, do Jorge Silva Melo, e nos Tempos Difíceis, do João Botelho. Mas também fui assistente de câmara de O Dia do Desespero, do Manoel de Oliveira…

 

Gostava muito de falar desse período com o Oliveira: A Divina Comédia, O Dia do Desespero… chegaste ao Manoel pelo Paulo Branco?

Foi pelo Paulo Branco e pelo Mário Barroso, que era o director de fotografia. Modéstia à parte, eu era muito bom como primeiro assistente de câmara, era muito focado naquilo que fazia. Nesse filme, o Mário era o director de fotografia e actor, faz de Camilo.

 

Esse é um dos meus favoritos do Oliveira, quase uma série-b, rápido e intenso, que histórias é que tens?

Foi muito bom. Para além de ter sido o meu primeiro filme com o Oliveira e com o Mário, eu fazia a câmara do filme. O Mário fazia o Camilo, portanto era eu que enquadrava, estava ao lado da câmara a ouvir as conversas entre o Manoel e o Mário, e estava ali atento àquelas coisas todas, foi extremamente interessante.

 

Como é que descreves o Oliveira dessa altura?

Era muito exigente, depois destes anos todos é dessa exigência que me lembro, do rigor com que ele enquadrava, era uma coisa absoluta. Nessa altura nem sequer video assist existia, aquilo tudo era enquadrado na câmara, ele trancava a câmara e mesmo antes de filmar voltava a espreitar a ver se estava tudo bem.

 

E como eram as famosas marcações para os actores?

Tinha marcas quando podia ter marcas, quando eram planos muito abertos não dava para marcas. De uma exigência formal muito intensa, para além do texto, mas isso já é outra coisa. Sobretudo a posição dos actores dentro do enquadramento. Às vezes irritava-se, tirava o chapéu e atirava-o para o chão e gritava: «está tudo mal» e não sei quê não sei que mais [João Guerra imita Oliveira com uma voz aguda].

 

Era boa a relação dele com a equipa?

Muito boa. A Júlia Buisel, que era a sua anotadora e o seu braço direito, era fundamental, tinha uma excelente relação com ele e dávamo-nos todos muito bem.

 

E ele acabava os filmes dentro dos prazos?

Acabava tudo a tempo, sim. O que também era muito interessante é que mesmo filmando em exteriores, filmava-se à luz e à hora que o Manoel decidia com o Mário e ponto final! Aquilo tinha que estar tudo pronto, e eu tinha essa capacidade de antecipar as coisas, de preparar como deve ser, e meia hora antes eu punha tudo pronto. Mas também era fundamental o Vasco Sequeira, o grande maquinista, que me chamava «cão com pulgas», porque eu estava sempre com grande rigor a olhar pelo visor da câmara, a dar os limites dos enquadramentos ao perchista, eu era um tipo muito activo e ele pôs-me essa alcunha. Eu chamava-lhe «bacalhau com todos», porque ele só comia bacalhau.

 

Continuando nos pesos pesados, também trabalhaste mais tarde com o César Monteiro… muito diferente do Oliveira?

Completamente diferente. Eu tinha, e tenho, uma admiração enorme pelo cinema dele, mas não sei se foi exclusivamente no período em que eu trabalhei nos filmes dele, ele estava numa fase em que era muito temperamental. Quando as coisas não corriam bem ele insultava toda a gente. Eu não fui a única vítima, mas também fui vítima disso.

 

A Comédia de Deus foi o primeiro filme em que trabalhaste com ele? Eh pá, o IMDB só tem o que lhe convém… [Risos]

Sim, foi a Comédia em 1995. Também tinha feito uma parte das curtas dele… mas sim, foi A Comédia de Deus. Era muito temperamental com toda a gente, tratava mal… ele era muito exigente com aquilo que queria fazer, mas quando as coisas não estavam a correr como ele queria, a primeira pessoa que lhe aparecesse à frente, não importa quem, ele insultava-a.

 

E como era a relação dele com o Branco?

Mandavam uns gritos, gritavam um com o outro, mas passadas duas horas já estava tudo bem. Mas para mim o cinema do João César é uma coisa e a figura é outra.

 

Escolheste o Silvestre na carta-branca que te entregámos. O que é que realmente te marcou mais no cinema dele? Foi o lado visual?

O Silvestre tem uma coisa interessante, pois foi concebido para ser filmado em décors naturais. Mas as duas primeiras semanas correram tão mal que o Branco parou a rodagem. Simplesmente interrompeu as rodagens e mandou toda a gente ir pensar para Lisboa. Porque o César não estava nada contente com aquilo, tinha actores de que não gostava, ignorava-os… isto eu sei porque me contaram, nessa altura, em 1981, estava eu na tropa. Foi também o ano doutro filme pelo qual tenho uma enorme admiração, que é o Francisca, do Manoel de Oliveira. E quando se dá a retoma do Silvestre para os estúdios da Tóbis, e a opção estética que o César tomou com o Acácio, o grande Acácio de Almeida, tornou o filme absolutamente notável. Sobretudo para a minha área, da imagem. Quando vi o filme na Cinemateca – quando a Escola via filmes na Cinemateca – caí para o lado. Depois tive também a sorte de ser assistente do Acácio.

 

Em que filme?

Fiz três ou quatro dias em Trás-os-Montes num filme do António Reis e da Margarida Cordeiro, uma coisa genial, a luz a incidir num batatal. Era muito interessante porque era ao nascer do dia, com aquela neblina que a terra começa a largar quando a água que absorveu durante a noite evapora. Muito cedo, ao nascer do dia, uma coisa genial, só eu, o Acácio, o António e a Margarida e dois assistentes, o António Gonçalo e o irmão dele, que era chefe de produção. Tive sorte porque o José António Loureiro, que era o assistente do Acácio nesse filme, não conseguiu ir.

