por José Oliveira
Os Encontros de Cinema do
Fundão 2025 tiveram a honra de contar com o lendário Enzo G. Castellari, que
veio acompanhado do seu filho, Andrea Girolami. Foram momentos divertidos, em
que Enzo conversou com toda a gente, distribuiu sorrisos e fotografias, contou
histórias fabulosas. Estivemos na presença de uma personagem mítica, que, no
entanto, ali estava em carne e osso.
Andrea foi fundamental, tendo
sido muito mais do que um simples intermediário em todo o processo. Igualmente
generoso nos sorrisos, e com as suas próprias histórias na ponta da língua –
além de realizador, foi um importantíssimo assistente de realização. Entre os muitos
filmes em que foi o braço direito do realizador conta-se o ultra-premiado O
Paciente Inglês. Logo no aeroporto, fez-nos saber que estava a escrever
dois livros sobre o pai, sendo o primeiro uma conversa «tu cá, tu lá» com Enzo
sobre a obra-prima High Crime (La Polizia incrimina, la legge assolve,
no original italiano), de 1973, um filme pioneiro.
Foi o mote perfeito para criarmos
uma nova rubrica, apelidada significativamente Fade In, que permite
passarmos de uma edição dos Encontros para outra com uma ligação – ou um raccord,
se quisermos – que faça pleno sentido. Assim, teremos um filme potentíssimo,
projectado ao ar livre, e uma conversa com Andrea sobre o seu precioso livro: La
Polizia incrimina, la legge assolve – Il film che ha creato un genere. Como
o livro não está traduzido em português, não se irá realizar o típico
lançamento oficial. Teremos antes uma conversa em torno desta ideia e deste
processo tão original – dois profundos conhecedores da arte e da indústria do
cinema à volta de uma obra marcante, que, não por acaso, são pai e filho.
Segue-se uma conversa breve, mas permeada por muito amor, ao pai, à família, ao cinema, à vida. Porque cheia de vitalidade, é bonito quando sentimos que há coisas para dizer e que não se pode parar. Bravo Girolamis!
O teu livro é um caso
porventura inédito na História do Cinema: um filho a entrevistar o pai, sobre
um filme realizado pelo segundo. Como tiveste essa ideia?
Sim, de facto, é um caso
único em que um filho entrevista o seu pai. Nos últimos anos, tenho reparado
que muitos «filhos de realizadores ou actores/actrizes» decidem escrever um
livro sobre os seus pais. Uma espécie de livro de memórias. Existem livros óptimos
e maravilhosos. Em vez disso, queria criar algo original e mais respeitoso – um
«livro de diálogos entre pai e filho» – enquanto viam um filme. Durante a nossa
conversa, partilhámos muitos episódios das nossas vidas pessoais e
cinematográficas. O livro teve tanto sucesso que muitas pessoas me pediram para
escrever mais. Assim, estou a trabalhar no meu terceiro livro. Espero que os
editores do meu último livro (Bloodbuster, de Milão) também gostem
deste. Será mais uma «converseta» entre «pai e filho» enquanto assistem a Street
Law. Incluirá muitos, muitos extras fantásticos e extremamente raros. Além
disso, há outro livro de conversas entre «pai e filho» a caminho, abordando
todo o universo do «Cinema de A a Z». Este é um projecto mais complexo e
intenso. O livro sobre High Crime será publicado nos EUA. Cruzem os
dedos!
E por que é que
escolheste o High Crime em particular? Poderia ter sido outro filme ou
esse marcou-te de alguma forma?
As minhas primeiras
memórias do cinema são das filmagens de High Crime. Eu tinha apenas três
anos de idade! Este filme é muito importante porque também deu início ao género
poliziesco em Itália. É considerado o primeiro filme de acção policial.
Para homenagear esta obra-prima inestimável, quis criar um livro também
importante. Para todos os fãs do género poliziesco — incluindo eu. Desde
a minha infância que as conversas em família durante as refeições giravam em
torno do cinema. Nunca falávamos de desporto, religião ou política. Sempre
falámos e discutimos sobre cinema. Eu comia cinema ao pequeno-almoço, cinema ao
almoço, cinema ao jantar. E não era só na minha família nuclear... O meu avô
(Marino Girolami), o meu tio (Enio Girolami), a minha irmã (Stefania Girolami),
o tio do meu pai (Romolo Guerrieri) e também do lado da minha mãe. A minha mãe
(Mirella Casini) era montadora de filmes e todas as suas irmãs trabalhavam em
montagem. Uma das minhas tias (Tatiana Casini-Morigi) era montadora pessoal do
Alberto Sordi... Para além de todos os amigos da família, muitos dos quais eram
estrelas de cinema e membros da equipa de filmagens nos bastidores.
Sabemos do teu gosto pelo
Poliziesco all'Italiana, o que te leva a visitar e a fotografar os
locais de acção de muitos clássicos. Como explicas essa paixão?
Essa é uma óptima
pergunta! Bem, tudo começou quando costumava visitar o set de filmagens
do meu pai em rapaz... Ao longo dos anos, vi alguns locais desaparecerem ou
mudarem. Decidi fazer um especial «Ontem e Hoje» dos sets de filmagem do
meu pai e da minha família... Comecei a visitar os locais originais dos filmes
e, de repente, percebi que muitos locais usados pelo meu pai e/ou pelo meu
avô também estavam em muitos outros filmes poliziesco... Então, comecei
a coleccionar e a criar este enorme arquivo fotográfico poliziesco. Um
dia, gostaria de publicar um livro, «Ontem e Hoje no Poliziesco Italiano».
Há momentos em que, depois de tirar as fotografias, paro e imagino-me ali –
durante a rodagem da cena. Durante as minhas buscas por locais, encontro muitas
pessoas que têm memórias dos sets de filmagem. Em particular, lembro-me
de quando visitei um posto de abastecimento de combustível – encontrei o dono e
perguntei-lhe se podia tirar fotografias. Ele concordou e disse-me que se
lembrava muito bem do meu avô!!! «Comecei a trabalhar aqui quando era apenas
uma criança. Lembro-me muito bem do seu avô. Era muito amável com toda a gente.
Olha só para mim agora, sou o dono do posto de abastecimento». No final,
enviei-lhe as fotografias do «Antes e Depois» do seu posto de abastecimento.
Ele disse-me que as tinha emoldurado!! Outra ocasião foi quando visitei um
ginásio – o proprietário não fazia ideia de que o ginásio tinha sido utilizado
num poliziesco. Permitiu-me tirar fotografias e, no final, pediu-me uma
cópia do meu trabalho. Também tem as minhas fotografias do «Antes e Depois»
emolduradas na parede da entrada do ginásio. Estou a espalhar a minha paixão
por toda a parte...
Quais são os teus poliziescos
favoritos? E, já agora, existe algum realizador no cinema italiano recente que
trabalhe esse género?
Os meus poliziescos
favoritos? Os do meu pai, do meu tio e do meu avô. Os três criaram maravilhosas
obras-primas do Poliziesco. Mas gostaria de dizer que também aprecio
muito Umberto Lenzi, Sergio Martino, Stelvio Massi, os irmãos Corbucci,
Bellocchio, Lizzani, Monicelli, Comencini, Damiani... Hoje em dia? Stefano
Sollima, filho de Sergio Sollima. É um GRANDE realizador de cinema. Aplaudo
também os filmes de Michele Placido, dos irmãos Manetti e de Matteo Garrone.
[Tradução de José Oliveira]
[Entrevista realizada para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026 e igualmente publicada no Jornal do Fundão: https://www.jornaldofundao.pt/cultura/encontro-com-andrea-girolami]

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