terça-feira, 7 de julho de 2026

ENCONTRO COM ALEX COX

 


por José Oliveira


A carreira do britânico Alex Cox é curiosa, estranha e finalmente fascinante. Começou em grande, em Hollywood, com uma primeira longa-metragem apoiada por uma Major, a Universal. Repo Man não foi um sucesso bombástico, mas hoje em dia é um dos epítomes do chamado «filme de culto». Paul Thomas Anderson, o grande cineasta americano que também sempre conservou uma forte independência, considera-o um dos seus mestres.

Seguidamente atirou-se de cabeça ao punk – movimento para ele formativo e cuja atitude nunca abandonou – não para glorificar Sid Vicious e os Sex Pistols, mas antes para afirmar contundentemente e sem pedir desculpas que Sid foi um vendido, nada contribuindo para o movimento e morrendo como um idiota, palavras suas. Anos depois, quando perguntaram ao líder dos Sex Pistols, John Lydon, qual a verdade presente em Sid and Nancy, ele respondeu que talvez o nome Sid estivesse correcto.

Logo depois, com Straight to Hell, reuniu em Almería – o lugar sagrado do Spaghetti Western – um grupo de actores e de músicos demenciais para uma história descabelada: Joe Strummer (aqui como actor, ele que tanto compôs musicalmente para Cox), Courtney Love, Sy Richardson, Elvis Costello, Dennis Hopper, Grace Jones, Jim Jarmusch ou os The Pogues, eles mesmos. Uma aventura que sintetizou muito dos seus interesses e que ao mesmo tempo os explodiu – punk!

Mas, como muitas vezes acontece, foi a sua obra-prima que acabou com a sua carreira hollywoodiana. Walker prolongou a sua obsessão pela Nicarágua e pelos sandinistas – a génese de Straight to Hell era um concerto com os The Pogues e outros cúmplices nessa Nicarágua – ao mesmo tempo que saldou «dívidas» à ultra-violência útil de Sam Peckinpah e ofereceu a Ed Harris o papel da sua vida. Algumas marcas de estilo e anacronismos que Cox tornou só suas – como uma espécie estranhíssima de stop motion em imagem real acelerada ou elementos modernos em filmes de época – surgiram igualmente em êxtase. Uma obra única e temperamental que foi um fracasso e arrebentou com as suas ambições na Meca. E um longo período sem filmar chegou…

Mas que não se lamente, pois os filmes que seguidamente inventou ou arrancou a ferros, tornando o impossível uma realidade, continuaram únicos, guerrilheiros, em alguns casos verdadeiramente fascinantes. Só um exemplo ou outro: El Patrullero, passado no México, com produção mexicana e japonesa, leva o plano-sequência a um novo estado de tensão; documentários sobre Akira Kurosawa ou o The Last Movie de Hopper, trabalhos para televisão, algumas «curtas» evocativas, até à decisão drástica de produzir as suas obras mediante crowdfunding [financiamento colaborativo]. E foi esse sistema que possibilitou a sua obra derradeira já em 2025 – veremos se é verdade… – com Dead Souls, pedindo um western emprestado a Nikolai Gógol e arrancando um filme sereno, fulgurante e lírico.

Pelo meio, escreveu livros sobre a sua carreira, sobre o seu modo de produzir e realizar filmes independentes, sobre os Euro Westerns, foi professor e com certeza mentor, manteve um blogue ultra-pessoal, enfim, conservou-se sempre mais do que activo. Certa vez, Michael Cimino disse a uma jovem que queria ser cineasta que tudo valia – fazer um filme ou escrever um, ou escrever sobre os filmes, ou escrever um romance, ou poesia –, o que importava era não ficar parado ou desistir. E tudo isso poderia ser cinema. Foi o que Cox fez.