 

Utilizavam apenas luz natural?

Era tudo luz natural, só com reflectores para contrabalançar os contrastes.

 

Conseguiste perceber como trabalhavam o António e a Margarida?

Não muito, por uma questão de discrição eu afastava-me um bocadinho. Já agora, a minha família é de Trás-os-Montes, de Freixo de Espada à Cinta, por isso esses dias também tiveram um lado sentimental.

 

Dos tempos da Escola quem é que recordas com mais carinho? Alunos, professores, tanto no trabalho como na boémia?

Uma coisa interessante é que o meu ano estava muito misturado com o do Manuel Mozos. Ficámos logo amigos. E depois havia uma coisa que era muito importante na altura: a noite de Lisboa. Inevitavelmente íamos ao Frágil, onde nem toda a gente entrava, eu era muitas vezes barrado pela Margarida, que levantava a mão e dizia: «tu não entras!». E a minha técnica era esperar pelo José Nascimento, sabia que com o Zé entraria e dava-lhe assim umas cotoveladas, e ao de leve dizia-me para ir com ele. O Mozos também era um habitué do Frágil.

 

O Botelho e o César já andavam por aí na noite?

Sim, o Botelho já andava por aí, e muito no Frágil. Aquilo era um local de encontro de pessoas do cinema.

 

Falavam de projectos, de sonhos de filmes a fazer?

Tudo, tudo, e havia outra particularidade, pois o Francisco Veloso, que fez o som do Longe Daqui, era disc jockey no Frágil. Parava lá o Vasco Pimentel, também. O Joaquim Pinto. O Rui Reininho, que foi colega do Manuel Mozos. Houve um jantar no final do ano passado, dos antigos alunos da Escola de Cinema, e lá estava o Reininho. Foi uma noite inesquecível.

 

E assim fora do cinema, davas-te com gente fora do meio, poetas, músicos…

Eu era frequentador do Hot Clube, gostava imenso de música e ainda hoje a minha grande frustração é não ser músico.

 

Mas tocavas alguma coisa ou tiveste uma banda?

Não tocava nada. Tive um saxofone emprestado pelo Pedro Melo, que também é um engenheiro de som, e durante um ano e tal tive aquilo em casa e tentava soprar nele, tive aulas e tal, mas não deu…

 

E como era no Hot Clube?

Lembro-me do Laginha, por exemplo. Devia haver lá muitos, mas eu sabia quem era o Laginha. Eu ia lá com alguma frequência.

 

Entrando agora mais a fundo no Longe Daqui, sabemos que a ideia é do Alvarães. Mas o filme tem um percurso que passa pela Beira Interior até Trás-os-Montes, onde tens antepassados. Foi também um projecto muito pessoal… a influência do road movie americano…

Se calhar sim, mas eu desprendi-me logo disso, dessas influências. Havia uma coisa que eu queria muito mostrar nessa altura, que era Portugal em obras. As grandes auto-estradas a serem rasgadas, isso interessava-me. Algumas partes do filme passam-se nesses cenários, mas interessava-me muito também filmar a paisagem. E a forma como filmei tem a ver com apanhar esse contraste entre as estradas rurais e o Portugal a ser rasgado pelas auto-estradas.

 

O filme começa com os protagonistas já fora de Lisboa, depois Vila Velha de Ródão, e depois flecte para a Beira Interior. Como é que escolheste esse percurso?

A primeira ideia do Alvarães era ser em Vila Velha, que ele conhecia bem. E eu achei que devia ser o percurso de Lisboa até Vila Velha. Fui fazendo repérage, vi os locais, e estava muito preocupado com a forma de captar o espaço e a natureza. E começo a preparar o filme em Lisboa e há uma fase em que a actriz Maysa Marta, que faz de Maria João, entra no filme, por sugestão do Jorge Silva Melo. Ia ser a Inês de Medeiros a fazer esse papel, mas o Jorge disse-me para considerar uma personagem negra, até pelo meu passado africano. E sugeriu-me que visse o Os Olhos Azuis de Yonta, e para pensar bem nessa possibilidade. Eu fui ver o filme e fiquei encantado com a Maysa. O filme é muito bonito e achei a rapariga encantadora. Tive pena de não ter ensaiado mais com ela, que chegou em cima das filmagens… eu estava rotinado com os dois actores, mas com ela tive pouco tempo para preparar. Mas a minha preocupação com ela era tão grande que acabei por descurar um pouco o trabalho com eles.

 

Mais especificamente, em que altura o Jorge Silva Melo entra a bordo e como era trabalhar com ele?

Falávamos muito, discutíamos muito, depois ele mandava-me para casa e dizia-me para trabalhar na cena e que voltasse quando achasse que estava pronta. Quando ele entra o guião estava praticamente concluído. O trabalho mais importante com ele foi, como já te disse, a adaptação da personagem da Maysa, e também voltar a escrever o personagem do Vitor, interpretado pelo Henrique Canto e Castro.

 

O grande Canto e Castro!

O grande Canto e Castro!! Com o Henrique também tenho uma história engraçada: eu comecei a preparar o filme com ele, apresentei-me, toda a gente o tratava por Canto e Castro. Só um parêntesis, eu conheci-o no primeiro filme do Manuel [Um Passo, Outro Passo e Depois...], nessa altura o Alvarães também fez parte da rodagem, e também o utilizou no Malvadez. Continuando, houve uma coisa que o Henrique me chamou a atenção: «Ó João, tu és a única pessoa que me tratas por Henrique…», e confessou-me que conheceu o meu padrinho nos anos 1950, na boémia lisboeta, e eu não sabia, mesmo já tendo filmado com ele. Disse-me que foi um grande amigo do meu padrinho, o José Figueiredo, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos, que trouxe a Maria Callas, etc., etc. Fiquei muito sensibilizado com isso.

