terça-feira, 7 de julho de 2026

ENCONTRO COM ANDREA GIROLAMI

 


por José Oliveira


Os Encontros de Cinema do Fundão 2025 tiveram a honra de contar com o lendário Enzo G. Castellari, que veio acompanhado do seu filho, Andrea Girolami. Foram momentos divertidos, em que Enzo conversou com toda a gente, distribuiu sorrisos e fotografias, contou histórias fabulosas. Estivemos na presença de uma personagem mítica, que, no entanto, ali estava em carne e osso.

Andrea foi fundamental, tendo sido muito mais do que um simples intermediário em todo o processo. Igualmente generoso nos sorrisos, e com as suas próprias histórias na ponta da língua – além de realizador, foi um importantíssimo assistente de realização. Entre os muitos filmes em que foi o braço direito do realizador conta-se o ultra-premiado O Paciente Inglês. Logo no aeroporto, fez-nos saber que estava a escrever dois livros sobre o pai, sendo o primeiro uma conversa «tu cá, tu lá» com Enzo sobre a obra-prima High Crime (La Polizia incrimina, la legge assolve, no original italiano), de 1973, um filme pioneiro.

Foi o mote perfeito para criarmos uma nova rubrica, apelidada significativamente Fade In, que permite passarmos de uma edição dos Encontros para outra com uma ligação – ou um raccord, se quisermos – que faça pleno sentido. Assim, teremos um filme potentíssimo, projectado ao ar livre, e uma conversa com Andrea sobre o seu precioso livro: La Polizia incrimina, la legge assolve – Il film che ha creato un genere. Como o livro não está traduzido em português, não se irá realizar o típico lançamento oficial. Teremos antes uma conversa em torno desta ideia e deste processo tão original – dois profundos conhecedores da arte e da indústria do cinema à volta de uma obra marcante, que, não por acaso, são pai e filho.

Segue-se uma conversa breve, mas permeada por muito amor, ao pai, à família, ao cinema, à vida. Porque cheia de vitalidade, é bonito quando sentimos que há coisas para dizer e que não se pode parar. Bravo Girolamis!


O teu livro é um caso porventura inédito na História do Cinema: um filho a entrevistar o pai, sobre um filme realizado pelo segundo. Como tiveste essa ideia?

Sim, de facto, é um caso único em que um filho entrevista o seu pai. Nos últimos anos, tenho reparado que muitos «filhos de realizadores ou actores/actrizes» decidem escrever um livro sobre os seus pais. Uma espécie de livro de memórias. Existem livros óptimos e maravilhosos. Em vez disso, queria criar algo original e mais respeitoso – um «livro de diálogos entre pai e filho» – enquanto viam um filme. Durante a nossa conversa, partilhámos muitos episódios das nossas vidas pessoais e cinematográficas. O livro teve tanto sucesso que muitas pessoas me pediram para escrever mais. Assim, estou a trabalhar no meu terceiro livro. Espero que os editores do meu último livro (Bloodbuster, de Milão) também gostem deste. Será mais uma «converseta» entre «pai e filho» enquanto assistem a Street Law. Incluirá muitos, muitos extras fantásticos e extremamente raros. Além disso, há outro livro de conversas entre «pai e filho» a caminho, abordando todo o universo do «Cinema de A a Z». Este é um projecto mais complexo e intenso. O livro sobre High Crime será publicado nos EUA. Cruzem os dedos!

 

E por que é que escolheste o High Crime em particular? Poderia ter sido outro filme ou esse marcou-te de alguma forma?

As minhas primeiras memórias do cinema são das filmagens de High Crime. Eu tinha apenas três anos de idade! Este filme é muito importante porque também deu início ao género poliziesco em Itália. É considerado o primeiro filme de acção policial. Para homenagear esta obra-prima inestimável, quis criar um livro também importante. Para todos os fãs do género poliziesco — incluindo eu. Desde a minha infância que as conversas em família durante as refeições giravam em torno do cinema. Nunca falávamos de desporto, religião ou política. Sempre falámos e discutimos sobre cinema. Eu comia cinema ao pequeno-almoço, cinema ao almoço, cinema ao jantar. E não era só na minha família nuclear... O meu avô (Marino Girolami), o meu tio (Enio Girolami), a minha irmã (Stefania Girolami), o tio do meu pai (Romolo Guerrieri) e também do lado da minha mãe. A minha mãe (Mirella Casini) era montadora de filmes e todas as suas irmãs trabalhavam em montagem. Uma das minhas tias (Tatiana Casini-Morigi) era montadora pessoal do Alberto Sordi... Para além de todos os amigos da família, muitos dos quais eram estrelas de cinema e membros da equipa de filmagens nos bastidores.

 

Sabemos do teu gosto pelo Poliziesco all'Italiana, o que te leva a visitar e a fotografar os locais de acção de muitos clássicos. Como explicas essa paixão?

Essa é uma óptima pergunta! Bem, tudo começou quando costumava visitar o set de filmagens do meu pai em rapaz... Ao longo dos anos, vi alguns locais desaparecerem ou mudarem. Decidi fazer um especial «Ontem e Hoje» dos sets de filmagem do meu pai e da minha família... Comecei a visitar os locais originais dos filmes e, de repente, percebi que muitos locais usados ​​pelo meu pai e/ou pelo meu avô também estavam em muitos outros filmes poliziesco... Então, comecei a coleccionar e a criar este enorme arquivo fotográfico poliziesco. Um dia, gostaria de publicar um livro, «Ontem e Hoje no Poliziesco Italiano». Há momentos em que, depois de tirar as fotografias, paro e imagino-me ali – durante a rodagem da cena. Durante as minhas buscas por locais, encontro muitas pessoas que têm memórias dos sets de filmagem. Em particular, lembro-me de quando visitei um posto de abastecimento de combustível – encontrei o dono e perguntei-lhe se podia tirar fotografias. Ele concordou e disse-me que se lembrava muito bem do meu avô!!! «Comecei a trabalhar aqui quando era apenas uma criança. Lembro-me muito bem do seu avô. Era muito amável com toda a gente. Olha só para mim agora, sou o dono do posto de abastecimento». No final, enviei-lhe as fotografias do «Antes e Depois» do seu posto de abastecimento. Ele disse-me que as tinha emoldurado!! Outra ocasião foi quando visitei um ginásio – o proprietário não fazia ideia de que o ginásio tinha sido utilizado num poliziesco. Permitiu-me tirar fotografias e, no final, pediu-me uma cópia do meu trabalho. Também tem as minhas fotografias do «Antes e Depois» emolduradas na parede da entrada do ginásio. Estou a espalhar a minha paixão por toda a parte...

 

Quais são os teus poliziescos favoritos? E, já agora, existe algum realizador no cinema italiano recente que trabalhe esse género?

Os meus poliziescos favoritos? Os do meu pai, do meu tio e do meu avô. Os três criaram maravilhosas obras-primas do Poliziesco. Mas gostaria de dizer que também aprecio muito Umberto Lenzi, Sergio Martino, Stelvio Massi, os irmãos Corbucci, Bellocchio, Lizzani, Monicelli, Comencini, Damiani... Hoje em dia? Stefano Sollima, filho de Sergio Sollima. É um GRANDE realizador de cinema. Aplaudo também os filmes de Michele Placido, dos irmãos Manetti e de Matteo Garrone.

 

[Tradução de José Oliveira]


[Entrevista realizada para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026 e igualmente publicada no Jornal do Fundão: https://www.jornaldofundao.pt/cultura/encontro-com-andrea-girolami]

Sem comentários: