domingo, 13 de agosto de 2017

"Sayonara", Joshua Logan, 1957


“Sayonara”, que quer dizer Adeus, foi transformado num princípio em 1957 por Marlon Brando, Miiko Taka e Joshua Logan; e mais ainda pelo casal que enlaça no final branco e primordial de “Os Amantes Crucificados” de Kenji Mizoguchi, amantes vividos por James Garner e Miyoshi Umeki terrenamente até à cena virginal e doce em que Brando os encontra já para lá da sempre redutora beleza terrestre; alguns ou muitos de nós não chegarão a conhecer tal passagem, pois que com ou sem metafísica nunca se deram assim; nunca passaram certa fronteira... e “fronteira” é a palavra e cerne deste filme que é uma empreitada por amor à humanidade e ao básico.

“Sayonara” deveria ser projectado num ecrã tão grande e simples e evidente que abarcasse todos os continentes para uma união óbvia.

Tudo neste filme é belo pois derruba com a beleza mais simples as correntes das leis mais avançadas; é Brando a começar a bater com a sua cabeça e com o seu corpo em tudo o que é décor e forma (e espírito) Japonês; é a sua única amada a cair na poça da cultura e da herança (e da bruteza); e, devagarinho, lentamente, como as águas onde se lavam os panos sem fim ou como o vento que bate nas flores de cerejeira etéreas, ele começa a dominar o espaço e a perceber o tempo alheio, a saber que os meios e o caminho podem ser tão ou mais importante do que os fins; e ela, surgindo tão impassível e zen como a imagem mais acabada do sol nascente, torna-se lacónica, cuspe verdades, quase ou até selvática sem conta, rompe e explode.

Brando admira e chora pelas rochas amantes e torna-se Japonês. Miiko Taka percebe desde os primeiros olhares envergonhados de namoradinhos de escola que até yankees podem ter toda a plenitude solar, e torna-se Americana. Mas chegar só a esta conclusão é alinhar no que “Sayonara” derruba, que é aquilo que eles confessam tão simplesmente, tão basicamente, tão preto no branco e sem margem para dúvidas, envergonhando a Sociedade com S maiúsculo imposto a sangue: cada um é um mesmo de onde Família e Tradição e Esperado e País terá de se renovar constantemente pela verdade, pelo amor, pela justeza, pelo olhar inocente de namoradinhos do pátio proibido da infância.

E no final formam um com a individualidade intacta, a revolução e o regresso à fonte inaugural. “Sayonara” está num acreditar e num limbo para lá ou para cá de todas as convenções; do actors studio feito para cada qual e sem marca até ao ritualismo sem império; simplismo - fatalismo (o belo simplismo, a bela irresponsabilidade), como Ford ou Kazan a dialogar abertamente com Mizoguchi ou Ozu. No ocaso, sayonara, adeus, tudo de novo.

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