 

O Longe Daqui é surpreendente por vários motivos: por ser um road movie português, os primeiros largos minutos não têm quase diálogos, com muita acção, ritmo sincopado e energético, as diferentes músicas nos auto-rádios – acabando com o King of the Road – também a noite como personagem, movimentos de câmara só possíveis pela iluminação dos faróis…

A ideia era ir descobrindo a relação entre os dois e ir descobrindo o percurso que eles iam fazer. Isso a mim interessava-me bastante. Interessava-me também muito a sonoridade daquele carro. Uma sonoridade muito poderosa. E depois também a minha relação com o director de fotografia, o Vladimir Brylyakov…

 

Também tinha intenção de te perguntar como chegaste ao Vladimir Brylyakov, de que nunca tinha ouvido falar e que utiliza técnicas surpreendentes…

Eu conheci-o porque ele tinha estado em Lisboa para filmar a primeira curta-metragem do Serge Truffaut, onde eu fiz primeiro assistente de câmara. Deixa cá ver, não tenho isto no currículo… mas foi uma curta com a Maria de Medeiros, e para meu espanto conheço essa pessoa que nunca tinha saído de São Petersburgo, aí por 1989, e demo-nos muito bem, ele gostava muito de mim. Eu era muito arrojado, era um excelente operador de «câmara à mão». E, em 1990, ele fez a fotografia do vencedor da Câmara de Ouro em Cannes, o Não Te Mexas, Morre e Ressuscita, do Vitali Kanevsky. Filmado a preto-e-branco, com película Orwo da antiga União Soviética, que era de uma qualidade brutal. E quando começo a falar com o Paulo Branco sobre quem poderia fazer a fotografia do Longe Daqui, e eu estava com muitas dúvidas – apesar de conhecer bem o Acácio não tinha coragem para lhe pedir… – e eu falo do Vladimir ao Paulo e do filme que tinha visto e ele disse-me logo que era uma excelente ideia. E foi muito bom porque ele trouxe uma visão completamente diferente do filme, sugeriu-me imensas coisas, que eu normalmente aceitava com toda a entrega. Ele introduziu-me a um tipo de filtros que eu não conhecia na altura, que eram os variocolor, que no fundo são dois filtros em que vais rodando um com o outro, postos no pára-sol das câmaras, e rodando esses filtros com a incidência da luz que entra pela objectiva, ele vai reforçando uma determinada tonalidade. Numa certa altura do filme em que estamos num exterior com a Maria João e ela se sente mal, há ali uma tonalidade que muda, e isso foi ideia do Vladimir. Aquele luar à noite com a luz a cintilar…

 

Sim! Aquela conversa com o Canto e Castro e o jovem, fora de casa, existem umas «cintilâncias» inauditas que eu nunca tinha visto…

Aquilo é completamente ideia do Vladimir…

 

E aquele estouro de luz branca quando a Maria João sai para a varanda…

Esses efeitos eu achava que reforçavam muito o estado de espírito dos personagens. Era uma coisa mental. O Mário Castanheira, que no filme era assistente electricista, perguntava-me se tinha a noção do que estava a fazer, e dizia-me que o gajo era maluco… e eu dizia-lhe para cagar nisso e irmos para a frente.

 

Viram filmes juntos, pinturas, ou foi mais pelo instinto?

Vimos muita pintura, o Vladimir era também um desenhador e pintava muito bem com aguarela. Mas foi sobretudo o Não Te Mexas, Morre e Ressuscita, ele disse-me que se pudesse ter feito o filme a cores experimentaria o que acabou por experimentar no meu filme. Eu disse-lhe para ir para a frente.

 

Um grande experimentalismo, mesmo. Aquelas panorâmicas sem luz nenhuma…

Havia pouca luz, era muito discreta. Mas, por exemplo, naquela estrada onde temos aquelas árvores pintadas a branco, em Castelo Branco, quando a câmara começa lá em cima com os faróis do carro e tal, aquilo foi feito com projectores, mas ficou tão bem feito que não se nota que não são os faróis do carro.

 

Em relação ao imenso rol de músicas, tu tinhas os direitos ou utilizavas só um bocadinho de cada uma para não pagares? Ouvi esse boato, não sei se é verdade…

A escolha das músicas foi feita com o Francisco Veloso. São músicas que tínhamos curtido no Frágil e que ele as tinha passado, com os amigos e tal, muito da nossa geração… Eu dizia-lhe que as músicas seriam para reforçar o estado de espírito dos personagens, dava-lhe as minhas sugestões, mas deixava-o à vontade para ser ele a escolher. Mesmo os sons ambientes, como aquele assobio [João Guerra trauteia o assobio e é muito engraçado], surgiu quando eu e o Francisco estávamos em Vila Velha à procura de ambientes como água a correr e coisas assim, e ouvimos o assobio, eu olho para o Francisco e ele já está apontado com a perche para o sítio e com o gravador ligado. Depois é que fomos falar com a pessoa do assobio para ele nos ceder a sua composição, até foi o Alexandre Barradas que era o director de produção, pois eu disse logo que se calhar ia utilizar aquilo.

 

Quanto às músicas que passam brevemente no auto-rádio…

Isso foi justamente uma opção minha para fugir aos direitos de autor. A maneira como o Paulo Branco se defendeu depois em relação aos direitos foi afirmando que aquilo é um rádio que está a tocar e que portanto… só se podia utilizar uma determinada duração…

 

Uns 20 segundos…

Uma coisa assim, e as músicas também foram escolhidas um pouco de acordo com isso…

 

Vamos então entrar na questão do carro, que é sem dúvida uma personagem central e é belíssimo. Que carro é e como o encontraram?

