segunda-feira, 14 de agosto de 2017

“The Appaloosa”, Sidney J. Furie, 1966


Sidney J. Furie, depois realizador da série “Iron Eagle” ou de uma continuação do “Superman”da era Christopher Reeve, já é há muito uma carta fora do baralho, de qualquer conversa “séria” ou retrospectiva mesmo que parcial. Mas se não formos a mais lado algum existe o ano de 1966, e existe “The Appaloosa”, feito cinco anos depois do Rimbauniano “One-Eyed Jacks” e sete anos antes dos calvários e das fidelidades de “Pat Garrett & Billy the Kid”. Furie abre a caminhada de mais um homem que regressou de longe demais e que tem todos os passados e massacres e tempos cravados no rosto, no corpo e no fogo interior, de forma serena, chã, espalhando o vento a sua ternura pela paisagem que tanto irá ser magnificada pelo recorte horizontal. E o andamento, a candura, essa doçura ao mesmo tempo crepuscular e iniciática poderia durar para sempre. E Furie já estaria ao lado dos grandes. Tal como o sublime de molde único realizado por Brando iremos ter momentos e momentos esfregados a lua, estrelas e pós diáfanos.

Mas o homem como que aterra novamente na civilização e começam os ângulos subjectivos, barrocos, demenciais e desconfiados, desenquadrados como aleatórios; e vai ser sempre esta a guerra formal do filme, entre a serenidade um dia vista e almejada, e o olhar e a pele arrepiada de quem como o homem de Brando já matou muitos outros homens semelhantes e de muitas mulheres abusou. Entre este ano de 1966 que é também o apogeu de Sergio Leone e as Sete Mulheres de John Ford vai-se escancarar um abismo, uma bocarra medonha de negro, que é a viagem de perneio desta obra forçosamente não concisa. Por isso a perseguição do cão seguida da entrada desequilibrada na igreja, o confronto mudo com o simbolismo apátrida e ferido de Emilio Fernández e o desejo ligado com a traição e o pecado e a libertação no encontro com a mais misteriosa das mulheres é a representação narrativa e espacial dessa batalha que também é entre a postura clássica e vertical com a cobardice e o niilismo degradante.

Appaloosa é o nome do cavalo que despoleta o conflito, mas logo depois da breve estadia em casa com os seus – tão breve como em “The Searchers” e mil vezes humilhante – no ponteiro agudo em que se abre e reprime diante da mulher pura e proibida que terá sempre o expoente do seu amor, Brando confessa-lhe que vai voltar à guerra não pela vingança ou pela respeitabilidade mas porque certo dia um estranho pegou nele, levou-o para uma casa, amou-o e purificou-o e acreditou sempre nesse menino mesmo nas misérias mais baixas e nos golpes mais profundos. Brando troca o idílico e a paz de fim de tarde pela memória e por tudo o que não vemos, e é o acreditar e a frontalidade a imporem alguma ordem no caos da falta de valores e na falta de tudo.

E a viagem vai piando fino, como no primeiro encontro com um Moisés retirado que o afaga e o limpa mais um bocadinho da lama da cantina anterior. E da fina e cortante música da solidão passamos à tristeza mais lancinante onde todos, muito velhos e muitos jovens, não se importam de morrer por morrer. O chefe da quadrilha de sangue envenenado como os duros e nocturnos escorpiões que lhe basta a pança cheia de tequilha e só a carne da mulher e não o espírito para puder morrer de qualquer jeito; a mulher deste que vai traindo Brando e se entregando incondicionalmente em movimentos e soluções estonteantes de vida ou de morte; e o Moisés que julgávamos imperturbável, afirmando sem receios que um dia se cansará e que lhe bastará descer uns passos para o seu túmulo pronto. Moisés que entre brumas longínquas e antiquíssimas oferece o túmulo ao par com os pés para a cova, fazendo-o renascer nesse fundo, sem nada querer em troca - Go down Moses, e a salvação. E a luz.

Então só poderia ser no sacro enterro do velho que a mão do destino começa a sua rotação sem travagem, com a testemunha dos céus grávidos e da terra seca. Daí tudo vira, o fundamental e os fundamentos começam a entrar em concordância e em eixos sólidos; para o duelo final ser tão à distância e a perder de vista como as incomensuráveis paisagens que regressarão abraçadas com os sonhos interiores. A imagem final, estática, frontal, eterna, para os altos, é o forçar da comunidade, catedral da salvação, e mesmo que dure só até ao The End, comporta o peso do tudo. E das raças todas, sem fronteiras, sem credos. 

Sem comentários: