quarta-feira, 25 de setembro de 2013

 
 
“Wee Willie Winkie” poderia estar gravado na lápide Fordiana como uma das suas máximas provas de integridade e obstinação. Deram-lhe a infanta Shirley Temple para explorar e ele arrancou-lhe uma complexa performance de descoberta e estupefacção em território incendiado, desde a sua aparição maravilhada à janela do comboio até ao acto supremo da conciliação do inconciliável de que ela foi ali móbil – homens e as diferenças entre eles. Deram-lhe torrentes de exotismo e de luz apetitosa e como sempre ele limpou todos os apêndices e escavou dramaturgias eternas, belicosas, perigosas como as iniciações. O nível de progressismo vai ser da mesma cepa daquela mulher que no “Forte Apache” prefere que o seu marido seja feliz no seu palco de origem, o da guerra, do que na casa familiar que desde há muito anseiam e que lhes é entregue de bandeja e recusado mais rapidamente. Ou, ainda nessa mágica mas já nublada chegada por trilhos, quando se fala nos verdadeiros Índios que naquele solo nascem e deslizam, eles que vão ser sempre colhidos e impressos como tudo o resto, vassalos da rainha, sentimentos ou pedras. Isto, esta mesma nobreza, compreensão ou lição para cada um, décadas antes da sinfonia total de “Cheyenne Autumn”.
 
Uma áspera jornada e a constatação do que dela se desprendeu, pelos olhos limpos dessa Priscilla que abandonando as bonecas se torna a WWW da poesia e das armas. E que as vai abandonar não por qualquer assomo de panfletarismo por parte dos argumentistas ou dos produtores, antes porque chegou ao soterrado coração de um homem antes de ter chegado à sua fama terrestre. E assim pôde falar-lhe e expor-se imaculada e emocional, sem as manchas que os tolhidos adultos da sua facção lhe teriam incutido se o acaso ou os anjos das harpas não a tivessem acarinhado primeiro.
 
Fins do século dezanove, Índia. Priscilla chega lá com a mãe e vão-se instalar no lado Britânico que é o seu. E com a protecção do seu avó, esse comandante supremo que vai ser igualmente moldado pelo inesperado. E encontra, mal tal paraíso nos começa a ser desvendado, o Khoda Khan que os dela dizem ser o chefe rebelde. Que está disponível para puros modos. E pronto, como em qualquer Ford, dizer a sinopse é não dizer nada. Porque, para explanar poucos exemplos, Victor McLaglen é fundamental no papel do sargento que a vai orientar e tanto endurecer como enternecer – e a sua morte abafada é um dos momentos mais estarrecedores desta arte da sugestão e do sagrado, onde o máximo de beleza se conjuga com o desprezo pela irreparabilidade a que nós, adultos sabidos, já não podemos chegar e por isso chorar como quem sorri. Ou o enamoramento da sua mãe por quem não deve, pois no provisório político e humano já desembarcaram as regras constantes. Enamoramento que proporciona essa fuga para o baile celeste que antecede o sangue malvado e que nos seus brilhos ameaçados atinge o sublime grave que raramente entrevemos numa arte que demasiadas vezes escancara rudemente.
 
Para poder referir já, porque o filme tem de ser fruído e sugado no seu movimento contínuo e boquiaberto, o frente a frente entre WWW e KK, que desde o primeiro olhar se encontram e nunca mais se traem, nunca mais se largam, relação de amor que estará já para lá do paternal que dela nunca soubemos, instantes de pureza onde o crescido guerreiro volta a perder composturas e regras e a minúscula criatura se assume com a dignidade e os ideais muito antigos que podem ser gregos ou romanos ou anteriores. Passagem para a imagem do possível impossível ou, só para crentes, vice-versa, conseguida com a combinação mais inaudita de factores e temperaturas, por isso já para além do sublime, esse plano suavíssimo e na paz dos Deuses em que o revolucionário estende a manta do berço e se retira para confraternizar com o outro revolucionário. A terra, nesse encontro, juro que tremeu. E a câmara, para se manter paralela e em sentido, que esforço!
 
Ali, todos revolucionam, depois dessa estranhíssima elipse que abandona o espectáculo e o fogo-de-artifício para permitir a queda de outro artifício julgado irremovível. Que é um sonho de união a que depois os televisivos ajuntamentos globais, as igrejas supostamente modernas e universais ou o cinema temático ou documental jamais chegou perto. Elipse eventualmente chocante que me disseram nascida do célebre rasgar de páginas desse realizador que sempre quis andar para a frente e marchar como tais soldados. Se assim foi, glória ao mau feitio e à insurreição. Se foi propositado, glória à construção, dialéctica ou abstracta ou as duas.
 
Ali, essa Shirley Temple que os fuinhas pensaram ter lançado às feras por dinheiro e continuação do circo, teve a mão desse imperturbável Americano Irlandês, e resolveu a mais intrincada equação e aritmética com o mais jovial raciocínio e instinto. Mundanos joguetes, malditas estratégias, pueris batotas anuladas por um jogo ou um sopro límpido e exposto. O resto deste fabuloso filme, e que resto…, são os habituais temperamentos e efusões indescritíveis pelo humor ou pelo amor, duas leves crianças num mundo de bruteza ou uma vela de Dreyer que vilipendia a massa negra da noite, pelos nadas que são tudo, uma paisagem e o homem nela, o rasgar das lógicas comerciais e cinematográficas a favor do curso insubstituível da vida. Essa respiração que em Ford é sempre solta e ousada pela força interior, do mais aplanado para o cume ingreme, de onde a lógica exterior e a vontade vão pelos caminhos da reposição. Um regresso.