É um Ford Fairlane. A ideia original falada com o Alvarães era que fosse um Buick, um carro americano. Eu fui à procura dum, mas o gajo que o tinha pedia uma fortuna… Uma peça lindíssima, um carro fabuloso, mas pedia uma quantidade astronómica de dinheiro. O Alexandre Barradas propõe-me o Ford Fairlane, eu achei interessante, e depois o carro estava tão barato e disponível que o Paulo Branco o comprou.

 

E depois o carro ficou para quem?

O Paulo vendeu-o no final do filme. Mas é uma personagem, até teve uma grua montada no capô.

 

Eu diria que a história do filme é a de alguém que no começo quer vender o carro, mas que no final descobre que nunca o conseguiria fazer porque o ama…

Exactamente.

 

Lembro-me de uma cena em que a personagem do Filipe Cochofel está meio bêbada e começa a falar com o carro… ecos do Vasco Santana?

Essa parte foi escrita com o Alvarães. O Luís ficou relativamente melindrado comigo por no genérico eu o ter creditado somente pela ideia do filme. Eu não tive o cuidado de o creditar como argumentista. Foi um lapso meu, e eu só soube o que ele sentia em relação a isso já o filme estava pronto. Ele disse-me que não estava nada contente e eu disse-lhe que lamentava imenso…

 

Outro diálogo fabuloso e meio picaresco é quando o mesmo personagem diz: «tenho os bolsos vazios e o coração em pedaços», concluindo depois que «isto sim, isto é que é poesia…»

Também é do Alvarães… a maior parte dos diálogos é mesmo dele. E só reforça uma vez mais o melindre em que eu acabei por escorregar.

 

Se calhar foi com a pressão de teres de acabar o filme…

Também foi por isso… Mas, mais tarde, o Alvarães e o Vendrell produziram-me duas curtas e senti que não ficámos zangados.

 

Acho que as cenas mais surreais, mais bizarras, mais tocantes, passam-se com o Canto e Castro. A entrada em cena dele é com as abelhas, como apicultor. Como é que se lembraram disso?

No meu passado transmontano eu lembro-me da imagem dos apicultores com aquela carapuça, todos fechados, e achava que mostrar o Henrique com isso seria fantástico. A grande dificuldade seria escolher o décor, mas acabámos por encontrá-lo também em Vila Velha. Hás-de reparar que nessa cena também há uma determinada coloração bastante mais azulada, fria, todos os tons ficam muito mais saturados, e isso interessava-me muito do ponto de vista da imagem. Eu dava uma ideia ao Vladimir e ele respondia-me com duas, era em catadupa.

 

Depois há uma cena num café na Guarda que vai mudando de luz e de tom… e quando o personagem do Canto e Castro está a sair, tu metes música clássica… no fundo quando começa a morrer, e a cena torna-se realmente azulada…

Eles entram com um tom quente, as lâmpadas são de tungsténio e dão uma temperatura de cor quente, e na saída aquilo fica frio. Foi uma ideia minha que o Vladimir aceitou.

 

Cena bizarra, quase parece um corpo estranho…

Exactamente, com a música clássica lembro-me de o Branco me ter dito «tu escolhes o que quiseres, só não escolhas é o Harnoncourt como maestro, porque aí eu tenho de pagar direitos.» Mas eu ouvi várias versões do tema e a que gostei mais foi a do Harnoncourt e pronto, ele disse que sim e pagou.

 

Para mim a cena central do filme é a morte do Canto e Castro. Uma cena que dura imenso, é tortuosa, sente-se um peso morto a tentar ser levantado, o arrastar desse peso, a colocação na moto, o Artur a tentar prendê-lo. A cena estava escrita assim ou como é que aconteceu?

A cena estava escrita assim, eu fiz questão de a filmar assim, mas tem uma nuance. Após a rodagem, eu tive de refilmar algumas coisas. Quando a montagem estava concluída, eu e a Manuela Viegas, que trabalhou comigo, chegámos à conclusão de que a cena não tinha tempo suficiente. Mostrei ao Paulo, fiz uma lista de coisas que era preciso filmar e, mesmo com os efeitos que o Vladimir usou na cena, essas segundas filmagens já foram executadas apenas por mim e por um assistente. Mesmo a cena do dólmen, era muito mais curta, pois na altura da rodagem, por uma questão de tempo, aquilo não ficou bem. Mesmo o Vladimir disse na altura que devíamos ter filmado mais, mas não deu. Então voltei aos mesmos locais.

 

Foi complicado para o Canto e Castro interpretar/viver essa cena?

O Canto e Castro era extremamente generoso, o que eu sempre achei é que os bons actores são pessoas muito generosas. E tinha uma coisa muito interessante: ele ouvia as pessoas, gostava de ouvir as pessoas e gostava de discutir as sugestões. Não fez absolutamente nenhum comentário nessa cena, apenas disse: «só espero é que tenham força para me carregar como um morto».

 

Continuando com os actores, as escolhas do Filipe Cochofel e do António Pedro Figueiredo foram as tuas primeiras opções? Gosto de muitas coisas do filme, mas o par protagonista deixa-me algumas dúvidas. Ficaste satisfeito…

O António Pedro Figueiredo foi a primeira opção…

 

Sim, dos dois acho esse o melhor…

Eu tinha outro actor para o personagem do Filipe Cochofel, mas ele na altura não conseguia, já não me lembro…

 

Era quem?

Era um tipo que nem sequer era actor, trabalhava na Fundação Gulbenkian, era uma figura muito interessante. Depois, por sugestão do Silva Melo, escolhi o Filipe.

 

Temos várias participações especiais, a Manuela de Freitas, o Manuel João Vieira…

Isso é uma cena muito engraçada, porque a acção e o personagem que eu tinha previsto para ele eram completamente diferentes. Mas aconteceu que chegámos ao dia de rodagem e o Manuel João Vieira aparece com uma hora de atraso e em directa da noite de Lisboa. Ele estava em estado comatoso. Eu só tinha aquele dia para filmar com ele aquela cena. Por isso é que o pus sentado, a ler A Bola, com o texto escrito à frente para ele não se esquecer, dava-lhe café e lavava-lhe a cara antes dele entrar em cena, sentávamo-lo, ele acordava, dizia a coisa e tal, e pronto.

