Poderiam ser milhares de outros, mas neste momento e por visões próximas, ligo
Samuel Fuller a Clint Eastwood no que a redenções profundas convém ligar.
Redenção sim, mas nem sei muito bem se o que está em causa é essa profundidade
a que nos habituamos quando as contas nos fogem. Não se tratando da redenção
fácil da desculpa, nem do evitar ou da oferenda, antes qualquer coisa que só
pode ser vista e tacteada nas experiências derradeiras e urgentíssimas, quando
se passa para lá ou para cá do bom senso e do sabido, onde o inferno (o icónico
e o seu oposto) começa a ganhar imagem e corpo. Em “The Baron of Arizona”
Vincent Price é um pioneiro maldito que tudo falsifica, inventa e reinventa a
seu bel-prazer, dos sangues alheios às honras, da paixão à ambição sua, para
algures entre a sua forca prometida e a solidão merecida, ter realmente medo do
que é o amor e assim só de cabeça a ele se poder entregar. Bill Munny é o nome
da excrescência em andamento representada pelo cadavérico Clint em
“Unforgiven”, ou melhor dito, esse “ladrão e assassino bem conhecido, de um
temperamento notoriamente dissoluto e violento.” Que Bill retorne para uma
última matança eternos anos depois de ter posto de lado esse ofício, eternos
anos depois de ter deixado de beber e de cometer os pecados análogos, e que
mesmo assim, que mesmo na sua inclassificável animalidade final, se sinta o permanecer
límpido da entrega a uma mulher e a uma transcendência (quem estava a ver o
filme comigo sentiu isso pelo coração muito melhor do que este escriba tão poluído…)
– o que noutras paragens se define pela salvação e a remissão – só se poderá
compreender, se tal for possível para além da emoção imediata, pela entrada nos
reinos do indizível, esse tempo antes da nascença e depois da morte que alguns
dizem mais do que entrever na vida terrena. O Barão de Price é de uma
ambiguidade que faz par com o editor-chefe do primeiro filme de Fuller, onde as
aparências são já chave mestra para algo mais elevado e escorregadio e a moral
segue caminho ainda mais curvado. Quer dizer que com tanta tropelia e repetição
dos seus efeitos pessoais de desenrasque, a velha historieta do Pedro e do
Lobo…, quando sobeja o bem sem medidas e sem negócios e o touro se volve
carneiro, não temos mais nada a que nos amarrar e acreditar do que os olhos
desse trota-mundos indiferente, ou seja, a luz do cinema e o interior humano,
as suas infinitas correspondências. Como sempre, só come quem quer e,
obviamente, quem já provou de algumas coisas sui generis e caminhou por alguns
lados nada aconselháveis. “Se vir um homem aí fora, mato-o! Se algum sacana
disparar...mato-o a ele, à mulher e a todos os amigos e queimo-lhe a casa! (…) Enterrem
o Ned como deve ser! Não anavalhem nem façam mal às putas! Senão volto cá e
mato-os a todos, filhos da puta!”; como se adivinha, já estou na sentença final
desse danado sem norma que agia perante o mais cravado dos segredos. Aí, nessa
penumbra e dissolução com que o vento o leva, ou mesmo no contra-luz final em
que só resta o espírito permitido à silhueta, nem o cinema salva. Pois essa luz
condena, é o mais óbvio e a regra dramática. A complexidade de tão grandes
artesões, tão resolutos e tão sem-certezas, é a de convocarem o pior dos males
possíveis para num raio tão breve que só alguns poderão ver e sentir – os
disponíveis para a compressão sem lei – o sensível se expor todo e a
justificação muda gritar. A grande e enaltecedora História e os reflexos preciosos
que cegam. Nunca, é preciso nunca confundir, se está a falar de filhos da puta –
anjos ou de mercenários – samaritanos, jamais, pois estamos nas sendas do indestrinçável
e do indecifrável. Assim Fuller e Clint tanta coisa fizeram, alguns trabalhos
ditos falhados ou menores, em que a garra e a intuição comeram qualquer tipo de
razão e conveniência rumo a algo superior experimentado onde as coisas
realmente estão na perspectiva devida – a perspectiva do Homem, bicho acossado
e pleno, tantas vezes a ver da lama e outras tantas das estrelas.
Campos-contracampos estilhaçados, raccords despedaçados, gatafunhos errantes,
sucessão de planos mais próxima da convulsão quotidiana e um bocado longe do
polimento da máquina industrial, etc., e mesmo assim tudo se percebe pela força
da insistência que só pode ter o subnome de verdade. A terrível, tão obscena e
tão básica…
Sem comentários:
Enviar um comentário