A entrevista que se segue foi feita descontraidamente, depois de Cox ter enviado DVD, Blu-rays ou posters para uma data de gente de todo o planeta que ajudou a financiar o seu último filme. É sabido que nós, os europeus, falamos, falamos e falamos, bla bla bla, e que os americanos (embora Cox seja britânico, mas…) disparam, bang!, one shot, ou seja, que uns falam muito e outros são directos. Mas acho que o grande cineasta e exegeta dessacralizado não tomou a sério o meu repto, que o deixava à vontade para responder Fordianamente às minhas questões, antes foi guiado pelo essencial, pela memória mais imediata, talvez mais verdadeira, e pela espontaneidade. Tomei a liberdade de recontar histórias ou estórias em vez de Alex, mas só porque ele me deixou à vontade para tal.

I Fought the Law, talvez tenha sido o credo de Alex Cox, mas a lei ganhou?


Fala-nos um pouco dos teus tempos de juventude: onde cresceste, quais os teus interesses, como é que decidiste estudar Direito em Oxford?

Cresci numa cidade-satélite entre Liverpool e Ellesmere Port, onde se encontram as refinarias de petróleo. Acho que ir ao cinema foi um dos meus principais interesses, desde cedo. Na década de 1970, a «ideia» era que um jovem deveria ir para a universidade, estudar e tornar-se cientista. Como não tinha aptidão científica, os meus pais e professores achavam que eu deveria estudar a «ciência» do Direito. Eu também não tinha aptidão para isso, mas os estudantes eram muito mais livres e sem o peso das dívidas naquela altura, e eu passava a maior parte do meu tempo a representar e a dirigir peças.

 

Como nasceste nos anos 1950, apanhaste a explosão do movimento punk inglês. Participaste activamente nessa cena musical e cultural?

Não, também não tenho qualquer habilidade musical.

 

Estudaste primeiramente cinema em Bristol (University of Bristol) e depois em Los Angeles (UCLA). Foram úteis esses estudos?

Sim, com certeza. Num ano em Bristol, aprendias as bases da produção cinematográfica em 16mm, edição de áudio e trabalho de vídeo em estúdio. Na UCLA, havia equipamento de sobra e era possível pôr em prática essas competências!

 

Como foram os tempos na UCLA e que parceiros e professores mais te marcaram?

Era um ambiente fantástico, com muitas pessoas bonitas e interessantes. Charles Burnett foi o aluno que mais me impressionou, a mim e à minha geração, creio. Tinha estudado na UCLA alguns anos antes de nós e fez uma longa-metragem independente incrível, Killer of Sheep.

 

Repo Man, a tua primeira longa-metragem, combina muita coisa de forma anárquica, mas perfeitamente lógica e mordaz. Ficção-científica, banda desenhada, sociedade de consumo, a era atómica, etc, etc., muito humor e um casting surpreendente, com os grandes Harry Dean Stanton e Emilio Estevez frente a frente. Foi divertido escrever o filme?

Escrever é sempre divertido.

 

Foi fácil convencer o Harry Dean a entrar no filme?

Sim. Tudo o que tínhamos de fazer era oferecer-lhe dinheiro!

 

E, já agora, como chegaste ao imenso director de fotografia Robby Müller? Deves ter belas histórias destas duas personagens…

Originalmente, queria trabalhar com Steve Fierberg, um director de fotografia muito talentoso. Mas Nesmith [Michael Nesmith, o executivo que convenceu a Universal a entrar no barco] não gostava desse estilo de filmagem de «câmara à mão», que era próprio do Fierberg, por isso Peter McCarthy, o produtor, disse-me que podia escolher qualquer outra pessoa no mundo inteiro. Tínhamos acabado de ver O Amigo Americano e pedimos o Robby. Se quiseres histórias divertidas sobre esta época, compra um exemplar do meu livro X FILMS. Todas as histórias estão lá e já me esqueci da maioria delas. [O entrevistador foi pesquisar e encontrou esta história deliciosa: durante a rodagem de Repo Man, Cox ficou a saber que Muhammad Ali se encontrava por perto, num ginásio da zona de Venice, a treinar; correu até lá e encontrou-o a «encher» com outros companheiros, aproximou-se e disse-lhe que gostaria muito que ele aparecesse na cena final do filme que estavam a fazer e que seria filmada nessa mesma noite; Ali disse-lhe, numa voz suave, que tinha um novo manager, que lhe exigia um milhão de dólares para ele mesmo sobre qualquer trabalho que aceitasse, mas que se os produtores do filme tivessem de acordo ele que voltasse dentro de umas horas; depois de terem apertado a mão num compromisso, o pobre Cox tentou convencer os produtores, mas sem sucesso.]