 

A cena da Manuela de Freitas é mesmo pequena…

Uma pequena cena, assim como a da Glicínia Quartin. Eu conhecia a Glicínia e acompanhava as peças dela, mas como não tinha ninguém para esses papéis segui as sugestões do Silva Melo.

 

O Manel [Mozos] também entra, é a cena na estação de comboios?

O Manel é o chefe da estação.

 

O filme é de 1993 e na altura tivemos uma série de road movies americanos carregados de violência e de sexo, como o Amor à Queima-Roupa ou o Assassinos Natos, do Oliver Stone, ou o The Chase, do Adam Rifkin, sei lá… o teu filme tem um grande pudor, não temos sequer beijos…

Acho que não têm lugar no filme. Eu estava muito interessado na história, na cumplicidade entre aqueles dois amigos, como é que aparece a rapariga… Aliás, há uma coisa curiosa que tem a ver com o final do filme: eu gostaria que não tivesse acabado com o plano que acaba, com os dois amigos a trocarem um cigarro. A Manuela Viegas achava que o filme devia acabar com o grande plano da Maysa, ela está de costas, olha-os e acabou. Como a história começa com a amizade masculina e a mulher só entra depois, eu achei que devia acabar o filme com os dois. Mas, pensando melhor, acho que a Manuela tinha toda a razão.

 

Filmaste em continuidade ou houve muita falsificação?

A viagem sim, um pouco, mas nem tudo foi feito em continuidade.

 

E a relação com a Manuela Viegas na montagem, que tal foi?

Olha, acho que ela trabalhou no Silvestre. Conheci a Manuela Viegas através do Manuel Mozos. Na montagem, trabalhávamos bem. Víamos o material, e depois eu gostava que ela pegasse no que lá estava e que me sugerisse a montagem. Antes disso, nós víamos todas as rushes e anotávamos o que gostávamos e o que não gostávamos, tipo «gosto como o plano começa e acaba e depois corta…», fizemos o alinhamento todo conforme as minhas ideias, e obviamente como eu não tinha o «olho da montagem» aquilo não estava bem. E ela dizia-me para deixar aquilo com ela e para aparecer na sala de montagem dois dias depois. E então revíamos aquilo. O processo foi todo feito com a pesquisa da música, e eu acho que isso influenciou muito a montagem, houve muitos sons que eu e o Francisco fizemos durante a montagem. Para encontrar o tempo certo dos cortes, etc., e tudo isso foi muito enriquecedor. Lembro-me de um som de pingos de água que está no filme, e esse som foi filmado às três da manhã numa latrina pública de Vila Velha, toda feita em mármore branco, e numa noitada que fizemos com toda a equipa, copos e tal antes do fim-de-semana, usei a latrina e fui logo chamar o Francisco para ouvir aquele som. «Ei pá, isto são uns pingos geniais!», disse logo o Francisco, e na noite a seguir, já sóbrio, foi lá gravar aquilo. E depois alterámos a velocidade do som em relação à captação, e aparecem umas coisas muito agudas, parece que pica, isto para te dar uma ideia do detalhe com que trabalhámos em todos os departamentos e em todas as fases.

 

Já agora, a música final é uma peça surpreendente, meio árabe?

É uma cantiga de amigo. Essa por acaso fui eu que descobri. Uma peça Galaico-Portuguesa. É um bocadinho a ressaca do filme todo. É a preparação para o final, aquele tempo e aquela luz fantástica.

 

O Paulo Branco aceitou bem a montagem final? Exigiu alguma coisa? Como foi…

O Paulo gostou imenso do filme. Devo dizer que antes da Covid houve uma projecção especial no Monumental, e foi bom porque nessa altura já não via o filme há muitos anos. E correu muito bem, eu acho que o Paulo continua a ter esse carinho pelo Longe Daqui.

 

Em termos gerais, houve algum aspecto do filme que não te satisfez ou que gostasses de ter explorado mais? Ou por falta de tempo, ou orçamento?

Nesta nova digitalização que fizeram do filme eu vi-o do princípio ao fim. E pela primeira vez em muito tempo. Até disse isso ao Manel [Mozos], pois pensei para mim que gostaria de tirar ao filme uns quinze minutos. Ao trocar essas impressões com o Manel ele disse-me que não tinha essa opinião, que achava que o filme estava a envelhecer muito bem.

 

Passando agora um pouco para a vida do filme depois de concluído: estreou, foi a festivais?

Foi ao festival de Mannheim e ao de Turim. Estive lá, lembro-me que num deles o Joaquim Pinto fazia parte de um júri, de fazermos umas mesas-redondas sobre produção, coisas assim.

 

E como foi a recepção? Disseram-te coisas boas?

Pá, coisas boas, quer dizer, nem boas nem más… não teve nenhuma menção…

 

Depois estrou em Portugal?

Estreou em Portugal, só teve uma semana em exibição e nas salas do Paulo Branco.

 

E estiveste pelas sessões, apresentaste o filme?

Apresentei o filme no King…

 

E teve números satisfatórios?

Foi satisfatório, até fiquei surpreendido por ele ter tirado o filme tão cedo…

 

Devia ter outro para estrear…

Com certeza…

 

E em termos da crítica, acho que na altura a coisa não correu muito bem…

Correu pessimamente, correu pessimamente, eu devo dizer que tive cinco bolas pretas no Jornal Expresso.

 

Meu Deus… e porque é que achas que isso aconteceu?

Reconheço algumas debilidades do filme, mas também sei que havia ali uns ajustes de contas entre o Paulo Branco e os críticos. Sobretudo com o Expresso. Lembro-me que o único crítico que falou comigo e que me entrevistou foi o Vasco Câmara. Ele gostou do filme.

