quinta-feira, 9 de Julho de 2009


Vila do Conde, 5

“Canção de Amor e Saúde”, João Nicolau

É irresistível mais uma vez, um objecto fantasista e fresco ao qual é difícil achar comparação. O que torna o cinema de Nicolau uma alegria e um gesto comovente é precisamente a sua fome de invenção e de ruptura. Inventar planos – como a prodigiosa abertura em plano sequência de fora para dentro – interacções entre as imagens e os sons, inventar cortes e raccords entre as mais diversas situações. Volta a ser quase nouvelle vague neste sentido, mas ao contrário da maior parte que o tenta ser grosseiramente, o cinema de Nicolau surge investido de uma poética desiludida, minimalista, inocente, e tal como “Rapace”, algo muito ligado a um estado de espírito de uma geração.
E só para ir contra o que escrevi no início, é juntar este cinema – também o de Miguel Gomes, já agora – ao de Eugène Green ou ao de Alain Guiraudie. São tudo coisas diferentes, pode ser verdade, mas por eles perpassa um desejo de fazer coisas inusitadas e raras, uma frescura e uma leveza, que nunca soa a esperteza ou falsidade.
Um filme cheio de amor pelas formas e pelas possibilidades de ligar imagens, e, nestes casos tão importante como, cheio de moças bonitas, graciosas, e acrescento eu, formosas.
..........

o resto...

Não tenho falado dos filmes de que não gosto, não me apetece, não estou para perder tempo com mediocridades, etc. E, em abono da verdade, tenho visto alguns muito maus, aliás, exceptuando o filme do Nicolau e – mesmo não sendo nada de especial – o documentário da Catarina Leitão, possuidor de uma humildade inatacável, a competição abriu fraquíssima, parecendo querer perpetuar essa ficçãozinha pobre, conformada e sem chama que mais parece derivar dos produtos televisivos ou de um qualquer telefilme que hoje é passado numa sala de cinema, do que estar interessado em coisas especificamente cinematográficas e fundamentais como mise en scène ou découpage.
Mas no meio do mau ainda consegue existir o deplorável, o abjecto, o ofensivo. Como em todas as coisas... “Too Many Daddies, Mommies and Babies” na sua ânsia de filme xunga série-b de ficção científica e produto ofensivo, nada mais é do que uma abominável colecção de imagens feias, sons insuportáveis, cores aberrantes, algo completamente informe. No fundo é só uma merda de um pastelão betinho que pensa que lá por os protagonistas dizerem “somos só paneleiros” ou por filmar monstruosidades, como um certo parto, vai chocar uma plateia. Não choca, evidentemente, porque hoje em dia a banalização das imagens e das propostas é tal que coisas destas só atingem o risível, porque o que lá está é somente uma coisa igual àquelas séries que as televisões passam nas manhãs de domingo, por exemplo, só que feitas por alguém que para ser conhecido e na ânsia de publicidade, têm a necessidade de querer ser ostensivo (ai que medo…) e “original”. Um nojo, um nojo inaudito que é impossível perdoar. Gabriel Abrantes só não é o pior realizador do mundo pois não é, de certeza, realizador.

E já agora – uma completa vergonha este filme ter sido seleccionado para uma competição oficial de um festival como este (ou se calhar não, se calhar é importante ver até que nível se pode descer…) lamentável sobretudo por tantos filmes justos, sinceros e feitos com alma, coração e sangue, terem ficado de fora. Os nomes e os contactos ainda podem muito, podem tudo…

1 comentários:

Sabrina Marques. disse...

Já vi uma montanha de artigos sobre isto, quero muito vê-lo.
Muito.