 

Sid and Nancy, o teu filme seguinte, é uma carta de amor-ódio explosiva e visceral a dois grandes protagonistas do punk. Como é que trabalhaste o equilíbrio entre o biopic e a dramaturgia ficcional?

Boa pergunta. Esqueci-me da resposta, mas aposto que está no meu livro. [Novamente, o entrevistador não teme o desafio e lança nova história – ou será estória?: os figurantes das cenas de concertos foram escolhidos pela sua aparência e autenticidade, o que significou que muitos verdadeiros punks de crista e atitude furiosa estivessem entre os eleitos; nessa época, os verdadeiros punks tinham o hábito de cuspir nas bandas que gostavam, o que levou a que os actores e músicos que interpretaram os Sex Pistols e outras bandas se queixassem constantemente por causa dos banhos de saliva; Cox, não querendo estragar a «festa» dos verdadeiros figurantes, e na sua ânsia de autenticidade, nunca lhes pediu que não cuspissem.]

 

Straight to Hell é uma paragem fundamental na tua filmografia, pois combina o género Spaghetti Western com o incomparável Joe Strummer e uma data de coisas inclassificáveis. Quais são as melhores memórias desse período em Almería?

A beleza do deserto... dormir sob as estrelas... ter o privilégio de filmar naquele cenário de western de adobe, antes de ele regressar à terra...

 

Walker é possivelmente a tua obra-prima, fundindo a sátira política, a violência desmesurada a la Peckinpah, a anarquia punk e o cinema mudo (na relação entre a personagem principal e a sua amada). Como foi trabalhar com o mítico argumentista de Pat Garrett and Billy the Kid, Rudy Wurlitzer?

Foi maravilhoso. Rudy é uma raridade: um verdadeiro cavalheiro.

 

A partir de Walker, deixaste de trabalhar com os grandes estúdios e tiveste um longo período de inactividade. Como foi essa reinvenção em que tiveste constantemente de forjar novas formas de financiamento, inclusive, nos anos recentes, o crowdfunding?

Acho que não inventei nada. O crowdfunding é certamente uma forma de fazer filmes de baixo orçamento. Fiquei muito satisfeito com as minhas duas experiências com o Kickstarter.

 

O teu último filme, Almas Mortas, é para mim uma súmula da tua obra, mas também uma prova de enorme frescura e risco. Combina todas as obsessões passadas com um novo tipo de humor que, sem dúvida, advém de Gógol e que serve perfeitamente para falar do presente. Foi a crítica à actualidade política o que mais te interessou?

Não. O filme não é uma crítica aos acontecimentos políticos actuais. Passa-se num sistema de injustiça e violência de longa data que persiste independentemente do partido político que está no poder. Jay Gould, o magnata ferroviário americano, terá dito que não temia uma revolução, porque poderia contratar metade da classe operária para matar a outra metade. Disse isso na década de 1880. Ainda hoje é verdade.

 

Escreveste muito sobre cinema, revelaste jóias e nomes desconhecidos, deste aulas… Continuas a ver filmes e a querer descobrir novos cineastas?

Às vezes. Gostei muito do Flow! Mas também revejo filmes mais antigos de que gostei, como o Cadaveri Eccellenti, do Rosi, ou o Le Salaire de la Peur, do Clouzot.

 

E, para fecharmos, o que mais te interessa hoje em dia no cinema e na música?

Arte independente, criada sem absolutamente nenhum uso de IA (Inteligência Artificial).

 

[Tradução de José Oliveira]


[Entrevista realizada para o catálogo dos Encontros de Cinema do Fundão 2026 e igualmente publicada no Jornal do Fundão: https://www.jornaldofundao.pt/cultura/encontro-com-alex-cox]

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