 

Ficaste magoado com as pessoas?

Dizer que não fiquei, seria estar a mentir-te. Fiquei sentido, mas achei que havia esse ajuste de contas, sobretudo com o Expresso, que não consigo entender.

 

Já na edição do ano passado dos Encontros tivemos aqui o Pedro M. Ruivo, que também ficou chateado com o Expresso e que disse que nessa altura, para se ter uma boa crítica, tinha de se andar a bajular os críticos no Bairro Alto…

Eu estava-me absolutamente nas tintas para isso. Não os conhecia e não ligava nenhum.

 

Boa…

Fiquei surpreendido com um crítico do Expresso que também foi lá meu professor da Escola de Cinema, um guru, como é que ele se chama… deixa cá pesquisar… [passam uns três minutos até encontrar o nome nos arquivos] João Lopes!

 

Ah, claro, isso era previsível…

Ele detestou o filme, também. Fiquei espantado, porque eu fiz um exercício na disciplina que ele dava lá na Escola, que era Análise de Filmes, em que ele propôs que escrevêssemos uma cena e a «decupássemos». Lembro-me de ter feito um plano-sequência ao desenvolver a cena. Fiz um desenho onde tinha o princípio do travelling e o final do travelling, e a acção dos personagens e o espaço por onde eles passavam. E ele não percebeu onde é que o plano estava cortado, e eu disse-lhe que ele tinha entendido mal e que aquilo era um plano-sequência. Ele tinha-me dado uma nota péssima, mas eu depois expliquei-lhe o plano-sequência e ele mudou a nota. Portanto, ele sabia quem eu era.

 

Mas achas que foi ressentimento?

Não, eu achava que tinha um bom relacionamento com ele. Agora ele tem esta análise, mas sobretudo o que nos tocou foram as cinco bolas pretas. Eu, aliás, ainda tenho o Expresso aqui guardado…

 

E como eram as críticas…

Pá, eu posso mandar-te o jornal, se quiseres.

 

Deixa estar, tudo bem. Passando a coisas mais importantes, houve professores teus que viram o teu filme? O António Reis?

O António Reis não chegou a ver o filme. Eu não mostrei a ninguém e quando me cruzo com eles não puxo o assunto, mas não me disseram nada.

 

Isso obviamente prejudicou-te a carreira, nos concursos seguintes…

Prejudicou, pá. Vou dar-te um exemplo: eu escrevi com a Jeanne Waltz um argumento que se chamava Mar Adentro, antes do filme espanhol com o Bardem. Uma história passada dentro de um cargueiro, uma bióloga que estava a tratar de uma espécie de peixes. Uma história muito interessante porque era passada dentro de um barco, a relação da bióloga com o marinheiro e restante tripulação, a relação com a natureza e o mar, etc. Gostei imenso daquele argumento, e concorri com ele a sete concursos. Comecei por concorrer com o Paulo, depois ele desinteressou-se porque aquilo parecia perdido, eu continuei a trabalhar o guião com a Jeanne, voltámos a concurso e estive sempre à beira de conseguir. Nessa altura, davam dois subsídios por ano, era bianual, para as segundas obras. E umas três ou quatro vezes fiquei em terceiro lugar. Como esteve sempre tão perto eu ia voltando a concorrer. Depois disse para mim que as pessoas já conheciam aquilo e que deixou de ter interesse. Escrevi outro argumento, baseado num livro do Lobo Antunes sobre a Guerra Colonial. Tenho este episódio engraçado: enviei o argumento ao Lobo Antunes, a dizer-lhe que tinha pensado no livro dele e tal, e curiosamente até me respondeu a dizer que era interessante. Chamava-se Ultramar, concorri, e voltou a acontecer a mesma coisa duas vezes. E então desisto, pá. Só depois, em 2005, com o Fernando Vendrell e com o Alvarães é que voltei a ter subsídio para fazer duas curtas-metragens.

 

No entretanto, voltaste a trabalhar com realizadores importantes, o Wim Wenders…

O Wenders, o Raoul Ruiz, que era outra figura…

 

Começando pelo Wenders, como é que foi o trabalho no Lisbon Story?

Fui primeiro assistente de câmara e tinha uma relação próxima com a Lisa Rinzler, a directora de fotografia. Lembro-me que quando filmámos a sequência em que o protagonista entra pela fronteira portuguesa, que demorou vários dias, com aquele céu fabuloso cheio de carneiros, o Wenders pergunta-me: «ó João, este céu está maravilhoso, achas que amanhã também vai estar?» Eu respondi-lhe que a meteorologia não era o meu forte e que era preciso um bocadinho de sorte. E ele vira-se para mim: «se calhar vou ter sorte!» E não é que tiveram quatro dias com aquele céu fabuloso? Correu bem de tal maneira que quando chegámos a Évora o Wim convidou toda a gente para ir jantar ao Fialho, um restaurante 5 estrelas. Aliás, vou mostrar-te um presente que o Wim me ofereceu [João Guerra vai à prateleira e saca um livro bem grande, grosso e lindo dedicado ao fabuloso director de fotografia Henri Alekan]. Foi ele que fez o Asas do Desejo. Ofereceu-mo no final da rodagem e guardo-o com grande estima.

 

Outro grande, gigantesco, foi o Raoul Ruiz. Deves ter aprendido imenso com o seu experimentalismo. Ele colocava a câmara em sítios inusitados, dentro da boca dos personagens, os filtros marados, invenções do arco-da-velha…

Era absolutamente fabuloso. Devo dizer-te que foi com o Ruiz que tive o dia em que filmei mais planos: 52 planos. Foi no Fado Maior e Menor. Ele tinha um director de fotografia francês que era muito, muito pesado, e então todos os movimentos de grua era eu que os filmava porque não era seguro com o peso dele, por causa dos contra-pesos da grua.

 

Ele planificava tudo ou inventava na rodagem a maneira de filmar?

A maior parte das coisas ele inventava na altura, ele tinha era umas ideias… mas nesse filme há um diálogo entre dois personagens e temos um chapéu que plana sobre eles… foi uma coisa pensada, lembro-me dele discutir muito isso, e sobretudo era muito difícil para mim, como primeiro assistente, do ponto de vista técnico. Porque ele estava a filmar aquilo com uma objectiva relativamente fechada, uma 40 mm ou uma 50 mm, com pouca profundidade de campo, e sobretudo a mudança de foco entre os personagens era importante para ele e acabou por ficar muito satisfeito. Nesse tempo acontecia uma coisa que hoje já não se faz: nós filmávamos em Alcochete, e no final do dia íamos a Lisboa para vermos as rushes. No dia a seguir pegávamos ao trabalho já com a ideia de como as coisas tinham ficado. Um trabalho muito exaustivo, muito exigente do ponto de vista técnico e do ponto de vista físico. A importância dos décors… Mas também havia dias em que o Raoul dizia que hoje só íamos filmar uma coisa e que primeiro estava o almoço…

 

Voltaste a estar com o Oliveira em O Convento, que deve ter sido muito interessante pois é o princípio do Oliveira internacional, com a Deneuve, o Malkovich… encontraste um Oliveira diferente?

Não, o Oliveira era a mesmíssima pessoa. Tanto a Deneuve como o Malkovich tinham uma enorme admiração por ele.

 

A relação com a Deneuve foi tempestuosa, ou não?

Foi tempestuosa porque ela não queria trabalhar muito tempo. Havia coisas de que ela não prescindia. Só trabalhava a partir de uma determinada hora, e havia outra coisa que não podia faltar: ela tinha de vir sempre a Lisboa à feira da ladra. Sempre que havia um intervalo ela ia para uma loja de antiguidades procurar coisas, e isso deixava a produção um bocadinho desnorteada. Isso são coisas de produção, mas o trabalho entre eles e o Oliveira era o contrário.

 

Nesse período pós-Longe Daqui, com quem gostaste mais de trabalhar, em que filmes?

Olha, gostei muito de trabalhar com o Luis Miguel Cintra noutra comédia, mas agora a Divina, em A Divina Comédia, outra vez do Oliveira [anterior a Longe Daqui, de 1991]. Ele também gostou imenso de trabalhar comigo porque às vezes os actores apanham uns tiques sem repararem, e eu avisava-o disso, muito discretamente: «olha, estás aí a fazer um gestozito com a mão…» E ele ficava todo contente por o avisar. Mas sempre tive muito boas relações, pois sempre fui muito focado, sempre tive muita atenção aos planos, ao quadro, porque as coisas têm de ter uma razão para serem como são. Mas tenho de nomear outras experiências em filmes realmente importantes: o Glória, da Manuela Viegas; Cinco Dias, Cinco Noites, do Fonseca e Costa, onde tive um trabalho importante com a «câmara à mão»; o Agosto, do Silva Melo, com muita gente da Escola, entre os quais o Pedro Costa; o PAX, do Eduardo Guedes, filmado durante dias e dias em Lisboa e à noite, muito duro; o António Pinho Vargas: notas de um compositor, do Manel [Mozos]; e foi fascinante trabalhar numa série de documentários produzida pela C.R.I.M, Outros Sonhos, que continha filmes tais como: Fragmentos De Um Tempo Lento, sobre como viver num corpo paralisado, Mundo Silencioso, sobre uma menina cega de nascença, e Olhar Por Dentro, que acompanha um mágico surdo-mudo; e trabalhar com o Bob Wilson num espectáculo para a Expo 98 foi inolvidável, era uma pessoa brilhante, com uma cabeça única.

 

Já agora, trabalhaste no Vale Abraão?

Filmei só uns planos com a segunda equipa, mas foi só uma manhã ou coisa assim…

 

Continuaste então a viver do cinema, depois da longa?

Sim, era um bom assistente de câmara e depois comecei a fazer trabalhos como director de fotografia. Foi uma passagem gradual, as coisas correram bem, mas depois houve outras questões familiares e pessoais que me prenderam mais, e houve um período em que não estive tão disponível, pois apareceram coisas mais importantes do que o cinema.

 

Também trabalhaste com o João Mário Grilo…

Muito interessante, muito rigoroso. Com o João Mário aprendi a filmar arquitectura. Fiz A Vossa Casa, sobre o Raul Lino e a sua obra, em que passámos muitas imagens para 16:9. Documentários sobre o metro…

 

O Fim do Mundo é incrível…

Sim, e o 451 ForteProva de Contacto, sobre a obra de José de Guimarães, onde estive algumas semanas no Japão e viajei de norte a sul. Trabalhei na parte portuguesa de Os Olhos da Ásia, O Processo do ReiAmadeo, E Depois, sobre a exposição «Sob o signo de Amadeo. Um século de arte»… Também trabalhei com o Botelho como assistente…

 

Damos um valente salto e só regressas à realização em 2005. Como foi esse regresso? Foi ideia tua ou alguém te propôs?

Eu fui a Angola fazer um filme do Zezé Gamboa, cujo director de fotografia era um italiano que se chamava Mario Masini. O Mario, para além disso, era escritor. E escreveu um conto chamado Una banca per due, que ficou Um banco para dois em português, que é a história de dois mendigos. E eu adaptei-o à minha curta-metragem que se chama Janelas Verdes. Foi em 2006. Seguidamente, filmei a adaptação do conto do José Cardoso Pires, Os Três Caminheiros, do livro OS CAMINHEIROS e outros contos.

 

Ficaste satisfeito e voltaste a ter apetite pela realização?

Muito satisfeito, e devo dizer-te que gosto particularmente d'Os Três Caminheiros. Foi montado pelo Pedro Marques…

 

Ah, sim, o montador do Pedro Costa e do Xavier… nesse filme trabalhaste com o Diogo Dória…

Conhecia-o do Oliveira… mas eu também fiz luz para teatro e trabalhei com ele em teatro. Ficámos amigos e correu muito bem. Acho que o Diogo faz um cego muito interessante. Nessa curta tive música feita para o filme, música original, mas sendo uma curta acho que está muito completa, o conto era muito forte.

 

O filme viajou e foi a festivais?

Não… quer dizer, não sei… eu entreguei aquilo e deixei para a produção… mas não foi. Nunca mais me voltei a cruzar com o Fernando e com o Luís… coincidiu com a fase em que me afastei um bocadinho…

 

Isso já foi em 2007. Até agora tens tentado fazer filmes, sejam curtas, longas?

Fui tentando concorrer, mas nunca tive subsídio, e fui ficando cada vez pior classificado. Na Covid escrevi um argumento, uma primeira versão, depois falei com o Manuela Viegas para ela me ajudar na reescrita, mas ela discretamente deu-me a entender que não estava interessada. De vez em quando regresso a isso, pois tenho escrito outras coisas, mas esse é um argumento a que eu gostaria de voltar.

 

Se quiseres contar… pode ser que alguém queira produzir…

É uma história passada em Lisboa e Trás-os-Montes. Há um casal que são avós, os netos trabalham em Lisboa, um tem uma livraria ambulante, vai vendendo livros em lugares específicos de Lisboa, e de vez em quando faz umas incursões ao norte. A mãe dele é actriz de teatro, tem também esse lado do mundo do teatro, a relação dos actores com o teatro e com a vida… a relação do filho com a mãe actriz e a vida nocturna dela por causa do seu trabalho. Ele tem a carrinha e vai tentando sobreviver como trabalhador-estudante, encontra uma rapariga e essa relação tem um pouco a ver com As Noites Brancas… O avô tem um barco no Douro, foi navegador da marinha mercante e tem uma forte relação com o mar, tem uma filha que está em lisboa… Depois há uma altura em que ele reconhece que já não tem capacidade para suster o barco, apesar da enorme paixão, e oferece o barco ao neto. Então temos a viagem através do Douro, passa pela Ponte de D. Luís, no Porto, e depois a parte final é essa viagem entre avô e neto até o barco chegar a Lisboa.

 

É muito bonito. Ainda acreditas que o vais concretizar?

Continuo a trabalhar nele, mas desde início que tenho essa dificuldade de não ser argumentista. Preciso sempre de um apoio.

 

Nunca concorreste com esse?

Com esse concorri para a escrita durante o período da Covid.

 

Com algum produtor?

Com o Paulo Branco. Acabei por não ter porque me atrasei a entregar as coisas ao Paulo… e depois as tais dificuldades com a escrita de argumentos…

 

O que importa é que continuas a querer fazer novos filmes.

Continuo a querer filmar. Mas agora também reconheço que à medida que o tempo passa é mais difícil.

 

Agora dás aulas…

Sou professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, dou uma cadeira interessante porque é aberta a toda a faculdade, não é só para alunos de cinema, portanto, tenho alunos das Ciências Sociais e Humanas. Ensino os princípios básicos do cinema, e ponho os alunos a discutirem curtas-metragens de cinco minutos. Tenho entre trinta e cinco a quarenta alunos, divido a turma em grupos, eles propõem-se a fazer essas curtas que são produzidas, realizadas e montadas, e eu acompanho o processo até à rodagem. Para além disso, dou-lhes princípios básicos de iluminação, captura de som, normalmente no som tenho outro professor que me ajuda…

 

E gostas de ser professor? Tens tido bons trabalhos e boas experiências com os alunos?

Satisfaz-me bastante, pois eles entram com um estado de espírito e saem de outra maneira. São alunos que não são só de cinema, mas depois chegam muitos alunos do Erasmus, e esses são da área do cinema, e têm um grande conhecimento, e eu sento-os com os alunos portugueses e é muito interessante, o resultado satisfaz-me francamente. Agora com Os Filhos de Lumière a faixa etária é diferente, são alunos até ao 12.º ano, mas a abordagem não é muito diferente. Pronto, é a minha maneira de sobreviver no meio disto tudo.

 

Para acabar, continuas a acompanhar o cinema contemporâneo? Vais às salas, preferes ver em casa?

Vou, ainda ontem fui ao cinema ver um filme que me surpreendeu, o Blue Moon, não sei se viste…

 

Ah, do Linklater, ainda não vi, mas vamos passar no Cineclube Gardunha em breve…

Fique surpreendidíssimo com esse filme. Passado em três décors, e dez minutos depois do filme começar não sais do mesmo décor. Uma hora e vinte de um grande rigor. Não estava à espera e fiquei a pensar naquilo. Depois, vejo os clássicos.

 

Já agora, assim do cinema contemporâneo quais são os filmes ou realizadores que mais admiras?

Gosto particularmente do Miguel Gomes. Acho que é um realizador com muito interesse, um tipo muito exigente.

 

Conheces?

Conheci-o através do Manuel Mozos, há muitos anos atrás.

 

Continuas a ter relações com o pessoal com quem já trabalhaste…

Não tanto, mas sim. Estou mais afastado, a ficar mais velho, mas gostaria imenso de voltar a filmar.

 

Espero sinceramente que consigas! Tenho a certeza que vais conseguir. Acho que não te chateio mais, obrigado pelo teu tempo, gostei muito, um forte abraço para ti…

Eu é que te agradeço também. Um abraço.


[Entrevista realizada para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026 e igualmente publicada no Jornal do Fundão: https://www.jornaldofundao.pt/cultura/encontro-com-joao-guerra]